Este ano estão sendo lembrados os 40
anos do início das transmissões de corridas de Fórmula 1 pela televisão
brasileira. Também é lembrada a realização da primeira corrida de Fórmula 1 por
aqui. Era uma prova que não valia pontos para o Campeonato Mundial de Pilotos e
foi realizada para avaliar a pista de Interlagos para 1973. Como parte desses
preparativos, em 1971 o autódromo recebeu um torneio de Fórmula 2 (antiga categoria de acesso à Fórmula 1) que teve o apoio da TV Globo, emissora que iria depois transmitir as
provas da categoria maior (no anúncio acima, a divulgação feita pela emissora do torneio de Fórmula 2).
Não há dúvida, o automobilismo sempre foi um esporte elitizado e atualmente, mais elitizado ainda. Bem, conheci pessoas que arriscaram participar de corridas. Tive um amigo, Caio Cardoso, professor de Geografia e
infelizmente já falecido, que foi piloto de Fórmula Super Vê, categoria que
revelou o tricampeão mundial de Fórmula 1, Nelson Piquet. Já tive alunos
corredores e mais recentemente, uma aluna. De qualquer forma, pode-se dizer que é um “esporte
burguês”, como o tênis, a vela, o hipismo, o tiro, o golfe, o hóquei, só para citar
alguns outros e que requer grandes investimentos para a sua prática.
Por outro lado, é um esporte que revela uma grande
identidade com o público brasileiro, que como diz um certo comercial “é
apaixonado por carros”. Na época, uma canção de Raul Seixas referia-se ao sonho do "Corcel 73". Essa relação que a sociedade brasileira, de modo geral,
tem com o automóvel é algo ainda a ser mais bem estudado em termos históricos e
sociológicos, mas é algo evidente. O automóvel é o grande sonho de consumo do
brasileiro, independente de classe social ou gênero. Ter um automóvel, sobretudo novo, representa o primeiro sucesso do indivíduo dentro da nossa sociedade, mais até do que o imóvel próprio, uma vez que é um bem material visível dentro do convívio social.
Muitos historiadores já se dedicam à chamada História do Esporte, onde esse debate a respeito dos esportes de elite e os mais populares (futebol, atletismo e boxe) pode ser mais bem discutido.
Mas a Fórmula 1 caiu nas graças do torcedor por aqui. Não há dúvida de que o grande responsável por isso foi um cidadão chamado Emerson Fittipaldi. As manhãs de domingo nunca mais foram as mesmas depois dele, pelo menos para alguns milhões de torcedores. Aliás, já estava me esquecendo, o primeiro título obtido por ele e pelo Brasil está completando também 40 anos (ver foto acima, Emerson e a famosa Lotus Ford 72 D). Também devemos a ele a vinda para cá de outra categoria do automobilismo, a Fórmula Indy, que na semana passada ajudou a tumultuar o trânsito na cidade de São Paulo.
O ano de 1972 era o auge do chamado "milagre econômico" (mas com concentração de renda, diga-se de passagem) do Governo Militar e a grande conquista de Emerson foi capitalizada pela indústria automobilística e pelas lideranças políticas (na foto acima, Emerson, segundo a partir da direita é recebido no Palácio dos Bandeirantes pelo então governador de São Paulo, Laudo Natel, primeiro à direita. No meio da foto, o veterano piloto Chico Landi).
Sim, quem iniciou as transmissões ao vivo da Fórmula 1 foi a TV Globo. Porém, poucos
irão lembrar que por um ano a Globo deixou de transmitir as corridas, em 1980.
Ninguém acreditava nas possibilidades da equipe Copersucar dos irmãos
Fittipaldi (que construíram o primeiro Fórmula 1 brasileiro, assunto para uma
futura postagem) e nem em um novato chamado Nelson Piquet, que iria fazer a sua
segunda temporada completa na categoria. Naquele ano, a Rede Bandeirantes assumiu
as transmissões com um narrador ainda desconhecido do público, um certo Galvão
Bueno, que repetia o refrão: “Esporte é com a Bandeirantes”.
Meu amigo e comentarista de Fórmula 1, Wilton Sturm, têm um video inteiro de
uma dessas corridas transmitidas pela Bandeirantes, o Grande Prêmio de Long
Beach, prova, aliás, vencida pelo até então desprezado Nelson Piquet (e com
Emerson em terceiro completando o pódio, pilotando o carro de sua própria
equipe).
Nem tudo
foi alegria nesse começo de cobertura de Fórmula 1 pela televisão. Em 1973, o
narrador da TV Globo, Júlio Delamare e o comentarista Antônio Scavone, morreram
quando viajavam para a cobertura do Grande Prêmio da Inglaterra, no trágico
desastre do Boeing da Varig no aeroporto de Orly em Paris. Depois veio
Luciano do Valle, e depois o Galvão (contratado pela Globo da TV
Bandeirantes). Sim, as vitórias de Nelson Piquet fizeram a Globo correr para
ter a Fórmula 1 de volta em 1981, quando Piquet conquistou seu primeiro título.
Mas o
que aconteceu com os nossos campeões depois de Ayrton Senna? Uma explicação
talvez para isso seja o desaparecimento daquilo que eu chamo de “automobilismo
de várzea”, as categorias menores que projetaram esses nossos campeões: Fórmula
Ford, Fómula Super Vê, Fórmula 3 e outras. Hoje um piloto brasileiro sai do
kart e já têm que embarcar para a Europa para tentar a sorte por lá. E claro,
precisa de muito dinheiro. Sim, esse esporte também sofreu os efeitos terriveis da tal da globalização.
Ah, quem venceu a primeira prova de Fórmula 1 disputada no Brasil em 1972: o argentino Carlos Reutemann.
Deixo
para vocês neste post um bônus, o primeiro post do História Mundi autografado, pelo
nosso primeiro grande campeão (foto acima). Posso lhes dizer, um esportista absolutamente incomparável.
Fonte das imagens: Revista Quatro Rodas, Revista Veja, Revista Cartaz e acervo do autor, respectivamente.
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