Pesquisar este blog

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Última Sessão do Cine Windsor



Com profunda tristeza anunciamos o fechamento de mais um antigo cinema de rua. No último dia 07.07.2012, o cine Windsor, localizado no centro da cidade de São Paulo, mais precisamente na poética avenida Ipiranga da conhecida canção de Caetano Veloso, encerrou definitivamente as suas atividades. A última sessão ocorreu com a exibição do filme "Coisas Eróticas". Algo curioso, pois foram produções como essa que marcaram a trajetória desse cinema e de outros localizados na antiga Cinelândia da capital paulista nas últimas décadas. "Coisas Eróticas" foi o primeiro filme pornográfico produzido no Brasil e lançado nessa mesma sala no dia 07.07.1982, há exatos trinta anos. Na época, no apagar das luzes da Ditadura Militar e com o relaxamento da censura, foi uma grande novidade. O filme foi visto por mais de 4,7 milhões de espectadores. 
A onda dos filmes pornográficos, nacionais ou não, tomou conta dos antigos cinemas do centro de São Paulo e de outras cidades brasileiras, que passaram a se especializar na exibição dos mesmos. Na sua última sessão, além da produção citada, foi exibido também o documentário "A Primeira Vez do Cinema Brasileiro" que conta a história do início dos filmes de sexo explícito no cinema nacional. De acordo com a Agência Estado, mais de 300 pessoas acompanharam o último evento do Windsor, muitos dos quais atores e diretores da Boca do Lixo, área da região central de São Paulo onde se localizavam as produtoras desses filmes. Nos seus últimos anos, o cine Windsor exibia filmes adultos e eventualmente, como na época da Virada Cultural promovida pela Prefeitura Municipal de São Paulo, festivais em homenagem a algum antigo diretor, como aconteceu em 2011 com os filmes de José Mojica Marins, o "Zé do Caixão". 


Contudo, a história do cine Windsor não se resumiu aos filmes pornográficos. Inaugurado em 19.07.1961, era uma sala de cinema luxuosa e das mais importantes de São Paulo, como mostra o anúncio da inauguração, publicado no jornal Folha de São Paulo, de 19.07.1961 (imagem acima). No mesmo podem ser vistas algumas das empresas que contribuiram para a instalação da sala, como a Philips e a antiga fábrica de tapetes Bandeirantes, entre outras. Equipado com o moderno sistema de projeção Todd-Ao, de alta resolução e que permitia a exibição de filmes de 70 mm de largura, a sala exibiu clássicos do cinema como "Cleópatra", "Ben Hur" e em 1964 a pré-estréia de "Deus e o Diabo na Terra do Sol" do diretor Glauber Rocha. A sala de projeção tinha capacidade para 1.200 pessoas. As suas colunas de mármore e a escadaria com tapete vermelho eram exemplos do luxo e glamour das antigas salas de cinema do centro de São Paulo. 
O filme que marcou a inauguração da sala é uma curiosidade: "Eu, Pecador" (Yo, Pecador). Trata-se de uma produção mexicana de 1960, dirigida por Alfonso Corona Blake, que contava a história real de José Mojica, ator-cantor mexicano, que no final de sua carreira virou monge. O papel principal coube a um ator brasileiro, Pedro Geraldo, que foi escolhido pelo próprio biografado. Ainda no elenco, a atriz e cantora de tangos argentina Libertad Lamarque (conhecida como a rival artística de Evita Perón) e o mexicano Pedro Armendariz, famoso pelos filmes de faroeste que realizou nos Estados Unidos. 


A história desse cinema (na imagem acima nos seus últimos tempos) retrata todo o percurso do centro da capital paulista nos últimos quarenta anos e como este deixou de ser frequentado pela elite e por boa parte da classe média. Estas passaram a se concentrar na região dos Jardins (na Zona Sul) e mais recentemente nos shoppings que proliferaram pela cidade. Foi o lento processo de esvaziamento que vitimou a área central ou centro histórico e que continua até a época atual. 
O anúncio mais acima refere-se à reprise do filme "Ben Hur" no ano de 1976 e foi publicado no antigo jornal "Diário Popular". Infelizmente não tenho o dia e o mês da publicação. A propaganda não está errada. "Ben Hur" sustenta até hoje, ao lado de "Titanic" e "O Senhor dos Anéis: o Retorno do Rei", o maior número de Oscars já recebido por um filme, num total de onze. Foi nesse cinema que tive a oportunidade de assistir a esse clássico hollywoodiano e depois revê-lo em uma cópia nova em um outro cinema que marcou época em São Paulo, o Comodoro (tema para uma futura postagem e da qual já estou reunindo material).
Não se sabe ainda qual o destino a ser dado para a antiga sala, muito provavelmente o mesmo das outras que fecharam, tornando-se uma igreja evangélica. Atualmente, nem mesmo os filmes pornográficos atraem público para os cinemas de rua.
Crédito das Imagens: acervo do autor, jornal "Folha de São Paulo" e de um curioso site que traz informações dos cinemas mais importantes do mundo, inclusive do Brasil: cinematreasures.org 


Nenhum comentário:

Postar um comentário