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sábado, 27 de dezembro de 2014

O filme maldito: "Sangue de Bárbaros" (1956)



O filme em questão parece ter tido dois títulos aqui no Brasil: "Domínio de Bárbaros" e "Sangue de Bárbaros". O original era The Conqueror e foi lançado em 1956 ( na imagem acima, o cartaz do filme). Nada indicava que esta grande produção hollywoodiana pudesse ter êxito. John Wayne, o grande astro dos filmes de faroeste, alguns dos quais se tornaram os mais representativos do gênero, interpretando um personagem identificado com o guerreiro mongol Gengis Khan? Algo que, na melhor das hipóteses, seria considerado um tanto quanto exótico. Por outro lado, Howard Hughes, o milionário e megaprodutor norte-americano, proprietário dos estúdios RKO e ligado à indústria aeronáutica, achava que era uma boa oportunidade de emplacar um grande sucesso nas bilheterias.


John Wayne (na imagem acima, ao lado de Susan Hayward), sem refletir muito sobre as possibilidades do personagem, acabou aceitando o papel, bem como os demais astros que fizeram parte do elenco, como Susan Hayward, Agnes Moorehead, o mexicano Pedro Armendariz, Ted de Corsia e dois outros atores que ficariam mais conhecidos alguns anos depois, Lee Van Cleef e William Conrad. Muitos desses astros não poderiam imaginar o que os aguardavam.

 
E a trama? Um roteiro sem muitos recursos, onde o guerreiro mongol Temujin ou Genghis Khan, aquele que teria criado o maior império da História em termos territoriais, apaixonou-se por uma nobre de origem tártara, chamada Bortai (interpretada por Susan Hayward, na imagem acima). Temujin acabou por sequestrar a bela mulher, dando origem a uma guerra entre as duas tribos. Bortai rejeitou, inicialmente, o seu audacioso amante que tanto a desejava, sendo depois resgatada por sua tribo tártara e Temujin feito prisioneiro. Foi exatamente nesse momento que os dois personagens se aproximaram mais e Bortai se viu apaixonada pelo líder mongol, ajudando-o a escapar, a perseguir um traidor e, finalmente, vencer os tártaros.


Sim caros leitores, trata-se de mais um filme histórico. Mas, desta vez não é esse fato que iremos destacar nesta postagem. Antes fosse, para o bem do próprio elenco. A questão é a época e o local onde ocorreram parte das filmagens desta produção, em 1954, próximo à cidade de St. George, no sul do Estado de Utah, Estados Unidos (imagem acima). A cidade estava situada a aproximadamente 220 quilômetros a leste da área onde eram feitos testes nucleares a céu aberto, no Estado de Nevada.


Desde 1951, durante 12 anos, foram realizadas mais de uma centena de explosões nucleares de superfície em Nevada (na foto acima, um teste nuclear nesse local, em 1960). Muitos anos depois se descobriu que esses testes trouxeram consequências letais para os próprios militares e técnicos que participaram desses experimentos. Além disso, nuvens de radiação, da mesma gravidade daquelas provenientes da explosão da usina de Chernobyl, na União Soviética, em 1986, foram carregadas pelos ventos, indo parar até mesmo na Nova Inglaterra, no norte dos Estados Unidos. Muitos moradores da região sofreram de vários tipos de câncer nos anos seguintes, em proporções muito acima do normal.
O mundo vivia um momento de grande expectativa nos primeiros anos da Guerra Fria e a corrida armamentista trazia a possibilidade de uma nova guerra mundial, uma vez que a União Soviética iniciava a sua entrada na era nuclear e os norte-americanos já desenvolviam a bomba de hidrogênio ou termonuclear, 50 vezes mais potente do que a bomba atômica convencional.
Mas, voltemos ao filme em questão. As locações em St. George não foram concluídas em tempo hábil e por isso, o produtor Howard Hughes teria tido uma ideia interessante, retirar 60 toneladas de terra desse local e enviar para Hollywood, onde as filmagens deveriam ser concluídas em estúdio, mantendo a semelhança com o local da locação. Sim, existia conhecimento dos testes nucleares, mas o governo norte-americano teria assegurado que não haveria nenhum risco de contaminação.

 
O fato é que existem sérias suspeitas de que, uma boa parte do elenco e da equipe teriam sido vítimas da radiação das explosões. Para muitos, não se trata de simples coincidência o que ocorreu anos depois. Vamos aos fatos. Dick Powel, o diretor do filme, foi diagnosticado com linfoma e morreu em 1963, sete anos após a finalização da película. Pedro Armendariz (imagem acima) descobriu um câncer nos rins e se suicidou em 1963, após perceber que não haveria possibilidade de cura. A atriz principal, Susan Hayward, faleceu em 1975, de um tumor cerebral, depois de ter lutado durante dez anos contra a doença em outras partes do corpo.
 
 
Agnes Moorehead, conhecida do público brasileiro pelo papel de Endora, no seriado "A Feiticeira" (na imagem acima, a atriz nesse mesmo seriado), faleceu um ano antes de Susan, também vítima de câncer. Outro ator do elenco secundário, Thomaz Gomes, também sofreu com a doença.


O caso emblemático foi o de John Wayne (acima, em uma cena do filme), que travou uma longa luta contra o câncer, inicialmente nos pulmões. Em 1964, foi duas vezes para a mesa de cirurgia. Na primeira para a retirada de um tumor no pulmão esquerdo e logo em seguida para a extração do próprio orgão. A grave doença de Wayne foi escondida do público na época, sendo revelada depois pelo próprio ator. Existia, no início da década de 1960, um receio das celebridades (detesto esta palavra, mas enfim...) de revelar ao público que sofriam de doenças sérias, pois isso poderia dar uma demonstração de fraqueza, sobretudo para um ator como John Wayne, o próprio símbolo da América. Seria algo como revelar que o "Super-Homem" estivesse doente, por exemplo.  Mas John Wayne era John Wayne. Pouco meses depois, ele já estava em uma locação no México, a 2.600 metros de altitude e com o único pulmão que lhe restou, para as filmagens de "Os filhos de Katie Elder" (1965). 
Segundo nos relata o jornalista e escritor Ruy Castro, em seu livro "Um Filme é para Sempre" (Companhia das Letras, 2006), os filhos de Wayne, Michael e Patrick, e o filho de Susan Hayward, Tim Barker, também foram acometidos pela doença, pois acompanharam as filmagens de seus respectivos pais. Outro ator, John Hoyt, também faleceu de câncer em 1991.
Do total de 220 pessoas da equipe de filmagens, 91 delas foram vitimadas por alguma forma de câncer até o ano de 1981 e destas, 46 faleceram da doença até essa mesma data. O filme não foi sucesso de bilheteria, como esperava o produtor Hughes. Também não foi bem recebido pela crítica e chegou a figurar na lista das piores produções da década de 1950.
Bem, nem todos os atores que atuaram na produção de "Sangue de Bárbaros" morreram da mesma doença. Ted Corsia, Lee Van Cleef (conhecido depois nos filmes de faroeste "sphagetti" da década de 1960) e William Conrad (do seriado policial Cannon, da década de 1970) não tiveram as suas mortes associadas ao câncer.
A questão da alta incidência de casos dessa doença entre os que participaram das filmagens de "Sangue de Bárbaros" nunca foi devidamente investigada. Contudo, é praticamente certo que muitos dos moradores das áreas próximas aos testes nucleares desenvolveram a doença devido à radioatividade liberada dos testes e alguns receberam indenizações do governo norte-americano, muito tempo depois. Suspeita-se também que filhos dessas pessoas também teriam sido afetados. Tudo pela causa americana. E o herói dos faroestes e filmes de guerra, John Wayne? Foi mesmo vítima de "fogo amigo"? Tirem as suas conclusões...
Crédito das Imagens: Cartaz do filme "The Conqueror": Diccionario del cine de aventuras de Javier Coma. Barcelona: Plaza & Janes Editores, 1994, pag. 216.
Teste nuclear em Nevada, 1960:
Imagem de Agnes Moorehead como Endora: fotograma do seriado "A Feiticeira".
Demais imagens: fotogramas do filme "Sangue de Bárbaros".
 


 


5 comentários:

  1. Impressionante esta história pouco lembrada pelos que falam sobre cinema . Na minha opinião deveriam ter aberto um processo contra o governo da época .

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  2. Impressionante esta história pouco lembrada pelos que falam sobre cinema . Na minha opinião deveriam ter aberto um processo contra o governo da época .

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  3. Cara Iza, obrigado por sua leitura e comentário. Sim, tal fato é pouco lembrado mesmo. Boa parte das informações obtive no citado livro de Ruy Castro, que dispensa apresentações. Mas, é um fato que também me impressiona muito. Abraços.....

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  4. Minha mãe contava isso, mas eu achava que era lenda. Mas até hoje a radiação não persiste neste local ? e o que houve com o material levado por Hughes para Hollwoody ?

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  5. Cara leitora Cristiane Pontes, em primeiro lugar obrigado pela leitura. Muito provavelmente o local dos testes nucleares não é habitado, mas nunca li nada a respeito da persistência dessa radioatividade, que deve ter se dispersado. O material levado a Hollywood foi tratado como entulho, uma vez que os sintomas verificados nas pessoas e o estabelecimento de uma relação de causa e efeito com os testes só foi feita muitos anos depois, inclusive após a morte de muitos dos envolvidos. Abraços.

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