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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Imagens Históricas 32: Johnny Weissmuller, o Tarzan



Na imagem acima o ator Johnny Weismuller, o mais famoso Tarzan de Hollywood, prepara-se para um mergulho em uma exibição em piscina olímpica, no ano de 1950. Nessa época ele já estava aposentado do conhecido personagem, mas ainda era lembrado como um grande campeão da natação. Johnny (Johann) Weissmuller nasceu na Romênia em 1904, de uma família de origem alemã, como indica o seu sobrenome. Na época, o território romeno era parte do Império Austro-Húngaro, o qual desapareceu nos tratados assinados após a Primeira Guerra Mundial. Mas, bem antes disso, quando Johnny contava com apenas sete meses de vida a sua família emigrou para os Estados Unidos, país onde o menino acabou adquirindo a sua cidadania.


O gosto pela natação teria começado aos nove anos, quando para se curar da poliomielite o médico lhe recomendou algumas braçadas na piscina e daí em diante não parou mais. Weissmuller tornou-se um atleta e participou dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924 (foto acima) e das Olimpíadas de Amsterdam em 1928, tendo conquistado um total de cinco medalhas de ouro, um número recorde para a época. Além disso, ainda obteve um bronze no pólo aquático. No total, Weissmuller estabeleceu 67 recordes mundiais e conquistou 52 campeonatos nacionais, tornando-se um dos maiores nadadores de todos os tempos! 



Após deixar o esporte olímpico, Johnny Weissmuller (na foto acima, em 1940) trabalhou como garoto propaganda de trajes esportivos e modelo, até ser contatado por Hollywood para viver no cinema o personagem criado pelo escritor norte-americano Edgar Rice Burrroughs (1875-1950): Tarzan. O mesmo era um inglês de origem aristocrática, que se vê perdido ainda bebê em meio às selvas da África, após a morte de seus pais. Tarzan acabaria sobrevivendo com a ajuda da macaca Kala e se impõe diante de uma natureza que lhe é hostil. Uma típica história dos tempos do imperialismo europeu no continente africano, que reforça a crença na suposta superioridade e inteligência do homem branco.



Bem, o homem macaco já havia tido cinco outros intérpretes, incluindo Elmo Lincoln, o primeiro a viver o personagem, ainda no cinema mudo (foto acima de 1918). O ator Buster Crable, conhecido por incorporar o herói Flash Gordon, também assumiu Tarzan (não de forma oficial), um ano depois de Johnny Weissmuller em 1933.  





No conhecido estúdio da Metro Goldwin Mayer (MGM) Johnny Weissmuller fez seis longas como Tarzan entre 1932 e 1942, quando teve o auge de sua popularidade. O primeiro foi "Tarzan, o Homem Macaco" de 1932 (nas imagens acima, um cartaz promocional e uma cena do filme). 



Nas primeiras películas feitas para os estúdios MGM, os personagens de Tarzan e sua namorada Jane (interpretada por Maureen O'Sullivan, mãe da atriz Mia Farrow e portanto, ex-sogra do diretor Woody Allen), a inglesa que acabaria por abandonar tudo e viver com a sua grande paixão na África, apareciam em trajes minúsculos e em cenas bem tórridas para os padrões cinematográficos da época. No segundo filme da série, "Tarzan e sua Companheira" de 1934 (na imagem acima, cena do filme com Jane usando pouca roupa e o cartaz promocional da produção) o casal surge em uma cena que mais se assemelha a um balé aquático e com Jane praticamente nua. Isso porque, até esse momento, ainda não estava em vigor o conhecido Código Hays, que impôs normas e disciplinou as produções hollywoodianas, sobretudo no que dizia respeito às referências sexuais. Por exemplo, o personagem Boy (vivido por Johnny Sheffield), que apareceu no filme "O Filho de Tarzan" de 1939 era adotado, uma vez que pareceria estranho ao público da época que Tarzan e Jane tivessem um filho sem serem casados! 



A ultima produção da série Tarzan pela MGM foi "Tarzan Contra o Mundo" lançada em 1942. Curiosamente nesse mesmo filme Elmo Lincoln, o já esquecido primeiro Tarzan, faz uma pequena aparição como figurante, que não lhe é atribuída nos créditos finais. Uma fala de Tarzan ao chegar a Nova Iorque (em busca de Boy, que tinha sido levado por um circo) e ver os prédios de Manhattan, ficou famosa: "Esta é uma selva de pedra". 



Já um pouco fora de forma, Johnny Weissmuller ainda viveria Tarzan em mais seis filmes do produtor Sol Lesser, o qual adquiriu os direitos do personagem para os estúdios da RKO, do magnata da aviação Howard Hughes (na imagem acima o cartaz de "Tarzan e a Mulher Leopardo" de 1946). Weissmuller encerrou  definitivamente a sua fase como homem macaco em 1948, com o filme "Tarzan e as Sereias" filmado em Acapulco, no México, cidade que escolheu para viver já no final de sua vida e onde se encontra enterrado. 


A carreira cinematográfica do ex-campeão olímpico ainda encontrou uma sobrevida com o personagem Jim das Selvas em treze filmes e a partir de 1955 como seriado de televisão com um total de 27 episódios (na imagem acima, cartaz do primeiro filme de Jim das Selvas com Weissmuller de 1948). Foi por esse seriado que ele se tornou conhecido do público brasileiro na década de 1960 e dos mais jovens que não chegaram a vê-lo no cinema como Tarzan, como este que vos escreve. Com o fim da série em 1958, Johnny Weissmuller deixou sua carreira de ator e apenas fez aparições esporádicas em produções menores. Ator? Um exagero qualificá-lo como tal, uma vez que era péssimo intérprete, tanto que os roteiristas sempre lhe atribuíram frases monossilábicas, no gênero "Me Tarzan, You Jane"
Um fato curioso a respeito de Weissmuller foi contado por seu filho Johnny Weissmuller Jr. no livro "Tarzan, my father". No final de 1958 o ator encontrava-se em Havana, Cuba, participando de um torneio de golfe (esporte que apreciava muito) quando foi abordado pelos guerrilheiros cubanos em plena revolução que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista e levou Fidel Castro ao poder. Weismuller se encontrava em um campo de golfe e temendo ser preso, disse aos guerrilheiros que era o Tarzan. Sem convencer os mesmos, o ator não teve dúvidas, resolveu soltar o famoso grito que utilizava nos filmes. Em seguida um dos soldados disse para os demais: "Es Tarzan! Es Tarzan de la jungla!" (É o Tarzan! Tarzan das selvas!). Imediatamente, Weissmuller foi escoltado até o hotel e logo depois deixou a ilha caribenha sem ser importunado! Além desse acontecimento, Johnny Weismuller ainda foi lembrado pelos Beatles que o incluíram na capa do famoso álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 1967. 
Em 1984, aos 79 anos, Johnny Weissmuller faleceu vítima de edema pulmonar, passando a ser lembrado como o mais famoso intérprete de Tarzan da história do cinema. E também como um grande atleta olímpico...
Crédito das imagens: 
Foto de Johnny Weissmuller em 1950: 1950s Decades of the 20th Century. Getty Images. Köneman, 2004, pag. 299.
Cartaz do filme "Tarzan Contra o Mundo":
https://hollywoodrevue.wordpress.com/2012/08/04/tarzans-new-york-adventure-1942/
Fotos de Johnny Weissmuller em 1928 e 1940: Wikipédia.
Foto de Elmo Lincoln: Pinterest.
Imagens e cartazes dos filmes "Tarzan, o Homem Macaco", "Tarzan e sua Companheira", "Tarzan e a Mulher Leopardo" e "Jim das Selvas": Diccionario Del Cine de Aventuras de Javier Coma. Barcelona, Plaza & Janés Editores, 1994, páginas 106, 194, 195 e 217. 
Foto de Tarzan e Jane no filme "Tarzan e sua Companheira":
https://www.ebay.com/itm/Johnny-Weissmuller-Maureen-O-Sullivan-Tarzan-Foto-/122708774202?_ul=HN

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Revista Leituras da História (edição de março)




Caro leitor, nunca imaginei que um dia fosse a uma banca de jornal comprar uma revista, para ver uma matéria sobre o cantor Elvis Presley escrita por mim mesmo. Pois esse dia chegou! Na edição de março da revista Leituras da História da Editora Escala (a qual, já está nas bancas e grandes livrarias do país) temos duas matérias de nossa autoria. Uma delas intitulada "Peripécias Brasileiras" lembra os nossos conterrâneos que estiveram com o "Rei do Rock" Elvis Presley e mesmo da influência da música brasileira na carreira do cantor. A matéria de 9 páginas revela ainda fatos pouco conhecidos do grande astro norte-americano e demonstra que, de fato, Elvis morreu. E para comprovar isso consultamos um médico brasileiro. 


A outra matéria escrita por nós, intitulada "Visão do Futuro", lembra o filme "No Mundo de 2020" lançado no ano de 1973 e que ficou conhecido por fazer da questão ecológica um dos seus temas principais, além de trazer uma visão absolutamente sombria do futuro da humanidade, abordando a poluição, a natureza destruída, a vida cotidiana deteriorada e o crescimento descontrolado da população. Este ultimo aspecto era uma preocupação muito grande na década de 1970, como hoje a questão do aquecimento global. 
Além dessas duas matérias, a edição ainda traz um assunto pouco comentado na mídia, o problema envolvendo a minoria muçulmana em Mianmar, que está sendo vítima de perseguição e mesmo de extermínio. Recomendo a leitura da revista, pois além dos temas da história, a mesma possibilita reflexões importantes e necessárias sobre o mundo em que vivemos. Boa leitura a todos...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Anúncio Antigo 51: a novela Estúpido Cupido




O Anúncio Antigo de hoje (imagem acima) lembra a novela Estúpido Cupido exibida em 1976 e início de 1977, momento em que boa parte do público sentia uma certa nostalgia pela década de 1950, como talvez na década de 1980 havia tal sentimento para com a década de 1960 e ocorresse o mesmo na de 1990 pela de 1970... Essas nostalgias brotam após um período de aproximadamente 20 anos. O tempo necessário para que aqueles que foram jovens ou adolescentes cheguem na fase adulta. Uma suposição deste que vos escreve sem maiores embasamentos teóricos ou bibliográficos, mas que parece plenamente observável na realidade. 



O saudosismo pela década de 1950 deveu-se também a outros fatores (na foto acima de 1956, cena típica dessa época, com moças passeando em lambretas). O historiador Eric Hobsbawm em seu livro "Era dos Extremos", já considerado um clássico, aponta que na década de 1950 o surto de crescimento econômico pareceu ter um caráter mundial, independente até dos regimes econômicos, embora ganhasse maior visibilidade nos países capitalistas. No Brasil, por exemplo, foi o momento em que o automóvel passou a ser uma presença mais constante na vida da classe média, como também a televisão, a influência maior da cultura norte-americana na música e nos costumes da juventude (calças jeans, cinema, revista em quadrinhos, Coca-Cola entre outros). A mídia (sobretudo a televisão) percebeu bem isso e procurou explorar da melhor forma esse sentimento saudosista. Filmes, novelas, revistas e discos entraram nessa onda. Em 1975 a novela Escalada, escrita por Lauro Cézar Muniz e exibida pela Rede Globo ajudou a despertar esse filão, com uma trama que percorria vários decênios, fixando-se um pouco mais no período final dos anos de 1950, com o governo de Juscelino Kubitschek (cujo nome não podia ser citado, em função da censura imposta pela ditadura militar) e a construção de Brasília, que acabou impulsionando a vida pessoal do personagem Antônio Dias (vivido pelo ator Tarcísio Meira). 
Como era comum, junto com as novelas vinham as trilhas sonoras, geralmente um LP (Long Play com várias gravações e de vinil, claro) com as músicas nacionais e outro trazendo o repertório internacional. No caso da novela Escalada, a trilha sonora internacional foi um dos LPs mais vendidos da história do disco no Brasil até o ano de 1976, segundo dados da própria gravadora Som Livre. A orquestra de Glenn Miller, o cantor Nat King Cole, o conjunto The Platters, Bill Halley e seus Cometas e Elvis Presley passaram a ser nomes conhecidos também dos jovens que viviam nos anos de 1970. Com relação a Elvis ocorreu um fato curioso, uma de suas gravações contida nesse LP era quase desconhecida em sua terra natal, mas estourou aqui no Brasil: Kiss Me Quick. A mesma nem foi gravada na década de 1950 (era de 1961)! E claro, vieram outros "bolachões" da mesma gravadora explorando o filão saudosista como a coleção "Saudade Não Tem Idade" com vários volumes, fora os lançamentos da concorrência, pois o mercado fonográfico era então muito rentável (diferente de hoje).



Obviamente com as novelas não foi diferente. Em agosto de 1976 foi ao ar no horário das 19 horas, também pela Rede Globo, a trama de Estúpido Cupido escrita por Mario Prata e ambientada na virada das décadas de 1950 e 1960, na fictícia cidade de Albuquerque, no interior de São Paulo (na imagem acima, o logo da novela). Uma típica comunidade de classe média cujos personagens jovens estavam sintonizados com as transformações comportamentais da época, embalados pelo rock'n roll, pelo twist (um modismo musical absolutamente passageiro do início da década de 1960), com rapazes montados nas lambretas e usando blusões de couro.



O roteiro proposto pelo autor incluía várias histórias que giravam em torno de um par central, que tinha como personagens a jovem estudante Maria Tereza ou Tetê (vivida pela atriz Françoise Forton) e o namorado João (interpretado por Ricardo Blat). A primeira sonha em ser a futura Miss Brasil e o rapaz, reticente com relação aos planos de sua amada, deseja seguir a carreira de jornalista (na foto acima o casal). Maria Tereza era filha de Olga Oliveira (vivida por Maria Della Costa), uma mulher bonita mas solitária e desquitada (o pior dos mundos para uma mulher naquela época). Olga morava com a mãe e os três filhos: além de Tetê, Ciça (vivida pela atriz Sonia de Paula) e Joel ou Caniço (interpretado pelo ator João Carlos Barroso). 



Joel nutre uma paixão por Glorinha (papel da atriz Djenane Machado, foto acima, um dos rostos marcantes da televisão dos anos de 1970).



Outro personagem importante é o pai de João, Alcides Guimarães, o seu Guima (papel do ator Leonardo Villar) que dirigia o Albuquerque Tênis Club. Viúvo e amargurado, enamorou-se de Olga (na foto acima, o casal). Um dos aspectos interessantes do texto do escritor Mario Prata foi a inserção da questão da dissolução do casamento, pois na época o país, em plena ditadura, acompanhava o debate da aprovação ou não do divórcio. A novela Escalada, que mencionamos anteriormente, também abordou o tema. Em 1977, logo depois que Estúpido Cupido terminou, um projeto do senador Nelson Carneiro foi votado no Congresso Nacional e o divórcio foi finalmente aprovado no Brasil, apesar da forte oposição conservadora, sobretudo da Igreja Católica.


Antônio Medeiros ou Mederiquis (papel do ator Ney Latorraca, na foto acima de jaqueta escura ao lado de Françoise Forton) é outro personagem chave da trama por caracterizar o típico jovem daquela geração, bem no gênero "juventude transviada". Fã de Elvis Presley, era líder de uma pequena banda de rock, andava de lambreta e estudava no chamado científico (correspondente ao ensino médio atual). 


No transcorrer da história Mederiquis envolve-se com uma garota de fora, a carioca Betina (vivida pela atriz e bailarina do Fantástico Heloísa Millet, imagem acima), formada em sociologia e com uma mentalidade mais avançada que as moças da cidade. 


Completando o núcleo jovem, tínhamos o personagem Carneirinho (interpretado por Tião D'Avila). Juntos formavam a turminha nas festas e encontros (na foto acima, os atores Tião D'Avila, Ney Latorraca, João Carlos Barroso e Ricardo Blat, respectivamente da esquerda para a direita, em suas lambretas).



Alguns outros personagens também ganharam destaque, como o mendigo Belchior (interpretado por Luiz Armando Queiróz, foto acima) que se imaginava colocando no ar uma rádio e entrevistando pessoas pela rua. Na conservadora escola religiosa da cidade, tínhamos a Irmã Angelica (vivida por Elizabeth Savalla), professora de português e que destoava do corpo docente da instituição por estimular atividades artísticas e propor a criação de um grupo de teatro. A mesma nutria uma atração platônica pelo personagem Belchior, com quem conversava às escondidas. Como toda cidade do interior que se prezasse também existiam as fofoqueiras, no caso Adelaide e Eulália (respectivamente as atrizes Célia Biar e Kleber Macedo). O bordão usado pelas duas ao telefone para fofocar ficou famoso: "fala, danadinha, fala". Finalmente o personagem Pedro Acioly (interpretado por Nuno Leal Maia) geólogo que chega em Albuquerque com a perspectiva da descoberta de petróleo no município, o que poderia trazer investimentos para a cidade, sobretudo por parte da Petrobrás. Daí o interesse do prefeito Aquino (vivido por Ênio Santos) em dar uma boa estadia ao mesmo e garantir-lhe todos os gastos necessários, o que acabou resultando numa triste surpresa no final da trama (principalmente para o prefeito).


Estúpido Cupido foi a última novela da Rede Globo gravada em preto e branco, exceto pelos dois últimos capítulos em cores, pois a trama avançou no tempo para mostrar como os personagens estariam em 1977. A produção reconstituiu um concurso de Miss Brasil, de acordo com os padrões de 1961, tendo as cenas gravadas no ginásio do Maracanãzinho no Rio de Janeiro, reunindo um público de 10 mil pessoas! Sim, a personagem Tetê venceu a disputa (na foto acima, a cena do desfile). Antes da gravação desse capítulo, Françoise Forton havia sido informada de que ficaria apenas com o 2º lugar, a fim de que o seu namoro com o personagem João não fosse abalado. Contudo, na hora em que a cena foi gravada a atriz foi pega de surpresa, pois ao contrário do que lhe havia dito o diretor Régis Cardoso, ela venceu. Foi uma estratégia da direção para dar maior realismo à reação da personagem. 



A novela teve problemas com a censura? De acordo com a atriz Elizabeth Savalla (foto acima) a sua personagem sofreu restrições, pois a Irmã Angélica propôs a montagem da peça "Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna, a qual teria um Cristo negro na história. De acordo com informações do site Memória Globo, a cena acabou não indo ao ar, apesar da atriz ter ido até Brasília para tentar reverter a restrição. Um fato curioso na carreira de Elizabeth Savalla é que ela já havia interpretado uma personagem contestadora na novela "Gabriela" (do ano anterior), a estudante Malvina. 



A trilha sonora acompanhou o exito obtido pela novela, tanto o LP com as musicas nacionais quanto o seguinte com a trilha internacional (acima, a capa do LP nacional). E o público voltou a dançar os sucessos da época, como por exemplo, a canção título da novela, interpretada por Celly Campelo (presente na coletânea com mais uma música, "Banho de Lua"). 



A cantora (foto acima Celly Campello no início da década de 1960) que já havia abandonado a carreira artística, fez uma participação especial na novela interpretando a si mesma, marcando o seu retorno quase duas décadas depois. Da mesma forma, a canção "Biquini Amarelo" na voz de Ronnie Cord foi outro destaque da trilha nacional. Esta música ficou muito associada ao presidente que governou o país no primeiro semestre de 1961 (época em que a novela se passava) Jânio Quadros, que certa feita proibiu o uso de biquíni nas praias. Com o sucesso alcançado, os artistas chegaram a homenagear o autor da novela Mario Prata, pela possibilidade de serem lembrados pela geração mais nova. 


A trilha sonora internacional (acima a capa desse disco) veio bem recheada para o padrão dos discos de vinil: nada menos do que 20 gravações (10 de cada lado). As mesmas eram "emendadas", isto é, sem pausa entre uma e outra música. Nomes como Little Richard, Ray Charles, The Platters, Bobby Darin, Elvis Presley, Dean Martin, entre outros, marcaram presença nesse disco em gravações originais. A coordenação geral dos dois LPs ficou a cargo de João Araújo (pai do cantor e compositor Cazuza) e parte do design sob responsabilidade do austríaco Hans Donner, recém chegado à emissora. Aliás, a mesma já exibia o seu novo logo desenhado por Donner, o qual é mantido até hoje.



Bem, como já destacamos, apelar à nostalgia é sempre certeza de atingir uma faixa considerável do público e com a novela Estúpido Cupido isso se confirmou mais uma vez. Por falar em nostalgia, na foto acima os atores Tião D'Avila, João Carlos Barroso, Françoise Forton e Ney Latorraca em foto de 2015. 
O Anúncio Antigo de hoje (com o rosto estilizado do ator Ney Latorraca) apareceu na revista Rock Espetacular volume 1, editada pela Rio Gráfica e Editora S.A. no ano de 1976, página 16. Aliás, a mesma foi publicada nesse mesmo embalo nostálgico dos "anos 50"...
Crédito das imagens:
Foto da moça em uma lambreta de 1956: 1950s Getty Images Decades of the 20th Century. Könemann, 1994, pag. 267. 
Logo da novela Estúpido Cupido: Coleção Nosso Século 1960-1980. Abril Cultural, 1980, pag. 247. 
Foto de Ney Latorraca e Françoise Forton na festinha, da atriz Djenane Machado e de Françoise Forton desfilando:
http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/novelas/estupido-cupido.htm
Fotos de Ricardo Blat junto com Françoise Forton e da atriz Elizabeth Savalla:
http://novelasclassicas.blogspot.com.br/2010/09/novela-estupido-cupido-1976.html
Fotos de Ney Latorraca com Heloisa Millet, de Maria Della Cost com Leonardo Villar:
http://astrosemrevista.blogspot.com.br/2016/08/heloisa-millet-sereia-do-fantastico.html
Foto de Luiz Armando Queiroz: 
https://www.besthomenagens.com.br/homenageamos-hoje-luiz-armando-queiroz/#catalogo
Foto de Celly Campello: 
https://cifrasweb.com.br/celly-campello/
Parte do elenco em foto de 2015:
http://gshow.globo.com/Bastidores/noticia/2015/12/atores-de-estupido-cupido-se-reencontram-40-anos-depois.html
Capa dos LPs com a trilha sonora da novela: acervo do autor.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Blog História Mundi citado na revista Leituras da História (edição de fevereiro)



Caro leitor, para mim é motivo de grande orgulho ter o blog História Mundi citado na grande mídia. Como é do conhecimento de todos, na edição de janeiro de 2018, da revista Leituras da História (Editora Escala) tivemos um artigo escrito por nós publicado. Trata-se de "Nair de Teffé: bela. culta e avançada". Na edição deste mês de fevereiro, que está nas bancas (imagem acima) tivemos duas cartas dos leitores, que mostram a ótima repercussão da matéria junto ao público que segue a revista. 




É gratificante saber que o blog está "bastante conhecido" como afirma o ilustre leitor Adelmo Soares, de São José dos Pinhais (PR). O História Mundi prioriza o texto acessível e informativo. Como já afirmamos, procuramos recuperar o velho espírito dos antigos almanaques, os quais, por meio da curiosidade, serviam muitas vezes como ponto de partida para leituras mais complexas. Por isso, recomendamos também ao nosso público a revista Leituras da História, que prima pela qualidade de seu material e de seus autores, além de dispor de um Conselho Editorial gabaritado e qualificado nas nossas grandes universidades. É isso aí...

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Livro "A Castanha do Pará na Amazônia" na promoção da Paco Editorial




A Paco Editorial está fazendo uma excelente promoção na compra de livros, inclusive os da área de história. O livro "A Castanha do Pará na Amazônia: Entre o extrativismo e a domesticação" está saindo por R$ 34,39 (mais as despesas postais) ou em 3 vezes sem juros no cartão. O trabalho em questão, cujo autor é este que vos escreve, foi fruto de uma pesquisa inédita sobre o assunto, a respeito de um produto que chegou a ser o mais importante de toda a Amazônia, superando a borracha. Não deixem de ver também os demais títulos disponíveis, de grande interesse para os que trabalham ou desejam ampliar os seus conhecimentos na disciplina.
Para os interessados deixo o link abaixo:
https://www.pacolivros.com.br/a_castanha_do_para_na_amazonia/prod-4671216/

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Imagens Históricas 31: o assassinato de Leon Trotsky





As duas imagens acima lembram um dos acontecimentos marcantes do século XX: o assassinato de Leon Trotsky (nas mesmas, temos a arma utilizada e o corpo de Trotsky sendo cremado). Marcante pois trata-se do desfecho de uma dissidência decorrente do processo de consolidação do regime soviético estabelecido após a Revolução de Outubro de 1917, a qual levou o Partido Bolchevique (depois Partido Comunista) ao poder (ver Stalin e a Formação da União Soviética parte 2, aqui neste blog). E também por ter ocorrido em meio a uma trama digna dos grandes filmes de espionagem. Até hoje surgem questões novas relacionadas a esse acontecimento e muitas outras permanecem obscuras. A causa determinante do mesmo deve ser encontrada na já citada dissidência e no afastamento de Trotsky dos quadros dirigentes da União Soviética. E claro, tudo isso coincidiu com a ascensão política de Josef Stalin, visto por Trotsky como uma liderança que desvirtuou os ideais do socialismo defendidos por Lênin, o grande mentor da Revolução de 1917. Por outro lado, a morte de Leon Trotsky começou a ser tramada a partir dos órgãos de inteligência do regime soviético, sobretudo do Comissariado do Povo para Assuntos Internos (NKVD) e de seus agentes, os quais atuavam no movimento comunista na Europa, na Ásia e na América. E com o conhecimento e aprovação de Stalin.



Desde 1929, Leon Trotsky vivia fora da União Soviética, de onde foi expulso. Desde então e até 1940, ano em que foi assassinado, Trotsky (na foto acima de 1938, quando já se encontrava no México) fez uma verdadeira peregrinação por vários países, incluindo a Turquia, a França e a Noruega. Em todos eles correu riscos com relação à sua segurança pessoal, pois nunca deixou de fazer críticas a Stalin e de tentar de alguma forma, influenciar a situação política dentro da União Soviética. A condição de Trotsky agravou-se ainda mais, em função dos expurgos promovidos entre os anos de 1936 e 1938. Em praticamente todos os processos o seu nome era listado em supostas conspirações para derrubar Stalin e isso significou a sua condenação à morte na União Soviética.


Em 1937, Leon Trotsky recebeu permissão para morar no México, junto com sua família ou o que restava da mesma, sua esposa e o neto Esteban Volkov, que veio depois. Coube ao pintor muralista mexicano Diego Rivera, interferir junto ao presidente do México Lázaro Cárdenas, para que autorizasse a vinda de Trotsky ao país. No início de 1937, Trotsky e sua esposa Natalia Sedova chegaram à Cidade do México e permaneceram como hóspedes do casal Rivera (Diego e Frida Kahlo). De lá, Trotsky continuava a sua campanha a fim de denunciar Stalin para o mundo, por meio de seus escritos e pronunciamentos (como na foto acima, onde aparece gravando um discurso nos jardins da casa de Rivera e Frida). O Partido Comunista Mexicano e as organizações que estavam sob a sua influência, como a Confederação dos Trabalhadores do México protestaram contra a presença de Trotsky e exigiam a sua expulsão. Como nos lembra o historiador Dmitri Volkogonov, autor de uma biografia crítica em relação a Stalin, a propaganda do regime soviético na época, procurava mostrar Trotsky como um aliado do capitalismo e que organizava campanhas com o intuito de prejudicar a União Soviética. 


Posteriormente, alguns desentendimentos entre Trotsky e Diego Rivera, inclusive relacionados a um envolvimento amoroso do velho revolucionário com a pintora Frida Kahlo, fizeram com que o casal Trotsky procurasse uma outra residência no mesmo bairro de Coyoacán, nas cercanias da capital mexicana (na foto acima, Natalia, Frida Kahlo e Trotsky na chegada deste ao México em 1937). 



Em função das ameaças que pairavam sobre a figura do ex-líder bolchevique, a casa situada na rua Viena foi adaptada para se tornar uma verdadeira fortaleza (como mostra a foto acima). 


Nesse exato momento é que apareceu a figura de Jacques Mornard, o qual teria origem belga, filho de um diplomata e que conheceu em Paris a trotskista norte-americana Sylvia Ageloff, uma mulher de aproximadamente 30 anos, sentimentalmente carente e muito solitária (foto acima). Sylvia fazia parte do círculo de colaboradores de Trotsky e conhecia várias línguas, servindo como intérprete. Jacques Mornard, um homem alto, elegante e de boa aparência, mostrou-se interessado pela tímida Sylvia e iniciou um romance com a mesma. Quando esta lhe revelou a proximidade com Trotsky, Mornard mostrou não dar importância a isso e nem aos assuntos políticos, ao mesmo tempo em que procurava levar Sylvia a restaurantes caros e lhe dar muitos presentes. Em setembro de 1939, já com a Segunda Guerra tendo início na Europa, Mornard foi a Nova Iorque encontrar-se com Sylvia utilizando outro nome, Frank Jacson, com passaporte canadense, justificando isso com o argumento de que precisava evitar a convocação militar na Bélgica. 
Bem, Jacques Mornard, Frank Jacson... era tudo falso! A verdade só apareceria muitos anos depois. A identidade desse indivíduo era Ramón Mercader, um comunista espanhol recrutado pelos serviços de inteligência da NKVD soviética. Seu objetivo: aproximar-se do círculo de Trotsky e posteriormente eliminá-lo. 




Antigo integrante do Partido Comunista da Catalunha (província da Espanha onde se localiza a cidade de Barcelona), teve atuação como guerrilheiro na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) pela defesa da república contra o fascismo (nas fotos acima, Ramón ainda jovem e na Guerra Civil). A trajetória de Ramón estava associada a uma outra pessoa, a sua própria mãe Caridad Mercader, também militante comunista e de quem falaremos mais adiante. 
Voltemos ao casal em questão. Sylvia Ageloff e Frank Jacson (Ramón Mercader) encontraram-se no México no início de 1940, com este ultimo continuando a aproximação junto ao círculo de Trotsky, conseguindo ser apresentado a Natalya Sedova, já na condição de "o noivo de Sylvia". 


Ao mesmo tempo, fez amizade com os seguranças que cuidavam da casa no bairro de Coyoacán, dos quais obteve informações importantes sobre a rotina do local (na foto acima de 1940, a casa-fortaleza onde residia Trotsky). 
No início de 1940, chegaram à capital mexicana o agente da NKVD Leonid Eitingon juntamente com Caridad Mercader. Muitos atribuem a esse agente soviético toda a articulação e o recrutamento dos responsáveis pelo atentado contra Trotsky. 



Contudo, os comunistas mexicanos simpáticos a Stalin também preparavam um ataque contra o ex-líder bolchevique exilado. Na madrugada do dia 24 de maio de 1940, o casal Trotsky foi acordado com uma rajada de metralhadora vinda de dentro da própria casa-fortaleza em que moravam. Mas o ataque falhou e o moradores saíram praticamente ilesos (acima, o neto de Trotsky, que presenciou o ataque, mostra os tiros na parede em foto de 1973). 
Um dos comandantes do atentado foi nada mais nada menos que o militante comunista David Alfaro Siqueiros, um dos três grandes nomes do movimento muralista mexicano nas artes plásticas (ao lado do já citado Diego Rivera e de José Clemente Orozco). Na percepção desses comunistas, a condição de Leon Trotsky como traidor se agravava na medida em que o mesmo fazia duras críticas a Stalin (estava preparando um livro sobre ele) e organizava a IV Internacional, com o objetivo de criar um movimento comunista alternativo à linha adotada por Moscou. 
Naquele momento, era muito difícil para Trotsky encontrar outro país em que pudesse estar seguro. Aliás, o único governo que o aceitou como refugiado político foi exatamente o do México. Muitos amigos tentaram convencer Trotsky a se estabelecer nos Estados Unidos, mesmo na condição de clandestino. O velho revolucionário relutava, uma vez que sua ida para esse país o impediria de escrever textos e de se manifestar, embora tivesse a possibilidade de viver com mais segurança. 


Após o ataque, a proteção da casa de Trotsky em Coyoacán foi reforçada com um dispositivo de alarmes, forração à prova de bombas nos cômodos e a ampliação do muro em volta do jardim. Depois de tudo pronto, Trotsky teria comentado com sua esposa Natalya: "Isto nem parece um lar...Vivemos em uma fortaleza medieval" (na foto acima, uma guarita no muro da casa). Qualquer novo atentado teria que ser feito não por um grupo, mas por um único individuo que pudesse entrar na casa e aproximar-se de Trotsky. Portanto, Frank Jacson, ou melhor, Ramón Mercader (vamos a partir de agora, chama-lo pelo seu verdadeiro nome) parecia ser a pessoa indicada para executar o plano, pois já tinha estabelecido contato com o entorno de Trotsky e já se apresentava perante o mesmo como um interessado em suas ideias. Ao que parece, o próprio Ramón ofereceu-se para agir sozinho. 



Como muitos estudiosos apontaram posteriormente, o esquema de defesa da casa de Leon Trotsky era falho e alguns dos seguranças não eram pessoas de plena confiança, algo que ficou evidenciado no atentado do mês de maio pela facilidade dos atiradores em entrarem (na foto acima, a parte externa da residência). 



Depois de ter estado em várias ocasiões na casa, Ramón Mercader procurou Trotsky a pretexto de que este lesse um artigo que estava preparando. Talvez, como muitos supõem, nesse encontro no dia 17 de agosto de 1940, Ramón não tivesse tido coragem de realizar o ataque. Trotsky teria comentado depois com Natalya que o marido de Sylvia parecia um pouco tenso e que o artigo que havia escrito não tinha muito sentido, sendo praticamente ininteligível.
No final da tarde do dia 20 de agosto, Ramón Mercader retornou à casa de Trotsky trazendo um novo texto. Uma coisa estranha, fazia calor e Mercader carregava um pesado casaco junto ao braço (como no encontro anterior), sem ser incomodado por nenhum segurança. 



Trotsky, que dava comida aos seus coelhos de estimação, recebeu novamente o visitante e dirigiu-se ao escritório para ler o texto (na foto acima, a sala de trabalho onde ocorreu o atentado). Nesse exato momento, enquanto Trotsky lia o documento, Mercader tirou de dentro do casaco uma picareta (muito utilizada por alpinistas para quebrar gelo nas montanhas) e golpeou Trotsky na cabeça! Eis o relato feito mais tarde, na prisão, pelo próprio Mercader:

Coloquei minha capa, tirei o quebrador de gelo e segurei-o com firmeza...fechei os olhos e golpeei-lhe a cabeça com todas as minhas forças... O homem gritou, um grito que nunca vou poder esquecer. Trotsky levantou-se como um louco. Atirou-se sobre mim, bateu em minha mão. Eu o empurrei e ele caiu. Mas ele ainda se levantou do chão e, não sei como, conseguiu... sair da sala.


O que era para ser um crime silencioso acabou atraindo a atenção de todos na casa (na foto acima, a mesa de trabalho de Trotsky). Imediatamente Natalya Sedova correu assustada com o grito do marido e ainda ouviu Trotsky murmurar: "Jacson". No jardim os seguranças procuravam deter Mercader, o qual foi atacado com coronhadas na cabeça. Trotsky teve forças para gritar: "Não o matem! Ele tem muito o que falar". Disse o velho revolucionário, gravemente ferido.
Do lado de fora da casa, em um carro (ou dois, de acordo com outras fontes) estavam Leonid Eitingon e Caridad Mercader, os quais aguardavam uma possível fuga de Ramón. Mas, após perceberem que o mesmo fora detido, abandonaram o local e fugiram. 





Ramon Mercader foi preso, julgado e condenado a 20 anos de prisão, sem ter revelado o seu verdadeiro nome e nem mesmo a mando de quem havia cometido o ataque, como queria Trotsky (nas duas fotos acima, Ramón atendido no hospital com ferimentos na cabeça e acompanhado de policiais). Ao ser interrogado sobre o motivo do crime, alegou ser um trotskista que havia tido divergências com o revolucionário. 



Sylvia Ageloff após tomar conhecimento do ocorrido entrou em choque e tentou o suicídio (foto acima). 


Uma versão muito divulgada diz que o primeiro indício de sua verdadeira identidade, veio de um médico da prisão, que teria identificado em Ramón um sotaque catalão em sua fala. Ao ser averiguada na província espanhola da Catalunha e contando com a ajuda da polícia do ditador fascista Francisco Franco, foi efetuada a sua identificação em 1953, quando já havia cumprido mais da metade da pena (na foto acima, a ficha de Ramón Mercader já com o comparativo das impressões digitais). 



Logo após o atentado, os médicos tentaram salvar a vida de Leon Trotsky levando-o para uma cirurgia, mas o golpe na cabeça foi profundo e nada mais pode ser feito (na foto acima, Trotsky no hospital). No dia seguinte, o homem que um dia conduziu o Exército Vermelho à vitória na Guerra Civil que sobreveio à Revolução Russa de 1917, morreu na capital mexicana. Atendendo o seu desejo, foi cremado, como mostra a segunda foto desta postagem (mais acima). 



As cinzas de Leon Trotsky foram depositadas no próprio jardim de sua ultima morada na capital mexicana, onde foi erguida uma lápide com seu nome e o símbolo do comunismo (foto acima).


Mas não podemos nos esquecer de outra personagem marcante em meio a toda esta trama: Caridad Mercader, a mãe de Ramón. Proveniente de uma família de origem catalã bem situada socialmente, Caridad teve uma educação aristocrática e frequentou boas escolas. Casou-se muito jovem (com 19 anos) com um rapaz proveniente de uma família ligada à indústria têxtil de Barcelona, chamado Pablo Mercader, com quem teve cinco filhos, um dos quais Ramón. Contudo, o marido, que aparentava ser uma uma pessoa sóbria e devotada à família, revelou uma face que Caridad não conhecia: a sua devassidão. Alegando que a esposa necessitava ser estimulada sexualmente, Pablo a obrigava a frequentar os bordeis de Barcelona, a fim de observar as prostitutas com os seus clientes (inclusive no próprio ato sexual). Tal situação levou Caridad a uma enorme angustia pessoal (chegou a fazer uso de drogas, como a morfina e o ópio). Ao mesmo tempo, começou a nutrir uma visão absolutamente crítica em relação à sociedade burguesa em que vivia, o que a aproximou do movimento anarquista da Catalunha, do qual se tornou militante. Caridad ajudou na organização de atentados, inclusive contra as fábricas da própria família Mercader.


Em 1919 teve um envolvimento amoroso com o aviador francês Louis Delrieu, logo após este ter feito um pouso de emergência em uma propriedade da família. Em função de seu comportamento rebelde, foi internada a força pelo marido e por seus irmãos em um manicômio, onde foi submetida a um "tratamento" agressivo com duchas geladas e eletrochoques. Caridad jamais perdoou a família por esse ato! Com a ajuda dos anarquistas, que ameaçavam promover atentados caso não fosse liberada do manicômio, Caridad saiu da instituição e viajou para a França com seus cinco filhos, onde se juntou ao seu antigo amante Delrieu (na foto acima, Caridad na França em data incerta). Após o fim do relacionamento em 1928, Caridad ficou emocionalmente abalada e tentou o suicídio. Após se recuperar teve que concordar com a ida dos filhos menores para a Espanha junto ao pai.



Em Paris, Caridad Mercader aproximou-se do Partido Comunista Francês e por intermédio desta agremiação conheceu Leonid Eitingon, o agente da NKVD a quem já nos referimos (foto acima, sem data). Com o estouro da Guerra Civil Espanhola em 1936, Caridad se engaja na luta, junto com seus filhos Ramón e Pablo, que morreu em combate. Ao que parece, foi nesse momento que Eitingon convenceu mãe e filho a atuarem no serviço de inteligência soviético, inclusive pelo domínio que tinham de outros idiomas. Não se sabe ao certo se Ramón Mercader chegou a ir para a União Soviética para um treinamento específico, mas em 1937 já estava na NKVD e no ano seguinte, o mesmo serviço de inteligência colocou-o no caminho de Sylvia Ageloff, levando ao desfecho já descrito por nós. Em um livro escrito recentemente, El cielo prometido. Una mujer al servicio de Stalin (ainda sem tradução no Brasil) o escritor espanhol Gregorio Luri descreve Caridad Mercader como uma militante que colocou os seus ideais acima da própria família, inclusive levando os filhos a um verdadeiro sacrifício em prol da causa comunista. E claro, foi uma estalinista devotada. De acordo com esse autor, Caridad teve um papel central em toda a trama que envolveu o assassinato de Trotsky. 


Em 1941, o diretor da NKVD, Lavrenti Beria deu a Caridad Mercader a Ordem de Lênin e ao filho preso, Ramón, a estrela de Herói da União Soviética (na foto acima, Ramón Mercader com a condecoração depois de deixar a prisão no México). Em 1943, o serviço secreto soviético começou a organizar a chamada Operação Gnomo. A mesma tinha por finalidade libertar Ramón Mercader da prisão com a ajuda de espanhóis residentes no México e dos comunistas locais. Porém, um fato inesperado prejudicou os planos, a visita ao país de Caridad Mercader que começou a fazer gestões junto ao governo mexicano, para que o seu filho fosse libertado. As autoridades mexicanas, desconfiadas da presença da militante comunista espanhola, reforçaram a segurança da prisão onde se encontrava Mercader e o plano fracassou. 


Em 2015, outro fato revelado por tablóides espanhóis deu conta de que Ramón Mercader recebia mulheres na prisão de Lecumberri no México. Uma delas teria sido a mundialmente conhecida atriz espanhola Sara (Sarita) Montiel, que antes de se tornar estrela era muito relacionada com os comunistas espanhóis radicados naquele país. Para os que não a conhecem, a atriz chegou a fazer sucesso em Hollywood e foi casada com o cineasta Anthony Mann (diretor do clássico El Cid). Além disso, conviveu ou manteve supostos casos amorosos com astros como Gary Cooper, James Dean e Marlon Brando. Sara Montiel teria engravidado de Ramón Mercader e dado a luz a uma menina, a qual posteriormente, foi entregue para adoção sem o consentimento da atriz, pois a mesma havia sido informada de que a criança nascera morta após um parto cheio de problemas. 



Que os dois se conheceram não restam dúvidas, uma vez que em 1950, Sara Montiel namorava o comunista espanhol Juan Manuel Plaza e acompanhou este em uma visita a Mercader na prisão (na foto acima, Ramón Mercader na prisão mexicana nesse mesmo ano). Mas o envolvimento com o último e a gravidez são contestados, uma vez que tal "revelação" partiu de uma entrevista concedida pelo antigo cabeleireiro da atriz e após o falecimento da mesma em 2013. Sara Montiel ainda teria declarado que, apesar de ser um assassino, Mercader não era uma má pessoa.


Finalmente, liberado da prisão em 1960 após cumprir a pena, Ramón Mercader deixou o México indo para a União Soviética onde tornou-se coronel da KGB, orgão de inteligência que sucedeu à NKVD (na foto acima da década de 1960, Caridad, o filho Ramón e sua esposa Roquelia Mendoza na União Soviética) e posteriormente indo para Cuba, onde acabou fixando residência até morrer em 1978 (Caridad faleceu três anos antes). Mãe e filho tornaram-se heróis da União Soviética e até o final de suas vidas mantiveram a convicção de que, o que fizeram, foi em prol da causa comunista seguindo as diretrizes do líder Stalin.



Os familiares de Trotsky, sua esposa Natália e o neto Steban, continuaram a viver por muitos anos na casa da rua Viena, no bairro Coyoacán, na Cidade do México, que hoje abriga o Museu Casa Leon Trotsky, aberto à visitação do público (acima, quatro bisnetas de Trotsky que viviam na casa, em foto de 1973). O local é uma lembrança viva do tumultuado século XX...
Crédito das imagens:
Picareta utilizada no crime e Trotsky sendo cremado: Century. Phaidon Press Limited, 1999, pag. 429. 
Foto de Natalya, Frida Kahlo e Trotsky: http://www.pulsamerica.co.uk/2014/04/mexico-trotsky/
Fotos de Trotsky em 1938 e do mesmo gravando um depoimento: Frida Kahlo: La pintora y el mito. De Teresa del Conde. Instituto de Investigaciones Estéticas. Universidad Nacional Autónoma de México. Mexico, 1992.
Fotos de Ramón Mercader jovem, na Guerra Civil e de Sylvia Ageloff: site Pinterest.
Foto de Leonid Eitingon: http://thepublici.blogspot.com.br/2017/10/a-mob-hit-chapter-two.html
Foto de Trotsky no hospital:
https://www.gettyimages.ca/event/years-since-the-death-of-leon-trotsky-81648278
Foto de Caridad Mercader montada a cavalo:
http://www.elmundo.es/cultura/2016/04/08/5706b4c9268e3e362b8b4598.html
Foto de Caridad Mercader na França:
https://www.larazon.es/cultura/caridad-mercader-el-cerebro-del-asesinato-de-trotski-KC12328398
Foto de Caridad, Ramón e Roquelia na União Soviética:
http://elcafedeocata.blogspot.com.br/2016/04/fotos-de-los-mercader.html
Fotos de Ramón Mercader recebendo curativos e preso em 1950:
https://br.rbth.com/arte/historia/2017/08/02/o-plano-de-stalin-para-libertar-o-assassino-de-trotski_815556
Foto de Sylvia Angeloff após tentar suicídio:
http://www.tiempodehoy.com/cultura/historia/el-mas-secreto-heroe-de-la-union-sovietica2/(imagen)/84772/el-heroe-secreto-de-la-urss5#centerColumn
Foto de Ramón Mercader condecorado: 
https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/imprevidencia-de-trotski-ajudou-ramon-mercader-mata-lo-no-mexico-97469/
Foto de Sara Montiel: 
http://quemovida.excite.es/el-padre-de-la-hija-biologica-de-sara-montiel-fue-el-asesino-de-trotski-ramon-mercader-N46999.html
Fotos em cores da parte externa da casa de Trotsky, de seu neto apontando as balas na parede, da mesa de trabalho, das quatro bisnetas e da ficha de identificação de Ramón Mercader: Revista Grandes Acontecimentos da História, Editora Três, 1973, paginas 75, 76, 77, 78, 82 e 85. 
Fotos em cores da parte interna da casa de Leon Trotsky: tiradas pelo próprio autor epertencente ao seu acervo.