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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Anúncio Antigo 34: o Cinespacial



Finalmente, uma sala de exibição que "acabou com o cinema quadrado". Foi desta forma que o Cinespacial foi apresentado ao público, no final de 1971. O blog História Mundi lembra este cinema de São Paulo, que poderia muito bem ser definido como sendo uma sala "conceitual" (na imagem acima, o anúncio da inauguração, em 25 de novembro de 1971). O próprio nome faz relação com o novo e o moderno, além de lembrar os tempos da corrida espacial nas décadas de 1960 e 1970, em plena Guerra Fria.



Fruto do sonho de um arquiteto de origem angolana e naturalizado brasileiro, Emílio Guedes Pinto (foto acima), concretizava a ideia de uma sala onde não existia lugar ruim para ver o filme. O projeto foi implantado, inicialmente, na cidade de Brasília em 1970 e levado no ano seguinte para São Paulo. Aliás, a concepção do Cinespacial combinava muito bem com os projetos arquitetônicos e as linhas modernistas de Oscar Niemeyer, presentes em Brasília.


O Cinespacial de São Paulo (na imagem acima, o logo da sala) foi construído na avenida São João, na área central da cidade, praticamente em frente a um outro cinema que fez época na capital paulista, o cine Comodoro (ver postagem anterior, Comodoro Cinerama: o Melhor Cinema do Brasil  parte I).



Inaugurado no dia 25 de novembro de 1971 (na foto acima, o então governador de São Paulo, Laudo Natel, inaugurando a sala de cinema), o Cinespacial surgiu como um projeto arrojado e inovador. 



Segundo o arquiteto Guedes Pinto, justificando o plano, muitos cinemas haviam sido salas de teatro, antes de serem voltados para a exibição de filmes. Em função disso, ocorreu uma discrepância na distribuição do espaço interno. No teatro comum, as primeiras fileiras eram importantes, mas quando o espaço era transformado em cinema, isso deixava de ocorrer. As primeiras fileiras eram os lugares mais rejeitados pelo público, por estarem próximas demais da tela. Outro inconveniente existia com relação a um espectador sentado na fileira da frente ser mais alto e prejudicar a visão do outro sentado atrás. Guedes Pinto também alegava que muitas inovações haviam ocorrido na parte técnica da exibição das películas cinematográficas, como o Terceira Dimensão, o Cinemascope (uso de lente anamórfica na projeção, para ampliar a imagem na tela) e o Cinerama. Contudo, na sala propriamente dita, tudo se resumia ao ar condicionado e os cuidados com a parte acústica. Somente em algumas partes da sala é que o espectador poderia ter uma visão adequada da tela. Segundo os cálculos do arquiteto, em média, apenas a terça parte da platéia ficava em uma posição ideal para assistir o filme. 
Para corrigir essas distorções, durante quase dez anos, Emílio Guedes Pinto desenvolveu a concepção do Cinespacial e em 1963 o mesmo foi apresentado (no desenho acima, um esboço da sala do Cinespacial). 


Nessa concepção, a sala de cinema tinha um formato circular e com três telas de projeção (no desenho acima, as telas correspondem às letras "b"). Para tanto, a sala era dividida em três setores, posicionados de forma circular (respectivamente, os setores "a", "d" e "e" no desenho acima). Cada setor assistia ao mesmo filme em uma tela diferente. O filme era exibido nessas telas de forma simultânea, tendo o mesmo som dentro da sala. As três primeiras filas estavam situadas a uma distância de aproximadamente 14 metros de cada uma das três telas, permitindo uma boa visualização. Essas primeiras filas eram tão importantes quanto as outras e as telas eram colocadas em uma altura adequada, evitando qualquer obstáculo para a visualização das mesmas.
A cabine de projeção ficava suspensa no teto, no meio da sala, com um mesmo projetor para as três telas (letra "c" no desenho acima). Portanto, a projeção era feita do centro da sala para as telas situadas nos cantos do espaço de exibição. Existia também uma preocupação com o conforto do público, pois as poltronas eram anatômicas e ajustáveis, possibilitando um melhor posicionamento para o espectador. A sala montada em São Paulo tinha 600 lugares, em um espaço onde normalmente caberiam apenas 300.


A empresa proprietária da sala, a Supercap de Cinema Ltda. prometia que esse seria o cinema do futuro. O criador da ideia, arquiteto Guedes Pinto, recebia 2% do preço das entradas que eram vendidas. O Cinespacial exibiu os mais variados filmes, desde produções europeias, como na estréia, em novembro de 1971, os filmes nacionais e até os chamados "filmes de desastre", que eram sucessos de bilheteria na década de 1970 (no anúncio acima, o filme "Inferno na Torre", exibido no Cinespacial em 1975). Ao contrário do cine Comodoro, que alegava não poder exibir filmes nacionais em função do seu equipamento ser direcionado para as películas com largura de 70 mm, o projetor do Cinespacial comportava as fitas de 35 mm, que eram as mais utilizadas. 


O projetor foi desenvolvido especialmente para ser instalado na sala, pela empresa alemã Zeiss Ikon, a mesma que fabricou o equipamento de projeção utilizado até hoje no Planetário do Parque do Ibirapuera. Contudo, a demora em desenvolver o aparelho atrasou a implantação do Cinespacial em Brasília e em São Paulo (na foto acima, fachada do cinema, na avenida São João, centro da capital paulista). 



O arquiteto Guedes Pinto alegou, na época, que perdeu várias oportunidades de colocar em prática o seu projeto em função do atraso na chegada do equipamento (na foto acima, o projetor Zeiss do Cinespacial), como implantar a sala em um transatlântico de luxo e mesmo de abrir esse novo conceito de cinema na União Soviética. Por outro lado, o Governo Brasileiro isentou o equipamento de pagar as tarifas de importação, quando o mesmo ficou pronto em 1970, para a sala de Brasília.


A novidade teve boa aceitação, se levarmos em consideração que o cinema funcionou por 24 anos. Contudo, o Cinespacial também foi vítima do processo de esvaziamento do antigo centro de São Paulo, que atingiu as demais salas de cinema nas décadas de 1980 e 1990. Sua última sessão ocorreu no dia 27 de outubro de 1994 e no dia seguinte, a sua sala, com um visual futurista, não foi mais aberta ao público (na foto acima, aspecto da fachada, em foto tirada em janeiro de 2015). Mais um triste desfecho para uma antiga sala de cinema, que se propôs inovadora e que pensava no conforto de seu público. Ao que parece, o formato dessa sala não se mostrou adequado para a instalação de uma igreja, algo que ocorreu com muitos dos antigos cinemas da capital paulista...
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado no jornal Folha de S. Paulo do dia 25.11.1971, página 50. 
Para ver: O leitor João Carlos enviou-me a informação de que está disponível no Youtube, um documentário sobre o Cinespacial, intitulado "Cinespacial: o espetáculo em três telas", de Renata Santos e Mariana Guedes. O mesmo têm uma entrevista muito boa com o arquiteto Emílio Guedes Pinto. Disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=3kaL6VC2TI8
Crédito das Imagens:
Esquema da sala de exibição do Cinespacial e foto antiga da fachada do cinema: salasdecinemadesp.blogspot.com.br.
Logo da sala: extraído de anúncio no jornal Folha de S. Paulo de 22.11.1971.
Esboço arquitetônico do Cinespacial: jornal O Estado de S. Paulo, edição de 15.08.1971, pag. 44.
Anúncio com o filme "Inferno na Torre" de 1975 foi extraido do jornal O Estado de S. Paulo e arquivado pelo autor sem a data específica.
Fotos de Emílio Guedes Pinto, do projetor do Cinespacial e do governador Laudo Natel inaugurando a sala: fotogramas do documentário "Cinespacial: o espetáculo em três telas".
Foto do Cinespacial em janeiro de 2015: acervo pessoal do autor.  




4 comentários:

  1. Veja o documentário: http://www.youtube.com/watch?v=3kaL6VC2Tl8

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    1. Caro João Carlos, obrigado pela indicação. Vou inclui-la na postagem. Abraços.

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  2. Lembro que sai de Sorocaba e fui a SP apenas para assistir o filme " A Hora do Pesadelo" na sala do Cinespacial.

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  3. Você postou sobre o cine Comodoro e Cinespacial. Fui frequen tador dessas duas salas, além de outras (Metro, Ipiranga, etc) no início da década de 80. Que saudades. Parabéns pelas postagens.

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