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sábado, 22 de setembro de 2018

História Mundi: Colonos Americanos




Caro (a) leitor (a), na edição 117 da revista Leituras da História (de setembro, que está nas bancas), duas cartas comentam a matéria "Colonos Americanos" de autoria deste que vos escreve, sendo uma delas de uma descendente direta de um desses imigrantes, o reverendo Richard Hennington. Para nós é motivo de orgulho termos tido a oportunidade de revisitar essa epopeia dos confederados estadunidenses na cidade de Santarém, no estado do Pará. Trata-se de um acontecimento que ficou esquecido no tempo e na imensidão da Amazônia, sendo relatado por quase todos os viajantes que por lá estiveram, em meados do século XIX. Aproveito também para lembrar que essa mesma edição traz um assunto também relacionado ao tema da imigração em nosso país, a chegada dos japoneses no início do século XX e a enorme contribuição trazida pelos mesmos ao desenvolvimento do Brasil e à nossa cultura. Mais uma evidência a demonstrar que este país têm na sua história a marca do acolhimento de vários povos e culturas, que vieram para cá e agregaram trabalho, conhecimento e diversidade cultural à nossa nação. Algo a ser ressaltado nestes tempos de intolerância que estamos vivendo. 


Outra curiosidade trazida pela Leituras da História é a descoberta na Itália de um esqueleto que apresenta perfurações provenientes de um prego. Ao que parece, é a segunda evidência que temos de um indivíduo crucificado nos tempos do Império Romano. A primeira foi encontrada em Jerusalém no ano de 1968 e já comprovada como autêntica (ver a postagem "Jesus: um personagem da história parte final"). 
Mais uma vez o blog História Mundi recomenda a revista e parabeniza a editora Morgana Gomes, pela seleção e pelos textos reproduzidos (inclusive os de sua própria lavra) de qualidade e relevância para os amantes da história. Recomendo a todos...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O Incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro: tragédia anunciada



Nunca mais o trono do rei do Daomé, nunca mais a múmia da "Cantora de Amon", nunca mais o meteorito de Bendegó, nunca mais Luzia (a mulher mais antiga do Brasil), nunca mais a residência de nossos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II, nunca mais as cartas endereçadas à esposa de Napoleão...Que tragédia! Nem Bonaparte teria sequer pensado em fazer isso contra o príncipe-regente de Portugal Dom João, caso o tivesse feito prisioneiro em 1807, isto é, atear fogo à sua real residência!
Prejuízo irreparável à nossa cultura, ao nosso povo e à nossa educação. Mas não se enganem, têm bandido e mocinho nessa história! Os dados estatísticos não mentem. Cortes das verbas na cultura, nas universidades federais e na educação. Congelamento de gastos nesses setores por vinte anos. O Museu Nacional não suportou sequer um ano de cortes. Como punir os verdadeiros culpados disso? 
Nós do blog História Mundi, tínhamos um artigo pronto para publicação, o qual começava com uma pergunta simples: será que aqui no Brasil podemos ver de perto uma múmia do Egito Antigo? Agora a resposta é: não! Bem, depende do que o (a) caro (a) leitor venha a entender por "múmia". No sentido pejorativo temos centenas ou talvez milhares em nosso pobre país. Daria para construir centenas de museus com múmias desse tipo...
E agora José (por acaso o primeiro nome deste que vos escreve)? Agora a Inês é morta. Agora a tragédia está consumada. Agora todos choram o descaso com a cultura e a educação. Mas muitos desses que choram, ajudaram a acender o fogo que destruiu, talvez, aquele que fosse o Museu mais querido desta pobre terra, que no momento, não merece ser chamado de país. Ah, você está querendo tirar vantagens políticas da situação? Vantagem com um Museu como esse destruído? A vantagem, se é que há, foi de quem o destruiu. De quem cortou as verbas que poderiam protegê-lo dessa tragédia e aumentou os salários dos juízes do Supremo Tribunal Federal. 


O valor pago a um único magistrado dessa instituição corresponde à verba anual do finado Museu Nacional e, mesmo assim, a destinação orçamentária estava em queda, como mostram os dados acima do jornal Folha de S. Paulo! O Museu Nacional não dispunha do auxílio-moradia, por isso está agora a céu aberto, desabrigado? Também, o que resolveria o auxílio-moradia a uma instituição que não existe mais?
Tenham certeza que o mundo está vendo isso. O acervo do Museu Nacional dizia respeito também à humanidade. Os outros países vão pensar um milhão de vezes antes de enviar para cá uma doação ou mesmo uma mostra temporária. O valor do seguro para esses eventos será estratosférico! Esta é uma "República das bananas", com todo o respeito à querida fruta tropical e à Carmem Miranda...
Crédito das imagens:
Incêndio no Museu nacional do Rio de Janeiro: Agência Estado. 
Estatística do orçamento do Museu Nacional: Jornal Folha de S. Paulo. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Entrevista com Luiz Carlos Prestes: o Tenentismo e a Coluna.



Caro (a) leitor (a), esta entrevista não é inédita, mas tem um grande significado. Primeiro pelo entrevistado, um personagem conhecido por sua retidão moral e fiel aos seus princípios: Luiz Carlos Prestes (1898-1990). Claro, há os que discordem das suas opções políticas e ideológicas, tomadas após o Movimento Tenentista da década de 1920, que culminaram com a adesão de Prestes (na foto acima, em 1958) ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Contudo, até os seus adversários reconheceram as suas qualidades como comandante militar e a sua probidade enquanto pessoa. Este que vos escreve teve a honra de conhecê-lo e de rememorar com o mesmo algumas passagens de sua biografia, inclusive aquela que é tema deste depoimento, a Coluna Prestes, página maior do Movimento Tenentista.
Antes da entrevista, vamos fazer uma breve descrição do que foi o Tenentismo para inserir o leitor no contexto histórico daquele momento. Os aspirantes ao oficialato e cadetes do Exército, conhecidos como "tenentes", passaram a ter uma atuação política significativa nos últimos anos da Primeira República (1889-1930). Esses militares se tornaram opositores à forma como funcionava o sistema eleitoral da época, que permitia o controle político por parte das oligarquias (grupos dominantes nos estados) formada por grandes proprietários de terra, os conhecidos "coronéis". As eleições eram manipuladas, uma vez que ainda não fora instituído no Brasil o voto secreto. Além disso, as mulheres não votavam, bem como os jovens e os analfabetos. As oligarquias de São Paulo (ligada à produção de café) e de Minas Gerais (da pecuária voltada para a produção de laticínios) predominavam sobre as demais, conseguindo eleger a maior parte dos presidentes, naquilo que ficou conhecido como a "política do café com leite". Ao mesmo tempo, as transformações que ocorriam na economia brasileira, com o início da industrialização, fizeram surgir novos grupos sociais que começavam a pleitear melhorias nas condições de vida, sobretudo a classe operária das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. A classe média urbana (ou pequena burguesia como designava Prestes), também buscava uma maior participação política e grande parte dos tenentes eram provenientes desse segmento. Não existia nenhuma agremiação ou partido, oficialmente reconhecido, que representasse esses setores. 



A eleição do mineiro Artur Bernardes (na foto acima, na época da posse) em 1922, ocorreu em meio a discordâncias. As oligarquias do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco através da chamada Reação Republicana, apresentaram um candidato de oposição, o ex-presidente Nilo Peçanha, que foi derrotado nas eleições, tidas como fraudulentas. Ainda antes da eleição de Bernardes, ocorreu o episódio das "Cartas Falsas", onde supostamente o futuro presidente teria feito ataques aos militares. A reação destes últimos foi forte e como resposta, o governo, ainda sob a presidência de Epitácio Pessoa, fechou o Clube Militar (que apoiou a candidatura de Nilo Peçanha) e prendeu o também ex-presidente Marechal Hermes da Fonseca (alvo dos ataques nas tais cartas atribuídas a Bernardes), no início de julho de 1922. De nada adiantou o parecer de que as cartas de Bernardes eram falsas. A prisão de Hermes foi a senha para o início da rebelião militar, que contou com a participação de seu filho, o capitão Euclides Hermes e de centenas de outros jovens oficiais, entre eles Leônidas Fernandes Cardoso, pai do sociólogo e futuro presidente Fernando Henrique Cardoso. 



Em 5 de julho de 1922, os tenentes ocuparam o Forte de Copacabana e dezessete deles (mais um civil) enfrentaram as forças legalistas (fieis ao governo) no calçadão da praia do mesmo nome, sendo recebidos por uma rajada de balas pelas forças governistas (na foto acima, da esquerda para a direita, os tenentes Cordeiro de Farias, Siqueira Campos, Nílton Prado e o civil Otávio Correia). 



Dos "18 do Forte" como ficaram conhecidos, apenas dois sobreviveram: os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos (respectivamente na foto acima) . 



Em 5 de julho de 1924, propositadamente no mesmo dia em que ocorrera o levante de Copacabana, outra rebelião militar ocorreu em São Paulo, sob o comando de um veterano do Exército, o General Isidoro Dias Lopes. A capital paulista foi ocupada pelos rebeldes e na tentativa de impor a rendição aos mesmos, o governo ordenou o bombardeio aéreo da cidade (na foto acima, São Paulo sob ataque). 


Os bairros operários do Brás, Moóca, Pari e Belenzinho foram os alvos preferenciais desses ataques, como confirma Prestes na entrevista. Calcula-se que o bombardeio tenha deixado algo em torno de 500 mortos, na grande maioria civis. Os militares rebeldes se retiraram para o interior do estado e em seguida dirigiram-se para Foz do Iguaçu, no Paraná. Se a rebelião de 1922 trazia um conteúdo corporativo, defesa dos militares contra o poder oligárquico civil, a de 1924 apresentava um esboço de projeto político: instituição do voto secreto, moralização na vida política, independência do Poder Legislativo, autonomia do Judiciário e ainda o ensino primário e profissional obrigatório. Por outro lado, os tenentes não faziam referência direta às questões sociais, ao poder das oligarquias e ao domínio dos latifúndios. Da mesma forma, não vislumbravam o apoio de outros segmentos da sociedade, como a classe operária. 


Em outubro de 1924, teve início o levante dos militares gaúchos, para dar apoio aos rebeldes paulistas isolados no interior. Vários quartéis participaram da nova rebelião, inclusive o Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo (cidade situada no noroeste do Rio Grande do Sul). Lá o movimento contou com a liderança do então capitão Luiz Carlos Prestes (que aparece na foto acima, o segundo sentado da esquerda para a direita, em serviço no Rio Grande do Sul). Do sul, os militares gaúchos empreenderam uma marcha para o encontro com os colegas paulistas. Entre as duas Colunas rebeldes, estavam outros 10 mil homens do Exército, comandados pelo general Rondon (sim, o famoso militar e sertanista), legalista e fiel ao governo de Artur Bernardes, cuja missão era impedir a união dos paulistas com os gaúchos. Foi nesse momento, que Luiz Carlos Prestes começou a se destacar como comandante militar da Coluna gaúcha. Ele definiu a estratégia que predominaria durante todo o movimento: "A guerra no Brasil, qualquer que seja o terreno, é a guerra de movimento" declarou. Mesmo inferior em número de soldados e armamentos, a Coluna gaúcha furou o bloqueio dos legalistas. O embate travado em Maria Preta, descrito por Prestes na entrevista abaixo, ficou famoso pelo fato de ter deixado as tropas governistas combatendo entre si por quatro horas!
Finalmente, em abril de 1925 as duas colunas (paulista e gaúcha) se uniram e o jovem capitão veio a se tornar o chefe do Estado-Maior da Coluna, que acabou levando o seu nome: Coluna Prestes. Em termos práticos, era o seu comandante militar, apesar de nominalmente a chefia pertencer a Miguel Costa, proveniente da Força Pública de São Paulo (embrião da futura Polícia Militar). Outros tenentes também ganharam destaque, como Siqueira Campos, Cordeiro de Farias (sobreviventes dos 18 do Forte), João Alberto, Djalma Dutra, os irmãos Joaquim (morto no levante de São Paulo) e Juarez Távora, entre outros. 
A Coluna Prestes percorreu mais de 25 mil quilômetros pelo interior do Brasil, sem conseguir derrubar o presidente Artur Bernardes, mas também sem ser derrotada. Em 1926, os rebeldes depuseram as armas e se retiraram para a Bolívia. Posteriormente, o destino dos tenentes acabou promovendo algumas cisões. A maior parte aderiu a Getúlio Vargas na Revolução de 1930 e o Movimento Tenentista se diluiu. Já Luiz Carlos Prestes, entendeu que a solução para o país passava por transformações mais profundas e que Getúlio significava somente a mudança de uma oligarquia por outra (no caso, a gaúcha). Seu contato com o pensamento socialista marxista (do filósofo alemão Karl Marx) o levou a divergir com os seus antigos companheiros de Coluna. Posteriormente, Prestes filiou-se ao PCB.


A entrevista inserida nesta postagem foi publicada na edição de 2 de julho de 1978, no jornal O Estado de S. Paulo (nas páginas 7 e 8) sob o título "Prestes lembra a longa marcha da Coluna". O texto da gravação foi enviado pelo jornalista Reali Júnior, então correspondente daquele jornal em Paris. Luiz Carlos Prestes (na imagem acima, em 1987) vivia em Moscou com a sua família, em função da repressão do Regime Militar brasileiro, embora o país começasse a viver a abertura e a diminuição da censura à imprensa, razão pela qual a entrevista pode ser divulgada no citado jornal. Posteriormente, a mesma foi reproduzida no livro A Coluna Prestes: Análise e depoimentos, de Nelson Werneck Sodré, da editora Círculo do Livro, de onde a extraímos.
Para evitar notas e observações excessivas, colocamos entre parênteses alguns dados e informações que consideramos necessários ao entendimento da exposição do ex-comandante da Coluna, bem como a identificação das imagens que aparecem ao longo da entrevista. Vale lembrar que as mesmas foram por nós acrescentadas. 



A seguir a entrevista com aquele que ficou conhecido como "O Cavaleiro da Esperança", Luiz Carlos Prestes (na foto acima, aos 18 anos, na formatura do Colégio Militar)...

Qual era a situação sócio-econômica do Brasil após a Primeira Guerra Mundial e o que teria determinado o surgimento da Coluna?

O ano de 1921 foi aquele em que mais se sentiu a crise do após-guerra no Brasil. Já anteriormente, em 1917, a classe operária se levantara em São Paulo, numa greve geral de grande vulto. Posteriormente, em 1918, no Rio de Janeiro e Recife, ocorreram outros movimentos operários. Até aquela época, a classe operária era ainda dirigida pelo movimento anarquista, razão pela qual o êxito, na época, foi apenas parcial, exclusivamente econômico. Em 1921, a crise econômica acentuou-se, atingindo a pequena burguesia urbana, e isso coincidiu com o início da campanha eleitoral para a sucessão presidencial, cuja eleição estava prevista para março de 1922.
Essa conjunção da crise com o acontecimento político determinou o surgimento do chamado "movimento tenentista". Já anteriormente havia sido formado o Partido Comunista do Brasil, como se chamava na época, posteriormente Partido Comunista Brasileiro. As forças políticas dividiram-se em duas correntes principais - aliás, como era comum em todas as sucessões presidenciais no Brasil -, a corrente oficial do governo e a oposição. Os oposicionistas, através da jovem oficialidade, conseguiram vencer as eleições para o Senado. Naquela época, os "tenentes", em geral, e eu, em particular, éramos apolíticos e não nos interessávamos por política, mas acabamos sendo arrastados ao movimento e subjetivamente presos por descontentamentos.



Apenas por isso fomos levados a participar da campanha eleitoral e tomamos posição ao lado do candidato oposicionista (no caso, Nilo Peçanha). Mas a nossa posição como militares e dispondo de armas era a de conspirar para preparar a luta contra o governo Epitácio Pessoa (na foto acima Prestes, ainda como oficial do Exército Brasileiro). A conspiração foi longa e durou meses. A 5 de julho ela eclodiu, mas muitas das unidades comprometidas não participaram da luta. O movimento restringiu-se à Escola Militar, onde os cadetes estavam exaltadíssimos contra a própria disciplina da escola, e ao Forte de Copacabana. O grande acontecimento desse 5 de julho, entretanto, foi o levante do Forte de Copacabana. Os cadetes chocaram-se com as tropas da Vila Militar e acabaram presos. No Forte de Copacabana, a maior parte da oficialidade retirou-se do local e somente dezoito homens, sob o comando de Antônio de Siqueira Campos, tenente de Artilharia, enfrentaram os quatro mil homens do Exército. Todos tombaram mortos ou feridos, mas o acontecimento teve uma grande repercussão emocional em todo o país. Ao mesmo tempo, e devido à derrota do levante, grande número de oficiais foi detido e submetido a processos, enquanto outros foram transferidos para guarnições distantes. Eu não participei desse movimento porque estava doente na época. Quis participar, mas as condições de saúde não me permitiram. o movimento de solidariedade fez com que todos nós continuássemos conspirando, depois da derrota de 5 de julho.



E a segunda conspiração, de julho de 1924?

A conspiração continuou durante os dois anos que se seguiram ao movimento de 1922. Conspirei primeiramente no Rio, depois fui transferido para uma guarnição do Rio Grande do Sul, onde continuei conspirando. O movimento acabou novamente eclodindo a 5 de julho de 1924, dois anos depois, na capital do Estado de São Paulo. Na ocasião, levantaram-se várias guarnições, mas, devido a perturbações momentâneas, as forças que deveriam marchar imediatamente sobre o Rio de Janeiro não tiveram tempo de fazê-lo e foram sitiadas pelas forças do governo. Durante vinte dias resistiram dentro da cidade, que foi bombardeada, com grandes prejuízos, principalmente nos bairros operários (nas duas fotos acima, casa destruída por bombardeio aéreo no bairro do Brás e o Cotonifício Crespi, no bairro da Moóca, após um ataque). Dessa forma, o comando dessas forças, sob as ordens do Marechal Isidoro Dias Lopes, resolveu retirá-las de São Paulo.

A Coluna teria surgido essencialmente para dar apoio ao movimento de São Paulo?

Sim. Nós no Rio Grande do Sul - eu me encontrava na guarnição de Santo Ângelo - e todos os que conspiravam naquele Estado não fomos devidamente informados do levante de 5 de julho em São Paulo. Assim sendo, fomos surpreendidos pelo movimento e só depois, intensificando-se a conspiração no Estado, na noite de 28 para 29 de outubro, foi possível nos levantarmos. Diversas guarnições se rebelaram: o Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, levantado por mim, que era capitão de Engenharia, e pelo Tenente Mário Portela Fagundes; o Terceiro Regimento de Cavalaria, em São Luís (cidade localizada na região das Missões, no Rio Grande do Sul); o Segundo Regimento de Cavalaria, de São Borja, onde se encontrava um oficial de grande talento e um revolucionário dedicado, que faleceu logo em seguida ao ataque à cidade de Itaqui, Aníbal Benévolo. Houve ainda um levante na cidade de Uruguaiana e alguns elementos da guarnição de Alegrete e Cachoeira também se rebelaram.
Esse foi o levante inicial, na noite de 28 para 29 de outubro, no Rio Grande do Sul, e em solidariedade a São Paulo, pois esperávamos apoiar o movimento paulista. Os companheiros de São Paulo, retirando-se da capital, seguiram pela Estrada de Ferro Sorocabana, até o rio Paraná. Eles pretendiam invadir Mato Grosso, mas foram repelidos na cidade de Três Lagoas, que não chegou a ser tomada. Resolveram, então, descer o rio Paraná, até a fronteira do Estado do Paraná com Argentina e Paraguai. Ocupando o ocidente daquele Estado, marcharam até a serra do Medeiros e, em 14 de setembro, tomaram Guaíra. Além da serra do Medeiros, não puderam continuar a marcha porque as forças do governo já atacavam. Nós, que nos havíamos levantado no Rio Grande, tínhamos a missão de dominar o Estado, mas as forças governamentais conseguiram esmagar todo o levante no sul, inclusive em Uruguaiana, Alegrete e Cachoeira. Em quinze dias, essas tropas e os civis que se haviam levantado foram esmagados e liquidados. Alguns emigraram para o Uruguai e outros para a Argentina. Restaram apenas as forças da região noroeste do Estado.
Nessa ocasião, eu me retirei de Santo Ângelo e instalamos o quartel-general na cidade de São Luís, ocupando também o município de São Nicolau e partes de outros, como Santo Ângelo, Santiago do Boqueirão e São Borja. Nós mantivemos essa posição, à espera de que, de Iguaçu, no Paraná, nos mandassem munição, pois as unidades do Rio Grande que se levantaram estavam pessimamente municiadas e seu armamento era muito precário. Não tínhamos um canhão ou uma metralhadora pesada. Possuíamos alguns fuzis-metralhadoras e as demais armas eram fuzis Mauser, insuficientes para os efetivos, constituídos também por numerosos grupos de civis, que haviam participado anteriormente da guerra civil no Estado.
Nessa região, permanecemos dois meses. Em novembro, aguardamos o envio de armamentos. No início de dezembro, já estávamos convencidos de que não receberíamos munição, pois as autoridades argentinas não permitiram a entrada do material do Paraná, que seria levado até a região fronteiriça em que nos encontrávamos, em Tupanciretã, onde sabíamos que havia chegado o 7º Regimento de Infantaria. Essa cidade ficava a mais ou menos cem quilômetros de distância de São Luís. Concentramos a Coluna e atacamos essa cidade. Nesse momento, entretanto, a Coluna não tinha ainda unidade de comando e disciplina suficiente. As tropas que deveriam atacar não atacaram e as que não deviam atacaram. Iniciado o combate, durante a madrugada, por volta das onze horas da manhã percebi que não era possível tomar a cidade de Tupanciretã e resolvi ordenar a retirada. Voltamos para a mesma região anterior, sendo que a Coluna se distribuiu em toda a periferia, mantendo vigilância nas principais estradas. Os espiões do inimigo procuravam saber onde estava o grosso da Coluna, mas nada encontravam, porque não havia uma concentração. Toda ela estava distribuída na periferia da zona que ocupávamos. Nesse momento, cheguei a compreender qual era o plano do governo. Ele pretendia esmagar-nos, depois de cercar-nos. Havia sete colunas do governo e cada uma delas nos poderia derrotar, pois eram mais fortes do que a nossa, não só em efetivo, mas também em armamento e munição. A ordem do governo era de que as diferentes colunas marchassem passo a passo. Uma delas vinha pela margem do rio Uruguai, outra atacava São Borja, Santiago, Santo Ângelo e Cerro Azul, perto de São Luís. As sete colunas eram constituídas por 14 000 homens e nós só contávamos com 1 500 homens e apenas 800 armas. Quando percebi que o plano governamental era envolver-nos e que as colunas caminhavam lenta e harmonicamente, concluí que a solução seria atraí-las para São Luís.
Dessa maneira, minhas guardas passaram a atrair o inimigo. No dia 27 de dezembro, concentrei todas as tropas em São Miguel. Durante uma marcha noturna, passamos entre duas colunas do governo, enquanto a principal, que vinha de Tupanciretã, era atraída para São Luís. Dois dias depois, as tropas do governo chegaram em São Luís e não encontraram ninguém. Nós já nos encontrávamos a cento e cinquenta ou duzentos quilômetros de distância, combatendo uma força de reserva que nos forçou a recuar. Aí, avançamos em direção norte. Travamos um combate, num lugar chamado Ramada, no dia 3 de janeiro de 1925, e entramos na mata do rio Uruguai.


As matas dos rios Uruguai e Iguaçu são talvez as mais densas do Brasil, não se podendo marchar a não ser através de picadas abertas a facão (na foto acima, a Coluna paulista na fronteira com o Paraguai, abril de 1925). Nessa região, sofremos muito. A cavalhada, habituada no Rio Grande do Sul a ter bons pastos, ficou muito cansada, e os soldados não pretendiam deixar os arreios. Assim sendo, além das armas, munição, comida, tiveram que levar também os arreios nas costas. Era difícil fazer com que esses homens andassem pela mata mais de três ou quatro quilômetros por dia. Atravessamos o rio Uruguai e entramos em Santa Catarina. Nessa época, ainda tínhamos esperanças de receber munição. Em carta ao Marechal Isidoro Dias Lopes, descrevendo a marcha e dizendo que tínhamos tido êxito na nossa caminhada até a cidade de Barracão, no divisor entre Santa Catarina e Paraná, lembrei que a guerra, no Brasil, para ser vitoriosa, teria que ser uma guerra de movimento. Era uma crítica à posição dos companheiros do Paraná, que haviam ficado durante seis meses gastando munição e fixados ao terreno.
Pedi, também, que me mandassem munição, porque teria condições para avançar, sair da mata, ganhar mais liberdade no campo e atacar a coluna do Marechal Rondon (o famoso militar e sertanista), que era o inimigo principal, pela retaguarda. Era esse o meu plano. Muitas pessoas pensam que o melhor local para a guerrilha é a mata. Nem sempre. No campo se tem muito mais liberdade de movimento do que numa mata densa, em que só se pode andar através das picadas abertas.
Quando chegamos à boca da mata, a cerca de duzentos quilômetros de Barracão, já encontramos uma forte coluna inimiga. Aí tivemos que recuar novamente. Durante um mês, marchamos para trás nesses cento e oitenta quilômetros, com muito pouca munição, mas causando pesadas baixas ao inimigo, porque fazíamos uma guerra de emboscadas. Cada soldado só poderia dar um tiro quando recebesse uma ordem expressa. Muitas vezes, nessas emboscadas, só dávamos dois tiros, procurando liquidar os homens da vanguarda. No fim de quinze dias, eu mesmo tive contato com o inimigo e os oficiais da tropa adversária foram obrigados a chamar os soldados de covardes, pois todos temiam ir à frente. Os que se encontravam nessa posição morriam sistematicamente. Assim foi feita a retirada mas, quando chegamos a Santa Catarina, a força do sul atacou, ocorrendo o célebre combate de Maria Preta, onde retiramos as forças que estavam guardando a estrada, além da que marchava do oriente. Às quatro horas da tarde, determinamos a retirada simultânea das duas forças, fazendo com que as duas colunas do inimigo se encontrassem. Elas chegaram a combater durante mais de quatro horas entre si e tiveram mais de duzentas baixas nesse combate. Daí, marchamos para o norte, até encontrar a coluna de São Paulo.



Segundo Lourenço Moreira Lima (foto acima), o encontro das tropas sulinas com as paulistas teria contribuído para levantar o moral que já era baixo das tropas de São Paulo. É verdade?

Sim. Chegamos ao Paraná e tivemos o primeiro contato com as tropas da região no dia 1º de abril de 1925. Nesse dia caíra Catanduvas, a posição mais avançada e mais forte das forças de São Paulo. Eles foram duramente atacados e acabaram tendo que se entregar. Entre eles encontrava-se o Tenente Nelson de Melo e outros oficiais que se renderam às forças do governo. Assim, o ambiente no Paraná era de desânimo e de derrota. Lembro-me que fui imediatamente para Foz do Iguaçu, onde se achava o estado-maior das forças de São Paulo, que reunia cerca de quarenta oficiais.



A palavra de ordem, na ocasião, era de que a única solução seria emigrar para a Argentina (acima, Prestes chega ao encontro com os rebeldes paulistas em abril de 1925). Tive que dizer que não, porque a minha coluna, ao lograr a unidade com as forças de São Paulo, sentia-se vitoriosa. Os soldados estavam entusiasmados com a vitória, interessados, e tinham grande confiança no comando. Disse que não poderia propor a esses soldados emigrar para a Argentina, naquele momento. Deveríamos unir-nos e tentar sair da região. Essa era a primeira possibilidade. Se não conseguíssemos, deveríamos resistir enquanto possível e somente como terceira hipótese aceitaríamos a entrada na Argentina. A maioria estava tão desanimada que, à medida que eu falava com certo vigor, os oficiais começaram a levantar-se e seguir realmente para a Argentina. Apesar disso, boa parte ainda ficou. Entre eles, estavam Miguel Costa, Cordeiro de Farias, Juarez Távora, Djalma Dutra e outros oficiais. Constituímos então uma divisão, sob o comando do General Miguel Costa, com duas brigadas. A do sul, sob meu comando, e a de São Paulo, sob o comando do Coronel Juarez Távora.

O que ocorreu quando a Coluna, depois de atravessar o São Francisco, seguia para o Rio de Janeiro, cortando o território da Bahia?

Por incrível que possa parecer, o governo temia que atacássemos o Rio de Janeiro. Para defender a Capital Federal, chegou a deslocar tropas até da polícia do Piauí, transportando-as por mar, e, posteriormente, dirigindo-se para Minas Gerais. Só soubemos disso ao chegar ao norte de Minas Gerais. Naquele momento, duas colunas nos perseguiam. Um de nossos soldados, que havia sido preso e levado para o estado-maior da coluna inimiga, conseguiu fugir. Enquanto esteve preso, ouviu uma série de informações, como o número de unidades do Exército, da polícia, nomes de comandantes, cidades, etc... Assim, reunindo todos esses dados com outras informações, fiquei com o quadro completo da situação. Éramos seguidos por duas colunas que marchavam uma atrás da outra, com um intervalo de dez horas. Uma outra coluna acompanhava o rio São Francisco, para impedir que atravessássemos o rio. No caso de pretendermos transpô-lo, poderíamos ser atacados. Na cidade de Montes Claros, havia uma coluna de vinte mil homens que haviam sido deslocados pelo governo para defender o Rio de Janeiro. Nessas condições, é evidente que não nos convinha continuar a marcha para o sul. Aproveitamos umas elevações do terreno, dispusemos a Coluna atrás delas, enquanto o inimigo passava; uma guarda forte, mantendo contato com o inimigo, o atraía para Riachão dos Machados, que ficava antes de Montes Claros.
Enquanto isso, quando a primeira coluna inimiga passou pelo ponto onde nos encontrávamos, pudemos cruzar a própria estrada, passando entre as duas colunas inimigas. Essa guarda permaneceu no Riachão dos Machados, recuando posteriormente para proteger a nossa retaguarda. Entramos na cidade de Rio Pardo, em Minas Gerais, e aí encontramos um telegrama do General Góis Monteiro (oficial legalista), chefe do estado-maior da Coluna Mariante, cujo quartel-general estava localizado nas margens do São Francisco. Ele estava alarmado, dizendo que fazíamos cem quilômetros por dia, e calculava que o nosso objetivo seria Riachão. Posteriormente, a Coluna efetuou a travessia do Paraná, numa pequena extensão do Paraguai, Mato Grosso, Goiás, e fomos entrar no Maranhão, onde ocupamos a cidade de Carolina, uma das mais importantes do sertão, e atacamos Benedito Leite. Nesse local, havia dois mil e trezentos homens, que bateram em retirada até Teresina. Como eles fugiram, resolvemos ir atrás, mas não tínhamos munição para atacar uma capital como Teresina. Lá, abandonamos a perseguição, atravessamos o Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia, onde encontramos sérias dificuldades, pois quase todos os fazendeiros estavam armados e seus jagunços não nos atacavam diretamente, mas preparavam emboscadas. Perdemos alguns homens nesse Estado.



Que atividade política e social desenvolvia a Coluna durante toda essa marcha?

O nosso objetivo era derrubar o governo. Do ponto de vista político e social, estávamos praticamente desarmados. Por isso fizemos muito pouco. Encontrávamos um ambiente de muita simpatia (na foto acima, soldados da Coluna em 1924). As populações que não fugiam e que mantinham contato conosco compreendiam que lutávamos contra os seus inimigos. O povo do interior via no governo federal, nos governos estaduais e municipais e nos grandes fazendeiros os seus inimigos e percebia que todos eles lutavam contra nós. Não tinha consciência suficiente para aderir à luta e dar suas vidas a uma causa que ainda não compreendiam. Em algumas cidades, onde encontrávamos cartórios, queimávamos os documentos, principalmente os referentes a dívidas de camponeses com os fazendeiros e com o Estado, além dos processos judiciais. Libertávamos os presos que encontrávamos nas cadeias públicas.

Quais as impressões humanas dos integrantes da Coluna em relação às populações contatadas?

Na Coluna, admirávamos a fidelidade e dedicação dos soldados, sua unidade e espírito de luta. Desde que entramos no Mato Grosso, formou-se esse sentimento de orgulho de participar do movimento. Saímos das fronteiras da Argentina e do Paraguai e entramos pelo país com soldados que não tinham salários, comiam quando houvesse comida, andavam a cavalo ou a pé, enfim, eram de uma dedicação extrema. Muitos deles deram suas vidas para alertar a Coluna. Uma vez, em Mato Grosso, estávamos sendo perseguidos pelos jagunços de Franklin de Albuquerque, um desses fazendeiros que organizou tropas mercenárias permitidas pelo governo Bernardes. Esses jagunços são conhecedores exímios do terreno; sabem se aproximar em silêncio absoluto, e como estávamos próximos e a Coluna concentrada, ao destacar as guardas, eu mesmo fui verificar as sentinelas, chamando a atenção: Cuidado, porque podemos ser surpreendidos. Por volta da meia-noite, ouvi um tiro. O comandante da guarda foi verificar, encontrando uma sentinela morta. Outra desaparecera, pois havia sido presa.
No dia seguinte contra-atacamos e o inimigo foi obrigado a bater em retirada. O soldado preso fugiu e nos contou o ocorrido: um estava em pé e o outro sentado. O que estava em pé foi abraçado por trás e desarmado. O outro, mesmo sem poder atirar contra seus inimigos, ainda conseguiu disparar sua arma para o alto, para alertar a guarda. Como vingança, foi apunhalado pelas costas.



Qual a ideia que os jovens oficiais que participavam da Coluna faziam do interior do Brasil?

Todos nós, oficiais do Exército ou cadetes da Escola Militar, isto é, Siqueira Campos (foto acima), João Alberto, Juarez Távora e eu, éramos integrantes da pequena burguesia e havíamos sido educados nas cidades e no litoral que conhecíamos. Não podíamos imaginar que a situação dos homens do campo fosse tão miserável, apesar de conhecermos as favelas das grandes cidades. O quadro era realmente de horrorizar. O que vimos pelo interior de Mato Grosso, Goiás, Nordeste, foi miséria e exploração. Além disso, em condições sanitárias terríveis. Certa vez, em Santo Antônio das Balsas, no Estado do Maranhão, demos remédio a uma pessoa doente. Um remédio de nossa precária enfermaria e, de um momento para outro, percebemos que a Coluna estava cercada pela população, que pedia medicamentos. Houve o caso de encontrarmos em algumas choças uma família com três mocinhas. Duas ficaram dentro de casa, porque só havia um vestido. As outras estavam nuas e não podiam aparecer. Não era por medo da Coluna, porque o respeito era absoluto, mas sim porque não tinham roupa para vestir.

Qual foi a participação da mulher na Coluna?

Desde o Rio Grande do Sul, diversas mulheres incorporaram-se à Coluna. Durante os dois meses em que estivemos na região de São Luís, muitas delas participavam dos acampamentos. Nessa época, eu era ainda muito militar e tive bastante dificuldade para abandonar o formalismo militar por uma vida diferente, que é a guerra. Fui contra a entrada de mulheres na Coluna e aí, ao atravessarmos o rio Uruguai, tomei medidas no sentido de determinar que nenhuma mulher atravessasse o rio. Era um rio de quinhentos metros, travessia difícil, razão pela qual ficou decidido que nenhuma mulher passaria para Santa Catarina e que todas elas deveriam ficar no seu Estado, Rio Grande do Sul. Fui uma das últimas pessoas a fazer a travessia e, ao chegar em Santa Catarina, com grande surpresa, verifiquei que todas as vinte e poucas mulheres lá estavam. Isso porque todas elas eram relativamente admiradas e queridas pelos soldados. A minha opinião não coincidia com a da maioria dos soldados. Durante a marcha, elas foram de grande utilidade: ajudavam na cozinha, na enfermaria e algumas delas chegaram a combater. Muitas vinham informar sobre movimentos do inimigo, em pleno combate. Algumas criavam, naturalmente, conflitos, pois, afinal de contas, eram poucas mulheres para muitos homens. Esses conflitos eram inevitáveis, mas tudo se resolvia de uma forma relativamente pacífica, sem necessidade de medidas mais enérgicas.

Houve, também, participação de oficiais e soldados da Marinha? Como se deu essa integração?

Logo depois do movimento de 29 de outubro no Rio Grande do Sul, levantou-se, no Rio de Janeiro, o maior navio de guerra do Brasil na época, o couraçado São Paulo, sob o comando de Hercolino Cascardo, Amaral Peixoto e outros oficiais de Marinha, que tomaram o navio. Mas como não podiam manter-se no Rio, foram até Montevidéu e aí entregaram o navio às autoridades uruguaias e desembarcaram. Alguns marinheiros incorporaram-se à Coluna paulista, em Iguaçu, e mesmo na fronteira do Rio Grande do Sul. Aliás, muitos dos companheiros que que se encontravam no sul do Rio Grande e que foram obrigados a emigrar para o Uruguai apresentaram-se depois. Entre eles, Siqueira Campos, João Alberto e Juarez Távora. Entre os marinheiros, destaco a participação do Sargento Brasil, que participou de toda a Coluna, servindo no destacamento de Siqueira Campos.



Como uma coluna formada por mais de mil homens passou dois anos e meio percorrendo o país inteiro, andando vinte e cinco mil quilômetros, sem ser liquidada? Qual a estratégia adotada?

Realmente, as forças do governo jamais conseguiram surpreender a Coluna e tampouco derrotá-la (na foto acima, policiais e jagunços reunidos para enfrentar a Coluna Prestes em Pernambuco, 1925). Isso porque adotamos uma linha estratégica determinada. Enquanto estávamos em Santa Catarina e Paraná, esperávamos receber munição e reforços para poder atacar a retaguarda do General Rondon. Quando verificamos que, mesmo no Paraná, a quantidade de munição era também pequena, decidimos que o essencial seria manter a luta e a bandeira da insurreição, na esperança de que os companheiros do Rio de Janeiro pusessem abaixo o governo Bernardes. Isso porque não tínhamos um programa político de fato. A luta era movida para a derrubada do governo e, como não tínhamos força suficiente para tal, achávamos que deveríamos nos movimentar para atrair sobre nós as maiores forças possíveis, facilitando o trabalho de nossos companheiros da capital do país.
Esse foi o primeiro objetivo. Depois que entramos em Mato Grosso, compreendemos que devíamos combater apenas para tomar armamentos. Assim, só aceitávamos combate quando tínhamos certeza da vitória. Para isso, eram necessárias duas qualidades que tivemos que exercitar e elevar. Primeiro, a segurança da Coluna, cujo sistema foi muito bem montado, para evitar qualquer surpresa. Além disso, conhecíamos o terreno a centenas de quilômetros de distância. Para isso, nos ajudavam muito o que se denominava "as potreadas", expressão gaúcha. Elas consistiam em arrebanhar cavalos. Pela manhã, saíam piquetes para os flancos e vanguarda da Coluna. Distanciavam-se dezenas de quilômetros da Coluna e passavam dois a três dias fora do grosso da tropa, conhecendo a direção da marcha, reincorporavam-se trazendo cavalos, informações sobre os movimentos dos inimigos e sobre o terreno. Eles traziam também os chamados "vaqueanos", isto é, pessoas conhecedoras da região, que eram levadas ao estado-maior, onde forneciam informações sobre a área. Os mapas do Brasil, em geral, principalmente em detalhes, eram todos eles muito falhos. Tudo isso nos facilitou muito a luta contra o inimigo. O soldado mais ignorante procurava o estado-maior, pedindo um croqui de marcha. A direção da marcha era entregue a eles, com o nome das fazendas, povoados que a Coluna deveria atravessar, etc. Esses grupos de seis a dez homens, muitas vezes comandados por soldados analfabetos, conseguiam burlar as grandes colunas do inimigo. Às vezes, eles eram confundidos com a própria vanguarda da nossa Coluna, atrapalhando os planos das forças governamentais.

Quais as manobras mais importantes, do ponto de vista tático, efetuadas pela Coluna?

Pela ordem de importância, a saída de São Luís, que deu prestígio ao meu comando. A verdade é que eu não tinha nenhum prestígio entre a soldadesca e principalmente junto aos velhos combatentes de 1893 (Revolta Federalista no Rio Grande do Sul). Era muito jovem e a minha fisionomia muito infantil. Depois que saímos de São Luís, atraindo o inimigo sobre a cidade e passando entre duas colunas sem sermos percebidos, além de atacar suas reservas, que foram derrotadas no Arroio Conceição, o meu prestígio cresceu. Outro momento interessante da Coluna foi registrado em Pernambuco. Quando atacamos Teresina recebemos, em Natal, cidade a trinta quilômetros de Teresina, uma delegação do Tenente Cleto Campelo, que servia na guarnição de Recife. Com ele veio também Cristiano Cordeiro, que era o secretário do Partido Comunista em Pernambuco. Queriam saber se apoiaríamos um programa de reivindicações da classe operária, pois preparavam um movimento. Esse foi o primeiro contato que mantive com um dirigente do partido. Nós concordamos e combinamos que, no princípio de fevereiro, nos aproximaríamos o mais possível de Recife. Atravessamos o rio Pajeú e a vanguarda chegou até Buíque. Lá chegando, soubemos que Cleto Campelo havia se levantado, mas seu movimento fora esmagado. Resolvemos voltar, atravessando de novo o Pajeú. As chuvas na cabeceira daquele rio impediam a travessia, em razão das fortes correntezas formadas. O inimigo já nos atacava, pois cerca de vinte mil homens estavam concentrados em Pernambuco.



Conhecíamos detalhadamente o terreno, as fazendas, as estradas vicinais, enquanto que o inimigo somente conhecia as estradas principais (na foto acima, a Coluna na Bahia e o tenente Siqueira Campos, ao centro, segurando o chapéu). Fomos atacados pela retaguarda e pelos flancos direito e esquerdo; as guardas sustentaram a luta, enquanto a Coluna passava. Nesse momento, recebo a notícia de que a vanguarda estava também sendo atacada, na Fazenda Cipó. A Coluna conseguiu retirar-se por estradas vicinais e o inimigo não conseguiu estabelecer a nossa direção. Seguimos em direção ao São Francisco, porque sabíamos que o plano do governo era nos esmagar em Pernambuco, pois considerava o rio São Francisco uma barreira intransponível e todas elas podem ser vencidas, embora o São Francisco, naquela região, tenha três quilômetros de largura, um pouco acima da cachoeira de Paulo Afonso, na região de Jatobá. Lourenço Moreira Lima, no seu livro Marchas e combates, transcreve a ordem de travessia do rio.

Quais as origens dos integrantes da Coluna?

A Coluna era constituída em sua maioria por oficiais do Exército e da Polícia Militar de São Paulo (na época, Força Pública), que, aliás, teve uma grande participação, sob a direção do Major Miguel Costa, no levante de São Paulo. Grande número de oficiais e sargentos, que nós fizemos tenentes, capitães e dirigentes da Coluna. Além disso, soldados do Exército, da Polícia Militar e grande número de trabalhadores. No Rio Grande, trabalhadores do campo, isso porque apresentaram-se muitos chefes com seus homens, grupos de cinquenta a sessenta. Posteriormente, com o desenvolvimento da marcha, verificaram-se inúmeras adesões. É interessante ressaltar a composição da Coluna, pois esse foi um movimento audacioso.
Nós estávamos com pouca munição e armamentos; estávamos nas fronteiras do Brasil e, ao invés de sairmos, marchamos pelo interior do país. Isso mostrava a audácia do movimento. Por que essa audácia? É que a idade média da Coluna era inferior a trinta anos. Alguns homens de mais idade, antigos revolucionários das guerras civis do Rio Grande do Sul, mas a maioria era jovem.


Como a Coluna acabou emigrando para a Bolívia?

Isso se explica pelo próprio quadro político no interior do país (na foto acima, Cordeiro de Farias, Prestes e Djalma Dutra na Bolívia, em 1927). Depois de analisá-lo, compreendemos que a solução do problema era das mais difíceis e que não seria com a derrubada de Bernardes e a substituição de homens no poder que poderíamos resolver o problema do país. Era preciso analisar as causas da situação, para vermos qual seria o remédio. Em outubro de 1926, exatamente porque não tínhamos um programa, começaram a aparecer elementos de decomposição na Coluna. Isso nos preocupava, porque sempre havíamos mantido uma grande disciplina e muita ordem. No fim de outubro desse ano, já com Washington Luís eleito (na foto acima, na posse como presidente), resolvemos mandar um emissário ao Marechal Isidoro Dias Lopes, propondo um plano de entendimento com o futuro governo. Mas, quando nosso delegado chegou a Paso de los Libres, na Argentina, onde se encontrava o marechal, a 14 de novembro e véspera da posse de Washington Luís, havia ocorrido um novo levante no Rio Grande do Sul. Nessa ocasião, não nos restou outra alternativa a não ser emigrar para a Bolívia, que era o país mais próximo.



Na fronteira boliviana, entregamos nossas armas. Como a região era muito deserta, conseguimos com os oficiais bolivianos que cada grupo de dez homens pudesse ficar com uma arma longa e que as curtas também fossem mantidas (na foto acima, Prestes observa um companheiro morto de malária na Bolívia, em 1927). A Coluna dividiu-se e fomos trabalhar numa companhia inglesa, onde, pela primeira vez, tive contato com uma empresa imperialista, na margem direita do rio Paraguai. Aí trabalhamos um ano, enquanto os soldados, pouco a pouco, voltavam ao Brasil. Os oficiais foram também emigrando para outros países, principalmente para a Argentina e Uruguai.

Quais as consequências políticas imediatas produzidas pela Coluna?

Antes de mais nada, é interessante ressaltar que a Coluna foi um movimento feito por jovens e que teve um caráter bastante aventureiro, se bem que revelasse qualidades de caráter de seus componentes, como a audácia, o desejo de manter a luta e a bandeira. A primeira característica da Coluna foi a capacidade de persistência. Tudo isso com reflexos muito grandes na nação e na população. No Rio de Janeiro, publicaram um pequeno jornal, o 5 de julho, que divulgava notícias dos movimentos da Coluna. As populações proletária e pequeno-burguesa acompanhavam a marcha com grande interesse e constatavam, nos deslocamentos da força do governo, que ele mentia e não falava a verdade quando afirmava que havia aniquilado a Coluna e executado seus chefes. O descontentamento no país crescia e o prestígio da Coluna transformou-se numa bandeira revolucionária e de luta pelas reivindicações de todo o povo brasileiro. Todos os chefes da Coluna adquiriram um grande prestígio. O meu nome foi utilizado pelos políticos como uma bandeira de luta em favor das grandes modificações no país. Posteriormente, aproximou-se a campanha eleitoral de 1930.
Nessa campanha, apresentou-se um candidato de oposição, Getúlio Vargas. Ele levantou a bandeira do Tenentismo e obteve o apoio da maioria dos quadros do movimento. O que posso dizer é que o movimento popular de 1930, apesar de alguns chamarem de revolução, para mim foi um movimento popular, porque se desenvolveu em todo o país, foi feito com as bandeiras da Coluna, embora eu, pessoalmente, estivesse contra a candidatura Vargas, pois adotei a posição do Partido Comunista. Isso devido à evolução do meu próprio pensamento, depois que emigrei para a Bolívia. Lá estive durante um ano, onde tomei conhecimento de alguma literatura marxista. Amigos de São Paulo e do Rio mandavam-me livros, inclusive o Manifesto Comunista, coletâneas de Lênin e muita literatura brasileira que me permitia compreender a realidade do país do qual estava afastado. A leitura desses documentos, principalmente do Manifesto Comunista, já havia despertado minha atenção para a análise da realidade que eu havia conhecido durante a marcha da Coluna e para a solução do problema. Depois, desloquei-me para a Argentina, onde mantive contato com o Partido Comunista e li obras de Marx, inclusive O Capital, além de outras obras de Lênin. Devo dizer, ainda, que, na Bolívia, tive o primeiro contato oficial com o Partido Comunista. O camarada Astrojildo Pereira, com credencial fornecida pelo secretário do partido, na época Otávio Brandão, procurou-me, na cidade de Porto Suarez, próxima a Corumbá. Conversamos durante alguns dias e consegui as primeiras informações sobre o que se passava na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), o que eram as relações sociais naquele país, como avançava o Primeiro Plano Quinquenal (programa econômico elaborado sob a liderança de Stálin). Astrojildo havia estado, alguns anos antes, na URSS e forneceu-me informações interessantes. Esse foi o primeiro contato que tive com o partido brasileiro.



Depois, tive contato com o partido argentino, Vitório Codovila, Rodolfo Ghioldi e outros dirigentes (na foto acima, Prestes na Argentina entre 1928 e 1929). Dediquei-me ao comércio para poder viver e estudei melhor o marxismo. Trabalhei numa empresa de construção de estradas em Santa Fé e, após estudar profundamente O Capital, decidi que a única solução seria o marxismo. É claro que, como elemento pequeno-burguês, a tendência era encontrar um caminho reformista, mas o meu pensamento lógico e a base materialista que eu havia adquirido na Escola Militar, no estudo de ciências matemáticas e físicas, facilitou o meu encaminhamento para o marxismo, como sendo a única solução para um caminho revolucionário, mas sobre o qual não tinha nenhuma ilusão. Sabia que, na escolha desse caminho, iria enfrentar dificuldades muito grandes. Já nessa época, a perseguição ao comunismo, na América Latina em geral, era uma luta bastante difícil e exigia um sacrifício completo. Um dos livros que mais me ajudou a mudar completamente a minha maneira de pensar e a concepção da vida foi o de Lênin, O Estado e a Revolução. Esse livro modificou de tal maneira a concepção que tinha de Estado que fui obrigado a mudar toda uma concepção de vida, para adquirir um novo modo de pensar e uma nova concepção do mundo.

Como se deu a sua entrada no Partido Comunista?

Já disse que fui contra a candidatura Vargas. Via nela, em Antônio Carlos, João Pessoa, seus aliados, nada mais do que grandes proprietários de terra, que representavam as mesmas classes que estavam no poder do país. Estava convencido de que a chamada "Revolução de Vargas" não iria modificar em nada o Brasil. Publiquei um manifesto, em maio de 1930, no qual tomava uma atitude autocrítica por não haver rompido a mais tempo com os tenentes que aderiam a Vargas.
Essa ruptura facilitou a ruptura total e completa com a maioria dos quadros do Tenentismo, que aderiram, participaram do governo e chegaram ao poder. Estando na Argentina, aproximei-me do Partido Comunista e, posteriormente, em Montevidéu, com a ajuda de elementos do Secretariado Latino-Americano da Internacional Comunista, pude obter as primeiras informações sobre o movimento. Enfrentando dificuldades para viver naquele país, consegui viajar para a URSS, estudando e trabalhando neste país, que atravessava anos difíceis, 1932 e 1933. Em 1934, fui aceito pelo partido, no dia 1º de agosto, com a publicação pela Classe Operária, órgão do Comitê Central, de minha adesão ao Partido Comunista Brasileiro.

Para saber mais:



O livro foi escrito pelo General Nelson Werneck Sodré, que além de militar foi historiador. Na pequena obra o autor faz uma ótima introdução ao tema e descreve as condições do país na época que o Movimento Tenentista se formou, bem como o transcorrer de suas etapas, entre 1922 e 1930, até o momento em que muitos tenentes aderiram a Getúlio Vargas (exceto Prestes). 

Crédito das imagens:
Foto de Prestes em 1958:
Arquivo em Imagens. Série Última Hora Política. São Paulo: Arquivo do Estado, 1999, página 62. 
Fotos (fotogramas) de Artur Bernardes e de Luiz Carlos Prestes em 1987: 
Documentário 1930: Tempo de Revolução dirigido por Eduardo Escorel. Produtores: Cinefilmes, 1500 Brasil e Tatu Filmes. DVD. 
Fotos dos rebeldes em Copacabana: 
Nosso Século 1910/1930. São Paulo: Abril Cultural, 1981, páginas 206 e 207. 
Cidade bombardeada e casa destruída: Guerras e batalhas: o país em luta. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, páginas 37 e 38. 
Casa no bairro do Brás e Cotonifício Crespi: 
http://1932frenteleste.blogspot.com/2012/03/postais-revolucao-de-1924.html
Fotos de Prestes aos 18 anos no Colégio Militar, montado em uma mula e no exílio na Argentina: Luiz Carlos Prestes: um comunista brasileiro de Anita Leocádia Prestes. São Paulo: Boitempo, 2015. 
Força policial de combate à Coluna Prestes em Pernambuco:
http://blogdabriosa.blogspot.com/p/museu-virtual.html
Soldados da Coluna Prestes em 1924;
https://oglobo.globo.com/rioshow/registros-de-guerras-armadas-no-brasil-22106333
Fotos de Prestes ainda como oficial do Exército, Lourenço Moreira Lima e de Siqueira Campos: 
https://cpdoc.fgv.br/

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Última Chamada: Colonos americanos na revista "Leituras da História".




Caro (a) leitor (a), ainda é possível encontrar nas bancas de jornais a edição de agosto da revista Leituras da História, com a nossa matéria de capa sobre os colonos americanos que vieram se fixar no Brasil, após a Guerra Civil Norte-Americana ou Guerra de Secessão (1861-1865). O foco desse artigo foi a experiência dos sulistas confederados na cidade de Santarém, no Pará, ou seja, em plena Amazônia. Fato pouco conhecido da nossa história e mesmo da história dos Estados Unidos.
E aguardem em outubro, outra matéria assinada por nós, dessa vez sobre o Egito Antigo...

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Mostra "Toda Nudez Não Será Castigada" na Betto Damasceno Galeria de Arte



Com enorme satisfação convido o caro (a) leitor (a) para a exposição coletiva do Grupo Belenzinho a ser aberta no dia 01 de setembro de 2018 na Betto Damasceno Galeria de Arte no Golden Square Shopping em São Bernardo do Campo (SP). A mostra intitula-se "Toda Nudez Não Será Castigada" e conta com trabalhos dos artistas Garibaldi, Marlene de Andrade, Martins de Porangaba, Silvio Melo, Sônia Manno, Zanvettor e este que vos escreve. 
O Grupo Belenzinho é formado por artistas residentes (ou que residiram) na Zona Leste da cidade de São Paulo e que há alguns anos se reúnem para trocar ideias sobre arte e discutir os trabalhos feitos por cada um de seus integrantes. A apresentação e curadoria da mostra ficou a cargo do crítico Enock Sacramento, cujo texto reproduzimos aqui para que todos possam conhecer um pouco da história do grupo:

No Brasil existe uma certa tradição de artistas trabalharem em grupos. É o caso do Grupo Santa Helena, formado em meados dos anos de 1930 no edifício de mesmo nome, na Praça da Sé em São Paulo. Em seguida surgem o Grupo Seibi, composto por artistas japoneses imigrantes, o Grupo 15, o Grupo Guanabara, o Grupo Ruptura.

Na década de 1970, um outro grupo começa a formar-se na Zona Leste da capital paulista em torno do ateliê de Martins de Porangaba, inicialmente instalado na rua Herval e, posteriormente, na rua Saturnino de Brito, no Belenzinho.

Martins participava das sessões de modelo vivo na Associação Paulista de Belas Artes, na rua Conselheiro Crispiniano, onde conheceu Menacho. Com ele e Garibaldi, saia com frequência a pintar paisagens no bairro do Tatuapé, do Parque do Piqueri e de outras paragens da Zona Leste. 

Pelos ateliês de Porangaba passaram vários artistas, que nunca perderam o contato entre si, embora, em determinados períodos estivessem mais conectados. Nenhum abandonou a arte. Em 2004, foi implementado o Projeto Cultura Viva, patrocinado pela Universidade São Marcos, por nós curado, que resultou em quatro exposições: uma coletiva e três individuais.

Há mais de cinco anos, parte destes artistas passaram a se reunir uma vez por semana para falar sobre arte em geral e sobre pintura e desenho em particular. No Grupo Belenzinho, assim como acontece com outros grupos, os trabalhos individuais são analisados e comentados pelos colegas, elogiados, às vezes criticados de forma respeitosa. Um influencia o outro e, terminada a reunião, voltam para seus espaços com novas ideias... e estimulados.

Desses encontros recentes surge agora mais um fruto público; esta exposição de trabalhos resultantes de várias sessões de Modelo Vivo. Participam dessa mostra: Garibaldi, Jonas, Marlene de Andrade, Martins de Porangaba, Sílvio Melo, Sônia Manno e Zanvettor que está sendo realizada na Betto Damasceno Galeria de Arte. 

                                                                                                                  Enock Sacramento 

Para ver:
Mostra: "Toda Nudez Não Será Castigada"
Onde: Betto Damasceno Galeria de Arte
            Golden Square Shopping 
            Avenida Kennedy, 700/Piso L2/Loja 208.
Quando: de 01 de setembro a 06 de outubro de 2018.
                 De Segunda a Sábado das 12 às 20 horas.
                 Domingos e feriados das 14 às 20 horas. 
                 No dia da inauguração das 11 às 14 horas. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Revista Leituras da História: colonos americanos na Amazônia



Caro (a) leitor (a), é com enorme satisfação que informamos que já se encontra nas bancas e grandes livrarias, a edição 116 (de agosto) da revista Leituras da História (editora Escala) com a matéria de capa assinada por nós: Colonos Americanos. Na mesma narramos a trajetória dos confederados que se estabeleceram na Amazônia, mais precisamente no município de Santarém no estado do Pará em 1867, logo após o final da Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos. Trata-se de um fato pouco conhecido por nós brasileiros e até mesmo na própria história norte-americana. Os sulistas confederados (após terem sido derrotados no conflito com os ianques do norte na guera civil) pretendiam estabelecer em plena Amazônia uma colônia nos mesmos moldes do estilo de vida rural característico do sul dos Estados Unidos. Os norte-americanos já tinham algumas informações sobre o vale do rio Amazonas por meio de viajantes e exploradores que estiveram na região e inclusive comercializavam os produtos da floresta amazônica, entre eles a castanha-do-pará, a borracha e a tapioca. Na época o governo norte-americano pleiteava a livre navegação na bacia amazônica como forma de ter acesso à região, tida como rica e com grande potencial econômico. 


Embora não tivesse os mesmos resultados positivos das outras colonias confederadas estabelecidas no interior de São Paulo, como Santa Bárbara D'Oeste e Americana, a presença desses colonos deixou marcas em Santarém, como por exemplo nos estabelecimentos comerciais e até mesmo nas pequenas oficinas de construção de barcos. Descendentes desses colonos tiveram papel importante na implantação da Fordlandia na década de 1930, projeto concebido pelo industrial do ramo automobilístico Henry Ford para a produção de borracha às margens do rio Tapajós, nas proximidades de Santarém. 


Aliás, familiares desses confederados vivem na cidade até hoje, motivo que levou a historiadora Norma Guilhon a pesquisar a origem de tantos sobrenomes estrangeiros ao visitar o município no início da década de 1970 (ela era esposa do então governador Fernando José de Leão Guilhon). Por meio de seus levantamentos surgiu o estudo mais importante sobre esse episódio, "Os Confederados de Santarém" publicado em 1979. 
Chamo a atenção também para as demais matérias publicadas nessa edição da Leituras da História, com temas de grande interesse para o público em geral e também para os historiadores, inclusive um encarte sobre a situação na Síria e os antecedentes da terrível guerra, o qual pode ser de bom uso em sala de aula pelos professores da área (história, geografia, sociologia entre outras disciplinas).
É isso aí...

domingo, 12 de agosto de 2018

Como era e como está: a praia de Copacabana.



Um dos cartões postais da "Cidade Maravilhosa": a praia de Copacabana (acima, foto de Marc Ferrez tirada em 1890 a partir do sopé do morro do Leme, a praia praticamente inabitada). O Rio de Janeiro tem uma beleza visual incomparável, das mais deslumbrantes do planeta, com uma natureza esplendida formada por montanhas, picos e elevações que inspiraram artistas, poetas e arquitetos, entre os quais Oscar Niemeyer, que comparou as curvas de sua paisagem natural à sensualidade do corpo feminino. Mas saiba o prezado (a) leitor (a) que a praia que ficou conhecida como "Princesinha do Mar" guarda uma história inusitada. O nome "Copacabana" teve origem nos altiplanos andinos, mais precisamente na língua quechua (ou quíchua) falada no antigo Império Inca, que abrangia os atuais territórios do Peru, Bolívia e parte do Equador. O termo tinha vários significados entre os quais "lugar luminoso", "praia azul" ou ainda "mirante do azul". Existe também a possibilidade da palavra ter surgido da língua aimará (da mesma família linguística quechua), tendo o significado de "vista do lago" (kota kahuana). Na Bolívia existe uma cidade às margens do lago Titicaca (o mais alto do mundo) com o nome de Copacabana, no mesmo lugar onde havia o culto a uma divindade dos tempos do Império Inca, associada ao casamento e à fertilidade feminina, que era designada exatamente pelo termo Kopacawana
Logo após os espanhóis chegarem à região da Copacabana boliviana, um pescador chamado Francisco Tito Yupanqui teria presenciado a aparição da Virgem Maria. Em lembrança a esse acontecimento, o mesmo indivíduo esculpiu uma imagem sacra que ficou conhecida como a Nossa Senhora de Copacabana. No século XVII comerciantes que realizavam os seus negócios com a prata extraída no Vice-Reino do Peru (colonia espanhola que abrangia os territórios do antigo Império Inca) trouxeram uma réplica da imagem para o Rio de Janeiro. A mesma foi colocada num rochedo, em uma praia deserta da cidade, que até então era conhecida apenas pela designação em tupi de Sacopenapã, cujo significado era "o barulho e o bater de asas dos socós" uma ave da região. 



Nos últimos anos do século XVIII foi erguida uma capela para acolher a imagem de Nossa Senhora de Copacabana e aí aconteceu o inevitável. Toda a extensão da praia e as áreas adjacentes acabaram recebendo esse mesmo nome: Copacabana. Em 1914, a capela foi demolida para dar lugar ao Forte de Copacabana (nas imagens acima, a capelinha em foto sem data e em 1885 numa fotografia de Marc Ferrez).


No final do século XIX as praias começaram a ser frequentadas pela elite social, inclusive por recomendação médica e terapêutica aos pacientes. Ao mesmo tempo, a área de Copacabana começava a ser interligada com o resto da cidade do Rio de Janeiro (na foto acima de Marc Ferrez, vila nas proximidades da capela de Copacabana no ano de 1895). 



Em 1892, foi inaugurada uma passagem entre o Morro da Saudade e o Morro de São João, o Túnel Velho (acima em foto de 1894), construído pela Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico (depois incorporada à Light) ligando Copacabana ao bairro do Botafogo, momento em que a área começou a ser integrada ao restante da cidade. A obra permitiu a implantação de várias linhas de bondes que essa mesma companhia explorava. Posteriormente, as linhas foram ampliadas até a altura da antiga capela. 


No final do século XIX, Copacabana já tinha ruas de terra sendo abertas, facilitando a ocupação e a construção de casas, como mostra a foto acima de 1895 (no lado esquerdo o local onde seria construído o Copacabana Palace). 




Com a melhora no acesso vieram os loteamentos e a urbanização de Copacabana, que foi ganhando ruas e casas de alto padrão. Muitos consideram a data de inauguração do Túnel Velho como sendo o marco fundador do bairro de Copacabana. Nas duas fotos acima (a primeira de 1917 e a segunda de 1910), a orla ainda antes do processo de verticalização que moldou a paisagem atual do bairro já na década de 1940, quando os casarões deram lugar ao edifícios. 


No ano de 1906 foi aberta a Avenida Atlântica, dentro do conjunto de obras do prefeito Pereira Passos, que ficou conhecido como o "bota abaixo" por demolir antigos prédios e cortiços, em função da remodelação urbanística que promoveu na cidade. Passos pretendia tornar o Rio de Janeiro uma espécie de "Paris dos trópicos". Com a nova avenida veio o tipo de calçamento que se tornou a marca registrada daquela praia: o desenho em curvas no padrão "mar largo" (como aparece na foto acima de 1946, de autoria de Pierre Verger). Esse traçado reproduz de forma estilizada, em branco e preto, o movimento das ondas do mar e as marolas. Ao que tudo indica, esse padrão veio da Praça do Rossio de Lisboa, em Portugal, a qual foi pavimentada em 1849. O calçamento da orla de Copacabana foi confeccionado com pedras de basalto (pretas) e de calcita (brancas) vindas de Lisboa, daí a designação que as mesmas tem até hoje de "pedras portuguesas", apesar de atualmente serem obtidas aqui mesmo no Brasil. Na década de 1910 foram instalados os primeiros postos salva-vidas. 


No dia 5 de julho de 1922 um acontecimento fez com que a Praia de Copacabana ficasse definitivamente registrada nos livros de história. Jovens oficiais e cadetes (chamados de "tenentes") do Exército Brasileiro se rebelaram contra o governo oligárquico (dos grandes fazendeiros) da Primeira República (1889-1930). Dezessete militares e um civil saíram do Forte de Copacabana e marcharam pelo calçadão até serem recebidos a bala pelas tropas legalistas (fiéis ao governo). Dos "18 do Forte" como ficaram conhecidos, apenas dois sobreviveram, os "tenentes" Eduardo Gomes e Siqueira Campos (que aparecem na foto acima, respectivamente os dois primeiros a partir da esquerda). A rebelião militar foi o início da Revolta Tenentista no Brasil contra os últimos presidentes da Primeira República e o sistema político oligárquico (poder restrito aos grandes latifundiários).



Um ano após o levante dos "18 do Forte" foi inaugurado o Copacabana Palace, o mais famoso hotel do Rio de Janeiro, localizado em plena avenida Atlântica (na foto acima, o hotel em 1930). O mesmo foi projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire (1872-1933) inspirado nos hotéis franceses Negresco (de Nice) e Carlton (de Cannes). 



O "Copa" como ficaria conhecido tornou-se o local de encontro da alta sociedade carioca e os seus bailes eram muito concorridos (na foto acima, evento no Copacabana Palace em 1950). 



Muitas personalidades hospedaram-se em suas charmosas acomodações, entre elas Santos Dumont, Albert Einstein, Orson Welles, Marlene Dietrich, Rita Hayworth, Ava Gardner, Carmem Miranda, Nelson Rockfeller, Brigitte Bardot, Janis Joplin, Frank Sinatra, a rainha Elisabeth 2ª e em anos mais recentes Lady Diana, Paul McCartney, Tom Cruise, Madonna, Mick Jagger entre outros. Brigitte Bardot esteve no Rio logo após o golpe militar de 1964 (foto mais acima) quando disse em uma entrevista: "adorei a revolução de vocês". Janis Joplin (foto acima) esteve hospedada no Copacabana Palace poucos meses antes de sua morte em 1970.


Mas acreditamos que nenhuma dessas celebridades esteve tão à vontade, inclusive para circular na praia e até distribuir autógrafos, como Walt Disney (foto acima). Em 1941 o cineasta esteve no Brasil, a serviço dos esforços do governo norte-americano de promover a aproximação com a América Latina, naquilo que ficou conhecido como Política de Boa Vizinhança. Walt Disney veio acompanhado de uma comitiva de 16 pessoas, incluindo vários desenhistas e que culminou com a criação do personagem Zé Carioca. O Rio de Janeiro vivia no início da década de 1940 o auge dos cassinos, como o Urca, o Atlântico e o próprio Copacabana Palace, até a extinção desses estabelecimentos (e dos jogos) no governo do presidente Eurico Gaspar Dutra em 1947.


As décadas de 1930, 1940 e 1950 marcaram a grande fase de Copacabana como ponto de atração no Rio de Janeiro (na foto acima, a praia lotada em 1959). Nas décadas seguintes a cidade sentiu os efeitos da mudança da capital para Brasília (ocorrida em 1960), além da expansão desordenada e sem planejamento em termos de ocupação do espaço urbano. A exclusão social e o crescimento das favelas foi o resultado direto dessa forma de urbanização. 



No início da década de 1970 foram realizadas várias obras para a ampliação do terreno de areia da praia, permitindo aumentar o espaço de lazer (para espetáculos e jogos). Ao mesmo tempo, foram alargadas as pistas da Avenida Atlântica. As calçadas foram remodeladas pelo paisagista Roberto Burle Marx, que manteve o tradicional padrão "mar largo" do calçamento mais próximo à areia. Essas obras também ajudaram a conter as ressacas que chegavam a atingir as garagens dos edifícios localizados na orla (nas duas fotos acima, a orla durante e depois das obras). Mais tarde foi construída uma ciclovia acompanhando a avenida Atlântica. 


Nos últimos anos vários eventos importantes foram realizados em Copacabana (acima, vista atual da praia), incluindo shows (como o do conjunto de rock Rolling Stones), competições dos Jogos Olímpicos de 2016 (vôlei de praia, maratona aquática e triatlo) e o espetáculo da queima de fogos no ano-novo. Atualmente, a orla é fechada aos domingos para a circulação de automóveis, a exemplo do que ocorre na avenida Paulista na cidade de São Paulo, permitindo que o público circule e aproveite um pouco melhor da beleza paisagística de Copacabana. 


Não poderíamos encerrar esta postagem sem mostrar uma foto da Copacabana boliviana às margens do lago Titicaca (acima). E não é que essa Copacabana lembra um pouco a Copacabana daqui...

Crédito das imagens:
Foto da capelinha de Copacabana:
http://luizgeremias.blogspot.com/2017/09/fatos-e-fotos-historicas-da-princesinha.html
Copacabana em 1910:
http://historia-do-brasil-e-do-mundo.hi7.co/fotos-antigas-rio-450-anos-56cb5f6292ab1.html
Foto do Túnel Velho: Wikipédia.
Fotos da praia de Copacabana deserta em 1890, da capela em 1885 e da vila de Copacabana de 1895:
O Brasil de Marc Ferrez. Instituto Moreira Salles, 2005, páginas 135, 140 e 141 respectivamente. 
Foto de Copacabana em 1895: 
https://www.bn.gov.br/noticia/2015/06/rio-450-anos-bairros-rio-copacabana
Fotos do casarão, do calçamento de autoria de Pierre Verger e da praia em 1959: Litoral: o sol, o sal, o céu. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, páginas 30, 35 e 37 respectivamente. 
Foto da revolta dos "18 do Forte": Guerras e Batalhas: o país em luta. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, página 34.
Fotos do Copacabana Palace em 1923 e 1930:
http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2017/03/copacabana-palace.html
Baile no Copacabana Palace: Cotidiano: um dia na vida dos brasileiros. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. Folha de S. Paulo, 2012, página 36.
Fotos de Brigitte Bardot e Janis Joplin:
https://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/copacabana-palace-mantem-o-nome-o-glamour-e-o-luxo
Obras de ampliação da orla de Copacabana no início da década de 1970:
acervo.oglobo.globo.com
Vista atual de Copacabana: Wikipédia.
Copacana da Bolívia: Wikipédia.