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domingo, 12 de agosto de 2018

Como era e como está: a praia de Copacabana.



Um dos cartões postais da "Cidade Maravilhosa": a praia de Copacabana (acima, foto de Marc Ferrez tirada em 1890 a partir do sopé do morro do Leme, a praia praticamente inabitada). O Rio de Janeiro tem uma beleza visual incomparável, das mais deslumbrantes do planeta, com uma natureza esplendida formada por montanhas, picos e elevações que inspiraram artistas, poetas e arquitetos, entre os quais Oscar Niemeyer, que comparou as curvas de sua paisagem natural à sensualidade do corpo feminino. Mas saiba o prezado (a) leitor (a) que a praia que ficou conhecida como "Princesinha do Mar" guarda uma história inusitada. O nome "Copacabana" teve origem nos altiplanos andinos, mais precisamente na língua quechua (ou quíchua) falada no antigo Império Inca, que abrangia os atuais territórios do Peru, Bolívia e parte do Equador. O termo tinha vários significados entre os quais "lugar luminoso", "praia azul" ou ainda "mirante do azul". Existe também a possibilidade da palavra ter surgido da língua aimará (da mesma família linguística quechua), tendo o significado de "vista do lago" (kota kahuana). Na Bolívia existe uma cidade às margens do lago Titicaca (o mais alto do mundo) com o nome de Copacabana, no mesmo lugar onde havia o culto a uma divindade dos tempos do Império Inca, associada ao casamento e à fertilidade feminina, que era designada exatamente pelo termo Kopacawana
Logo após os espanhóis chegarem à região da Copacabana boliviana, um pescador chamado Francisco Tito Yupanqui teria presenciado a aparição da Virgem Maria. Em lembrança a esse acontecimento, o mesmo indivíduo esculpiu uma imagem sacra que ficou conhecida como a Nossa Senhora de Copacabana. No século XVII comerciantes que realizavam os seus negócios com a prata extraída no Vice-Reino do Peru (colonia espanhola que abrangia os territórios do antigo Império Inca) trouxeram uma réplica da imagem para o Rio de Janeiro. A mesma foi colocada num rochedo, em uma praia deserta da cidade, que até então era conhecida apenas pela designação em tupi de Sacopenapã, cujo significado era "o barulho e o bater de asas dos socós" uma ave da região. 



Nos últimos anos do século XVIII foi erguida uma capela para acolher a imagem de Nossa Senhora de Copacabana e aí aconteceu o inevitável. Toda a extensão da praia e as áreas adjacentes acabaram recebendo esse mesmo nome: Copacabana. Em 1914, a capela foi demolida para dar lugar ao Forte de Copacabana (nas imagens acima, a capelinha em foto sem data e em 1885 numa fotografia de Marc Ferrez).


No final do século XIX as praias começaram a ser frequentadas pela elite social, inclusive por recomendação médica e terapêutica aos pacientes. Ao mesmo tempo, a área de Copacabana começava a ser interligada com o resto da cidade do Rio de Janeiro (na foto acima de Marc Ferrez, vila nas proximidades da capela de Copacabana no ano de 1895). 



Em 1892, foi inaugurada uma passagem entre o Morro da Saudade e o Morro de São João, o Túnel Velho (acima em foto de 1894), construído pela Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico (depois incorporada à Light) ligando Copacabana ao bairro do Botafogo, momento em que a área começou a ser integrada ao restante da cidade. A obra permitiu a implantação de várias linhas de bondes que essa mesma companhia explorava. Posteriormente, as linhas foram ampliadas até a altura da antiga capela. 


No final do século XIX, Copacabana já tinha ruas de terra sendo abertas, facilitando a ocupação e a construção de casas, como mostra a foto acima de 1895 (no lado esquerdo o local onde seria construído o Copacabana Palace). 




Com a melhora no acesso vieram os loteamentos e a urbanização de Copacabana, que foi ganhando ruas e casas de alto padrão. Muitos consideram a data de inauguração do Túnel Velho como sendo o marco fundador do bairro de Copacabana. Nas duas fotos acima (a primeira de 1917 e a segunda de 1910), a orla ainda antes do processo de verticalização que moldou a paisagem atual do bairro já na década de 1940, quando os casarões deram lugar ao edifícios. 


No ano de 1906 foi aberta a Avenida Atlântica, dentro do conjunto de obras do prefeito Pereira Passos, que ficou conhecido como o "bota abaixo" por demolir antigos prédios e cortiços, em função da remodelação urbanística que promoveu na cidade. Passos pretendia tornar o Rio de Janeiro uma espécie de "Paris dos trópicos". Com a nova avenida veio o tipo de calçamento que se tornou a marca registrada daquela praia: o desenho em curvas no padrão "mar largo" (como aparece na foto acima de 1946, de autoria de Pierre Verger). Esse traçado reproduz de forma estilizada, em branco e preto, o movimento das ondas do mar e as marolas. Ao que tudo indica, esse padrão veio da Praça do Rossio de Lisboa, em Portugal, a qual foi pavimentada em 1849. O calçamento da orla de Copacabana foi confeccionado com pedras de basalto (pretas) e de calcita (brancas) vindas de Lisboa, daí a designação que as mesmas tem até hoje de "pedras portuguesas", apesar de atualmente serem obtidas aqui mesmo no Brasil. Na década de 1910 foram instalados os primeiros postos salva-vidas. 


No dia 5 de julho de 1922 um acontecimento fez com que a Praia de Copacabana ficasse definitivamente registrada nos livros de história. Jovens oficiais e cadetes (chamados de "tenentes") do Exército Brasileiro se rebelaram contra o governo oligárquico (dos grandes fazendeiros) da Primeira República (1889-1930). Dezessete militares e um civil saíram do Forte de Copacabana e marcharam pelo calçadão até serem recebidos a bala pelas tropas legalistas (fiéis ao governo). Dos "18 do Forte" como ficaram conhecidos, apenas dois sobreviveram, os "tenentes" Eduardo Gomes e Siqueira Campos (que aparecem na foto acima, respectivamente os dois primeiros a partir da esquerda). A rebelião militar foi o início da Revolta Tenentista no Brasil contra os últimos presidentes da Primeira República e o sistema político oligárquico (poder restrito aos grandes latifundiários).



Um ano após o levante dos "18 do Forte" foi inaugurado o Copacabana Palace, o mais famoso hotel do Rio de Janeiro, localizado em plena avenida Atlântica (na foto acima, o hotel em 1930). O mesmo foi projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire (1872-1933) inspirado nos hotéis franceses Negresco (de Nice) e Carlton (de Cannes). 



O "Copa" como ficaria conhecido tornou-se o local de encontro da alta sociedade carioca e os seus bailes eram muito concorridos (na foto acima, evento no Copacabana Palace em 1950). 



Muitas personalidades hospedaram-se em suas charmosas acomodações, entre elas Santos Dumont, Albert Einstein, Orson Welles, Marlene Dietrich, Rita Hayworth, Ava Gardner, Carmem Miranda, Nelson Rockfeller, Brigitte Bardot, Janis Joplin, Frank Sinatra, a rainha Elisabeth 2ª e em anos mais recentes Lady Diana, Paul McCartney, Tom Cruise, Madonna, Mick Jagger entre outros. Brigitte Bardot esteve no Rio logo após o golpe militar de 1964 (foto mais acima) quando disse em uma entrevista: "adorei a revolução de vocês". Janis Joplin (foto acima) esteve hospedada no Copacabana Palace poucos meses antes de sua morte em 1970.


Mas acreditamos que nenhuma dessas celebridades esteve tão à vontade, inclusive para circular na praia e até distribuir autógrafos, como Walt Disney (foto acima). Em 1941 o cineasta esteve no Brasil, a serviço dos esforços do governo norte-americano de promover a aproximação com a América Latina, naquilo que ficou conhecido como Política de Boa Vizinhança. Walt Disney veio acompanhado de uma comitiva de 16 pessoas, incluindo vários desenhistas e que culminou com a criação do personagem Zé Carioca. O Rio de Janeiro vivia no início da década de 1940 o auge dos cassinos, como o Urca, o Atlântico e o próprio Copacabana Palace, até a extinção desses estabelecimentos (e dos jogos) no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947.


As décadas de 1930, 1940 e 1950 marcaram a grande fase de Copacabana como ponto de atração no Rio de Janeiro (na foto acima, a praia lotada em 1959). Nas décadas seguintes a cidade sentiu os efeitos da mudança da capital para Brasília (ocorrida em 1960), além da expansão desordenada e sem planejamento em termos de ocupação do espaço urbano. A exclusão social e o crescimento das favelas foi o resultado direto dessa forma de urbanização. 



No início da década de 1970 foram realizadas várias obras para a ampliação do terreno de areia da praia, permitindo aumentar o espaço de lazer (para espetáculos e jogos). Ao mesmo tempo, foram alargadas as pistas da Avenida Atlântica. As calçadas foram remodeladas pelo paisagista Roberto Burle Marx, que manteve o tradicional padrão "mar largo" do calçamento mais próximo à areia. Essas obras também ajudaram a conter as ressacas que chegavam a atingir as garagens dos edifícios localizados na orla (nas duas fotos acima, a orla durante e depois das obras). Mais tarde foi construída uma ciclovia acompanhando a avenida Atlântica. 


Nos últimos anos vários eventos importantes foram realizados em Copacabana (acima, vista atual da praia), incluindo shows (como o do conjunto de rock Rolling Stones), competições dos Jogos Olímpicos de 2016 (vôlei de praia, maratona aquática e triatlo) e o espetáculo da queima de fogos no ano-novo. Atualmente, a orla é fechada aos domingos para a circulação de automóveis, a exemplo do que ocorre na avenida Paulista na cidade de São Paulo, permitindo que o público circule e aproveite um pouco melhor da beleza paisagística de Copacabana. 


Não poderíamos encerrar esta postagem sem mostrar uma foto da Copacabana boliviana às margens do lago Titicaca (acima). E não é que essa Copacabana lembra um pouco a Copacabana daqui...

Crédito das imagens:
Foto da capelinha de Copacabana:
http://luizgeremias.blogspot.com/2017/09/fatos-e-fotos-historicas-da-princesinha.html
Copacabana em 1910:
http://historia-do-brasil-e-do-mundo.hi7.co/fotos-antigas-rio-450-anos-56cb5f6292ab1.html
Foto do Túnel Velho: Wikipédia.
Fotos da praia de Copacabana deserta em 1890, da capela em 1885 e da vila de Copacabana de 1895:
O Brasil de Marc Ferrez. Instituto Moreira Salles, 2005, páginas 135, 140 e 141 respectivamente. 
Foto de Copacabana em 1895: 
https://www.bn.gov.br/noticia/2015/06/rio-450-anos-bairros-rio-copacabana
Fotos do casarão, do calçamento de autoria de Pierre Verger e da praia em 1959: Litoral: o sol, o sal, o céu. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, páginas 30, 35 e 37 respectivamente. 
Foto da revolta dos "18 do Forte": Guerras e Batalhas: o país em luta. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, página 34.
Fotos do Copacabana Palace em 1923 e 1930:
http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2017/03/copacabana-palace.html
Baile no Copacabana Palace: Cotidiano: um dia na vida dos brasileiros. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, página 36.
Fotos de Brigitte Bardot e Janis Joplin:
https://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/copacabana-palace-mantem-o-nome-o-glamour-e-o-luxo
Obras de ampliação da orla de Copacabana no início da década de 1970:
acervo.oglobo.globo.com
Vista atual de Copacabana: Wikipédia.
Copacana da Bolívia: Wikipédia.

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