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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Imagens Históricas 38: o rinoceronte Cacareco



Na verdade um rinoceronte fêmea de 230 quilos (imagem acima), que pertenceu ao Zoológico do Rio de Janeiro (na Quinta da Boa-Vista) e emprestado ao Zoológico de São Paulo (na Água Funda) para a inauguração deste, que ocorreu no dia 16 de março de 1958, com a presença do governador Jânio Quadros. Cacareco foi o primeiro rinoceronte nascido no Brasil, no próprio zoológico do Rio, tendo por pais o casal de rinocerontes Terezinha e Britador. Tratava-se de um carioca legítimo. O animal ganhou notoriedade na mídia da época e rapidamente caiu na simpatia da população. Em uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo do dia 26 de outubro de 1958, oito meses após a abertura do zoológico paulista, consta que o Cacareco foi escolhido em uma enquete, como o bicho mais popular da instituição, entre mais de 300 outros animais. Em função disso, os cariocas começaram a reclamar a volta do animal e os paulistas a sua permanência. Na antiga capital do Brasil, os estudantes organizaram uma petição para a devolução do rinoceronte, em uma mobilização que ficou conhecida como "o Cacareco é nosso". 



Em 4 de outubro de 1959, ocorreu a eleição para a Câmara Municipal (vereadores) da capital paulista e aí não deu outra. Os eleitores resolveram aclamar o Cacareco nas urnas! Mais de 100 000 votos foram dados ao bicho, uma enormidade na época (mesmo hoje tal votação elegeria com folga um vereador). Claro, esses votos foram considerados nulos. Para se ter uma ideia, a votação do animal foi superior ao do partido mais votado, que foi de 95 000 votos. O fato inusitado ganhou destaque até na imprensa internacional, com uma matéria no jornal The New York Times. Outro jornal novaiorquino, o World Telegram and Sun, em editorial de primeira página, afirmou de forma irônica, que a eleição de um rinoceronte não era surpreendente, uma vez que Nova Iorque, nos últimos anos, vinha elegendo "asnos" para o seu Conselho Municipal (equivalente à Câmara de Vereadores). O humorista Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo do jornalista Sérgio Porto) escreveu no jornal Última Hora, que vários membros do Partido Social Progressista (PSP) andaram depois sondando o Cacareco, para ocupar a vaga de Adhemar de Barros (o "rouba, mas faz") como futuro candidato! Já o então presidente Juscelino Kubitschek deu uma declaração mais sóbria: "Não sou intérprete de acontecimentos sociais e políticos. Aguardo as interpretações do próprio povo". 



Bem, após a eleição, a popularidade do animal cresceu ainda mais, a ponto de ser lançado um boneco de brinquedo (e de enfeite!), pela mais conhecida indústria do ramo, a Brinquedos Estrela (anúncio acima). O fato ainda inspirou várias músicas para o carnaval de 1960, sendo a mais conhecida a marchinha interpretada por Risadinha "Cacareco é o maior" composta por Francisco Ferraz Neto (o Risadinha) e José Roy. Para os interessados, a mesma pode ser encontrada no Youtube. 
Cacareco teve de ser devolvido ao Zoológico do Rio de Janeiro em outubro de 1959, dias antes da própria eleição e não pode acompanhar as apurações que o consagraram. Voltou mais gordo após a sua estada de quase dois anos em terras paulistas, pesando 300 quilos. Contudo, em dezembro de 1962, Cacareco veio a óbito, vitimado por nefrite (inflamação de rim) aguda. Morreu muito jovem, com apenas 8 anos (os rinocerontes costumam viver mais de 50). 


Os seus restos mortais acabaram sendo levados de volta para São Paulo em 1984 e desde então, estão exibidos no Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (imagem acima). 
Em 1963 surgiu no Canadá um partido que homenageava o rinoceronte Cacareco: The Rhinoceros Party (Partido do Rinoceronte). O mesmo teve existência até 1993 e tinha o animal como guia espiritual. Este que vos escreve guarda lembranças do Cacareco em sua tenra infância. Minha mãe, dona Olívia, sempre se referia a um objeto inútil que estava ocupando espaço em casa, como sendo um "Cacareco". Ao que parece, essa designação para "coisa velha" já era usada muito antes do animal fazer sucesso. Triste destino dado ao bichinho, que tão boas lembranças deixou na memória de muitos eleitores. Algumas fontes dizem que a proposta de lançar o animal como candidato a vereador teria sido do jornalista Itaboraí Martins, em função do péssimo nível dos 450 candidatos concorrentes na época. Muitos afirmam que se tal proposta surgisse hoje, seria necessário disponibilizar o zoológico inteiro...
Crédito das imagens: 
Primeira foto do Cacareco: Agência Estado.
Segunda foto do Cacareco: Coleção Nosso Século. 1945/1960: A Era dos Partidos. São Paulo: Abril Cultural, 1980, página 288.
Anúncio do brinquedo Cacareco da Estrela: jornal O Estado de São Paulo de 25 de outubro de 1959, página 5. 
Foto dos restos do animal: Wikipédia. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

O mapa da América de Sebastian Münster



O primeiro mapa a mostrar o continente americano de forma exclusiva, separado das demais extensões territoriais e datado do ano de 1540. Eis o trabalho do grande mestre da cartografia (ciência voltada para a elaboração de mapas) da primeira metade do século XVI: Sebastian Münster. Nascido na antiga Alemanha (Sacro Império Romano-Germânico) em 1488 (ou 1489, segundo outras fontes), Münster foi autor da Cosmographia, obra editada em 1544, que continha valiosas informações sobre o mundo conhecido e desconhecido (segundo as concepções da época), publicada em seis línguas. 


Além de cartógrafo, Sebastian Münster (acima retratado pelo pintor Christoph Amberger em 1552) foi também matemático e linguista, professor de hebraico da Universidade de Heidelberg e depois na Basileia (Suíça), onde chegou em 1529. Portanto, um humanista (intelectual) típico dos tempos do Renascimento Cultural, no início da Era Moderna. No ano de 1528 elaborou um detalhado mapa da Alemanha, feito com contribuições de viajantes e eruditos. Münster tornou-se o primeiro cartógrafo a fornecer mapas exclusivos para cada um dos quatro continentes conhecidos (como neste mapa que apresentamos) e também o primeiro a imprimir em separado um mapa da Inglaterra. A maior parte das suas cartas cartográficas foram publicadas em xilogravuras (impressão a partir de uma matriz feita em madeira) por artistas de grande renome, entre eles, Hans Holbein, o Jovem. Por isso, além do valor informativo, os mapas também despertaram o interesse de colecionadores, na condição de verdadeiras obras de arte.
Mas, voltemos ao documento em questão. Antes do mapa da América de Münster, as cartas cartográficas acompanhavam a tese de Colombo, de que a América era parte do continente asiático ou da Índia (daí o nome que Colombo deu aos nativos: índios). Depois que essa concepção foi deixada de lado, a grande ambição dos primeiros exploradores da América era a de alcançar uma passagem para o oceano Pacífico, que levasse ao Extremo Oriente e às especiarias (temperos e produtos orientais de grande valor na Europa). 


Mesmo neste mapa de Münster, o Oriente não aparece tão distante, como mostra a localização de "Zipangri" ou Japão (no detalhe acima), próximo da costa oeste do que hoje são os Estados Unidos. Um detalhe, este foi o primeiro mapa a utilizar o termo "Mare Pacificum" para designar o oceano Pacífico. 


Apesar de representar o então chamado Novo Mundo separado, Sebastian Münster parece localizar alguns pontos ou cidadelas orientais no continente americano. É o caso de "Catigara" (no detalhe acima), muito provavelmente situada no Sudeste Asiático (península da Malásia), mas que neste mapa aparece na costa leste da América do Sul. Münster talvez acreditasse que o Oceano Pacífico fosse uma extensão do Índico. 


Na parte referente ao Brasil (detalhe acima), uma pira ou fogueira com pedaços de corpos humanos ocupa uma boa parte desse território, uma referência à prática do ritual da antropofagia (ingestão da carne humana dos inimigos capturados), por parte de algumas populações nativas (não todas, é claro). O desenho é acompanhado do termo "Canibali". Na porção sul do continente, está registrado o Estreito de Magalhães e o Reino dos Gigantes. O navegador português Fernão de Magalhães (que deu nome ao estreito) registrou a presença de índios de tamanho incomum na região da atual Patagônia (sul da Argentina).



Na América Central Caribenha, várias ilhas já estavam identificadas, como Cuba, Hispaniola (hoje Haiti e República Dominicana), Jamaica e um erro, "Iucatana", que na verdade é a península de Iucatã (México atual) e não uma ilha como está representada no mapa (detalhe acima). Ah, a "Terra florida" no sul da América do Norte, é o atual estado norte-americano da Flórida. 
Uma carta cartográfica com o que de melhor se sabia, até aquele momento, a respeito do novíssimo continente americano (novíssimo do ponto de vista do europeu) e que serviu de base para outros mapas posteriores. Foi nesse documento, literalmente, que a América apareceu no mapa...
Crédito das imagens:
Pintura retratando Sebastian Münster: Wikipédia.
Mapa de Sebastiam Münster e os seus detalhes: A América do Sul e o Brasil no Mapa: a cartografia no rastro dos exploradores ibéricos de Kevin James Brown. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2018, página 6. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Juscelino Kubitschek: o presidente Bossa Nova parte 1



E também o que comandou o país nos chamados "anos dourados". Na memória coletiva é assim que ficou conhecido o quinquênio presidencial do mineiro Juscelino Kubitschek de Oliveira. Os estadunidenses tiveram JFK (John Fitzgerald Kennedy), enquanto nós tivemos JK. E olhem que o mandato dos dois quase coincidiu, pois Juscelino governou de 1956 até 1961, ano em que Kennedy iniciou o seu governo. A verdade é que muitos acontecimentos de grande significado para a nossa história ocorreram na sua gestão, como a construção de Brasília, que foi feita "a toque de caixa" e em pouco mais de três anos era inaugurada. O Plano de Metas atraiu trabalhadores para as cidades, por meio da industrialização acelerada. A chegada da indústria automobilística mudou a paisagem urbana com automóveis fabricados aqui (embora por multinacionais), rodando em nossas ruas, entre eles o famoso "Fusca". Nos costumes, a juventude das cidades vivenciou a chegada do rock'n roll e a disseminação da televisão, na emergente classe média urbana. No esporte, o Brasil ganhou a sua primeira Copa do Mundo de Futebol em 1958, a tenista Maria Ester Bueno brilhava nas quadras internacionais e Éder Jofre ganhou o seu primeiro título mundial no boxe. Na música, a Bossa Nova surgiu para conquistar o mundo. Tantos acontecimentos, nas mais diversas áreas, deram um significado especial para esses anos no imaginário das pessoas.
Contudo, este que vos escreve é um historiador, que considera a necessidade de um olhar crítico sobre esse período. As desigualdades regionais ficaram mais acentuadas, os privilégios dos grandes proprietários de terra foram mantidos e ainda foram dados estímulos às grandes empresas, como adquirir moeda estrangeira com taxas diferenciadas no câmbio. Os trabalhadores tiveram maior oferta de empregos, embora sem grandes melhorias na renda. Por outro lado, cabe destacar a postura de Juscelino Kubitschek como um líder democrático, aberto ao diálogo, tolerante e que não mostrava rancor ou ódio em relação aos inimigos, inclusive aqueles que tentaram derrubá-lo via golpe de Estado (duas tentativas), anistiando os responsáveis por tais atos. Sempre sorridente, transmitia otimismo em relação ao futuro do país e ao modelo de crescimento econômico acelerado ou desenvolvimentismo.



A história de Juscelino Kubitschek de Oliveira deita raízes nas Minas Gerais do ciclo do ouro e dos diamantes. No início do século XIX, um tal de Jan Nopomukaya Kubitschek, proveniente da região da Boêmia (na época, parte do Império Austro-Hungaro, depois Tchecoslovaquia e agora República Tcheca), chegou trazendo algumas jóias da família e um pouco de dinheiro. No Arraial do Tejuco, depois Diamantina, norte de Minas Gerais (imagem acima), Jan Kubitschek virou João Alemão e trabalhou como marceneiro. Um de seus filhos, João Nepomuceno Kubitschek, foi o primeiro da família a aventurar-se pela política, alcançando a vice-presidência de Minas Gerais (cargo equivalente a vice-governador), entre os anos de 1894 e 1898, nos primeiros tempos do regime republicano. 



O outro filho de João Alemão, Augusto Elias Kubitschek, comerciante, era pai de uma jovem chamada Júlia, que veio a se casar com um certo João César de Oliveira (primeira foto acima). Júlia (na foto acima à esquerda, já idosa) era professora primária e João César um faz-tudo, inclusive garimpeiro e caixeiro-viajante (comerciante itinerante). Indivíduo que gostava de festas, de conversar e de cantar serestas (gosto herdado pelo filho) e também conhecido por sua simpatia. 



Porém, João César foi acometido de tuberculose, praticamente uma sentença de morte no início do século XX, vindo a falecer em 1905, deixando a professora Júlia viúva aos 28 anos e com dois filhos: Maria da Conceição (Naná) de 4 anos e Juscelino (Nonô) de 3 anos (na foto acima, Juscelino e Maria, da esquerda para a direita).
Na época em que Juscelino Kubitschek nasceu, em 1902, o Brasil tinha pouco mais de 17 milhões de habitantes, tendo 64% dessa população morando no campo. Minas Gerais era o estado mais populoso de um país pobre, acometido por doenças como malária, febre amarela e a própria tuberculose, que vitimou o pai de Juscelino. Os tempos mais dinâmicos da exploração do ouro haviam ficado para trás, dando lugar à produção de café, no vizinho Estado de São Paulo. Muitos escritores e estudiosos atribuem a característica reservada dos mineiros aos tempos do ouro, com a presença de forasteiros, de fiscais da Coroa portuguesa (ainda no período colonial do século XVIII) e de ladrões. Por isso, como nos revela o jornalista e escritor Geraldo Mayrink, o morador local era um observador desconfiado, não revelando aos estranhos aquilo que, de fato, possuía. Falar baixo, duvidar, confabular e utilizar uma linguagem dúbia, sobretudo na arte da política, fizeram a fama do mineiro que perdura até hoje. Bem, muitos consideram isso um estereótipo que não corresponde à realidade, como afirmava o historiador Francisco Iglesias, para quem o povo mineiro no geral, era pouco intelectualizado e rude, ao contrário do que afirma a tradição. Por sua vez, a cidade de Diamantina era isolada e o acesso à mesma era feito em cavalos ou mulas, até que se pudesse alcançar uma linha ferroviária. Uma viagem para o Rio de Janeiro, capital do Brasil, levava um mês no início do século XX! 



Mas, voltemos ao personagem em questão. As dificuldades de Juscelino Kubitschek (na foto acima, sem data) começaram logo depois da morte de seu pai, sobretudo no que se referia à continuidade nos estudos. Após concluir o primário, Juscelino teria que matricular-se no seminário diocesano de Diamantina, único ginásio local. Caso se dispusesse a ser padre, poderia cursar gratuitamente, do contrário, teria que pagar. Como Juscelino desejava estudar medicina, chegou-se a um meio termo, com um desconto de 50% e enquanto estivesse lá, usaria batina e trabalharia como coroinha. Após concluir os estudos e sem poder ainda entrar na Faculdade de Medicina, Juscelino foi até Belo Horizonte e prestou um concurso para os Correiros, onde foi aprovado. 



Com a venda das jóias da família, dona Júlia conseguiu que seu filho voltasse para a capital mineira, para iniciar os seus estudos em medicina, no ano de 1922. Belo Horizonte era uma cidade nova e planejada, sem calçamento nas ruas e pouco confortável. Juscelino foi chamado pelos Correios, onde se tornou telegrafista e lá conheceu um amigo, que anos depois se tornaria o seu ministro da Fazenda: José Maria Alkimin (na foto acima, Juscelino e Alkimin treinando luta). 



O sacrifício para estudar era enorme, pois Juscelino trabalhava de madrugada e estudava durante o dia! Claro, surgiram os problemas de saúde, em função do pouco sono e da má alimentação. Certa ocasião, após contrair uma gripe que se complicou, Juscelino teve que ficar meses em licença médica até se recuperar. 



Por sua vez, o custo da faculdade era alto, o que fazia com que o jovem Juscelino permanecesse sempre endividado, principalmente com agiotas (na foto acima, Kubitschek no início da década de 1920). 



Em 1929, o jovem médico recém-formado conseguiu uma licença para fazer uma especialização em Paris, na área de urologia (acima, na França, Juscelino é o segundo da esquerda para a direita na última fileira). Como o próprio Juscelino relataria anos mais tarde, aquela especialidade era muito procurada pela clientela masculina por uma razão: as doenças venéreas! A penicilina (que levou aos antibióticos) ainda não havia sido descoberta. Quando se tornou deputado federal, Juscelino teve a oportunidade de conhecer pessoalmente o cientista que a descobriu: Alexander Fleming. 
Kubitschek aproveitou seu período em Paris para mergulhar na cultura francesa e na literatura, que já apreciava. E algo incomum para um médico: estudou história da arte na Aliança Francesa. Fez ainda uma excursão pelo Mediterrâneo até o Oriente Médio, passando pela Grécia, onde conheceu a cidade de Atenas e a sua acrópole (parte elevada) e o Pártenon (templo erguido no século V a.C.). Juscelino referiu-se ao trabalho que teve o antigo líder da democracia Péricles, para convencer os cidadãos atenienses da importância daquelas obras arquitetônicas e justificar os gastos nas mesmas. Teria sido aí uma das inspirações para Brasília? Talvez. A bagagem cultural adquirida nessa sua estada na Europa contribuiu para que Juscelino Kubitschek tivesse o hábito de cultivar amizades com artistas, intelectuais, escritores e músicos. 


Após quase dois anos, Juscelino retornou ao Brasil, onde haviam ocorrido mudanças. A Revolução de 1930 colocou abaixo a política do café-com-leite (alternância no poder entre Minas Gerais e São Paulo), elevando o gaúcho Getúlio Vargas ao governo, como presidente provisório (na foto acima, Vargas ao receber o poder da Junta Militar). Juscelino Kubitschek passou a trabalhar na clínica de seu cunhado (marido de Naná) onde angariou prestígio como médico, o que o colocou em contato com figuras importantes da sociedade. 



Nesse momento, o jovem conheceu Sarah Gomes de Lemos, filha de uma tradicional família mineira, cujo pai foi deputado federal e prima de Francisco Negrão de Lima (depois ministro da Justiça e governador do futuro Estado da Guanabara). Os dois casaram-se em 1931 (acima, o casal em foto de 1951). 


Juscelino e Sara tiveram duas filhas, Márcia e Maria Estela (respectivamente, da esquerda para a direita na foto acima). O nascimento de Márcia em 1943 foi complicado, chegando a colocar em risco a vida da mãe e da criança. Maria Estela é filha de criação. 



Por intermédio do seu concunhado Gabriel Passos, secretário do governador Olegário Maciel, Juscelino foi nomeado para o corpo de médicos da Força Pública do Estado (antecessora da Polícia Militar), onde alcançou o posto de capitão-médico, chefiando o Serviço de Urologia (na foto acima, Juscelino de branco à direita). Nessa mesma época, conseguiu abrir um consultório próprio.



Foi na condição de capitão-médico que Juscelino Kubitschek participou da luta contra São Paulo, no levante dos paulistas contrários a Getúlio Vargas: a Revolução Constitucionalista de 1932. Juscelino atuou em Passa Quatro (MG), importante frente de combate dos legalistas (na foto acima, ele é o primeiro a partir da esquerda). Lá atendeu soldados em áreas fora de sua especialidade, como feridos e mutilados, demonstrando enorme capacidade como cirurgião. Entre uma batalha e outra, Juscelino Kubitschek fez amizades importantes, entre as quais o chefe político Benedito Valadares. Em outubro de 1932, os paulistas se renderam e Juscelino voltava ao seu consultório na capital mineira, quando veio a notícia da morte do governador Olegário Maciel. O novo governador (na verdade interventor, nomeado pelo presidente Vargas) era Benedito Valadares, aquele que Juscelino conheceu na Revolução de 1932. 



Imediatamente, Valadares chamou Juscelino Kubitschek para a chefia do Gabinete Civil. Era o início da carreira política de JK (vamos também chama-lo assim, a partir de agora). Juscelino deixou temporariamente a medicina e uma tese em preparo guardada na gaveta para ingresso na carreira acadêmica (na foto acima de 1933, Benedito Valadares ao centro, de terno branco e JK à direita, segurando o chapéu). Juscelino não esqueceu os seus vínculos com Diamantina, solicitando verbas para a cidade natal, da qual tornou-se um cacique político. 


Por recomendação de Benedito Valadares, JK ingressou no Partido Progressista de Minas (PP) em 1934 e elegeu-se deputado federal (acima, JK quando foi eleito). Atuou como representante do governador mineiro no Rio de Janeiro, apoiando a candidatura oficial do escritor paraibano José Américo de Almeida para presidente, na eleição que deveria ocorrer em 1938. Eleição? Getúlio Vargas e os militares não a desejavam. Por isso, em novembro de 1937, alegando a ameaça comunista ao país (o falso Plano Cohen), Vargas deu um golpe de Estado e implantou a ditadura, que durou até 1945: o Estado Novo. O Congresso Nacional e todas as assembleias estaduais foram dissolvidos. Os governadores que apoiavam Getúlio foram mantidos em seus cargos, inclusive o de Minas. Sem o seu mandato parlamentar, Juscelino retornou à medicina, sendo promovido a coronel da Força Pública e nomeado chefe do Serviço de Cirurgia do Hospital Militar, além de retomar o seu consultório. Nessa época, fez um bom patrimônio pessoal, o que lhe deu tranquilidade. Mas, a política o chamou novamente e mais uma vez pelas mãos de Benedito Valadares. Em 1940, Juscelino Kubitschek foi nomeado prefeito de Belo Horizonte.



Ao assumir o comando da capital mineira, JK foi criticado, pois afinal de contas, aceitara um cargo dentro do regime ditatorial de Getúlio Vargas (na foto acima, o prefeito JK discursa tendo ao centro o governador Valadares e à direita Getúlio, em 1940). Juscelino alegou que estaria preparando os mineiros para um possível retorno do país à democracia, algo que ainda demoraria 5 anos. Mesmo tendo se tornado prefeito, não abandonou a medicina e ainda passou a comandar o Serviço de Urologia da Santa Casa, atendendo famílias pobres gratuitamente até 1945. A partir daí, a política tomou-lhe o tempo integral.




O prefeito Juscelino Kubitschek foi aquilo que se costumava chamar de um "tocador de obras" (acima, JK prefeito e na construção de casas populares). Asfaltou ruas, abriu novas avenidas, ampliou a rede de águas e esgotos e levantou o Parque da Pampulha. Para realizar esta última obra, Juscelino teve que inicia-la sem o conhecimento do governador, pois este poderia vetar o projeto. Como bom mineiro, JK trabalhou em silêncio. Iniciou a construção pela estrada de acesso ao parque, depois o lago artificial e posteriormente a Casa do Baile, o Cassino, o Iate Clube e a Igreja de São Francisco. Quando o governador Benedito Valadares tomou conhecimento, as construções já estavam em estágio tão avançado, que a obra tornara-se um fato consumado. 



Foi nesse trabalho, que Juscelino Kubitschek conheceu o jovem arquiteto modernista Oscar Niemeyer (na foto acima JK e o arquiteto). 




Na mesma Igreja de São Francisco, as pinturas e os afrescos são de autoria de outro nome importante do modernismo: Cândido Portinari (imagens acima, detalhe da capela e um dos painéis de Portinari). Como a Igreja Católica aceitaria uma capela projetada por um arquiteto e os afrescos realizados por um pintor, ambos integrantes do Partido Comunista? O arcebispo da capital mineira Dom Antônio Cabral, amaldiçoou a obra! O reconhecimento pela Igreja, veio apenas em 1959, quando JK era presidente. O complexo da Pampulha foi considerado o "ensaio geral" para a futura construção de Brasília.
Em 1945, a Segunda Guerra Mundial caminhava para o seu desfecho em favor dos Aliados (EUA, Inglaterra e União Soviética) e contra a permanência dos regimes ditatoriais, inclusive o de Getúlio Vargas. Mas este arquitetava a sua sobrevivência política, permitindo a formação de partidos (extintos no Estado Novo), entre os quais, dois saídos da própria ditadura Vargas: o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD). O primeiro ligado aos sindicatos e o segundo à elite rural e aos antigos interventores (governadores) nomeados por Getúlio. A oposição a Vargas reuniu-se na União Democrática Nacional (UDN). 



No dia 29 de outubro de 1945, Getúlio Vargas foi deposto por um golpe militar e no seu lugar, assumiu o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares. Em dezembro ocorreram as eleições presidenciais e o general Eurico Gaspar Dutra foi eleito presidente, com o apoio de última hora de Vargas (foto acima, Vargas ao lado do jornalista Samuel Weiner em 1950). Juscelino elegeu-se deputado federal. O país iniciava a fase de redemocratização e com a nova Constituição redigida por um Congresso Constituinte eleito. Dutra fez um governo liberal na economia, tendendo ao conservadorismo na política. Excessiva abertura às importações (aproveitando as divisas acumuladas na guerra) e alinhando-se externamente aos Estados Unidos, no momento inicial da Guerra Fria, que dividiu o mundo entre capitalistas e comunistas. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi cassado e voltou para a clandestinidade em 1947.



Em outubro de 1950, ocorreram as eleições para a sucessão de Dutra. Getúlio Vargas retornou ao Palácio do Catete para exercer pela segunda vez a presidência, agora pelo voto direto (na foto acima, Getúlio desfila em carro aberto em 1954). 



Na mesma eleição, Juscelino Kubitschek foi eleito governador de Minas Gerais pelo PSD, em uma campanha de apenas 60 dias, na qual percorreu 168 municípios (na foto acima, a transmissão de cargo de Milton Campos, à direita, para JK, à esquerda). JK derrotou Gabriel Passos da UDN com 714 364 votos contra 544 086 votos. Como dizia uma piada da época, a grande vencedora da eleição foi a sogra dos dois candidatos, pois como vimos mais atrás, Juscelino era concunhado de Passos! Os comícios de JK eram concorridos e geralmente terminavam nos bailes que varavam a noite. Nesses encontros, JK adquiriu a fama de "pé-de-valsa". 



O slogan de seu programa de governo era o binômio "Energia e Transporte" (nas imagens acima, o material de campanha de JK). Tendo por base essa proposta, realizou um leque enorme de obras, sobretudo hidrelétricas e barragens. Juscelino criou estatais como a CEMIG (Centrais Elétricas de Minas Gerais) e a FERTISA (Fertilizantes de Minas Gerais), através das quais atraiu investimentos para o seu Estado, como o da siderúrgica alemã Mannesmann. Na infraestrutura, construiu estradas novas e aeroportos para aeronaves de médio porte. Também levantou 120 postos de saúde, 137 prédios escolares, 251 pontes e 5 novas faculdades. Tal programa de obras estimulou as empreiteiras, que foram beneficiadas com isenção de impostos de importação, para a compra de tratores e equipamentos, os quais eram incorporados ao patrimônio das mesmas. Segundo o jornalista e escritor Geraldo Mayrink, a cobrança das obras (sobretudo as estradas) era feita com base no trabalho manual, o que dava uma enorme folga financeira para essas empreiteiras.



A ajuda federal era garantida pelo bom relacionamento com o presidente Getúlio Vargas (nas fotos acima Getúlio e JK em visita a Ouro Preto e na inauguração da Mannesmann, em agosto de 1954). Contudo, o velho líder enfrentava enormes dificuldades na sua volta à presidência. Sua sustentação no Congresso era frágil e a oposição conservadora, capitaneada pela UDN e por meio da imprensa, bombardeava o governo de críticas e supostas denúncias de corrupção, as quais ganharam eco nos meios militares. Na economia, sua política de teor nacionalista também era atacada pelos interesses externos, sobretudo em função da criação da Petrobrás em 1953. Outra realização importante do segundo governo Vargas foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), ferramenta útil no futuro governo de Juscelino Kubitschek. 



O controverso atentado contra o deputado udenista Carlos Lacerda, o qual vitimou um major da Aeronáutica que o acompanhava, foi atribuído a integrantes da segurança do próprio Getúlio. O acontecimento abriu a crise definitiva, com ameaças de impeachment no Congresso e golpe militar (na imagem acima, a Tribuna da Imprensa, jornal de Lacerda, exige a apuração do atentado). 


Na manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas ofereceu a sua vida como resposta aos opositores, suicidando-se com um tiro no coração (acima, Juscelino, à esquerda, observa o corpo de Getúlio).  


O vice-presidente João Café Filho assumiu um mandato tampão, até que fossem realizadas as eleições em outubro de 1955. O clima de comoção pela morte trágica de Getúlio contaminaria, sem dúvida, o pleito (acima, manifestação popular pela morte do presidente). Nesse ambiente, acreditava-se que ninguém que não fosse do PTB ou que não tivesse o apoio desse partido, poderia vencer a eleição presidencial. Por isso, muitos não desejavam que a mesma ocorresse, inclusive Café Filho. Por outro lado, Juscelino tinha fortes incentivos para lançar-se candidato. Um deles, registrado em suas memórias, refere-se ao fato de que teria sido informado por Amaral Peixoto (genro de Getúlio), a respeito de uma discussão no Palácio do Catete (sede do governo) sobre a sucessão. Vários nomes foram citados e no meio da conversa, Getúlio, sempre observando e sem falar muito, disse: "Já que estão discutindo nomes, será bom não esquecer o do governador de Minas".


Juscelino Kubitschek (foto acima) aparecia como favorito e herdeiro político do falecido presidente, pois foi amparado no governo mineiro pelos partidos criados no antigo aparato institucional de Vargas, o PSD e o PTB. Dois meses após o suicídio de Getúlio, foram realizadas eleições para o Congresso Nacional, alterando sensivelmente a composição do mesmo. O PSD e o PTB cresceram (de 112 para 114 cadeiras e de 51 para 56 cadeiras, respectivamente), como era esperado, enquanto a UDN perdeu cadeiras (de 84 para 74, ou seja, 10 cadeiras a menos). 
Quando o PSD indicou a candidatura JK na sua Convenção Nacional, em novembro de 1954, ninguém tinha certeza se as eleições presidenciais seriam ou não realizadas. A cúpula militar chegou a propor uma candidatura civil única, que fosse neutra e consensual, como forma de pacificar o país, ideia apoiada pelo presidente Café Filho. O movimento contrário às eleições ganhou força na imprensa anti-getulista, como nos jornais cariocas Correio da Manhã e Tribuna da Imprensa. Uma terceira alternativa também era aventada (além da candidatura JK e da tese do candidato de consenso): a intervenção militar. 



Na verdade, as fórmulas apresentadas tinham por finalidade afastar Juscelino Kubitschek da disputa pela presidência (na foto acima, JK com uniforme de tenente-coronel da Força Pública de Minas). O apoio oficial do PTB era fundamental para barrar a manobra contra o seu nome e dar-lhe respaldo na classe trabalhadora. O interlocutor para essa aliança foi Osvaldo Aranha, líder de projeção entre os getulistas e que poderia atrair o ex-ministro do Trabalho, João Belchior Marques Goulart, o "Jango". Enquanto isso, Café Filho trabalhava abertamente contra JK e alinhava-se aos integrantes da UDN, contrários à eleição, pois sabiam que a possibilidade de uma derrota era enorme. O temor de uma intervenção militar balançou até os líderes do PSD, como Benedito Valadares (que como vimos, foi quem lançou JK na política), que começou a demonstrar interesse na tese do candidato único. Por fim, no extremo dos extremos da conciliação, chegou-se a propor uma chapa tendo o general Juarez Távora como presidente e Juscelino de vice!



No final das contas, as bases de sustentação de Juscelino Kubitschek (acima carregado pela multidão) eram incontestáveis, tanto a nível político como na sociedade em geral. O empresariado via com simpatia as suas propostas de maiores investimentos públicos, que pudessem impulsionar o setor privado para o crescimento. JK tinha credencias nesse ponto, como ex-prefeito de Belo Horizonte e como governador. Tinha também boas relações com o capital estrangeiro. Tudo isso ajudou JK no financiamento de sua campanha, sobretudo nas viagens aéreas, uma vez que foi o primeiro político a fazer uso sistemático desse transporte. Na imprensa cultivou bom relacionamento, como por exemplo, com a revista Manchete e o seu proprietário, o jornalista Adolfo Bloch, de quem foi amigo até o final da vida. Com o clero católico manteve a imagem de bom chefe de família e religioso. E com a classe trabalhadora, teria o apoio do PTB, o grande representante das lideranças trabalhistas e sindicais. Em dezembro de 1954, JK já se encontrava em campanha pelo país.
No mês de janeiro de 1955, o presidente Café Filho fez um pronunciamento, no qual revelou ter recebido um memorial de alguns generais, onde se afirmava que a sucessão poderia ser conturbada, sobretudo depois do anúncio de candidaturas, sem o entendimento com as forças políticas e que pretendiam restaurar a ordem existente até o suicídio de Getúlio Vargas. O alvo era claro: Juscelino! Este rebateu prontamente o pronunciamento oficial, afirmando: "Deus poupou-me o sentimento do medo" e que "a duração da minha candidatura está condicionada à duração da própria democracia em nossa pátria".
Em abril de 1955, o PTB resolveu apoiar oficialmente Juscelino Kubitschek e propôs como vice em sua chapa, João Goulart. O ex-governador de São Paulo, Ademar de Barros (famoso pelo slogan "rouba, mas faz") foi lançado pelo Partido Social Progressista (PSP) e o velho líder integralista (facção ultra-direitista) Plínio Salgado, apareceu pelo Partido da Representação Popular (PRP). Mas, o adversário com maiores chances contra JK era o general Juarez Távora da UDN. Quando Távora lançou a sua candidatura em maio de 1955, Juscelino já havia percorrido 20 estados e feito comícios em 91 cidades! O lema de JK era: "50 anos em 5" ou 50 anos de desenvolvimento em 5 de governo.


Juarez Távora (na foto acima) fazia uma campanha pautada no combate à corrupção e com um tom considerado negativista, até mesmo pelos seus próprios correligionários, sobretudo quando previa que a população teria que fazer sacrifícios, pois o país era pobre. Argumentos considerados insuficientes diante da simpatia e otimismo transmitidos por Juscelino em favor do desenvolvimento.



A UDN ainda tentou uma última ação contra a candidatura JK, por meio do deputado federal Carlos Lacerda. Este divulgou nos jornais Tibuna da Imprensa (imagem acima) e O Globo (de Roberto Marinho) no dia 16 de setembro de 1955, um documento conhecido como "Carta Brandi", onde o candidato a vice João Goulart era acusado de adquirir armas na Argentina a fim de organizar "brigadas de choque operárias" e implantar uma "república sindicalista" no Brasil. A Carta Brandi (suposto nome do signatário argentino) seria do tempo em que Jango foi ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. O governo Café Filho montou uma comissão para investigar o documento e veio a conclusão: a tal carta havia sido forjada por dois falsificadores argentinos. No entanto, o resultado da investigação só foi divulgado depois das eleições! 


Independente disso, Juscelino Kubitschek saiu vitorioso no pleito de 3 de outubro de 1955 (acima o comício da vitória com JK acenando ao centro e à direita, o deputado Ulysses Guimarães), com 36% dos votos (total de 3 077 411), enquanto o segundo colocado Juarez Távora obteve 30% (total de 2 610 462). 



Não foi uma vitória folgada, tanto que Jango teve mais votos para vice do que o próprio Juscelino (total de 3 600 000 votos). Na época, a eleição para vice era separada (como mostra a cédula de votação, imagem acima). A esperada derrota da UDN acabou se concretizando.


Mas, para que o leitor (a) perceba como nunca foi tranquila a trajetória de nossa frágil democracia, a UDN tentou invalidar a eleição, alegando que o vencedor não atingiu a maioria absoluta dos votos. Além disso, a chapa JK/Jango havia tido o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que era clandestino, o que teria dado meio milhão de votos, exatamente a diferença entre o primeiro e o segundo colocado, algo difícil de se comprovar em termos práticos, pois o voto era secreto (acima, material de propaganda do PCB e de seu líder, Luiz Carlos Prestes apoiando JK). 


Com a confirmação do resultado pelo Superior Tribunal Eleitoral, restou apenas uma unica alternativa aos derrotados: o golpe. Em 9 de novembro de 1955, Carlos Lacerda (foto acima) escreveu em seu jornal Tribuna da Imprensa:"Esses homens não podem tomar posse, não devem tomar posse, nem tomarão posse!"


Ainda antes, em 1º de novembro, durante o enterro do general Canrobert Pereira da Costa, o coronel Bizarria Mamede fez um pronunciamento de incitação ao golpe militar, a fim de impedir a posse dos eleitos. Imediatamente, o ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott (foto acima), conhecido por seu apego à disciplina, exigiu punição exemplar ao coronel. Contudo, dois dias depois, o presidente Café Filho adoeceu repentinamente e foi afastado da presidência (um episódio tido como suspeito para muitos, inclusive JK). Em seu lugar assumiu o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, que se recusou a punir o coronel Mamede. Sentindo-se desprestigiado, o general Lott pediu demissão do ministério. Mas, no dia seguinte, 11 de novembro de 1955, com apoio de vários outros generais, entre eles Odílio Denys (comandante da Zona Militar Leste, depois I Exército e hoje Comando Militar do Leste), o general Lott colocou 25 mil homens do Exército nas ruas do Rio de Janeiro e depôs o presidente Carlos Luz! Ao mesmo tempo, declarou a impossibilidade do retorno de Café Filho, embora já recuperado. O argumento de Lott era de que ambos estariam apoiando um movimento golpista para impedir a posse de Juscelino Kubitschek.


Todos os implicados (inclusive Carlos Luz e Lacerda) se refugiaram no cruzador Tamandaré (foto acima), que em seguida zarpou para o porto de Santos (SP), onde pretendiam organizar uma resistência (parte da Marinha também atuava contra a posse dos eleitos). Mas a cidade já estava ocupada pelas tropas leais a Lott e os golpistas se dispersaram (inclusive para o exterior). Um golpe de Estado em defesa da legalidade! Imediatamente, o presidente do Senado, Nereu Ramos é convocado para assumir a presidência até a posse de Juscelino.


O general Henrique Teixeira Lott tornou-se o fiador do novo governo, garantindo relativa tranquilidade entre os militares para que Juscelino pudesse assumir. Tanto que, em janeiro de 1956, JK realizou viagens aos Estados Unidos (na foto acima, Juscelino é recebido pelo vice-presidente Richard Nixon e sua esposa) e à Europa, onde visitou fábricas de automóveis, procurando atrair investimentos diretos no Brasil.



Finalmente, em 31 de janeiro de 1956, JK e Jango tomaram posse no cargo de presidente e vice-presidente, seguindo o ritual previsto pela Constituição, com a presença do interino Nereu Ramos, que transmitiu a faixa presidencial a Juscelino (na duas fotos acima, os eleitos chegam para a posse e JK e Nereu Ramos na cerimônia).



Era a última posse de um presidente realizada no Rio de Janeiro, pois Juscelino inaugurou a nova capital Brasília, em 1960 (acima Jango e JK da esquerda para a direita respectivamente). O fato de estar legitimamente no cargo não significava o fim das ameaças ao seu governo. Juscelino teve de utilizar toda a sua capacidade de articulação para poder garantir as condições de governabilidade. Por outro lado, como afirma a socióloga Maria Vitória Benevides, JK encontrou também condições que lhe garantiram uma estabilidade política nos seus 5 anos de governo e uma delas foi o prometido avanço na economia, os seus "50 anos em 5".


JK também buscou apoio externo, demonstrado com a presença do vice-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, que retribuiu a visita feita poucos dias antes àquele país por Juscelino (acima, Nixon na posse de JK). O novo presidente enviava sinais positivos ao capital externo: "Os capitais estrangeiros são bem-vindos ao Brasil, e a melhor maneira de combater o comunismo seria enfrentar a miséria com prosperidade, e não com repressão." Pelo menos em tese, a proposta agradava ao governo norte-americano.
No governo de Juscelino, o PSD era o partido de maior força na composição do ministério, reflexo do número de cadeiras que possuía no Congresso Nacional. Ao PTB coube o controle de duas pastas já tradicionalmente atribuídas ao mesmo, os ministérios do Trabalho (Indústria e Comércio) e da Agricultura. Entre os nomes que iniciaram o governo, destacamos José Maria Alkimin (como vimos, o velho amigo de JK nos tempos de estudante em Belo Horizonte) na Fazenda, Nereu Ramos (que acabara de deixar a presidência) na Justiça e, claro, o general Henrique Teixeira Lott no ministério da Guerra. Coube a este último garantir as boas relações com os militares até o fim do mandato de Juscelino.


Mas, os primeiros dias de governo JK foram instáveis. Duas semanas depois da posse, o ressentimento pelo "golpe preventivo" do general Lott ainda estava vivo. Dois oficiais da Aeronáutica, o major-aviador Haroldo Veloso e o capitão-aviador José Chaves Lameirão, partiram da capital até a cidade de Santarém, no Estado do Pará, onde se reuniram ao major Paulo Victor (na foto acima da esquerda para à direita, este último, um índio caiapó e o major Veloso). Antes de irem, deixaram um manifesto na redação do jornal Tribuna da Imprensa, acusando o governo JK de entregar ao capital externo as riquezas do Brasil (petróleo e minérios) e denunciando infiltração comunista nas Forças Armadas. Em plena Amazônia, aliciaram caboclos e até índios para um levante contra o governo, esperando contar com o apoio da Marinha e do Exército e ampliar o movimento para todo o território.



O movimento porém, ficou restrito a algumas cidades da região do rio Tapajós, entre elas Jacareacanga, onde a rebelião acabou dominada por tropas legalistas (foto acima). A ajuda aos rebeldes não veio, apesar de se suspeitar que militares ligados a Carlos Lacerda e ao brigadeiro Eduardo Gomes (anti-getulista) tenham dado um apoio velado. Juscelino Kubitschek não alimentou o rancor desses militares, anistiando todos os envolvidos, os quais, inclusive, tiveram as promoções normais na carreira militar.
Se não bastasse o levante na Aeronáutica, Juscelino Kubitschek ainda enfrentou manifestações estudantis na capital, em função do aumento nas passagens dos bondes, no mês de maio. Houve confusões e quebra-quebra na capital e o prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE) foi cercado por tropas militares. Imediatamente, vários deputados da UDN prestaram solidariedade aos estudantes. A crise poderia se agravar, não fosse o convite feito pelo próprio Juscelino para que os líderes estudantis fossem ao Palácio do Catete para uma conversa, onde deixou clara a situação e os possíveis desdobramentos da crise. Após uma semana as tarifas foram reduzidas e o movimento acabou.
Difícil, muito difícil manter o equilíbrio numa situação tão conturbada e com tantas ameaças a um governo, o qual sequer, havia começado. Um momento em que assegurar os valores democráticos e a manutenção das normas constitucionais exigia inteligência, diálogo e uma boa dose de coragem. Mas Juscelino Kubitschek tinha uma outra carta valiosíssima em sua manga: o Plano de Metas. Já no dia da posse, uma reunião ministerial foi convocada para estabelecer os parâmetros do programa de desenvolvimento a ser posto em prática. É o que veremos na segunda e última parte desta postagem... 

Para saber mais:



O livro da coleção "Os Grandes Líderes: Juscelino" (Nova Cultural, 1988) tem texto do jornalista e escritor Geraldo Mayrinck, que trabalhou no preparo da edição extra da revista Veja, publicada em agosto de 1976, na época da morte de JK. Trata-se de um trabalho bem informativo sobre a vida de Juscelino Kubitschek e que conta com um rico material de fotos sobre a trajetória do político. Embora às vezes caia um pouco no tom laudatório, é uma boa introdução a respeito desta figura que marcou época na história recente do país. A obra está esgotada, mas pode ser facilmente encontrada em sebos ou pela internet. 
Crédito das imagens: 
Fotos de JK com fundo azul; Getúlio Vargas após deixar o poder; manifestação popular pela morte de Vargas; de Juarez Távora; comício da vitória; rebelião em Jacareacanga; capa do jornal Tribuna da Imprensa sobre a Carta Brandi e JK carregado: Coleção Nosso Século, volume 4 (1945-1960). São Paulo: Abril Cultural, 1980, páginas 203, 96; contracapa, 195; 204, 209  e 105 respectivamente. 
Foto de Diamantina: 
http://brasilianafotografica.bn.br/?tag=diamantina
Fotos do pai de JK; de JK "lutando" com J. M. Alkimin; de terno e lenço branco; com amigos do curso de medicina; na sala de cirurgia; com Benedito Valadares e G. Vargas em 1940 e  material de propaganda para governador e folheto de apoio de Luiz Carlos Prestes: Os Grandes Líderes. Juscelino. De Geraldo Mayrinck. São Paulo: Nova Cultural, 1988, páginas 16, 18, 11, 21, 24, 38 e 47 respectivamente. 
Fotos da mãe de JK; da capa da Tribuna da Imprensa com o atentado contra Lacerda e dos conspiradores no encouraçado Tamandaré: Fotogramas do documentário "Os Anos JK" de Sílvio Tendler, 1980, Seleções DVD. 
Fotos de JK jovem; de JK e Sara em 1951; de JK prefeito inspecionando obra; tomando posse como governador; inaugurando hidrelétrica; foto colorida ao lado de Jango; com Nereu Ramos transmitindo o cargo e ao lado de Nixon tomando café: revista Manchete Especial: JK 100 anos. Rio de Janeiro: dezembro de 2001, páginas capa; 22; 6; 7; 8; 31 e 9 respectivamente. 
Fotos de Juscelino ainda criança, estudante de medicina na França, com sua esposa Sara em 1951, as duas filhas na 1ª comunhão, JK com Benedito Valadares em 1933, como deputado federal, como prefeito em vistoria na construção de casas populares e no cargo de governador discursando:
http://www.memorialjk.com.br/pt/
Fotos de Getúlio Vargas na Revolução de 1930: Revista Manchete de 23 de abril de 1966. Rio de Janeiro: Bloch Editores, página 6.
Fotos de JK na Revolução de 1932; como tenente-coronel da Força Pública; JK com Oscar Niemeyer e JK com Getúlio em Ouro Preto: páginas 29, 53 e 55. 
Foto da igreja da Pampulha: Arte no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1982, página 260. 
Foto do painel de Portinari: Portinari de Antonio Bento. Rio de Janeiro: Léo Cristiano Editorial, página 127. 
Foto de Getúlio desfilando em carro aberto e de JK e Jango dirigindo-se ao Palácio do Catete para a posse: Dinheiro e Poder: no tempo dos mil-réis. Oscar Pilagallo e Pietra Diwan. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012, capa e página 54. 
Cédula eleitoral da eleição de 1955: Wikipédia. 
Foto de Getúlio abraçando JK em agosto de 1954: Getúlio 1945-1954: Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Cia. das Letras, 2014. 
JK observando o corpo de Getúlio: Pinterest. 
Foto de Carlos Lacerda: capa da revista Manchete do dia 4 de junho de 1977. Rio de Janeiro: Bloch Editores. 
Foto do general Lott: Pinterest.