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terça-feira, 24 de abril de 2018

O Egito Antigo no Museu Nacional do Rio de Janeiro



Uma pergunta simples. Será que aqui no Brasil podemos ver de perto uma múmia do Egito Antigo? A resposta: sim! Basta fazer uma visita ao Museu Nacional, no antigo Palácio de São Cristovão, localizado na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se do mais importante acervo de antiguidades egípcias da América Latina, cuja existência podemos atribuir ao nosso primeiro governante, o imperador Dom Pedro I (na foto acima, o sarcófago da "Cantora de Amon"). Ao que consta, a coleção foi parar nas mãos do monarca em função de não poder alcançar o destino original, a Argentina. A região do rio da Prata passava por um momento de instabilidade política, além dos problemas que envolviam a disputa pela Província Cisplatina (atual Uruguai) entre o Império Brasileiro e o governo argentino, os quais levaram à guerra em 1825. De acordo com o professor do Museu Nacional e especialista em egiptologia, Antonio Brancaglion Junior, o navio de bandeira francesa Gustave Annce, que trazia a preciosa carga, impedido de atracar em Buenos Aires em função do bloqueio naval imposto pelo Brasil, lançou ferros no porto do Rio de Janeiro em 1826. Entre os passageiros estava um tal Nicolau Fiengo, comerciante de antiguidades, possivelmente italiano, proveniente de Marselha (porto do sul da França). Ao verificar as dificuldades que teria em chegar na Argentina, Fiengo resolveu colocar a carga que transportava em leilão na então capital do Brasil, isso depois de aguardar dois meses na alfândega para conseguir a liberação de todo o carregamento. Aliás, uma carga incomum, pois continha cinco múmias egípcias (três adultos e duas crianças), que teriam sido retiradas da antiga cidade de Tebas em pleno vale do rio Nilo, por um explorador italiano chamado Giovanni Battista Belzoni. 



Segundo alguns estudiosos, Dom Pedro I ficou interessado em arrematar o lote e teria sido aconselhado a faze-lo por José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos seus ministros de confiança (na imagem acima, quadro de autor desconhecido representando o imperador). Trata-se de algo pouco provável, uma vez que Bonifácio foi para um exílio de cinco anos, logo após a dissolução da Assembléia Constituinte em 1823 e estava rompido com o imperador. Possivelmente a decisão de ficar com a coleção egípcia partiu do próprio Dom Pedro. 


Naquela época a atração pelo Egito Antigo cresceu no mundo ocidental, sobretudo depois da campanha militar realizada por Napoleão Bonaparte naquela região em 1799 e pelos trabalhos de Jean-François Champollion que deram início à decifração da escrita hieroglífica (acima, pintura de 1868 mostrando Napoleão diante da esfinge de Gizé). Durante o século XIX era comum o comércio de múmias, sarcófagos e amuletos roubados no Egito e levados para países como Inglaterra, França e Itália. Não é por outra razão que o Museu do Louvre é um dos maiores depositários de antiguidades egípcias do mundo. 
De qualquer forma, em 1827 o imperador Dom Pedro I mandou comprar a coleção. Um documento guardado há muito tempo nos arquivos do Museu Nacional confirma a aquisição. O mesmo está escrito em primeira pessoa e com a assinatura do monarca. Eis a sua integra: 

Atendendo ao que me representou Nicolau Fiengo, que propôs a venda das antiguidades egípcias, já depositadas no Museu Nacional desta Corte: Hei por bem que pelo Tesouro Público se pague ao dito Nicolau Fiengo a quantia de cinco contos de réis em que ele avaliou as referidas antiguidades; verificando-se o pagamento desta compra a prazos de seis, doze e dezoito meses. O Marques de Queluz do meu Conselho de Estado, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Encarregado interinamente dos da Fazenda, o que tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em três de Abril de mil oitocentos e vinte sete, sexto da Independência e do Império. (Rubrica do Imperador)/(as.)/Visconde de São Leopoldo/Cumpra-se, e registre-se, Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1827/(as.) Queluz. 

O documento deixa claro, pelo menos oficialmente, que os recursos provenientes para a aquisição vieram do Tesouro Público e não das reservas privadas do imperador, embora muitos afirmem que naquela época era difícil distinguir um do outro. O valor de cinco contos seria equivalente a quanto hoje? Bem, este que vos escreve tentou fazer um cálculo. No ano de 1860 um conto de réis comprava um quilo de ouro, portanto fazendo uma aproximação (apesar da diferença de mais de trinta anos em relação à data da compra) pode-se dizer que a aquisição custou o equivalente a cinco quilos do referido metal. Atualmente, cinco quilos de ouro valem mais de 700 mil reais. Nessa mesma época, um conto de réis equivalia ao que hoje é 123 mil reais segundo os sites especializados em conversão de valores monetários. Cinco contos de réis valeriam 615 mil reais. Portanto, não há muita dificuldade em estabelecer o valor do acervo egípcio em algo em torno dos 700 mil reais atuais. Na época era uma soma suficiente para a compra de um bom lote de escravos (aproximadamente oito indivíduos jovens e saudáveis). Um valor que justificou a permanência de Nicolau Fiengo no país até as prestações terem sido quitadas de forma integral. 



Mais tarde, a coleção foi ampliada pelo herdeiro do trono Dom Pedro II, que se tornou um autêntico egiptófilo (apaixonado pelo Egito Antigo). O gosto pelo assunto levou Pedro II a viajar para a terra dos faraós em duas oportunidades (na foto acima de 1872, D. Pedro II é o terceiro da direita para esquerda e sentado, diante da esfinge de Gizé). Numa delas, entre 1876 e 1877, o imperador recebeu do governante do Egito, o quediva Ismail, um presente bem original: um sarcófago lacrado! O mesmo continha uma múmia, atualmente identificada como sendo uma mulher de aproximadamente 50 anos, cujo nome era Sha-amum-em-su (que significa "os campos verdejantes de Amon"). 
Os desenhos e inscrições contidos no sarcófago revelaram algumas informações sobre essa mulher, como por exemplo, a atividade que exercia. No museu ela é conhecida como a "Cantora de Amon", pois em vida entoava cânticos sagrados no templo dedicado ao deus Amon em Karnak (antiga Tebas), tendo vivido por volta do ano 750 a.C.. Uma curiosidade envolvendo a sua mumificação (como se sabe, os egípcios preservavam o corpo do morto para que este pudesse desfrutar de uma vida além-túmulo) é a de que os responsáveis pelo procedimento procuraram preservar a sua garganta com uma bandagem de resina, a fim de que a cantora viesse a utilizar os seus dotes vocais na outra vida. No Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago nos Estados Unidos, encontra-se outra múmia de cantora-sacerdotisa de Amon, que também tem uma proteção na garganta. Segundo o professor Brancaglion Junior essa atividade poderia ter sido transmitida das mães para as filhas por várias gerações.



Tudo isso pode ser demonstrado a partir de uma tomografia computadorizada em 3 D (três dimensões) realizada em 2013 (acima, o corpo e uma sequência de imagens da "Cantora de Amon"). Tal procedimento permitiu uma analise detalhada da múmia sem que fosse necessário manusear a mesma, pois nesse caso haveria o risco de danificar essa importante relíquia do Museu Nacional. A tomografia também revelou a presença de vários amuletos no corpo da múmia, entre eles o escaravelho-coração, um símbolo associado à ressurreição dos mortos. O coração era visto pelos egípcios como o centro da inteligência e das emoções, daí a presença de um amuleto identificado a esse órgão do corpo. 


O sarcófago com a "Cantora de Amon" (na foto acima, detalhe do mesmo) permaneceu no gabinete de Dom Pedro II até a queda da monarquia em 1889, sendo posteriormente agregado ao acervo do Museu Nacional, que já mantinha as outras antiguidades egípcias adquiridas em 1827. 




A "Cantora de Amon" não foi a única peça da coleção egípcia do Museu Nacional a ser submetida à tomografia 3D em 2013. Múmias de gatos também foram examinadas (como o gato mumificado das fotos acima). O procedimento ajudou a desvendar um mistério na coleção adquirida por Dom Pedro I, a de uma múmia que estava catalogada como sendo de um recém-nascido, mas que na verdade era de um gato. A quantidade desses animais que foram embalsamados no Egito Antigo é bem superior à de seres humanos, uma vez que o gato era um animal sagrado e que representava a deusa da fertilidade Bastet. Ao mesmo tempo, o felino era útil na agricultura (atividade fundamental no Egito Antigo) espantando animais indesejados e roedores. Portanto, os mesmos também seriam necessários na outra vida, por isso a mumificação. Os gatos eram praticamente membros da família e matar um deles poderia significar um ato gravíssimo. 



O Museu Nacional dispõe de outras três múmias inteiras de adultos, duas de crianças e partes embalsamadas de corpos humanos, do lote original adquirido por D. Pedro I. Uma delas é a múmia Kherima, uma jovem que viveu já na fase em que o Egito passou para o controle do Império Romano, nos séculos I e II da era cristã (acima, em foto antiga com uma máscara mortuária que não pertenceu originalmente a essa múmia e o estado atual da mesma). Isso mostra como a cultura do Egito antigo manteve a sua permanência por mais de três milênios, mesmo quando a região começava a conhecer o cristianismo. Durante muito tempo imaginou-se que a múmia Kherima seria de uma princesa egípcia, mas hoje sabe-se que se trata de alguém do "nível intermediário" da sociedade. A mesma tem a peculiaridade de apresentar as pernas e os braços livres. Esses membros foram enfaixados separados do resto do corpo, sendo que apenas outras oito múmias no mundo receberam esse tratamento. 




O sarcófago do sacerdote Hori (também com a múmia) é outra preciosa relíquia do acervo e data de aproximadamente 1000 a.C. (acima, detalhes dessa peça). Proveniente de Tebas, as inscrições indicam que Hori herdou do pai os títulos de escriba, mordomo e responsável pelo harém real, tendo também se tornado sacerdote do deus Amon. 


Embora as múmias do Museu Nacional não pertençam a faraós ou príncipes, a confecção das mesmas seguia o padrão estabelecido para os nobres de modo geral (acima, uma cabeça mumificada pertencente ao Museu e sem a data definida). 



O cérebro era retirado pelas narinas, os demais órgãos vitais separados e guardados em recipientes conhecidos como canopos (como os que aparecem acima e que datam de aproximadamente 740 a.C.), a fim de serem também reutilizados na outra vida (estômago, pulmões, intestinos e fígado).


A coleção do Museu Nacional conta ainda ainda com tampas de caixão, máscaras mortuárias, vasos e estátuas (como a da jovem acima, com um cone de incenso sobre a cabeça e que data de 1450 a.C.), num total de aproximadamente 700 peças. 



Entre estas estão estatuetas funerárias conhecidas pelo nome de shabtis, das quais o museu dispõe de mais de 200 exemplares (como a que aparece na imagem acima, aproximadamente do ano 1000 a.C.). Tais objetos eram muito presentes nas tumbas e deviam cumprir tarefas de auxílio ao morto na vida além-túmulo (ver a postagem "A tumba do faraó Tutancâmon" neste blog). 



O acervo do Egito Antigo do Museu Nacional ainda contém inúmeras estelas funerárias (blocos de pedras com desenhos e inscrições). Em uma delas, conhecida pelo nome de Estela de Haunefer, que data de um período situado entre 1300 e 1200 a.C. (imagem acima, onde na parte superior temos a figura do deus Osíris sentado e da deusa Isis em pé), encontramos a primeira referência a um tipo específico de ofício existente no Egito dos faraós, o de "fabricante de colchas listradas".



Na estela de Senusret-Iunefer (imagem acima), proveniente de Abidos (próxima à cidade de Tebas) e datada do século XIX a.C. existe o registro mais antigo de uma palavra equivalente a "asiático" em uma fonte egípcia. 
O acervo do Egito antigo do Museu Nacional do Rio de Janeiro é uma referência importante para o estabelecimento de parcerias internacionais no estudo dessa importante civilização. Aqui, alunos e pesquisadores são formados nos cursos de mestrado e doutorado sobre Antiguidade Oriental tendo por base essa importante coleção, a qual ainda tem muito para nos revelar. E para os interessados em conhecer ou aprofundar a história dessa civilização, o mesmo se encontra ao alcance de um simples passeio à cidade do Rio de Janeiro. 

Para ver: 

O Museu Nacional (foto acima) dispõe de um importante acervo referente a pré-história, história, arqueologia, etnologia e antropologia, do Brasil e do mundo. Quando for ao Rio de Janeiro não deixe de visitá-lo. 
Onde: Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristovão, Rio de janeiro.
Horário: De terça a domingo, das 10 às 16 horas. De segunda das 12 às 16 horas. 
Ingresso: R$ 6 (inteira). 

Crédito das imagens:
Peças do Egito Antigo do acervo do Museu Nacional: 
http://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/arqueologia/egito-antigo/index.html
Quadro mostrando Napoleão diante da esfinge de 1868:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-L%C3%A9on_G%C3%A9r%C3%B4me_003.jpg
Quadro de D. Pedro I da Pinacoteca do Estado de São Paulo:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait_of_Dom_Pedro,_Duke_of_Bragan%C3%A7a_-_Google_Art_Project.jpg
Tomografia da múmia "Cantora de Amon" e do gato mumificado:
http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2014/02/pesquisa-revela-enchimento-especial-na-garganta-de-mumia-cantora.html
Foto de D. Pedro II visitando o Egito, da múmia Kherima, da cabeça mumificada e transcrição do documento de compra da coleção egípcia por D. Pedro I: O Antigo Egito. Biblioteca da História Universal Life. Livraria José Olympio Editora, 1969, páginas 99, 170 e 171 (documento transcrito).

domingo, 22 de abril de 2018

Imagens Históricas 34: Reconstituição do rosto de D. Pedro I




Como já divulgamos em uma postagem feita em 2012 ("Os Ossos do Imperador: A Exumação de D. Pedro I"), os restos mortais da família imperial brasileira foram exumados, incluindo-se o próprio imperador Pedro I, bem como as imperatrizes Leopoldina e Dona Amélia. Agora, seis anos depois, eis que temos uma primeira tentativa de reconstituição da face do nosso primeiro governante, feita a partir do crânio que foi examinado naquela oportunidade. E o que se obteve foi o de um rosto comum, muito embora não fosse de uma pessoa comum, bem longe daquilo que costumamos encontrar nos livros de história de modo geral (acima, o rosto e o crânio que serviu de base para a reconstituição). Evidentemente os artistas que reproduziam em quadros e esculturas as personalidades políticas da época, procuravam destacar a altivez e a importância dessas figuras, bem como dos cargos que ocupavam. Por exemplo, um príncipe representado em pintura ou escultura equestre (montados em cavalos) não significa necessariamente que fossem exímios cavaleiros e nem mesmo atesta que soubessem andar a cavalo. 


Raramente temos desenhos ou pinturas um pouco mais despretensiosos desses personagens. Porém, em alguns materiais iconográficos (reproduções do rosto) referentes a D. Pedro I notamos alguma semelhança com a reconstituição facial feita agora, sobretudo em relação ao fato desta última apontar para um rosto mais volumoso e "cheio", algo que o aproxima de certa forma de seu pai, o rei D. João VI de Portugal. Nos desenhos de Jean Baptiste Debret por exemplo, que integrou a Missão Artística Francesa de 1817, sendo portanto contemporâneo dos dois personagens históricos, isso é perceptível (como mostra um trabalho de Debret reproduzido acima, com o rei D. João e o filho D. Pedro respectivamente da esquerda para a direita). 
De qualquer forma, essa reconstrução facial ainda é um trabalho preliminar e que necessita de um maior aprofundamento técnico para podermos tirar conclusões definitivas. O trabalho atual foi realizado por meio de um projeto do advogado José Luis Lira da Universidade Estadual Vale do Aracaú no Ceará, o qual adquiriu os direitos da foto do crânio exumado em 2012. O mesmo foi feito com autorização da Família Imperial e dos descendentes do imperador. 
Crédito das imagens:
Rosto reconstituído e crânio:
https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2018/04/22/reconstituicao-mostra-verdadeiro-rosto-de-d-pedro-i-com-fratura-no-nariz.htm#fotoNav=5
Desenhos de Debret: 
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-Baptiste_Debret_-_Retratos_de_D._Jo%C3%A3o_VI_e_D._Pedro_I.jpg

terça-feira, 17 de abril de 2018

Como era e como está: o Circo Máximo de Roma



Caro leitor, o blog História Mundi inaugura uma nova seção: como era e como está. A mesma insere-se dentro da nossa proposta de estimular o interesse pela história trazendo assuntos e fatos curiosos, que ajudem a desenvolver o gosto por essa disciplina. Nesta seção iremos buscar exemplos da cultura material dos antigos povos, principalmente na arquitetura (mas não apenas) e mostrar como se encontram hoje, mesmo que tenhamos apenas vestígios daquilo que foram em épocas passadas. O primeiro exemplo que traremos aqui é o do Circo Máximo (em latim Circus Maximus), localizado na antiga cidade de Roma (na imagem acima, maquete com a reconstituição do mesmo). Originalmente era um espaço de entretenimento com uma pista para corridas em formato quase oval. A mesma media aproximadamente 621 metros de comprimento por 118 metros de largura. No seu auge podia receber uma platéia de até 150 mil espectadores, tornando-se modelo para vários outros circos construídos nas demais cidades do Império Romano. 
O complexo do Circo Máximo foi resultado da evolução de uma antiga arena, cujo uso remonta ao período em que Roma era uma cidade-estado governada por reis, entre 753 a.C. e 509 a.C. (fase da Monarquia), sendo um espaço reservado para jogos e espetáculos. Os mesmos eram promovidos por cidadãos ricos (patrícios e plebeus enriquecidos), líderes políticos e pelo Estado nos tempos posteriores, tendo por finalidade entreter a população, homenagear os deuses ou mesmo para festividades privadas. 
Com a expansão territorial de Roma na fase da República (509 a.C. a 27 a.C.) os jogos ganharam requintes de grandes espetáculos, ocupando 57 dias do ano, incluindo as famosas lutas de gladiadores. As guerras de expansão forneciam escravos, dos quais alguns eram selecionados para se apresentarem nos espetáculos. Tradicionalmente situa-se aí o objetivo do Estado romano de distrair a plebe pobre para evitar revoltas, com a política do panis et circensis ("pão e circo"). Muitos historiadores contestam hoje a efetividade dessa política, a qual pressupõe a existência de uma plebe excessivamente submissa e passiva, uma visão preconceituosa sustentada pela antiga aristocracia romana. 
De qualquer forma, no século I da nossa era (no período dos imperadores), o interesse pelos jogos fez surgirem arenas especializadas, como o famoso Coliseu voltado para os espetáculos de lutas, as caçadas de animais e também os estádios, forma de construção trazida da Grécia destinada aos jogos atléticos e desportivos, cujo exemplo mais importante em Roma foi o Estádio de Domiciano. Por isso, o Circo Máximo ficou voltado para as corridas de quadrigas (veículos puxados por quatro cavalos), embora fosse utilizado eventualmente para procissões religiosas e caçadas. Para comportar todos esses eventos nas várias arenas, os jogos passaram a ocupar 135 dias ao ano. 



O Circo Máximo estava situado em um pequeno vale entre os montes Palatino e Aventino (na maquete acima, as duas elevações respectivamente no lado esquerdo e no lado direito), numa antiga área agrícola cortada por um córrego. Os historiadores acreditam que as primeiras competições ocorriam em meio a uma paisagem rural e a única referência visível (além da pista) eram os marcos de virada ou metas, na verdade três pilares cônicos, os quais podem ter sido as primeiras estruturas permanentes do Circo. 


Na ilustração acima de 1649, vemos uma representação aproximada do Circo Máximo. A arena era constituída por uma pista de areia tendo na parte central a spina (literalmente "espinha") que separava as duas faixas, com as metas sinalizadoras da virada nas suas extremidades. Também na spina encontramos dois obeliscos, sendo o maior deles, bem ao centro, conhecido pelo nome de Obelisco Laterano (trazido do Egito no século IV e que remonta ao tempo do faraó Tutmés III). O monumento ainda se encontra em pé na cidade de Roma, próximo ao Palácio de Latrão, daí o nome Obelisco Laterano. 



Em uma das extremidades do Circo (imagem acima à esquerda) ficavam as baias de partida ou carceres, construídas no final do século IV a.C. e posteriormente ampliadas, com doze baias que comportavam um número equivalente de carruagens de competição. Desse local, os competidores saiam para a volta de apresentação e a corrida propriamente dita. 




Para que o leitor tenha uma ideia mais precisa de como eram realizadas as corridas, nas duas imagens acima temos a reprodução de um mosaico do século III da nossa era, proveniente da província da Gália (atual França) que reproduz uma competição de quadrigas. Um agitator ficava na pista para estimular os competidores (imagem inferior à direita) enquanto que um sparsor atirava água nas rodas fumegantes das quadrigas (imagem superior à esquerda). Os cavaleiros solitários que aparecem na cena eram reguladores da marcha. Na spina ainda podem ser observados os marcadores das voltas, num total de sete, onde a cada volta completada um funcionário virava um dos golfinhos (que vertia água) e tirava um ovo de uma trave (esses marcadores aparecem nas duas imagens acima). No centro da spina dois indivíduos seguravam a palma do vencedor e a coroa de louros da vitória (imagem inferior, lado esquerdo). 



Os competidores não apenas apresentavam-se conduzindo os veículos, mas também em jogos de equilíbrio, saltando de um cavalo para outro ou ainda recolhendo estandartes espalhados pela pista (no mosaico acima proveniente da Espanha, uma quadriga onde temos inclusive o nome do vencedor: Eridanus). Os mesmos chegavam a adquirir prestígio e riqueza, caso conseguissem se manter em atividade e obter vitórias, exatamente como mostrado no filme "Ben-Hur"(ver a postagem "Ben-Hur: Uma história da época de Jesus Cristo").



No alto relevo acima, temos uma reprodução de uma corrida no próprio Circo Máximo, onde podemos observar um competidor (ao centro), um menino (sparsor) que joga água nas rodas da quadriga e outro montado a cavalo ditando o ritmo da competição (ambos na direita da imagem). Um magistrado posicionado para dar o sinal de partida (na esquerda) e ao fundo a spina onde aparece um obelisco e os marcadores de voltas. 
Em várias oportunidades o Circo Máximo recebeu ampliações e reformas, como por exemplo no ano 50 a.C., quando Júlio César aumentou as arquibancadas, as quais eram separadas da pista por um fosso, que protegia o público e também drenava as águas da chuva. Evidentemente havia locais privilegiados para os espectadores acompanharem as provas (da mesma forma que nas corridas de Fórmula 1 dos tempos atuais), como a seção frontal situada na reta principal (pulvinar), que era reservada aos senadores e construída no tempo do imperador Augusto (27 a.C.- 14 d.C.). As fileiras de arquibancadas mais distantes (dois terços do total) eram ocupadas pelos plebeus (cidadãos livres). No lado externo do Circo existiam galerias onde funcionavam lojas, oficinas artesanais e até casas de prostituição.  Após o incêndio de Roma no ano 64 d. C., o imperador Nero promoveu reparos no Circo Máximo e no ano 81 d. C. foi erguido um arco em uma das extremidades do Circo (do lado oposto ao dos carceres) para a entrada dos desfiles e procissões. O conjunto adquiriu o seu formato mais conhecido durante o governo do imperador Trajano no início do século II. 
Com a ascensão do cristianismo como religião do Estado Romano os jogos foram perdendo importância e popularidade, sobretudo as lutas de gladiadores. Até o século VI consta terem sido realizadas caçadas a animais e corridas, já na fase em que a Itália foi ocupada pelos bárbaros ostrogodos, após o desaparecimento do Império Romano do Ocidente. No final desse mesmo século o Circo Máximo foi abandonado e toda a sua estrutura foi dilapidada, sobretudo para o aproveitamento das pedras como material de construção. No século XVI o local foi utilizado como mercado. 



Os níveis inferiores e a pista propriamente dita sofreram com as inundações constantes (lembremos que era uma área de baixada), o acúmulo de terra e detritos. Calcula-se que o piso original da pista esteja a mais de cinco metros de profundidade, fato que tem criado dificuldades para a realização de escavações arqueológicas (na foto acima, o local do Circo Máximo no início da década de 1970). 



Mesmo assim, restos da antigas estruturas estão sendo recuperados. Em 2016 uma parte das ruínas escavadas foi aberta ao público (como mostra a foto acima). 



Hoje a área é um parque localizado no centro da cidade de Roma (na foto acima, o antigo Circo Máximo em 1978), muito utilizado para shows e mesmo manifestações públicas, como ocorreu durante as comemorações da conquista da Copa do Mundo pela Itália em 2006. Um belo local de passeio e excelente ponto de partida para se conhecer as ruínas da Roma Imperial...
Crédito das imagens:
Todas as imagens referentes à maquete do Circo Máximo de autoria do arquiteto Italo Gismondi, que se encontra no Museu da Civilização Romana, foto do Circo no início da década de 1970 e alto relevo com cena de corrida: Roma dos Césares. Bonechi-Edizioni "Il Turismo", Firenze, Itália, 1974, páginas 81, 83, 84, 85 e contracapa. 
Mosaico da Gália com ilustração de uma corrida de quadrigas. Roma Imperial. Biblioteca de História Universal Life. Livraria José Olympio Editora, 1969, páginas 58 e 59. 
Ilustração do Circo Máximo de 1649 e foto do Circo de 1978: Wikipédia. 
Mosaico proveniente da Espanha com a quadriga vencedora: História da Arte. Tomo 2. Salvat Editora, 1978, página 318. 
Antigas estruturas recuperadas em 2016:
https://istoe.com.br/parte-do-antigo-circo-maximo-de-roma-e-restaurada-e-aberta-ao-publico/

quinta-feira, 12 de abril de 2018

História Mundi na revista Leituras da História




Na edição deste mês (abril) a revista Leituras da História traz duas cartas comentando as matérias assinadas por este que vos escreve e publicadas no mês de março: "Peripécias Brasileiras" e "Visão do Futuro?". Uma delas foi escrita por uma ex-aluna minha, Andréa Novaes e a outra pela leitora Alana Cruz, às quais agradeço a atenção e a leitura dos dois textos publicados. 


Além disso, a edição deste mês ainda traz uma matéria sobre Tiradentes (tema da capa, na imagem acima) e um ótimo texto assinado por Morgana Gomes sobre o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) em plena ditadura militar no Brasil. O mesmo traz informações importantes sobre um aspecto pouco lembrado (sobretudo agora) desse período: a corrupção. Na verdade, a ditadura militar foi o "berçário" de muitos casos de propina e desvio de verbas de obras públicas, que acabaram se tornando "práticas corriqueiras" até hoje. Várias construtoras atualmente envolvidas nesses casos já atuavam nesse período e foram alavancadas por grandes obras, como a construção da ponte Rio-Niterói, estradas, hidrelétrica de Itaipu e estádios de futebol, entre outras obras do governo militar. Além disso, figuras públicas "carimbadas" nesses escândalos começaram a ganhar espaço também nessa época. É o caso de Paulo Maluf, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Por isso, recomendo muito essa leitura...

terça-feira, 3 de abril de 2018

Ben-Hur: Uma história da época de Jesus Cristo




Da época de Jesus Cristo? Sem dúvida, o personagem nos remete a esse tempo. Porém, se levarmos em conta a trajetória do responsável por sua criação avançaremos a trama em quase dois mil anos! Ben-Hur não é uma figura real e muito menos bíblica, mas fruto do romance do mesmo nome escrito pelo advogado, estadista, diplomata e general do Exército norte-americano Lewis (ou simplesmente Lew) Wallace, publicado em 1880. Poucas pessoas prestam atenção aos créditos exibidos nas versões para o cinema (além de uma minissérie para a televisão) para perceber esse detalhe (como nas imagens acima, na abertura da versão de 1959). Na época em que foi lançado, o livro superou em vendas o então best-seller "A Cabana do Pai Tomás" de Harriet Beecher Stowe, inspirando ainda outras novelas, sendo levado aos palcos da Broadway em Nova Iorque e mais tarde ao cinema. Ben-Hur permaneceu como um grande exito do mercado editorial norte-americano até o lançamento de "E o Vento Levou" da escritora Margaret Mitchell em 1936, ganhando inclusive as bençãos do papa Leão XIII, sendo a primeira obra literária a receber tal louvor. A versão cinematográfica de 1959 celebrizou de vez a figura heroica de Ben-Hur, sobretudo em função do exito nas bilheterias e do grande número de premiações que recebeu, totalizando 11 Oscars (recorde que atualmente divide com "Titanic" de 1997 e "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" de 2003) incluindo o de melhor filme. Mas, para entender a origem do judeu convertido ao cristianismo Judah Ben-Hur, temos de nos remeter ao seu criador, ou seja, ao próprio general Lew Wallace, muito lembrado por sua atuação na Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865) e também como governador do estado do Novo México. 



Lew Wallace (foto acima com aproximadamente vinte anos) nasceu em 1827 no estado americano de Indiana, sendo o segundo filho (de um total de quatro) do casal David e Esther Wallace. O pai de Lew graduou-se na conhecida Academia Militar de West Point e seguiu posteriormente a carreira política como governador daquele estado. Em 1834, com apenas sete anos, Lew Wallace perdeu a mãe vítima de tuberculose (já tinha perdido também um irmão que sofria de escarlatina). Dois anos mais tarde, o pai casou-se novamente e após ser eleito governador a família mudou-se para a capital do estado, Indianápolis. Aos seis anos, Wallace iniciou a sua educação formal e mostrou inclinação para o desenho, pintura e também para a leitura, mas era indisciplinado. Na verdade, o jovem não gostava de ficar preso em uma sala de aula e detestava matemática. Depois de passar por várias escolas, o pai exigiu que fosse ganhar o próprio sustento e aos dezesseis anos Lew Wallace conseguiu trabalho em um escritório, como copista de documentos. Posteriormente, começou a estudar Direito (na época o indivíduo estudava por conta própria até prestar um exame para obter a licença e advogar) quando em 1846 estourou a guerra entre Estados Unidos e México. Sim caro leitor, o conflito que resultou na perda de um terço do território mexicano. Vastas regiões que incluíam o que hoje é o Texas (causa maior da guerra), Novo México, Arizona, Utah, Colorado, Nevada, Califórnia passaram para o controle do governo norte-americano. Lew Wallace, que mais tarde tornou-se governador de um desses territórios, alistou-se no conflito em um corpo de voluntários e alcançou o posto de segundo-tenente. 



Após essa guerra, Wallace retornou ao seu estado natal e conseguiu tornar-se advogado. Em 1852 casou-se com Susan Arnold Elston, filha de um rico comerciante. O casal teve apenas um filho, nascido no ano seguinte (na foto acima, Lew e seu filho Henry Lane Wallace em 1853). A família mudou-se para Crawfordsville no mesmo estado, cidade em que Lew Wallace viveu até o final de sua vida, inicialmente trabalhando como advogado e atuando também na política estadual, elegendo-se para o Senado (assembléia legislativa) de Indiana. Wallace foi um ardoroso defensor da União contra a ameaça de separação por parte dos estados do sul, apesar de não ser inicialmente favorável ao fim da escravidão. Em função disso, deixou o Partido Democrata e filiou-se ao Partido Republicano. O confronto entre ianques (nortistas) e confederados (sulistas) estourou logo após a eleição de Abraham Lincoln em 1861, que representava os interesses econômicos e empresariais do norte contra os grandes fazendeiros escravocratas do sul. 



Com o início da Guerra Civil, Lew Wallace (na foto acima, na época da guerra) passou a se dedicar à carreira militar em tempo integral, auxiliando no recrutamento de voluntários. Como recompensa por sua ajuda recebeu o comando do 11º Regimento de Infantaria Voluntária do Estado de Indiana, que se reuniu ao Exército da União em abril de 1861, obtendo de imediato a patente de coronel. Nos primeiros meses do conflito o novo oficial foi bem sucedido nas operações militares, sendo promovido a general de brigada no mesmo ano. Em fevereiro de 1862, Wallace atuou com iniciativa e ousadia na tomada do Forte Donelson, o que lhe valeu outra promoção para general de divisão, com apenas 34 anos de idade.  



Contudo, um episódio controverso envolveu Lew Wallace com um dos grandes comandantes do Exército da União e futuro presidente dos Estados Unidos, o general Ulysses Grant (na foto acima, o oficial em 1864) na Batalha de Shiloh, no Estado do Tennessee. O general Grant ordenou a Wallace que avançasse rapidamente com os seus homens para atacar os confederados pelo lado esquerdo. Contudo, Wallace chegou muito tarde ao campo de batalha, o que foi atribuído a uma má interpretação das ordens dadas por Grant, questão que durante muitos anos permaneceu em aberto. 



O fato concreto é que o seu atraso comprometeu o desempenho do exército ianque causando um grande número de baixas (quase 24 mil entre mortos e feridos), apesar da vitória ter sido alcançada (na imagem acima, pintura reconstitui a Batalha de Shiloh). O governo do presidente Lincoln foi pressionado a dar uma explicação sobre o episódio e Ulysses Grant, tendo questionada a sua atuação no comando (chegou a ser acusado de estar embriagado durante os combates) transferiu a responsabilidade para o general Wallace. Em função disso, Lew Wallace foi afastado do teatro de operações militares por quase dois anos. Somente em março de 1864, o presidente Abraham Lincoln atribuiu a ele um comando na cidade de Baltimore (Estado de Maryland) e a partir dessa posição, Wallace retardou um avanço confederado que colocava em risco o controle da capital (Washington) pelo Exército da União, reabilitando-se como general. Mas o caso Shiloh permaneceu como uma ferida no seu currículo militar. No transcorrer do tempo Wallace minimizou as controvérsias por meio da revelação de testemunhos e cartas escritas antes da batalha, uma vez que as ordens originais se perderam. Os debates chegaram até a imprensa e acabaram levando o General Grant a se retratar em 1885, vinte e três anos depois! Muitos creem que tal episódio influenciou na criação do personagem Judah Ben-Hur, uma vez que no livro o mesmo também lutou para ter a sua honra restaurada. Após o encerramento da Guerra Civil que acabou levando a vitória da União, o general Lew Wallace continuou prestando serviços ao Exército nos territórios do sul. 



Em 15 de abril de 1865 o presidente Abraham Lincoln foi assassinado pelo sulista John Wilkes Booth, insatisfeito com a derrota dos confederados na guerra. Wallace foi chamado para fazer parte da Comissão Militar que investigou o crime (na foto acima a comissão, com Lew Wallace sendo o segundo da direita para a esquerda e sentado). 



Durante os interrogatórios Wallace pode exercitar os seus dotes artísticos, desenhando o rosto de vários acusados (acima o Dr. Samuel Mudd e George Atzerodt no traço de Lew Wallace). Tais desenhos serviram de esboço para um quadro pintado mais tarde. Ainda em 1865, o general Wallace deixou o Exército Norte-Americano para auxiliar o líder mexicano Benito Juarez que lutava para derrubar o governo do imperador Maximiliano, imposto pelos franceses. Segundo algumas fontes, Wallace foi intermediário no fornecimento de armas aos mexicanos e ainda lucrou com isso. 



De volta aos Estados Unidos, o agora ex-general dedicou-se à política, principalmente na campanha para a eleição do presidente Rutherford Hayes em 1876. Em retribuição ao seu apoio, Wallace foi nomeado governador do território do Novo México, onde serviu de 1878 a 1881, encontrando a região numa condição típica dos filmes do velho oeste: sem lei e sem ordem! Os índios apaches estavam tendo as suas terras conquistadas, resistindo ao avanço dos grandes fazendeiros e criadores de gado (na foto acima, Lew Wallace como governador). 



Além disso, no Condado de Lincoln ocorria uma guerra que envolvia aliados de duas facções rivais de fazendeiros, comerciantes e até banqueiros (na foto acima, vaqueiros e rancheiros do Condado de Lincoln). Para tentar pôr fim ao conflito, o governador Wallace estabeleceu mandados de prisão para vários envolvidos em atentados e assassinatos. Um deles era um jovem chamado William H. Bonney, mais conhecido como Billy the Kid, com o qual o governador se encontrou pessoalmente. Wallace desejava que Kid fosse testemunha no caso do assassinato de um advogado. Billy the Kid concordou, desde que recebesse uma proteção contra os seus inimigos e o perdão pelos seus delitos, inclusive os anteriores aos conflitos no Condado de Lincoln. O jovem se entregou e cumpriu a sua palavra, mas não recebeu o perdão. Ao perceber que a promessa não seria cumprida, Billy the Kid fugiu da prisão.


O governador estabeleceu uma recompensa de 500 dólares por sua captura (na imagem acima, o anúncio original). Em 1881, Billy the Kid (com apenas 21 anos) foi morto pelo delegado Pat Garret, em condições que não foram bem esclarecidas. Antes de morrer, Kid trocou cartas com o governador Wallace e cobrou o cumprimento do acordo. A alegação mais comum é de que a justiça não concordou em atribuir o perdão a Billy the Kid. Ao que parece, o governador Lew Wallace também não se empenhou em honrar o que havia prometido. A polêmica em torno do caso perdura até hoje. Em 2010, o governo do Novo México negou a Kid um pedido póstumo de perdão. 



Lew Wallace aproveitou a sua estada à frente do governo territorial para concluir os escritos de sua obra mais conhecida: "Ben-Hur" (na imagem acima, os originais). 



No Palácio dos Governadores de Santa Fé (foto acima) o livro foi concluído e lançado ainda quando o autor ocupava o posto de governador, em 1880. No ano seguinte, Wallace foi designado como diplomata junto ao Império Turco Otomano em Constantinopla (hoje Istambul). Lá estabeleceu uma grande amizade com o sultão Abdul Hamid II, além de viajar até a Terra Santa (Jerusalém) e a Síria (territórios que faziam parte do Império Turco). Wallace declarou mais tarde que o fato de ter estado no Oriente Médio em nada acrescentaria ao que já tinha escrito em "Ben-Hur", embora a viagem o tenha ajudado a preparar um novo trabalho: "O Príncipe da Índia ou Porque Constantinopla Caiu".


De volta aos Estados Unidos em 1885, Lew Wallace teve uma surpresa ao descobrir que as vendas de "Ben-Hur" estavam indo muito bem, a ponto de torna-lo um homem rico! Em 1886 ele recebeu US$ 11.000 pelos direitos da obra (equivalente a US$ 290.000 em valores de 2015) e teve a sua reputação como escritor consolidada. No final do ano de 1899, a editora Harper & Brothers estimou em 400 mil a quantidade de exemplares que já haviam sido vendidos. O livro (na imagem acima, a capa da primeira edição) estava sendo traduzido para vários idiomas e naquele mesmo ano era adaptado para o teatro.


Com o dinheiro arrecadado pelas vendas de "Ben-Hur", Lew Wallace pode ampliar a sua casa em Crawfordsville no estado de Indiana, construindo um estúdio anexo, tendo o projeto sido feito por ele mesmo (na foto acima, Wallace em seu estúdio). Em 1898 adquiriu uma fazenda nos arredores e em 1902 comprou um automóvel, o segundo a circular na cidade. Atualmente a casa é um museu e está aberta à visitação. Ao todo, Wallace publicou dez livros (entre romances, biografias e peças para teatro) e escreveu uma autobiografia, completada depois de sua morte pela esposa Susan. Lew Wallace faleceu em sua casa em 15 de fevereiro de 1905, vítima de câncer no aparelho digestivo. 


Segundo o próprio Wallace, o ponto de partida para "Ben-Hur" surgiu de uma conversa que ele manteve com o coronel Robert Ingersoll (também veterano da Guerra Civil e que aparece na foto acima) durante uma viagem de trem em 1876. Ingersoll era um conhecido político e conferencista que defendia o agnosticismo, visão segundo a qual a razão humana é incapaz de justificar a existência ou não de Deus. No encontro, Ingersoll criticou o conteúdo da Bíblia por considera-lo inverossímil e sugeriu a Lew Wallace que escrevesse um livro para discutir a questão. Este não professava nenhuma religião (embora tivesse uma formação cristã), mas resolveu pesquisar por conta própria o assunto. Wallace pensou em um livro sobre Jesus Cristo para provar que ele "jamais teria vivido sobre a Terra". Porém, na medida em que aprofundava o seu estudo, o escritor passou a vê-lo como um personagem histórico, sentindo-se atraído por sua figura, a ponto de afirmar: "abri totalmente o meu coração a ele". O livro acabou se transformando em um romance histórico que se passava nos tempos de Cristo. A inspiração veio também das obras de outros autores conhecidos por Wallace, entre eles Sir Walter Scott (autor de "Ivanhoé") e Alexandre Dumas (autor de "O Conde de Monte Cristo").



"Ben-Hur" se passa nos territórios da Palestina e da Síria durante a ocupação romana no início do século I (na imagem acima, cabeça do imperador Tibério). Os primeiros capítulos descrevem os magos guiados por uma estrela através do deserto até a pequena Belém, a fim de acompanharem o nascimento de Jesus. Alguns anos depois em Jerusalém, dois adolescentes que foram amigos de infância se reencontram, o personagem principal Judah Ben-Hur, judeu de origem aristocrática e o romano Messala, também de origem nobre.



Messala demonstrou ambicionar a carreira militar e ofereceu ao amigo participação na sua futura ascensão dentro da hierarquia imperial. Mas o judeu manteve-se fiel ao seu patriotismo e à sua religião (acima, uma maquete do segundo templo de Jerusalém construído pelo rei Herodes, o Grande). Ben-Hur decide afastar-se de Messala, quando um incidente envolve os seus familiares durante a chegada do novo procurador romano (enviado do imperador) para a região, Valerius Gratus. Acidentalmente uma telha quebrada caiu da cobertura da casa do judeu e atingiu a autoridade, colocando a família sob suspeita de atentado. Ben-Hur é condenado às galés (navios) como remador. Sua mãe Miriam e sua irmã Tirzah são colocadas em um calabouço. A fortuna da casa de Hur é confiscada pelas autoridades romanas. Messala tinha consciência da inocência do antigo amigo, mas via na punição um exemplo para os que desafiassem a autoridade de Roma. 


Ben-Hur sobreviverá por três anos nas galés, até salvar o cônsul Quintus Arrius em uma batalha naval, a qual teve um resultado positivo para os romanos (na ilustração acima, soldados romanos lançam uma ponte de abordagem sobre um barco inimigo). Em retribuição, Arrius adotou-o como filho e herdeiro de sua fortuna. Na condição de cidadão romano, Ben-Hur retornou à sua terra de origem, em busca de notícias de seus familiares e alimentando a vingança contra Messala. 



Para isso, aprendeu a arte miliar dos romanos durante os cinco anos em que viveu na Itália, além de familiarizar-se com as lutas e disputas no circo. Com a ajuda do sheik Ilderim, um criador e treinador de animais para competição, Ben-Hur enfrentará Messala em uma corrida de quadrigas (veículos puxados por quatro cavalos, como na imagem acima, de um mosaico romano localizado na Espanha). 



O palco será o hipódromo de Antioquia, a mais importante cidade romana no Oriente Médio (mostrada acima em um mapa do século IV copiado na Idade Média), designada no livro como a "Rainha do Oriente" (atualmente, Antioquia pertence à Turquia). Lá Ben-Hur reencontra Simonides, um fiel amigo de seu pai e conhece Balthasar (um dos magos), que lhe falará a respeito da chegada de Jesus. 



A corrida de carros acontece e Messala é derrotado, sofrendo um grave acidente e ficando impossibilitado de voltar a andar. Contudo, o romano sobrevive (na imagem acima, uma reconstituição do hipódromo de Antioquia, tendo ao centro a "espinha" que divide as pistas). 



Messala perdeu a sua fortuna nas apostas e se viu arruinado (no alto relevo acima, corredores contornam a "espinha" no centro de um hipódromo). Por sua vez, Ben-Hur consegue localizar sua mãe e sua irmã. Ambas são protagonistas dos milagres de Jesus Cristo e curadas da lepra. Ao final, o nobre judeu torna-se um cristão convertido, que passou a divulgar a palavra de Jesus. Ora, até aqui nada de muito diferente do que vimos nas versões para o cinema da obra de Lew Wallace.
Judah Ben-Hur ambicionava algo mais do que a vingança contra Messala. O personagem pretendia um levante militar contra Roma e tentou arregimentar soldados da região da Galileia, onde viveu Jesus, para uma possível "revolução" (palavra utilizada no livro). O autor faz referência ao partido dos zelotes, os quais estimulavam a rebelião contra os romanos e que aguardavam o Messias (enviado de Deus) libertador. Ben-Hur via inicialmente o novo "Rei dos Judeus" dentro da tradição guerreira de David e Salomão, embora não fosse um zelote. 


Como se sabe, não era essa a proposta de Jesus, pois a emancipação deveria ocorrer no plano espiritual (na imagem acima, detalhe do rosto do Cristo em uma pintura de Hieronymus Bosch). Ben-Hur percebeu tal ideia ao ouvir com atenção o que lhe dizia Balthasar, o qual criticou "a condição decaída dos homens" e a "perda de conhecimento de Deus". Para reverter isso só haveria um caminho, que o próprio Deus providenciasse a vinda de um Salvador. A Redenção da humanidade não ocorreria por meio da derrubada de líderes ou de poderes, mas pela "Salvação das Almas"! Lew Wallace utiliza o personagem Balthasar como forma de expor os princípios daquilo que acreditava ser o cristianismo. Em uma passagem do romance, o mesmo disse a Ben-Hur: "Você está indo ao encontro de um rei de homens; e eu de um Salvador de Almas". A necessidade de um Salvador era maior do que a necessidade de um rei. Não é por outra razão que muitos consideraram a obra de Lew Wallace como uma síntese das Sagradas Escrituras e um livro propício à divulgação do ideal cristão. 
O personagem Ben-Hur também tem os seus sentimentos divididos entre duas mulheres, a sensual Iras (filha de Balthasar) e uma jovem adolescente (de apenas 15 anos) chamada Esther, de temperamento puro e apegada ao pai Simonides. 



À medida que reflete a respeito do significado da mensagem de Jesus, Ben-Hur também será despertado para as reais intenções de Iras, até descobrir que a mesma associara-se a Messala (nas imagens acima, mosaico proveniente de Antioquia tendo no detalhe o hipódromo e à esquerda a Fonte de Dafnes, local onde Ben-Hur encontrava-se com Iras). Iras chegou a atrair o judeu para uma armadilha que poderia ter sido fatal, caso Ben-Hur não tivesse aprendido a lutar como um romano. A rivalidade entre Ben-Hur e Messala é o fio condutor da história tendo o nascimento do cristianismo como pano de fundo. O sentimento de vingança é o pretexto que o autor utiliza para divulgar a doutrina cristã, apresentada como oposta a esse desejo e o verdadeiro caminho a ser seguido. Alguns chegaram a perceber na obra um conteúdo antissemita (aversão aos judeus), uma vez que o personagem Ben-Hur que era judeu se converte à nova religião. Uma recomendação aos imigrantes israelitas que chegavam aos Estados Unidos no final do século XIX, de que esta poderia ser uma boa alternativa? Uma questão ainda controversa.
De modo geral, a ambientação que Lew Wallace fez do Império Romano no início do século I pode ser considerada bem satisfatória, sobretudo se levarmos em consideração as possibilidades para a pesquisa apresentadas na época em que a obra foi escrita (entre 1876 e 1880). Muito provavelmente recorreu a autores da própria Antiguidade (Tácito, Suetônio e Flavio Josefo entre outros), bem como a estudos a respeito da natureza e da geografia do Oriente Médio. E claro, tendo os quatro Evangelhos como referência fundamental (Mateus, Marcos, Lucas e João) sobretudo ao descrever os passos de Jesus Cristo. 



A descrição das corridas de quadrigas está de acordo com o que se conhece sobre as mesmas (na imagem acima, placa de terracota do século I mostra o corredor contornando uma "espinha", tendo à frente um cavaleiro que dita o ritmo da corrida). 



Como já assinalamos, aspectos da própria trajetória de Lew Wallace podem ser observados, como a sua luta pessoal contra a calúnia e a difamação advindas do episódio da Batalha de Shiloh (na ilustração acima, Lew Wallace aparece na capa de uma revista em 1886). Por sua vez, ao apresentar alguns dos personagens do livro, Wallace parece ter como referência figuras que conheceu no oeste norte-americano. Por exemplo, o sheik Ilderim descrito como proprietário de verdadeiros rebanhos (de camelos, cavalos e outros animais) nos lembra os "barões do gado" do Novo México, entre eles John Chisum (também envolvido no conflito do Condado de Lincoln). 
Alguns dos personagens bíblicos incluídos na obra de Lew Wallace, além de Jesus Cristo foram José; Maria; o rei Herodes, o Grande; Pôncio Pilatos e um dos magos, Balthasar. No Evangelho de Mateus os magos não são descritos como reis e nem tem os seus nomes mencionados, algo que foi estabelecido na tradição cristã dos séculos seguintes. "Mago" pode perfeitamente ter o significado de sábio ou mestre, bem diferente de ser um rei! Portanto, Balthasar teve a sua vida romantizada no livro e ainda com a inclusão de uma filha, Iras. 


 

A obra "Ben-Hur: Uma história dos tempos de Cristo" foi adaptada para o teatro e teve a sua estréia na Broadway em Nova Iorque, no dia 29 de novembro de 1899, sendo encenada 194 vezes em sua primeira temporada (na imagem acima, o cartaz da peça). 


A sequência da batalha naval foi reproduzida no palco, como também a corrida de quadrigas encenada com oito cavalos que corriam sobre esteiras, tendo um cenário panorâmico rodando ao fundo (como mostra a ilustração acima). Numa das apresentações, uma falha nas esteiras acabou levando à vitória da quadriga de Messala. O espetáculo continuou como se Ben-Hur fosse o vencedor! Um dos cavalos utilizados na peça chamava-se Monk e era de propriedade do próprio Lew Wallace. Posteriormente, mais quadrigas foram sendo acrescentadas ao espetáculo. 



A peça durava três horas e vinte e nove minutos, mas lotou o teatro em todas as apresentações e foi encenada durante vinte anos não consecutivos, pois excursionou por outros centros, como Boston, Filadélfia, Baltimore e Chicago (na foto acima, da esquerda para a direita o ator William Hart como Messala e William Farnum como Ben-Hur). 



Mais de vinte milhões de espectadores viram a encenação até o ano de 1920, quando o espetáculo foi encerrado (na foto acima, a reprodução no palco dos remadores dentro de uma galé). A peça atraiu integrantes de várias igrejas, principalmente do ramo protestante e muitos pastores organizaram excursões para assistir as apresentações ao lado dos fiéis. 
Claro, as versões cinematográficas tornaram a história ainda mais famosa. A primeira data de 1907 (durava apenas 15 minutos) e gerou atritos com os herdeiros do escritor em relação a direitos autorais. Em 1925 a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) produziu uma versão em grande escala e que ajudou a propagar a fama do estúdio como um dos maiores de Hollywood ainda nos tempos do cinema mudo. 


Sem dúvida, a versão de 1959 do mesmo estúdio é a mais conhecida (na foto acima, da esquerda para a direita, Stephen Boyd como Messala e Charlton Heston como Ben-Hur). O seu roteiro embutiu uma relação homoafetiva entre os personagens Ben-Hur e Messala, algo que só foi revelado anos depois pelo escritor Gore Vidal (um dos roteiristas, mas que não recebeu os créditos). Em 2010 tivemos uma minissérie para a televisão e em 2016 uma versão nova para o cinema (com o brasileiro Rodrigo Santoro vivendo Jesus). Em 2003 foi produzido um desenho animado, com Charlton Heston fazendo a voz de Ben-Hur (personagem que interpretou em 1959 e pelo qual ganhou um Oscar de melhor ator). 
Um livro concebido a partir de uma discussão que colocava em xeque a veracidade do conteúdo das Sagradas Escrituras. Uma história passada nos tempos de Cristo que surgiu no velho oeste americano, cujo autor conheceu de perto ladrões, bandidos e foras da lei. Lew Wallace pareceu crer na transformação pela via espiritual e na doutrina cristã, embora tenha participado de guerras e batalhas sangrentas como comandante militar, da mesma forma que o seu personagem Messala. Eis os caminhos tortuosos para se chegar a um livro que ajudou a divulgar os valores cristãos na América e no mundo...

Para ler:


O romance "Ben-Hur" não é uma leitura que possa ser considerada leve para os padrões atuais, além de ser longa, com mais de quinhentas páginas. Por isso, a quantidade enorme de edições resumidas (uma delas escrita por Carlos Heitor Cony). Contudo, a leitura pode agradar os interessados em conhecer as origens do cristianismo e a sua doutrina, sobretudo católicos e protestantes. Em 2016, com o lançamento da nova versão para o cinema, surgiu uma edição integral da obra por intermédio da Editora Jangada (foto acima, a capa). O texto é acompanhado de notas de rodapé, que esclarecem o leitor não familiarizado com a Antiguidade Clássica sobre palavras, nomes e aspectos da história das religiões. 
Crédito das imagens:
Letreiros da abertura da versão de 1959, desenho da encenação da corrida de quadrigas na Broadway, do manuscrito do livro de Wallace e dos atores Stephen Boyd e Charlton Heston: fotogramas da caixa DVD Ben-Hur (edição de colecionador) da Warner Brothers de 2005 (Extras).  
Lew Wallace jovem:
http://wallacestudy.blogspot.com.br/2011/04/ben-hur-1925-most-expensive-silent-film.html
Foto de Lew Wallace com seu filho em 1853:
https://civilwartalk.com/threads/generals-at-a-younger-age.98075/page-15
Foto de Lew Wallace na época da Guerra Civil, da pintura representando a Batalha de Shiloh e de Ulysses Grant: Wikipédia.
Desenhos de Lew Wallace:
http://www.slate.com/articles/podcasts/working/2018/02/josh_block_talks_about_fighting_for_lgbtq_civil_rights.html
Foto do Palácio dos Governadores de Santa Fé:
https://www.nps.gov/nr/travel/el_camino_real_de_tierra_adentro/palace_of_the_governors.html
Foto de Lew Wallace em seu estúdio em 1905:
https://boothiebarn.com/2017/02/16/grave-thursday-general-lew-wallace/
Lew Wallace na comissão militar que julgou os assassinos de Lincoln:
https://boothiebarn.com/2014/07/04/general-lew-wallace-study-museum/
Foto de Lew Wallace como governador, dos rancheiros do Condado de Lincoln e anúncio pela recompensa de Billy the Kid:
http://lincolncountyhistoricalsociety.vpweb.com/photos
Imagem de Antioquia no mapa Peutinger: Wikipedia.
Cabeça do imperador Tibério: Roma Imperial en el Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires (catálogo), página 38. 
Foto da capa da primeira edição de Ben-Hur e de Robert Ingersoll: Wikipedia.
Ilustração de batalha naval: Roma Imperial. Biblioteca de História Universal Life. José Olympio Editora, 1969, página 41. 
Detalhe do rosto de Jesus no quadro "Cristo Carregando a Cruz" de Bosch: Coleção Gênios da Pintura. Volume Góticos e Renascentistas II. Abril Cultural (sem data). 
Foto de quadriga em mosaico na Espanha, de mosaico de Antioquia e de alto-relevo com cena de corrida: Roma: legado de um império (volume II). Grandes Impérios e Civilizações. Edições Del Prado, páginas 124, 156 e 187. 
Terracota do século I com cena de corrida: Chronicle of the Roman Emperors. Thames and Hudson Ltd., 1995, página 39.
Maquete do Segundo Templo de Jerusalém: Tesouros da Terra Santa( do rei David ao cristianismo), página 66. 
Reconstituição do antigo circo de Antioquia:
http://www.circusmaximus.us/antioch.html
Lew Wallace capa de revista em 1886:
http://www.slate.com/articles/life/history/2013/03/a_billy_the_kid_letter_a_james_a_garfield_note_a_winslow_homer_sketch_and.html
Cartaz da peça Ben-Hur: Wikipédia.
Foto da cena dos remadores na peça da Broadway: site Ebay. 
Foto do ator William Hart como Messala e William Farnum como Ben-Hur na peça: 
https://scvhistory.com/scvhistory/lw2620b.htm