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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Europeana Collections



Caros leitores, nestes tempos em que a educação brasileira está sendo alvo de mudanças que não colocam mais a formação do indivíduo e do cidadão como algo prioritário, o blog História Mundi considera ter um papel importante, enquanto ferramenta capaz de facilitar a busca pelo conhecimento e pelo saber. Afinal, nunca se sabe que tipo de habilidade o indivíduo terá que dispor em sua vida para poder atuar ou desenvolver uma atividade intelectual ou profissional. O saber não ocupa espaço, já diziam os mais antigos! 
Nesse sentido, vamos disponibilizar um link no qual o leitor terá acesso a uma enorme variedade de livros, obras literárias e imagens, que poderão auxiliar nos estudos e nas pesquisas: Europeana Collections. Trata-se de uma página que coloca on line e com fácil acesso mais de 50 milhões, isso mesmo, 50 milhões de livros, imagens, vídeos, sons e objetos que podem ser acessados por uma simples busca. Por exemplo, ao digitar o nome Brasil mais de 10 mil resultados são disponibilizados entre livros (muitos deles raros), documentos manuscritos, fotos, filmes, imagens, material publicitário entre outros, facilmente visualizados e baixados. Entre os documentos que podem ser acessados está uma coleção de cartas de Sebastião José de Carvalho e Melo (marquês de Pombal) ao seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, governador do Grão-Pará e Maranhão, escritas entre 1752 e 1756. 
Muitas fotos também podem ser acessadas, como a imagem acima, nas comemorações do VII aniversário da Revolução Bolchevista de 1917, onde vemos Leon Trotsky diante do mausoléu de Lenin (ainda erguido em madeira). Possivelmente, trata-se de uma das ultimas fotos (provavelmente de novembro de 1924) onde Trotsky aparece na condição de um dos líderes do governo bolchevique (na foto, ele está assinalado com o número 1). 


O desenho acima (estudo de pano) é de um dos grandes gênios do Renascimento Cultural: Leonardo da Vinci. 


Uma carta assinada pelo conhecido filósofo alemão Karl Marx, datada de 1859, também pode ser acessada (imagem acima). 
Claro que muitos dos itens disponibilizados estão em museus e outros sites da Europa, aos quais a Europeana remete. Mas, a questão importante é o do facilidade em entrar nesses últimos que é proporcionada pelo portal.
A partir de agora, a Europeana Collections estará na lista de links interessantes do blog História Mundi.
Para acessar: 
http://www.europeana.eu/portal/en

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Anúncio Antigo 43: Rita Hayworth




"Nunca existiu uma mulher como Gilda." Esta era a frase contida nos cartazes que anunciavam o grande sucesso cinematográfico de Rita Hayworth e que tinha como título "Gilda". A película foi lançada em 1946, no auge da beleza da atriz, tornando-a o rosto mais conhecido das telas. Claro, ela também representava o sonho do público masculino. Contudo, anos depois, a atriz diria em tom melancólico: "Os homens que eu tive iam para a cama com Gilda e acordavam comigo". Bem, histórias como essa veríamos em outros casos de estrelas que se tornaram símbolos de beleza e de sensualidade. A vida real é sempre diferente do que se vê nos filmes.
Por outro lado, como vemos no Anúncio Antigo de hoje (na imagem acima), a publicidade soube se aproveitar muito bem da beleza dessas atrizes. O cinema norte-americano e a propaganda tiveram uma evolução paralela, sobretudo a partir da década de 1930, quando os filmes passaram a ser sonorizados. Até esse momento, o grande alcance das películas produzidas em Hollywood, no subúrbio da cidade de Los Angeles (capital do estado da Califórnia), era o próprio mercado norte-americano e, em menor escala, o europeu. Com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a política de "boa vizinhança" desenvolvida pelo presidente dos Estados Unidos Franklin D. Roosevelt, cuja finalidade era de obter uma maior aproximação com a América Latina, os filmes produzidos em Hollywood ganharam maior popularidade ao sul da linha do Equador, inclusive aqui no Brasil. Era uma alternativa ao fechamento da Europa dominada pelos países do Eixo (Alemanha, Itália). Até mesmo astros europeus foram levados para Hollywood, como parte da estratégia de enfraquecer o nacionalismo dos inimigos. O caso mais célebre foi o da atriz alemã Marlene Dietrich, que não atendeu aos apelos de Hitler para permanecer em seu país natal. 
Junto com os filmes veio a indústria da moda, dos alimentos industrializados, dos eletrodomésticos e dos cosméticos. Muitos hábitos até então estranhos aos trópicos começaram a chegar, como as calças jeans e a Coca-Cola, que desembarcou por aqui em 1942. Além disso, os filmes fotográficos da Eastman Kodak, os rádios da marca Zenith, os óculos Ray-Ban da Bausch & Lomb, a pasta de dente Kolynos e os sabonetes da Lever. E para lembrar: nove entre dez estrelas de cinema usam o sabonete Lever. Para muitos sociólogos e historiadores, tratou-se de um verdadeiro imperialismo econômico e cultural, muitas vezes tendo o cinema e os astros de Hollywood como "garotos-propaganda" desses produtos. 


Bem, no Anúncio Antigo de hoje trata-se de uma garota-propaganda: Rita Hayworth (na foto acima, em uma cena do filme "Gilda"). O seu nome verdadeiro era Margarita Carmen Cansino, nascida em Nova Iorque em 1918, filha de um dançarino espanhol de flamenco chamado Eduardo Cansino e de Volga Haworth, de origem irlandesa e que lhe emprestou o sobrenome quando Margarita chegou ao estrelato. 
Rita veio de uma família de artistas ligados à dança. O seu avô, Antonio Cansino, foi um dos maiores mestres da dança espanhola. Os pais mantinham uma escola de dança e se estabeleceram em Los Angeles. Vários astros de Hollywood chegaram a tomar aulas na escola, inclusive claro, a própria filha do casal. Com a crise de 1929 e a depressão econômica a escola faliu. Foi então que os pais de Margarita Cansino resolveram introduzir a filha nos shows musicais. Mas existia um problema, Margarita era menor de idade, o que levou seu pai a apresentar a filha em shows do outro lado da fronteira com o México. Reza a lenda que, em um desses shows, ela teria sido observada por um diretor da 20th. Century Fox, que a levou para Hollywood e acertou um contrato para a jovem aparecer em alguns filmes, todos em pequenos papeis. Agora ela era Rita Cansino. O seu contrato não foi renovado pela Fox. Mas o seu empresário Edward Judson, que seu tornou também seu marido, a apresentou a Harry Cohn, o chefão da Columbia Pictures. Nesse momento, as portas do estrelato começaram a se abrir para a jovem Rita Cansino de apenas 18 anos.


Rita Cansino? O seu nome soava hispânico demais! Foi aí que, emprestando o sobrenome da mãe, surgia Rita Hayworth (na foto acima, a atriz em 1930, ainda sem ter os cabelos tingidos e usando o nome artístico de Rita Cansino). Mas não foi só isso. A jovem atriz passou por uma dolorosa eletrólise (corrente elétrica) para aumentar a testa e pintou os cabelos de ruivo. Ah, ainda acrescentou um "y" ao sobrenome da mãe, para carregar no tom anglo-saxônico. Pronto? Ainda não. 


Rita passou mais de cinco anos realizando pequenos papéis, sendo emprestada a outros estúdios (Warner e Fox). Só em 1941, parecia que, finalmente, a aposta da Columbia começava a vingar. Rita Hayworth ganhou destaque no filme "Sangue e Areia", por ironia emprestada ao estúdio da Fox que a demitira seis anos antes. Nesse drama passado em meio às touradas de Madri na Espanha, no início do século XX, Rita se transformava em sex symbol. Na sequência vieram musicais ao lado de Fred Astaire e Gene Kelly (na imagem acima, Rita aparece no filme "Modelos" de 1944 junto com Gene Kelly). 


Mas, o seu grande êxito cinematográfico veio com o já citado "Gilda" ao lado do ator Glenn Ford, o qual vive o personagem Johnny Farrell, que dirige um cassino clandestino dentro de uma casa de shows em Buenos Aires na Argentina. O empresário proprietário do local vive com uma mulher, a Gilda que dá título ao filme (no fotograma acima, Rita Hayworth insinua um streap tease ao som da canção Put the Blame on Mame). A partir daí surge uma trama estranha e ambígua. 


Johnny e Gilda já tiveram um caso no passado e, ao que parece, o dono do cassino sabia disso e parecia aceitar o romance entre os dois. Esse estranho triângulo se passa quase completamente em ambiente fechado, em uma irreconhecível Buenos Aires montada em estúdio. Um típico filme noir (drama em preto e branco), mas que transformou Hayworth em mulher fatal e a estrela maior de Hollywood.  


Até o início da década de 1950, Rita Hayworth brilhou no cinema em vários sucessos, como "Os Amores de Carmen" (de 1948 e ao lado novamente de Glenn Ford), "A Dama de Xangai" (1948 com o seu novo marido, o ator e diretor Orson Welles), "A Mulher de Satã" e "Salomé" (ambos de 1953). Sobrou até um tempinho para a atriz aparecer no carnaval carioca em 1962 (na foto acima, a atriz ao lado do playboy brasileiro Jorge Guinle). Seu ultimo grande sucesso no cinema foi "Meus Dois Carinhos" (1957) ao lado de Frank Sinatra. Daí em diante veio o lento declínio, mas não a ausência das telas, onde manteve-se até 1972. 


Na vida privada foram cinco casamentos, todos terminados em divórcio, inclusive o que mais causou sensacionalismo nos jornais e revistas, a sua união com o príncipe Ali Khan (de origem paquistanesa, mas nascido na Itália). Dos seus últimos anos de vida (na foto acima, Rita Hayworth em 1976) fizeram parte o álcool, as brigas com a filha Yasmin (do casamento com Ali Khan) e uma doença que, através dela, ficou conhecida em todo o mundo: o Mal de Alzheimer. Foi em razão das complicações dessa moléstia que Rita Hayworth faleceu em 1987. 
Como se pode perceber, muitas vezes, a vida é pior do que a arte. O Anuncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" de 07.01.1945. 
Crédito das demais imagens: 
Fotos do filme "Gilda" (inclusive o cartaz original) e de Rita Hayworth ao lado de Gene Kelly no filme "Modelos": DVD Gilda da Columbia Pictures.
Foto de Rita Hayworth no carnaval carioca: Acervo Estadão.
Fotos de Rita Hayworth em 1930 e 1976: site Pinterest. 






quarta-feira, 6 de julho de 2016

Nair de Teffé: Bela, Culta e Avançada



A República do Brasil nunca mais teve uma primeira-dama como Nair de Teffé! Caricaturista, pintora, atriz, cantora, pianista, escritora e poliglota (falava seis línguas), Nair exerceu atividades tidas como pouco convencionais para uma representante feminina da elite brasileira no início do século XX. Como se costuma dizer: uma mulher à frente de seu tempo. E que tempo! Estamos nos referindo à Primeira República, também conhecida como República Velha (1889-1930). Época conturbada em todos os sentidos, apesar de ser designada como a belle époque brasileira. Rebeliões nos estados, Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata, Guerra do Contestado, embates nas escolhas dos candidatos a presidente... Na verdade, era uma belle époque restrita a alguns centros urbanos desenvolvidos, entre os quais a capital, Rio de Janeiro e a cidade de Belém, no Estado do Pará, esta última em função da economia da borracha. No momento em que a Europa estava às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Brasil ainda era um país que buscava uma identidade como nação e dava os primeiros passos em direção a um processo de industrialização.
Em 1912, a maior parte da população brasileira, aproximadamente 24 milhões de habitantes, ainda vivia na zona rural dependente da economia primária de exportação ou de atividades de subsistência. Era a época do domínio dos coronéis (grandes fazendeiros), tanto a nível social como na política. Contudo, nas cidades mais importantes, como o Rio de Janeiro, as classes populares começavam a ter uma maior notoriedade, sobretudo por meio de suas manifestações culturais. Inicialmente ignoradas pelas elites sociais, os novos ritmos musicais, como o samba, o maxixe, modas de viola, entre outros, rompiam os limites das periferias, dos morros e ganhavam maior aceitação, até mesmo dentro da residência presidencial. Para que isso ocorresse, algumas iniciativas foram importantes e sem dúvida uma das mais lembradas foi a da primeira-dama Nair de Teffé, esposa do presidente e militar, Marechal Hermes da Fonseca, que governou o Brasil entre 1910 e 1914. 



De origem aristocrática, Nair de Teffé nasceu no Rio de Janeiro (algumas fontes citam Petrópolis) em 1886, filha do almirante Antonio Luís Hoonholtz, Barão de Teffé e neta do Conde Von Hoonholtz. Uma curiosidade, foi a primeira mulher com o nome Nair registrada no Brasil! Nair foi enviada ainda criança para estudar na Europa, acompanhando o pai que era diplomata. 



Estudou em escolas católicas da França, como nos conventos de Assunption, Fideles Compagnie de Jésus, Saint Ursuline e na conhecida escola Vivaudy, localizada na Riviera Francesa e onde haviam apenas 30 alunas, entre as quais filhas de reis e príncipes (na foto acima, Nair de Teffé em sua primeira comunhão, no ano de 1895). Segundo depoimento da própria Nair de Teffé ao jornal O Estado de S. Paulo em 1979, a aptidão para a caricatura foi descoberta aos nove anos, quando estudava no convento Saint Ursuline, ainda na França. Nair fez uma charge da freira professora, que tinha um nariz comprido e que a jovem considerava bom para desenhar. Após ser descoberta pela madre superiora, e como acontecia em uma boa escola católica, Nair foi colocada de castigo em um quarto escuro durante oito horas! Mas isso não intimidou a jovem estudante, que aperfeiçoou a sua arte e se tornou a primeira caricaturista mulher do Brasil (e possivelmente, do mundo). 


Os pais de Nair de Teffé ( na foto acima, Nair sendo retratada pelo pintor francês Guiraud de Scevola) só vieram a descobrir a respeito do talento da filha como caricaturista, quando da visita de uma amiga da família, conhecida como Madame Carrier. Obrigada a permanecer na sala com a convidada por quase duas horas, Nair se viu obrigada a conversar sobre cozinha, algo que a mesma detestava. Segundo o próprio depoimento de Nair:
- Foi terrível porque a unica coisa que eu gosto da cozinha é a comida.
Após a visita ter ido embora, Nair correu ao quarto para fazer uma  caricatura da nobre senhora e mostrou a mesma aos pais, que não apreciaram muito a indisciplina. Como castigo ficou sem a sobremesa no jantar!



Após o retorno ao Brasil, em 1905, Nair de Teffé desenvolveu o seu lado artístico (na imagem acima, caricatura publicada na revista Fon Fon! em 31.07.1909). Além do talento para o desenho, Nair de Teffé era apaixonada pelo teatro e chegou a ser reconhecida como uma atriz de talento. Também apreciava a musica popular, gostava de tocar violão, um instrumento visto pela elite carioca como "coisa do populacho" e para contrariar ainda mais a sociedade da época, frequentava o Bar do Jeremias, reduto dos boêmios e intelectuais. Para se ter uma ideia do preconceito que existia contra o violão, carregar o instrumento na rua poderia render até uma prisão por "vadiagem". 


Em 1910, aos 24 anos de idade, Nair (na imagem acima, desenho executado por Nair nessa época) ficou conhecida na imprensa como caricaturista e colaborava em publicações famosas como Gazeta de Notícias, Careta, Fon-Fon!, O Malho, Gazeta de Petrópolis, Vida Doméstica, Le Rire, Fantasio e Excelsior, sendo estas três últimas francesas. Suas caricaturas eram apreciadas pelos traços modernos e por retratar de forma irônica as figuras de seu tempo. 



Para não chamar tanto a atenção, ela assinava os desenhos com o nome de Rian, Nair ao contrário. Mas isso logo foi percebido (como no desenho acima, feito por volta de 1910).
Em função de possuir habilidades que eram pouco recomendadas para uma mulher do seu meio social, Nair de Teffé enfrentava algumas dificuldades. De acordo com o seu próprio depoimento prestado na citada entrevista de 1979:
- Nas recepções eu era recebida com muita desconfiança pelos homens e com medo pelas mulheres, que por muitas vezes se escondiam atrás dos finos leques.
Nair dizia se divertir com a situação e continuava agindo com irreverência:
- Às vezes meus pais me aconselhavam a deixar a caricatura com medo de que fosse odiada. Isso nunca me intimidou.


E Nair tinha razão! Nada disso foi empecilho para que ela atraísse a atenção da figura mais importante do país, o Presidente da República, que também era militar: Marechal Hermes da Fonseca (na foto acima, sem data). Em 1910, Hermes derrotou o candidato civil à presidência, o baiano Rui Barbosa, discretamente apoiado pelos republicanos paulistas naquela que ficou conhecida como a Campanha Civilista (o civil Rui contra o militar Hermes). A eleição do militar contou com o apoio de Pinheiro Machado, importante líder dos republicanos gaúchos, cuja capacidade de articulação no Congresso Nacional era enorme. A ideia daqueles que apoiaram Hermes era o de apresenta-lo, não como um militar, mas como uma alternativa às demais oligarquias dominantes. Sobrinho do primeiro presidente e líder do golpe republicano de 1889, Marechal Deodoro da Fonseca, pesou sobre o governo de Hermes a dura repressão aos marinheiros da Armada, que se amotinaram contra a imposição dos castigos físicos, resquícios dos tempos da escravidão, na conhecida Revolta da Chibata (ver a postagem Lado a Lado com a História: a Revolta da Chibata, neste blog). 
Mas, voltemos ao casal em questão! Nair de Teffé tinha 27 anos e Hermes mais do dobro de sua idade, 57 no início de 1913. Os dois já tinham se encontrado anteriormente, ainda quando o Marechal Hermes era casado, pois era comum as duas famílias passarem as férias de verão em Petrópolis, sendo que Hermes e o Barão de Teffé costumavam cavalgar juntos. Mas foi poucos meses depois de ficar viúvo de Orsina da Fonseca é que ocorreu a aproximação definitiva. 
Em janeiro de 1913, como narrou depois a própria Nair, o pai avisou a ela da chegada do "trem dos maridos" a Petrópolis. O nome curioso desse trem se devia ao fato de que muitos homens chegavam para encontrar as esposas e outros em busca de uma namorada. Pois o presidente desembarcaria exatamente desse trem! O mesmo pretendia passar um tempo na cidade como forma de esquecer o desgosto pela perda recente da esposa. Nair e seu pai participaram da recepção a Hermes da Fonseca. Nair descreveu o encontro:
- Quando o Marechal desembarcou, achei-o abatido, triste. Quando me viu, notei que seus olhos ficaram diferentes. Apertou a minha mão e olhou-me com viva ternura.
No dia 18 de janeiro, o próprio presidente telefonou para o pai de Nair marcando uma cavalgada para o dia 20, dia de São Sebastião. Hermes da Fonseca apareceu acompanhado de seu filho Euclides, de um ajudante de ordens e de seu cocheiro. O Barão de Teffé veio junto com a filha. Em um determinado momento, Nair se distanciou do grupo e sofreu uma queda. Foi nesse instante que o Presidente acelerou a cavalgada e veio em direção a Nair para socorre-la. Aproveitando a ocasião em que estavam distantes dos demais, Hermes perguntou:
- Machucou-se Mademoiselle?
Ao que Nair respondeu:
- Não!
Foi aí que o Marechal partiu para a investida:
- Antes que cheguem os outros, eu quero lhe falar uma coisa depressa. Tive um sonho, mas acho quase impossível a sua realização. Não devo dizer-lhe...
Nair insistiu para que prosseguisse. Hermes olhando para o chão e encabulado disparou:
- Estou encantado com a beleza de Mademoiselle. Queria fazê-la minha esposa!
Há apenas seis meses o Marechal ficara viúvo e a tradição da época recomendava que o luto fosse guardado por, pelo menos, um ano. Nair pediu seis meses para pensar, mas a resposta veio oito dias depois, com um telefonema dela:
- Eu aceito...


O anuncio oficial foi dado vários meses depois, no dia 17 de setembro de 1913, ainda no período de luto do Presidente. O casamento ocorreu em Petrópolis, no Palácio Rio Negro, em 8 de dezembro do mesmo ano (na foto acima a noiva Nair e o noivo Hermes após a cerimônia religiosa). 



O matrimônio teve uma boa cobertura da imprensa e das revistas da época ( na foto acima, os noivos e convidados após a cerimônia de casamento). 



A cerimônia foi concorrida e se tornou, até hoje, ímpar na história da república brasileira. Hermes da Fonseca tornou-se o único presidente a casar-se (embora em segundas núpcias) durante o exercício de seu mandato. Nas revistas onde Nair de Teffé publicara as suas caricaturas, o casamento recebeu destaque, como na conhecida Fon Fon! (na foto acima, da esquerda para a direita e em primeiro plano, o Cardeal Arcoverde, Nair e Hermes. No alto da escada, ao centro, em uniforme militar, o Barão de Teffé, pai da noiva). 



O acontecimento atraiu a atenção da população local, que se aglomerou na porta do Palácio Rio Negro, para tentar acompanhar de longe o casório (como mostra a foto acima). 


A revista A Illustração Brasileira fez uma foto de capa dos noivos (imagem acima). Nenhum dos filhos do Marechal Hermes compareceu ao casamento. 


Apesar de ter o compromisso do marido de poder continuar a desenhar caricaturas, ao que parece, Nair não exerceu a atividade durante o restante do mandato do Presidente Hermes (na foto acima, a noiva Nair).
A primeira-dama Nair de Teffé transformou o estilo do Palácio do Catete (residência presidencial no Rio de Janeiro), que até então era frequentado por homens sérios e sisudos. Nair promovia saraus e encontros regados a música popular. A introdução do violão nesses eventos foi por sua iniciativa. O Marechal Hermes era amigo e admirador do poeta e compositor Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), autor de clássicos como Luar do Sertão e Flor Amorosa. Segundo Nair, Hermes solicitou a ela que o convidasse para um desses saraus. Foi em uma noite do dia 26 de outubro de 1914, quando o Presidente Hermes ofereceu uma recepção aos chefes das missões diplomáticas estrangeiras e integrantes da alta sociedade da época. As modinhas interpretadas por Catulo fizeram o violão tomar parte definitiva dos concertos juntamente com o violino, o violoncelo e o piano. Catulo pediu para que Nair interpretasse uma música composta por Chiquinha Gonzaga (1847-1935) intitulada Corta Jaca, com partitura para piano e violão. Nair convidou também vários amigos para o recital de apresentação do Corta Jaca. Pronto! O evento foi considerado um escândalo e rendeu críticas até mesmo no Senado da República, por parte de uma das maiores figuras da política naquele momento: Rui Barbosa. 


Rui (na imagem acima, caricatura do político feita por Nair de Teffé) teria dito em seu discurso de 7 de novembro de 1914:
- Mas o Corta Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, o que vem a ser ele, sr. Presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o Corta Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria. 



Como vimos, Rui Barbosa foi adversário político de Hermes da Fonseca e também já havia sido alvo das caricaturas de Nair. Mas agora, a própria primeira-dama tornava-se alvo dos outros caricaturistas (na imagem acima, Nair de Teffé e o "pequeno" Hermes, em um desenho de Fritz, feito em 1913). 
Além de enfrentar as críticas de Rui e da oposição, o Marechal Hermes da Fonseca carregava a fama de pé frio e azarado. Momentos depois de uma audiência com o Presidente Afonso Pena, em 1909, na qual entregou o cargo de Ministro da Guerra em protesto contra a indicação de um candidato governista a presidente, Pena sentiu-se mal e veio a falecer. Em visita a Portugal, em pleno banquete oferecido ao rei Dom Manuel II, veio a notícia dada às pressas de que a monarquia portuguesa estava sendo deposta. Em 1912, o Presidente Hermes da Fonseca mandou depositar um empréstimo para o governo brasileiro em um banco russo, que depois foi tomado pela Revolução Bolchevique de 1917! Tudo isso valeu ao Presidente uma série de anedotas e gozações, inclusive na forma de marchinhas, como esta: 

Ai Filomena, se eu fosse como tu, tirava a urucubaca da cabeça do Dudu.


Não pensem que o Presidente Hermes esqueceu-se de sua primeira esposa, Dona Orsina. Conta uma anedota, que toda semana, Hermes da Fonseca ia ao cemitério depositar flores nos vasos do túmulo da falecida. Eram seis vasos, um para cada letra do nome da primeira esposa. Um belo dia, Hermes teria ido ao cemitério e encontrou apenas quatro vasos, dispostos na seguinte ordem: NAIR. Um irado Marechal Hermes mandou chamar o jardineiro e deu-lhe uma enorme bronca. Na semana seguinte, o presidente voltou ao cemitério e encontrou os vasos de volta, mas com as letras na seguinte ordem: RI ASNO!



Nair de Teffé suportou com grande dignidade o último ano do mandato do Presidente Hermes (na imagem acima, uma caricatura feita por Nair do marido Hermes da Fonseca). 



Com o término do mesmo, Nair viajou novamente para a Europa, inclusive para tratar de um problema no quadril, depois de sofrer uma queda quando corria para subir na carruagem onde estava o marido (mais uma "urucabaca" creditada ao Marechal Hermes da Fonseca). Tal acidente a teria deixado com uma perna mais curta que a outra (na foto acima, tirada por Hermes da Fonseca em 1915, Nair na época do acidente). 
De volta ao Brasil em 1921, Nair de Teffé ainda teve que enfrentar os problemas políticos que envolveram o agora ex-presidente Hermes no conflito entre os militares e o presidente eleito Arthur Bernardes, os quais desembocaram na Revolta Tenentista de 1922. O velho Marechal, que era presidente do Clube Militar, chegou a ser preso durante seis meses e depois de libertado, retirou-se definitivamente para Petrópolis, onde faleceu em 1923. Nair sentiu muito a morte do marido e jamais voltou a se casar. Pelo que se sabe, Nair amava de fato o esposo e esteve ao seu lado até a morte. Em defesa do marido, Nair de Teffé escreveu, muitos anos mais tarde, um livro intitulado A Verdade sobre a Revolução de 22
Com 37 anos, Nair de Teffé, muito lentamente, foi retomando a vida social, sem abandonar as suas opiniões avançadas. Em uma entrevista dada em 1924, declarou: 
- Por que permitir ainda que os homens continuem a atrapalhar a vida econômica do sexo frágil... disputando-lhes os empregos e os cargos ao alcance de suas forças e capacidades?
Nair criou em Petrópolis a Academia Petropolitana de Letras e também entrou para a Academia Fluminense de Letras em 1929. Após a morte dos pais em 1930, a ex-primeira-dama do Brasil deixou Petrópolis e foi residir no Rio de Janeiro. Contudo, a herança familiar foi sendo corroída, inclusive no "jogo-do-bixo", que Nair apreciava. Mesmo assim, conseguiu, através de um empréstimo da Caixa Econômica Federal, erguer um prédio em Copacabana, que abrigou o Cine Rian. No entanto, encontrou dificuldades para administrar a sala e enfrentando problemas financeiros, vendeu a mesma em 1946. Conta-se que o vício no jogo levou-a a perder uma ilha localizada em Angra dos Reis, que lhe havia sido deixada pelo marido. Com o pouco que lhe restou, comprou uma casa em Niterói, onde passou a viver reclusa com três filhos adotados: Carmem Lúcia, Tânia e Paulo Roberto. 




Em 1959, Nair de Teffé voltou a desenhar caricaturas, inclusive de personagens contemporâneos, como Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros (respectivamente, nas imagens acima). 



Nem mesmo Fidel Castro escapou das linhas soltas e ágeis de uma já septuagenária Nair de Teffé (na foto acima). 



A essa altura, a ex-primeira dama pagava aluguel para morar e quase foi despejada em 1970 (na foto acima, Nair já idosa). A pensão deixada por Hermes da Fonseca não era mais suficiente para as suas despesas. Nesse mesmo ano, por decisão do presidente Emílio Médici, ela conseguiu receber a pensão integral do ex-marido. Muitos explicam nesse fato os elogios feitos por ela ao general-ditador. 



Em 1979, Nair de Teffé veio a São Paulo para uma derradeira homenagem no II Salão do Humor e Quadrinhos do Mackenzie, promovido pelo Diretório da Faculdade de Engenharia, no Paço das Artes (na foto acima, uma das várias homenagens que recebeu ao final de sua vida). No ano de 1981, no exato dia em que completava 95 anos, Nair de Teffé faleceu. 
Enfim, como dissemos na introdução desta postagem, até hoje, a República Brasileira ficou devendo uma outra primeira-dama tão inovadora como Nair de Teffé. Será que sua história não merece um filme ou uma minissérie em referência aos problemas que as mulheres de hoje ainda enfrentam? Fica aqui a sugestão...
Crédito para o texto: consultas aos jornais O Estado de S. Paulo, edições de 3 de junho de 1971 e 26.10.1967; Folha de S. Paulo (várias edições) e Coleção Nosso Século, pags. 28 e 29.
Crédito das imagens:
Foto de Nair de Teffé de chapéu:
https://comicsfromunderground.wordpress.com/2012/02/28/nair-de-teffe/
Fotos de Nair sendo retratada, dos desenhos de 1910 e 1913 e da caricatura de Nair de 1913: Coleção Nosso Século. Avbril Cultural, 1981, pags. 28 e 29. 
Caricatura feita por Nair no ano de 1913 em p&b:
http://historiahoje.com/nair-de-teffe-as-mulheres-e-a-caricatura-no-brasil/ caricatura de 1909
Foto sem data do Marechal Hermes da Fonseca:
http://www2.planalto.gov.br/acervo/galeria-de-presidentes/hermes-rodrigues-da-fonseca/view
Fotos de Nair de Teffé de perfil e do casamento:
http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,o-casamento-do-presidente-com-a-cartunista,9444,0.htm
Caricaturas de Nair feitas na década de 1950 e do marido Hermes:
http://www.museuhistoriconacional.com.br/mh-g-7.htm
Fotos de Nair de Teffé idosa: http://mulheresquehonramorole.blogspot.com.br/2012/04/nair-de-tefe.html
Fotos de Nair de Teffé na primeira comunhão e em 1915:
https://www.levyleiloeiro.com.br/peca.asp?ID=221432&ctd=35&tot=279&tipo=

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Imagens Históricas 21: Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes



A política democrática liberal costuma pregar armadilhas a todos os que participam da mesma. Alianças, confabulações, coligações e acordos podem ser feitos, mesmo entre aqueles que, em tese, seriam de diferentes linhas políticas e ideológicas. O inimigo de hoje pode ser o aliado de amanhã! Que o digam os personagens da foto acima tirada em 1947: o ex-presidente Getúlio Vargas (primeiro à esquerda) e o líder comunista Luís Carlos Prestes (segundo, da direita para a esquerda). Desde 1930 os rumos da política brasileira colocaram esses dois personagens em papéis de destaque.
Com a queda da Primeira República no movimento revolucionário de 1930, o gaúcho Getúlio Vargas ascendeu como principal liderança do país numa aliança que se opôs ao poder das antigas oligarquias (elites estaduais) lideradas pelos cafeicultores paulistas e por uma parte dos pecuaristas mineiros: a tradicional política do café com leite. Ao mesmo tempo, outro gaúcho, o ex-capitão do Exército Luis Carlos Prestes surgiu como a grande liderança do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de um grupo revolucionário conhecido como Aliança Nacional Libertadora (ANL) que reunia grupos mais à esquerda, além do próprio PCB. O objetivo era derrubar Vargas e implantar um governo popular revolucionário. Contudo, o levante realizado em novembro de 1935 não teve êxito. Após o fracasso do movimento, chamado pelos anticomunistas de Intentona (plano insensato) Comunista, muitos antigos integrantes da ANL foram presos por ordem de Vargas, inclusive Luís Carlos Prestes, conhecido como "O Cavaleiro da Esperança" desde os tempos da Revolta Tenentista contra os coronéis da Primeira República na década de 1920. 



Prestes foi preso em 1936 junto com sua esposa e agente da Internacional Comunista, Olga Benario (imagem acima, Olga em um quadro de Cândido Portinari de 1945), que havia sido enviada ao Brasil para dar apoio ao levante comunista e ao próprio Prestes. Os dois entraram no país com documentos falsos e disfarçados como um casal em lua de mel. Contudo, o que era para ser apenas um disfarce virou realidade. Prestes e Olga se apaixonaram! No ato da prisão, Olga teria se colocado na frente do marido e impedido a morte do mesmo pelos policiais comandados pelo delegado Filinto Muller. 
Olga era alemã, de origem judia e comunista. O governo alemão, na época já controlado pelo Partido Nazista de Hitler, enviou um pedido de extradição ao governo brasileiro. Após uma luta nos tribunais, a decisão final coube ao Supremo Tribunal Federal (STF): Olga foi enviada para a Alemanha. O leitor já pode estar imaginando o que aconteceu com a jovem revolucionária. Olga Benario Prestes foi mandada a um campo de concentração. E o pior, grávida de uma filha de Prestes! Décadas depois, o STF veio a reconhecer o equívoco da decisão. Por outro lado, o presidente Getúlio Vargas nada fez na época para impedir a extradição, até porque o seu governo mantinha uma política amigável com a Itália fascista e a Alemanha nazista, inclusive para obter vantagens econômicas diante do então cenário internacional. Além disso, o seu governo abrigava muitos simpatizantes do totalitarismo fascista. 



Com Olga presa pelos nazistas, Maria Leocádia, mãe de Luis Carlos Prestes, iniciou uma campanha internacional para resgatar a neta. Anita Leocádia Prestes (na foto acima, ainda criança) foi salva, mas Olga Benario Prestes morreu em um campo de extermínio nazista em 1942. Só após o final da Segunda Guerra Mundial em 1945, Prestes teve confirmada a morte da esposa.
Bem, apesar disso, o PCB por meio de Prestes manifestou apoio a Getúlio ainda no fim da ditadura do Estado Novo em 1945, enaltecendo a anistia aos presos políticos (inclusive ao próprio Prestes) e ao estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética. Ao mesmo tempo, o PCB flertava com o movimento Queremista (Queremos Getúlio), articulado pelos aliados do ex-ditador. A influência norte-americana se fazia presente na América Latina junto com o anticomunismo que marcou os primeiros tempos da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Prestes alegava que o combate ao imperialismo americano e os interesses do povo brasileiro estavam acima de seus ressentimentos pessoais. As consequências do alinhamento do Brasil com os Estados Unidos, após a queda de Vargas se confirmaram. O PCB foi cassado em 1947 durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) e todos os parlamentares do partido perderam os seus mandatos, inclusive Prestes, que era senador, e os deputados Jorge Amado, Carlos Marighela e João Amazonas, entre outros parlamentares do partido. 
Mas voltemos à imagem mais acima. Na noite de 4 de novembro de 1947, em um comício que reuniu aproximadamente 10 mil pessoas no vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes estiveram lado a lado para prestar apoio ao deputado Cirilo Júnior, que era candidato ao cargo de vice-governador do estado. Ao caro leitor se faz necessário um esclarecimento. Pela Constituição de 1946, a eleição para o cargo de vice era independente, isto é, o eleitor poderia votar em um candidato a vice-presidente ou vice-governador de uma chapa diferente do candidato titular ao cargo. Algo que poderia gerar problemas, pois poderia ser eleito um candidato de um partido oposto ao do vice. Para Getúlio Vargas era importante derrotar o outro candidato a vice-governador de São Paulo, Novelli Júnior que era aliado do então presidente Dutra, contra o qual se opunha e também impedir o domínio político de Ademar de Barros, o mais importante líder paulista. 



Para Luís Carlos Prestes era fundamental impor uma derrota ao governo federal, responsável pela cassação do registro do PCB, que foi colocado na ilegalidade. Ao mesmo tempo, o apoio a Cirilo significava punir Ademar, que se elegera governador com o apoio dos comunistas que levaram pelo menos 120.000 votos (na foto acima, Prestes à esquerda, dá apoio a Ademar na sua eleição para governador de São Paulo em janeiro de 1947). Ademar não prestou retribuição política (nos cargos) ao PCB e nem se solidarizou com o mesmo quando este foi cassado.
As justificativas políticas para esse encontro inusitado no palanque do Anhangabaú não foram suficientes para alterar o espanto de muitos simpatizantes e até ex-integrantes do PCB, como o escritor modernista Oswald de Andrade. Conforme nos relata o biógrafo de Getúlio Vargas, Lira Neto, Oswald em sua coluna no jornal Correio da Manhã, imaginou a perplexidade de um indivíduo que tivesse perdido a memória e anos depois a recobrasse no mesmo dia do comício do Anhangabaú! 
Bem, críticas a parte, o encontro entre os dois líderes foi absolutamente formal. Aplausos entusiásticos foram ouvidos quando os dois foram apresentados. Contudo, os mesmos nem se cumprimentaram! Getúlio fez o seu discurso e logo depois se retirou, sem ouvir o de Prestes. Aliás, o comício acabou em desordem quando o estampido de duas bombas de pequeno impacto foram ouvidos. A multidão se dispersou com o avanço da cavalaria da polícia. Por sua vez, a foto dos dois no palanque dá a impressão falsa de que Prestes estaria segurando o microfone para Getúlio falar. A foto serviu de arma tanto para os inimigos de Getúlio Vargas, que temiam a sua volta à política, quanto para os de Luís Carlos Prestes, que criticavam as suas teses revolucionárias. 
Como dissemos na introdução desta postagem, a política liberal dá muitas voltas. Em 1950, foi Ademar de Barros (conhecido também por estar associado ao lema "rouba, mas faz") que se uniu a Vargas para lançá-lo como candidato a presidente! Pelo que vemos hoje, essas situações continuam presentes na política e ainda geram controvérsias. A imagem histórica mais acima está no excelente livro de Lira Neto, "Getúlio 1945-1954: Da volta pela consagração popular ao suicídio", editado pela Companhia das Letras. 
Crédito das demais imagens: 
Retrato de Olga por Cândido Portinari: 
http://www.jcabrasil.org/2012/02/olga-benario-prestes-um-exemplo-para-os.html
Foto de Prestes no palanque com Ademar de Barros: Nosso Século 1945-1960. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 24. 
Foto de Anita Leocádia Prestes criança: https://www.unila.edu.br/es/node/2920?page=4





segunda-feira, 30 de maio de 2016

Imagens Históricas 20: Enchente no "Buraco do Adhemar"



O ano: 1958. E as enchentes já faziam parte do cotidiano dos moradores da capital paulista. Inclusive no cartão postal da cidade, o vale do Anhangabaú e o então famoso "Buraco do Adhemar". Por que esse nome? Trata-se de uma referência ao ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, que mandou construir a passagem subterrânea de 225 metros de extensão no ponto em que a avenida São João cruza o vale do Anhangabaú. A obra já havia sido planejada pelo prefeito Prestes Maia na década de 1930, mas acabou sendo construída muitos anos depois e inaugurada em 1950. Adhemar de Barros ficou conhecido como o político que "rouba, mas faz". Uma alusão a uma suposta comissão paga ao chefe do Executivo paulista por construtoras e empreiteiras. Suposta comissão? Bem na época da Ditadura Militar, em 1969, o grupo guerrilheiro VAR-Palmares conseguiu apreender o cofre onde estariam os milhares de dólares da famosa "caixinha do Ademar" e utilizou o dinheiro para financiar a luta armada contra o governo ditatorial. O cofre continha aproximadamente 2,5 milhões de dólares (em valores da época). E quanto às obras? Bem, desde que foi nomeado interventor (cargo equivalente ao de governador) pelo ditador Getúlio Vargas em 1938, Ademar colecionou nas três vezes em que ocupou a chefia do Executivo de São Paulo, grandes obras, como o complexo do Hospital das Clínicas, a vias Anchieta e Anhanguera, o Estádio Municipal do Pacaembu, hidrelétricas, o Parque Municipal e Balneário da Moóca (na época o maior da América Latina) e claro, o famoso "buraco". Proveniente de uma rica família de fazendeiros de café, Adhemar de Barros também foi empresário, proprietário da conhecida fábrica de chocolates Lacta e da Rádio Bandeirantes, a qual foi comprada de Paulo Machado de Carvalho e que deu origem ao Grupo de Comunicação Bandeirantes, do genro de Adhemar, João Saad. 
Contudo, o reinado de Adhemar foi ameaçado na década de 1950 por um outro fenômeno político: Jânio Quadros. A rivalidade entre Ademar e Jânio ficou famosa e continuou, mesmo após a morte de Ademar em 1969. Quando prefeito de São Paulo pela segunda vez, Jânio Quadros lançou um plano de remodelação do Anhangabaú e projetou um novo túnel, que começou a ser construído em 1988. Esse projeto é o que deu o novo visual que o vale do Anhangabaú tem nos dias atuais. Para Adhemar de Barros Filho, Jânio Quadros quis desfazer a obra de seu pai e riscar o nome de Adhemar da história de São Paulo. Bem, o "Buraco" desapareceu, mas a história controversa desse conhecido político paulista é contada até hoje. Inclusive em anedotas. Conta-se que certa feita ao fazer a promessa da construção de uma ponte em uma cidade do interior paulista, Adhemar foi advertido em pleno comício eleitoral:
- Governador, a cidade não precisa de ponte, aqui não existe rio!
Ao que Adhemar emendou:
- Não têm problema, eu mando trazer o rio também...
A imagem histórica de hoje é proveniente da Agência Estado e está disponível no seguinte endereço:
http://fotos.estadao.com.br/galerias/acervo,fotos-historicas,15357

terça-feira, 12 de abril de 2016

Tiradentes e a Inconfidência dos Letrados parte final




Liberdade, Liberdade! Seria esse o grito que se ouviria nas ruas de Vila Rica (hoje Ouro Preto) se o movimento fosse efetivamente deflagrado. Mas isso nem chegou a ocorrer. A Inconfidência Mineira ficou apenas nas confabulações, reuniões e conspirações. Contudo, muitos indivíduos dela tomaram parte de várias formas, sejam como simpatizantes, colaboradores, amigos dos participantes e sobretudo como elaboradores de um projeto um tanto imperfeito de país. A inspiração para isso veio dos princípios filosóficos do século XVIII ou Era das Luzes: o Iluminismo. As discussões e críticas feitas às monarquias absolutistas (baseadas na ideia de que o poder real têm origem divina), aos dogmas da Igreja Católica e aos obstáculos impostos para o livre comércio tiveram influência direta no movimento. Ao mesmo tempo, o êxito da experiência norte-americana na guerra contra o domínio inglês, entre 1776 e 1781, parecia tornar a possibilidade de rompimento com Portugal algo perfeitamente viável em termos práticos. O seu personagem mais conhecido acabou sendo representado na História como um mártir, com a aparência de Jesus Cristo (como no quadro acima "Tiradentes ante o carrasco" de Rafael Falco pintado em 1951, que atualmente se encontra na Câmara dos Deputados em Brasília). 



A região das Minas Gerais havia prosperado com a exploração do ouro e dos diamantes no decorrer do século XVIII (na gravura acima Vila Rica, atual Ouro Preto no início do século XIX). Notem que essa prosperidade não significou fartura para todos. Como bem demonstrou a historiadora Laura de Mello e Souza a opulência conviveu com a pobreza, embora nos quadros de uma sociedade mais diversificada e urbanizada. Mas na segunda metade desse mesmo século apareceram os sinais de que os tempos de fartura tinham ficado para trás. O esgotamento das minas tornava-se evidente, menos para a Coroa Portuguesa, que acreditava que o contrabando e a evasão fiscal desviavam o ouro de seu destino correto: Portugal. Por isso, uma política de aperto nos impostos e cobrança de tributos em atraso foi aplicada pelas autoridades da metrópole portuguesa. Evidentemente tais medidas geraram descontentamento na população, sobretudo entre os integrantes da elite formada pelo processo de exploração do ouro, pelo crescimento das cidades, pela vida urbana e cultural dentro de uma sociedade mais complexa e heterogênea, quando comparada com a região açucareira do Nordeste. Lembremos, contudo, que a sociedade do ouro também teve por base o trabalho escravo.
Muitos dos filhos dessa elite foram enviados para as universidades europeias. Entre eles destacaram-se José Alvares Maciel, Domingos Vidal Barbosa e José Joaquim da Maia, cujas famílias eram estabelecidas em Minas Gerais e Rio de Janeiro. Estes jovens tiveram contato com sociedades literárias formadas por intelectuais, filósofos, professores universitários e possivelmente com a maçonaria, que na época ganhava força entre aqueles que difundiam as ideias iluministas e liberais na Europa. 



José Joaquim da Maia foi um pouco além dos encontros intelectuais e solicitou uma audiência com o embaixador norte-americano na França, ninguém menos do que Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América e futuro presidente da jovem nação (no quadro acima um retrato de Jefferson). Uma figura histórica contraditória aos olhos de hoje, ao escrever que todos os homens nascem livres e iguais, mas tendo em sua propriedade aproximadamente duzentos escravos. Além disso, manteve uma longa relação amorosa com uma escrava chamada Sally Hemings, aliás filha ilegítima do próprio sogro de Jefferson. A mesma lhe deu seis filhos! 
No encontro com Jefferson, Maia foi direto ao ponto: haveria possibilidade de uma ajuda dos norte-americanos a um movimento de libertação no Brasil? Jefferson sugeriu um apoio moral, mas em termos materiais era complicado que os Estados Unidos, ainda em processo de consolidação interna, pudessem oferecer tal ajuda e se indispor com as monarquias europeias. Maia nem chegou a participar efetivamente da Inconfidência, falecendo em Portugal vitima de tuberculose em 1788. Mas o seu amigo José Alvares Maciel voltou ao Brasil discutindo a possibilidade de uma revolta contra Portugal. 
O retorno desses estudantes brasileiros lançou, de modo efetivo, as sementes para o planejamento de um movimento separatista aproveitando do descontentamento reinante na região das Minas Gerais em relação às autoridades portuguesas. Maciel trouxe ao Brasil uma  pequena coleção dos documentos importantes da Revolução Americana, entre os quais a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Logo após desembarcar no Rio de Janeiro em junho de 1788, Maciel participou de um encontro na residência de seu concunhado, no qual estiveram o padre contrabandista José da Silva de Oliveira Rolim, proveniente do arraial do Tejuco (hoje Diamantina) e um certo alferes (segundo-tenente) da Guarda dos Dragões de Minas Gerais, chamado Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes. Muitos estudiosos afirmam que nesse dia 23 de julho de 1788 nasceu a Inconfidência Mineira. Nesse encontro, Maciel relatou o contato de José Joaquim da Maia com Jefferson, a experiência revolucionária dos norte-americanos e a possibilidade apresentada pelas indústrias, caso viessem a ser implantadas no Brasil. O alferes Silva Xavier ficou com o livreto dos documentos da Independência dos Estados Unidos. Muitos laços de compadrio uniam esses indivíduos. Por exemplo, o comandante de Tiradentes, tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade era cunhado de Maciel. 



Mas o que fazia Tiradentes no Rio de Janeiro? Como vimos na primeira parte desta postagem (Tiradentes e a Inconfidência dos Letrados parte 1) Joaquim José da Silva Xavier era um homem que buscava outras possibilidades de trabalho, além do seu humilde posto de alferes. Após 15 anos de carreira militar, com 40 anos de idade, Tiradentes permanecia na mesma patente militar com a qual iniciara a sua carreira (no quadro acima de José Washt Rodrigues, o "Alferes Tiradentes", a representação do herói inconfidente preferida pelos militares). Queixava-se abertamente de que era chamado para as missões mais arriscadas, mas na hora da promoção era preterido por outros colegas, talvez mais influentes. 



Por isso, exercia também o ofício de dentista, vindo daí o conhecido apelido de Tiradentes (na foto acima, um boticão, instrumento usado no século XVIII para extrair dentes) e farmacêutico. 



Naquele momento, Tiradentes (na foto acima, a casa que abrigou a farmácia mantida pelo alferes) estava oferecendo ao Governo Português no Rio de Janeiro os seus projetos de canalização dos rios Andaraí e Maracanã (córrego que deu nome ao famoso estádio de futebol, que foi construído tempos depois próximo ao mesmo), a construção de moinhos d'água e melhorias na área portuária. Tiradentes esperava poder auferir uma renda desses projetos. Contudo, os mesmos foram encaminhados ao Conselho Ultramarino e jamais foram aprovados. Muitos fornecedores de água e que mantinham moinhos na cidade também lhe fizeram oposição aos planos. Tal fato contribuiu para que o alferes se tornasse um homem ainda mais amargurado e insatisfeito com o controle português sobre o Brasil. 
Embora fosse um participante ativo das reuniões e confabulações da Inconfidência, Tiradentes ainda sentia-se desconfortável por não pertencer à elite social da colônia. O que não significa dizer que fosse pobre! Vivia com relativo conforto e tinha rendimentos razoáveis. Por exemplo, no total dos bens sequestrados por Portugal após a prisão dos inconfidentes, o patrimônio de Tiradentes era superior ao de seu amigo e comandante na Guarda dos Dragões, o já citado Francisco de Paula Freire de Andrade. 
Por incrível que pareça, José Alvares Maciel fez uma outra amizade na sua volta ao Brasil. Ninguém menos do que Luís Antônio Furtado de Castro do Rio Mendonça e Faro ou simplesmente Visconde de Barbacena, o novo governador das Minas Gerais. Nobre, formado em Coimbra e especialista em mineralogia, Barbacena viu em Maciel um homem culto e que poderia ajudá-lo em seu governo. As instruções dadas ao novo governador por Martinho de Melo e Castro, Secretário da Marinha e dos Domínios Ultramarinos de Portugal eram claras no sentido de dar prioridade à economia e ao aspecto fiscal (impostos). O Governo Português considerava que as gestões anteriores haviam negligenciado os interesses da metrópole. A Derrama (cobrança dos impostos do ouro em atraso) era peça importante da política de Barbacena, que assumiu em 11 de julho de 1788. 



Barbacena sucedeu a outro governador, Luís da Cunha Menezes. A gestão deste ultimo é tida pelos historiadores como sendo o momento em que as relações entre os futuros inconfidentes e o Governo Português começaram a se deteriorar. Por exemplo, foi nessa época que Tomás Antônio Gonzaga foi ouvidor (juiz) em Vila Rica (na foto acima assinatura de Gonzaga em um documento). Apesar da origem portuguesa, Gonzaga era bem relacionado nas Minas Gerais, mantendo sólida amizade com o advogado e poeta Claudio Manoel da Costa e também com José de Alvarenga Peixoto, coronel da Guarda dos Dragões e que foi juiz em São João Del Rei. Gonzaga é tido como o mais expressivo dos poetas mineiros do século XVIII. 


Cunha Menezes foi o alvo principal dos "disparos literários" de Gonzaga na obra Cartas Chilenas divulgadas de forma anônima na capitania das Minas em 1789. Sob o pseudônimo de Critilo, Gonzaga não poupa o governador Menezes, chamado de Fanfarrão Minésio, acusando o mesmo de ser corrupto, vendedor de cargos e de até promover orgias no palácio com "mocetonas, mariolas, michelas, donzelinhas". Coube a Cunha Menezes a construção do prédio da Câmara e cadeia de Vila Rica (na foto acima o prédio, hoje Museu da Inconfidência em Ouro Preto). 



As críticas de Gonzaga ao Fanfarrão Minésio, ao que parece, faziam eco entre outras pessoas importantes da capitania. Como nos mostra o jornalista e escritor Pedro Doria, Tomás Antônio Gonzaga já havia tido vários desencontros com o antigo governador (na foto acima, a residência alugada de Gonzaga ao tempo em que era ouvidor de Vila Rica). Um deles envolvia o rico comerciante e contratador (arrecadador de impostos) João Rodrigues de Macedo. Por ter autorização do Governo Português para arrecadar impostos, Macedo era isento dos mesmos e costumava aplicar o dinheiro arrecadado em benefício próprio. Daí ter uma enorme dívida com o fisco. Macedo agia também como banqueiro e emprestou dinheiro para muitas pessoas importantes incluindo Alvarenga Peixoto, Claudio Manuel da Costa, Tiradentes (que morava há apenas 100 metros de sua casa), Domingos de Abreu Vieira (que batizou a filha de Tiradentes, Joaquina) e o ouvidor Gonzaga. Pela atuação suspeita na arrecadação dos impostos, Macedo sofreu vários processos por parte do Governo. Mas, o seu advogado era Claudio Manuel da Costa e o juiz Gonzaga. Todos os processos foram decididos em favor de Macedo. Em 1788 Tomás Antônio Gonzaga esgotara o seu mandato de ouvidor em Vila Rica e era transferido para Salvador na Bahia. 




Gonzaga estava para se casar com Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a célebre Marília de Dirceu de seus poemas. Na verdade era a Marília morena, pois teria existido outra, a Marília loira (nas fotos acima, os rostos de Gonzaga e Marília em imagens criadas na década de 1930). 
Conversas, reuniões, confabulações... Em outubro de 1788 os principais personagens da Inconfidência encontravam-se em Vila Rica. O Visconde de Barbacena já era o novo governador e a decretação da Derrama começava a se tornar uma possibilidade real. A capitania das Minas Gerais tinha aproximadamente 320 mil habitantes, sendo metade formada por população livre e a dívida da capitania totalizava o equivalente a 8 toneladas de ouro, cabendo 46 gramas para cada habitante livre. 




No dia 26 de dezembro de 1788 uma reunião importante ocorreu na casa do comandante dos Dragões, Francisco de Paula Freire de Andrade. Sim, o próprio comandante da guarda que deveria proporcionar ordem na capitania participava da conspiração! Nessa reunião além do dono da casa, conspiravam Alvarenga Peixoto (homem rico e também militar), o proscrito contrabandista de diamantes padre Oliveira Rolim, o vigário Correia de Toledo, homem muito rico e proveniente da Vila de São José, terra natal de Tiradentes (nas fotos acima, casario na antiga Vila de São José, atual Tiradentes e a antiga residência do vigário Toledo), Tiradentes e José Alvares Maciel. Mas havia também Tomás Gonzaga, Claudio Manuel da Costa e o padre de Mariana, Luís Vieira da Silva, dono da maior biblioteca da capitania. Este último era o núcleo intelectual da conspiração. Uma figura obscura, o magnata e contratante João Rodrigues de Macedo, amigo de todos e também agiota de todos, teria participado das reuniões? O segundo escalão era formado por outros contratadores, como Domingos de Abreu Vieira (compadre de Tiradentes) e Joaquim Silvério dos Reis. 



Nessa e talvez em outras reuniões discutiu-se de tudo (no desenho acima de Ivan Wasth Rodrigues uma reunião dos inconfidentes). Qual país seria criado? Que forma de governo teria? Sim, uma república, mas de que tipo? Muito provavelmente seguindo o modelo presidencialista norte-americano, do qual o padre Luís Vieira da Silva conhecia bem pelos seus livros. Liberar as fábricas e fundições de ferro que eram proibidas pela rainha de Portugal, criar uma universidade em Vila Rica e estabelecer a capital, possivelmente, em São João Del Rey. 



A bandeira com o triângulo vermelho (foto acima), representando a Santíssima Trindade e a frase latina do poeta romano Virgílio: Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade Ainda Que Tarde). Uma questão delicada: a escravidão. Mantê-la? Libertar apenas os escravos nascidos no Brasil? Chamar os mesmos para a luta e prometer a eles o quê? A tendência também seria seguir o que fizeram os norte-americanos, manter a instituição, embora alguns inconfidentes nem tivessem escravos. Por outro lado, Alvarenga Peixoto falava em liberdade ao propor o que deveria estar escrito na bandeira dos inconfidentes, mas era dono de 132 escravos! Como já afirmamos, na mentalidade da época não era algo tão contraditório. 
Finalmente, o que fazer com o governador (Visconde de Barbacena)? De acordo com o padre Correia de Toledo em seu depoimento, Tiradentes teria dito: "A maior ação, de maior risco e dificuldade, a quero para mim". A tal ação era prender o governador e sua família e, possivelmente, cortar-lhe a cabeça e exibir a mesma para a multidão em Vila Rica, aos gritos de "Viva a Liberdade" para tornar a rebelião um fato consumado! Alvarenga Peixoto insistia nessa ideia. A data do movimento seria o dia em que fosse decretada a Derrama, prevista por alguns inconfidentes para fevereiro de 1789. A senha: Hoje é o Dia do Batizado! Levantes simultâneos ocorreriam no Serro (Diamantina) e na Vila de São José (atual Tiradentes), área da Comarca do rio das Mortes. Nenhum documento ou papel desses planos, se é que existiram, sobreviveram. Sabemos de tudo isso por meio dos depoimentos dos participantes após a prisão dos mesmos. 
A espera angustiante! Janeiro e fevereiro de 1789. Mais encontros e discussões entre os inconfidentes. E a Derrama não era decretada! Tiradentes corria em busca de informações nas casas de Gonzaga e do comandante Freire de Andrade, os quais se queixavam de sua indiscrição. Na Vila de São José, o padre Correia de Toledo aliciava Joaquim Silvério dos Reis, contratador de impostos que devia muito à Coroa Portuguesa. 
O mês de março chegou e nada da Derrama. Tiradentes estava angustiado e queria ter informações sobre o movimento no Rio de Janeiro, onde tinha contatos. A impaciência do alferes já se tornava pública e quando bebia nas tabernas falava abertamente contra Portugal. "Fazem de nós negros" costumava dizer! No dia 12 de março de 1789, Tiradentes segue em viagem para o Rio, ainda com esperança de organizar o movimento na capital da colônia. Em Vila Rica apenas silêncio. 
Finalmente a decisão do governador: não haverá Derrama! Tomás Antônio Gonzaga, desconfiado de que o Visconde de Barbacena já soubesse da conspiração, decide visitá-lo e até sondar o mesmo sobre a hipótese da adesão ao movimento! Mas Barbacena, astuto, procurou ganhar tempo e realizar algumas mudanças no comando da Guarda dos Dragões com oficiais de sua confiança. No dia 25 de março, Barbacena escreveu ao seu tio e vice-rei do Brasil (principal autoridade da colônia com sede no Rio de Janeiro) Luís de Vasconcelos e Sousa. Na correspondência, Barbacena afirmou que, por meio de uma denúncia, soube da existência de uma "sublevação entre os poderosos e magnatas" das Minas Gerais e do Rio de Janeiro, apontando o ex-ouvidor Tomás Antônio Gonzaga como um dos cabeças do movimento. De fato, 10 dias antes dessa carta, Barbacena já tinha conhecimento da conspiração. Na verdade houve mais de um denunciante. 



Contudo, Joaquim Silvério dos Reis tornou-se o mais conhecido, talvez pelo benefício do perdão de sua enorme dívida (na imagem acima o coronel Silvério dos Reis). Em termos atuais, uma "delação premiada"! Nessa altura, a conspiração já estava abortada em Vila Rica. Na Vila de São José o padre Correia de Toledo ainda tentava obter adesões, como também Tiradentes na capital da colônia. O denunciante Silvério dos Reis foi enviado ao Rio de Janeiro, a mando do governador, para seguir os rastros do alferes e o vice-rei já estava informado sobre a presença de Tiradentes lá. 
Ao que parece, o Visconde de Barbacena não desejava levar para a prisão tantos homens importantes da capitania das Minas. Mas não era essa a ideia de seu tio e vice-rei do Brasil! Na visão das autoridades portuguesas tratava-se de traição à rainha, falta de fidelidade à soberana de Portugal e crime de lesa-majestade. Daí a palavra "Inconfidência"! Nos idos de maio começam as prisões na capital. O vice-rei já havia mobilizado tropas portuguesas enviando-as para Minas Gerais. 



Em um sobrado no centro do Rio de Janeiro, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, apesar de portar um bacamarte (espingarda de cano curto) nada pode fazer diante dos soldados que vieram prendê-lo (na imagem acima, o quadro de Antonio Parreiras de 1914 reconstituindo a prisão de Tiradentes). Tiradentes é conduzido para a Ilha das Cobras, onde também estava detido Silvério dos Reis, apesar de ter assinado a sua denúncia. No dia 30 de maio, em Vila Rica, ao acordar pela manhã exatamente uma semana antes de seu casamento, Tomás Antônio Gonzaga viu sua casa cercada pelos soldados e recebeu voz de prisão! Em 25 de junho foi a vez de Claudio Manoel da Costa que foi retirado de sua residência e do convívio com sua esposa, a escrava Francisca Arcângela. Em junho de 1789 os demais envolvidos também foram presos em Vila Rica e na Vila de São José. Uma Devassa (processo) foi aberta na capital da colônia e outra em Minas. 



Em Vila Rica, a bela residência do contratante João Rodrigues de Macedo (conhecida como Casa dos Contos, na foto acima) foi alugada pela Coroa Portuguesa para abrigar os inconfidentes em função de não existirem cárceres suficientes. 




Entre os presos nesse local estava Claudio Manuel da Costa, que prestou depoimento sob intensa pressão dando detalhes a respeito das reuniões e dos demais envolvidos. Abalado e deprimido teria cometido suicídio dois dias depois, em 4 de julho de 1789 (acima, um desenho de Ivan Wasth Rodrigues reconstituindo a cena e o cubículo da Casa dos Contos onde Claudio foi encontrado morto). Segundo sua biógrafa, a historiadora Laura de Mello e Souza, o poeta de fato se suicidou. Segundo o historiador inglês Kenneth Maxwell, em sua obra clássica "A Devassa da Devassa", Claudio sabia demais e sua morte foi oportuna para muitos dos envolvidos, inclusive para o proprietário da casa-prisão João Rodrigues de Macedo, que não foi acusado de participação no movimento e, possivelmente, para o próprio governador Visconde de Barbacena. A dúvida permanece! 



Posteriormente, os presos que se encontravam em Vila Rica foram transferidos para o Rio de Janeiro e permaneceram incomunicáveis até a leitura da sentença final em 1792 (na imagem acima a pintura "Jornada dos Mártires" de Antonio Parreiras). De todos os inconfidentes, os que mais prestaram depoimentos foram Tiradentes e o padre Oliveira Rolim. A situação dos presos na fortaleza da ilha das Cobras, em plena baia de Guanabara, era angustiante. Tiradentes fora interrogado em maio de 1789 e só no ano seguinte voltaria à presença de seus inquiridores. Muitos permaneceram dignos e íntegros em seus depoimentos, entre eles Tomás Gonzaga e o padre Vieira da Silva. Não assumem as culpas, mas não incriminam ninguém. Outros contam o que sabem. Alvarenga Peixoto em sinal de arrependimento esboça elogios à Coroa portuguesa. Tiradentes assume a sua participação no quarto depoimento em janeiro de 1790. Réu confesso e sem demonstrar arrependimento, segundo o jornalista Pedro Doria. 
Finalmente, em 18 de abril de 1789 saiu a sentença para os 34 réus. Desses, três morreram no cárcere (inclusive Claudio Manuel da Costa). Joaquim Silvério dos Reis foi liberado após um ano de prisão. Catorze inconfidentes foram condenados à forca, sendo que destes nove eram tidos como líderes do movimento, praticamente aqueles que já citamos anteriormente. A sentença foi lida aos mesmos e cenas de desespero foram observadas entre os réus, os quais não sabiam de uma decisão da rainha determinada dois anos antes. 



Na verdade, tudo era uma farsa! Desde outubro de 1790 existiam instruções expressas da rainha D. Maria I (na imagem acima retratada quando ainda não era louca), que deveriam ser aplicadas após a leitura da sentença. Os réus membros do clero seriam enviados para Portugal e enclausurados sob os cuidados da própria Igreja. Os líderes tiveram a pena comutada em degredo (exílio) nas colônias portuguesas da África (Angola, Moçambique e São Tomé). E, segundo a ordem da rainha, só não receberiam o perdão da pena capital aqueles que em público e por meio de "declamações sediciosas" procuraram indispor o povo contra a Coroa. Nesse quesito estava Tiradentes! Um bode expiatório na opinião do historiador Kenneth Maxwell. 



Para Joaquim José da Silva Xavier não bastava apenas a forca. Após a execução, o seu corpo deveria ser esquartejado e cada parte exposta nos locais onde o mesmo teria proferido seus discursos sediciosos (na imagem acima o Tiradentes esquartejado do pintor Pedro Américo em uma pintura de 1893). 




Os seus bens foram confiscados, a casa onde residia em Vila Rica derrubada e o chão da mesma salgado para que nada mais nascesse no local (na foto acima o local e a placa indicando onde se localizou a residência de Tiradentes). A sua família, filhos e netos foram declarados infames! 



Caro leitor, não dê crédito a uma lenda que correu (e ainda corre) afirmando que outra pessoa (um preso comum) teria sido executada no lugar de Tiradentes e de que este teria fugido para a Europa. Ao que parece, tal história teria sido contada entre os integrantes da maçonaria no século XIX, mas é completamente desprovida de fundamento (na foto acima, as travas da forca utilizada na execução de Tiradentes). 
Filhos(as)? Pelo menos sabemos de uma. Um processo movido por uma tal Antônia Maria do Espírito Santo, amante do célebre inconfidente, demandava a devolução de uma escrava e de seus dois filhos menores, parte do confisco dos bens de Tiradentes quando de sua prisão. Maria alegava que a escrava lhe fora doada e não pertencia mais ao alferes. Por meio desse processo soube-se que Tiradentes teve uma filha com Antônia Maria chamada Joaquina. O alferes chegou a prometer casamento à mesma. Os dois tiveram um relacionamento entre 1786 e 1787, quando Antônia tinha 16 anos e ele quase 40! Posteriormente, Tiradentes alegou que Antônia tinha comportamento inadequado, sobretudo quando de suas ausências de Vila Rica e desfez o compromisso. Contudo, sabe-se que não deixou a mãe e a filha desamparadas. 



O alferes batizou Joaquina, deu uma escrava para a mãe e uma casa para poderem morar (na foto acima, a residência onde morou Joaquina, filha de Tiradentes). Em um recenseamento efetuado em 1804 a casa continuava em poder de Antônia Maria e Joaquina residia na mesma junto com a mãe. Sabe-se que Antônia provavelmente não era negra e seu pai havia sido funcionário público em Vila Rica. Quanto a Joaquina, infelizmente, não há informações sobre a sua vida. Pelo fato das mulheres adotarem o sobrenome do marido foi impossível localizar a mesma nos registros. A história da descendência de Tiradentes, com base nos documentos, se encerra no censo de 1804. 
Joaquim José da Silva Xavier era um homem de seu tempo, boêmio, namorador e frequentava bordéis. Em um deles prometeu a uma prostituta que arrumaria uma vaga para o filho desta na Guarda dos Dragões e alardeou isso para muitas pessoas (aliás como era o seu costume...). O concubinato era comum na sociedade mineira no final do século XVIII e onde as mulheres tinham poucas possibilidades de conseguir uma união estável. Na fase da decadência do ouro, muitos homens abandonaram a região e simplesmente largaram as concubinas, muitas das quais caiam na prostituição. O processo movido por Antônia Maria mostrava que Tiradentes tinha escravos, assim como Alvarenga Peixoto e outros inconfidentes. Mas, a Inconfidência não falava em liberdade? É preciso entender a qual liberdade clamavam os inconfidentes: a liberdade política! Apesar disso, Tiradentes foi um dos poucos a defender o fim da escravidão entre os rebeldes. 



Como já observado aqui, Tiradentes também não era um homem absolutamente pobre. Entre os seus objetos pessoais apreendidos constava um relógio, algo que uma pessoa comum não utilizava naquela época (na foto acima, o relógio Elliot que pertenceu a Tiradentes). 



Um Tiradentes idealizado a semelhança de Jesus Cristo. Nenhum retrato do alferes chegou até nós, apenas algumas descrições vagas nos Autos da Devassa: aspecto rude, bigode e alguns cabelos grisalhos (como na reconstituição acima feita para o livro do jornalista Pedro Doria). O Tiradentes que conhecemos hoje e que está no imaginário popular foi fruto do movimento republicano do século XIX, que o concebeu como o seu mártir e herói, da mesma forma que necessitava de uma nova bandeira e de um hino. Por isso, uma face condizente com essa condição de mártir foi estabelecida assemelhando o alferes a Jesus. Tiradentes não foi executado com barba, mas com a cabeça raspada, o que era comum em uma execução na forca! Joaquim José da Silva Xavier também teve a sua imagem associada ao nacionalismo dos tempos do Estado Novo (1937-1945) liderado por Getúlio Vargas, que mandou trazer os restos mortais dos inconfidentes que foram banidos para a África. Enfim, Tiradentes foi um homem comum para o seu tempo e com os anseios e valores de sua época. Exatamente aí reside a sua dignidade...
Para saber mais:



1789: A historia de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil de Pedro Doria. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira 2014 (na foto acima capa do livro). 
Crédito das imagens:
Quadro retratando Thomas Jefferson: História das Civilizações. Volume IV. Abril Cultural, 1975, p. 182.
Imagens extraídas da Coleção Grandes Personagens da Nossa História, Abril Cultural, 1969: quadro "Alferes Tiradentes" de J. Washt Rodrigues, p. 227; boticão usado para extrair dentes, p. 222; quadro "Tiradentes ante o carrasco", p. 234; Tiradentes esquartejado de Pedro Américo, p. 236; quadros "Jornada dos Mártires" e "A Prisão de Tiradentes" de Antonio Parreiras, p. 231; relógio de Tiradentes, p. 223. 
Quadro da rainha D. Maria I e as travas da forca de Tiradentes: Museu da Inconfidência. Ouro Preto, 1995, pags. 115 e 113. 
Fotos do atual Museu da Inconfidência, gravura de Ouro Preto no início do século XIX, da casa que abrigou a farmácia de Tiradentes e da casa de sua filha Joaquina: Ouro Preto: Museus. Com fotografias de Dimas Guedes. Ouro Preto Editora, 2014. Pags. 176, 180, 42 e 43 respectivamente. 
Cubículo onde foi encontrado morto Claudio Manuel da Costa: Laura de Mello e Souza. Claudio Manuel da Costa. Coleção Perfis Brasileiros. Cia. das Letras, 2011. 
Desenhos de Ivan Wasth Rodrigues: História do Brasil em Quadrinhos. Editora Brasil-América, pags. 42 e 43. 
Desenhos representando Joaquim Silvério dos Reis e o possível rosto de Tiradentes: do já citado livro de Pedro Doria. 
Demais fotos: acervo do autor.