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sexta-feira, 15 de junho de 2012

A novela Gabriela: versão 1975 parte II





Meus caros amigos e leitores. Não imaginei que a última postagem que lembra a versão da novela "Gabriela" de 1975 ( acima uma das pinturas de Aldemir Martins feita especialmente para a novela) tivesse uma quantidade tão grande de acessos. Por outro lado, muitas das informações que encontrei, além de minha própria lembrança da novela acabaram ficando de fora para que a postagem não ficasse extensa demais. Ao invés de mexer na postagem anterior, acrescento-as agora.
Em primeiro lugar, aquela versão não foi a primeira adaptação da obra de Jorge Amado, "Gabriela, Cravo e Canela" para a televisão. De acordo com o livro "Almanaque da TV", de autoria de Rogério Sacchi (o Rixa) e de Renata Mafra, no ano de 1961 foi gravada a primeira novela em videoteipe da televisão brasileira, exatamente "Gabriela, Cravo e Canela", pela TV Tupi do Rio de Janeiro. O folhetin era exibido às terças e quintas-feiras e teve um total de 42 capítulos. Nessa adaptação, um dos papéis centrais, o do Dr. Mundinho Falcão ficou com o famoso ator de teatro Paulo Autran. 
Mas, voltemos à versão de 1975. Como no romance de Jorge Amado, a história se passava em 1925, após uma grande seca que deslocou milhares de retirantes, entre os quais se encontrava a jovem Gabriela. Devemos situar a época, como sendo a última fase da chamada Primeira República (1889-1930) e também o começo do declínio do poder dos coronéis (grandes fazendeiros) no Brasil, que iriam enfrentar as transformações decorrentes do início da industrialização, da  urbanização e também da grande crise econômica mundial a partir do ano de 1929. 


É nesse contexto que transcorre a história da personagem Gabriela e de seu envolvimento com o comerciante "turco" Nacib (na verdade, da Síria, região que pertenceu ao Império Turco Otomano, daí vários imigrantes dessa região serem chamados erroneamente naquela época de turcos). Paralelamente ocorria o conflito político do coronel e intendente (prefeito de Ilhéus) Ramiro Bastos com o seu opositor, exportador de cacau e proveniente de uma rica família paulista, o Dr. Mundinho Falcão. Com idéias inovadoras, Mundinho Falcão se associa à oposição local e propõe, entre outras coisas, modernizar e ampliar o porto de Ilhéus. Mundinho apaixona-se pela neta do coronel Ramiro, Jerusa .
O último capítulo da novela teve uma cena antológica, talvez a melhor de toda a teledramaturgia nacional. Após a morte do coronel Ramiro Bastos, o Dr. Mundinho (José Wilker, na imagem acima que está na nova versão, agora na pele de um dos coronéis), vestido de branco e o novo chefe político da cidade, têm as suas mãos beijadas pelas baianas de Ilhéus, antigo gesto de respeito aos coronéis. A cena lembra o enredo do filme "o Leopardo" do diretor italiano Luchino Visconti: "é preciso mudar para que tudo continue como está". Os antigos coronéis se conciliam com o novo chefe. 
A história teve um impacto tão grande no imaginário dos moradores de Ilhéus, que muitos deles garantiam que Gabriela e Nacib existiram de fato. Algo parecido com o que acontece na cidade de Verona, na Itália, palco da clássica história de Romeu e Julieta escrita por William Shakespeare. 
Como dissemos na postagem anterior, Sonia Braga (que não foi lembrada na matéria do Fantástico do dia 10.06 sobre a nova versão) não era a única opção para o papel. Segundo o jornalista Paulo Senna, o diretor da Globo Daniel Filho chegou a convidar a cantora Gal Costa para o papel, mas esta declinou. Outra atriz, Ana Maria Magalhães também foi cogitada, por ser morena, mas a escolha acabou ficando com Sonia.


Um destaque especial vai para os atores que interpretaram os coronéis que participaram da versão de 1975 (na foto acima, da esquerda para a direita, os atores Paulo Gracindo, Castro Gonzaga e Francisco Dantas). Alguns já tinham experiência anterior no "coronelismo". Era o caso de Gilberto Martinho (o coronel Melk Tavares) que foi também coronel na primeira versão da novela Irmãos Coragem de 1970. Castro Gonzaga (coronel Coriolano) interpretou um coronel numa novela muito interessante chamada "Meu Pedacinho de Chão" de 1972 (uma novela "educativa", que passava a visão oficial da questão da terra no Brasil nos tempos da Ditadura Militar e era exibida simultaneamente pela TV Globo e TV Cultura de São Paulo). Portanto, a novela estava muito bem em termos de "atores coronéis". 
Como não lembrar também do ator Fulvio Stefanini como Tonico Bastos, filho do coronel Ramiro, galanteador e mulherengo incorrígivel. Seu personagem até ganhou espaço nos humorísticos da emissora depois do fim da novela. 


A adaptação ganhou o concorrido prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como melhor produção de 1975. A atriz Elizabeth Savala (imagem acima), no papel da rebelde Malvina, filha do coronel Melk, ganhou prêmio revelação (era a sua estréia em novelas). Outra que estreou foi a atriz Natalia do Vale no papel de uma das prostitutas do Bataclan.
Como afirmei na postagem anterior, vamos aguardar a nova versão, pois a responsabilidade é grande. Como afirmou o ator José Wilker, uma das razões do sucesso daquela versão foi a escolha dos atores. Acertou na mosca...
Crédito das imagens veio do site do jornal "O Globo" no blog Nostalgia:
http://oglobo.globo.com/cultura/kogut/nostalgia/posts/2012/06/04/gabriela-rede-globo-1975-447486.asp
A pintura de Aldemir Martins veio do álbum com a trilha sonora da novela Gabriela (acervo do autor).

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