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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Revista Leituras da História: Tábua Peutinger em sala de aula




Caro leitor, na Revista Leituras da História 114, edição de junho, uma matéria assinada por nós sobre a Tábua Peutinger serviu de conteúdo para uma aula de história sobre o Império Romano. Como descrito no e-mail enviado à redação da revista (imagem acima) pela professora Jeane Lopes de Santo André (SP), o texto foi útil para despertar a curiosidade a respeito das dimensões da Roma Antiga, em uma turma de alunos adolescentes. Nós do blog História Mundi ficamos muito contentes e recompensados com a utilização de um material de nossa lavra em aula. Destacamos ainda que é possível navegar pelo mapa original na Wikipédia (em inglês). 
O blog História Mundi procura se constituir em uma ferramenta para os professores das áreas de humanidades, no que diz respeito ao ensino e à pesquisa. E aguardem, na edição de agosto teremos uma surpresa para os leitores do blog e da conceituada revista, cuja leitura recomendamos. Aliás a edição de julho (capa acima) já está nas bancas... 

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Anúncio Antigo 57: Elefante branco



O Anúncio Antigo acima nos faz lembrar uma expressão muito utilizada atualmente. Com certeza o caro leitor já ouviu falar em "elefante branco". A referência diz respeito a algo inútil e geralmente de grandes proporções, difícil de guardar ou manter. Ao que parece, a famosa expressão tem origem no antigo reino do Sião (atual Tailândia) no sudeste da Ásia, onde os elefantes albinos (brancos) eram mantidos pelos monarcas como um sinal de que governavam com justiça e de que o reino teria paz e prosperidade. Muitos afirmam que essa tradição estaria também associada ao nascimento de Sidharta Gautama, mais conhecido como Buda, uma vez que a sua mãe teria tido um sonho com um elefante branco na véspera do parto. 


Os elefantes brancos eram considerados sagrados naquele reino (na imagem acima, pintura tailandesa do final do século XIX, representando o animal). Exatamente por isso, ganhar um deles de presente do monarca era uma honraria, mas ao mesmo tempo também um problema. O indivíduo (geralmente um cortesão) que o recebesse não podia recusar o presente ou dar o animal para outra pessoa. Também não era permitido utiliza-lo para o trabalho (afinal era sagrado), devendo o dono cuidar, alimentar e manter o elefante de forma impecável, inclusive no cuidado com os seus pelos. Portanto, era uma despesa sem retorno. Em 1861, o então rei Rama IV instituiu uma honraria conhecida como a Ordem do Elefante Branco, que passou a ser concedida pelo governo do Sião a pessoas de grande notabilidade (e que não incluía o animal). Aliás, vale lembrar que nessa mesma época o Reino do Sião possuía algo em torno de 100.000 elefantes. Hoje o número varia entre 2000 a 3000 animais na moderna Tailândia, ou seja, a espécie está ameaçada. 
Atualmente muitas construções ou obras foram (e são) caracterizadas como elefantes brancos. Aqui no Brasil alguns estádios construídos para a Copa do Mundo de 2014 carregam essa fama, como por exemplo, o Estádio Mané Garrincha (em Brasília), a Arena Pantanal (em Cuiabá), a Arena da Amazônia (em Manaus) ou a Arena das Dunas (em Natal), pelo fato do futebol não atrair tantos torcedores nessas cidades, o que dificulta a manutenção das arenas. Algo que não é privilégio do Brasil, pois em Portugal vários estádios construídos para o Campeonato Europeu de 2004 também se encontram na mesma situação. Bem, ainda temos o complexo olímpico construído para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. 
Uma máquina dispendiosa, um eletrodoméstico sem grande utilidade, um automóvel de grande porte e cuja manutenção é custosa, também podem ser considerados elefantes brancos. É exatamente isso que o anúncio mais acima procura lembrar para aqueles que estão prestes a adquirir ou trocar o seu veículo automotor. Por exemplo, será que o mesmo cabe na vaga? Parece um aspecto óbvio, mas para os condomínios residenciais é uma questão grave, pois muitos moradores não fazem esse cálculo elementar. 
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado na revista Galileu Especial nº 2, Editora Globo, de julho de 2003, no verso da contracapa. 
Crédito das imagens:
Pintura tailandesa do século XIX: Wikipédia.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Jesus de Nazaré: um personagem da história parte 1



Nas últimas décadas, historiadores e pesquisadores de várias disciplinas tem desenvolvido trabalhos que deram novo embasamento aos estudos referentes à figura do chamado Jesus histórico. Exatamente em função disso, podemos afirmar que há poucas razões para se duvidar da sua existência. Contudo devemos esclarecer o leitor que o Jesus ao qual nos referimos não é o Cristo (messias em grego) estabelecido posteriormente por seus seguidores, mas o personagem real proveniente das camadas baixas do campesinato e que procurou adequar a tradição da religião judaica (afinal de contas, ele era um judeu) ao contexto da dominação romana sobre a Palestina, no século I da nossa era (na imagem acima, Jesus representado como pastor nas catacumbas de Priscila, em Roma, no século III). Por isso, não trataremos aqui das questões que envolvam a fé e a crença nos quesitos aplicados àquele que depois foi chamado de  "O Filho de Deus".
Durante séculos, a figura de Jesus não era separada dos temas referentes à religião cristã, ou seja, fazia parte do domínio exclusivo da teologia (estudo da natureza do divino, seus atributos e sua relação com os homens). Por outro lado, muitos aspectos de sua trajetória despertavam dúvidas e desde o século II surgiram tentativas para se conseguir uma síntese coerente dos quatro Evangelhos (contidos no Novo Testamento e que constituem as mais importantes narrativas sobre Jesus), sem êxito. Com o Iluminismo, no século XVIII, teve início a tarefa de se promover a leitura crítica desses textos, tendo por base a razão e a verificação empírica (prática) dos fatos lá descritos. Trata-se daquilo que foi denominado de " A Primeira Busca pelo Jesus Histórico". Nessa linha de raciocínio, o escritor Ernst Renan (1823-1892), em seu livro "A Vida de Jesus" publicado em 1863, considerou os Evangelhos como tendo pouco conteúdo de valor histórico e suas narrativas como sendo fatos sem explicação à luz da razão. 
No início do século XX, o erudito (indivíduo culto e de grande saber) Albert Schweitzer (1875-1965) que se destacou em vários campos do conhecimento (foi inclusive agraciado com o Prêmio Nobel da Paz de 1952), escreveu "A busca do Jesus Histórico", publicado em 1906, no qual faz um balanço crítico dos estudos anteriores referentes ao tema e uma avaliação literária importante dos quatro Evangelhos, onde pode perceber a permanência no material escrito de uma oralidade expressa em frases curtas e na repetição de palavras. Muitas dessas falas representam o que há de mais autêntico no que se refere ao personagem. Mas ao final, Schweitzer concluiu que Jesus seria uma figura por demais estranha e enigmática para aqueles que viviam no século XX, aconselhando que a melhor coisa a fazer seria deixar o seu estudo de lado.  
Na década de 1950 ressurgiu o interesse em situar Jesus dentro de uma perspectiva histórica, naquilo que ficou conhecido como a "A Segunda Busca pelo Jesus Histórico". Günther Bornkamm em seu livro "Jesus de Nazaré" (de 1956) estabeleceu alguns fatos tidos como inquestionáveis: Jesus era um judeu proveniente da aldeia de Nazaré; foi batizado por João Batista; sua língua era o aramaico e seu pai era um carpinteiro (embora não no sentido moderno dessa profissão). No final do século XX tivemos um boom no que se refere às pesquisas a respeito do Jesus histórico, sobretudo a partir de um grupo de pesquisadores, principalmente norte-americanos, que ficou conhecido como o Seminário de Jesus (1985). Nesse momento, dentro de uma abordagem multidisciplinar, com a contribuição de vários ramos do conhecimento, entre os quais a sociologia, a antropologia, a linguística, a teologia e a própria história, buscou-se contextualizar a figura de Jesus e ordenar as fontes disponíveis para pesquisa. 




No que se refere às fontes escritas, temos os Manuscritos do Mar Morto, descobertos a partir de 1947 nas cavernas de Qumran no deserto da Judeia (nas fotos acima, as cavernas e manuscrito do Livro de Isaías, do século I a.C.). Esses documentos eram constituídos de cópias dos textos da Bíblia hebraica e das normas de conduta da comunidade dos "essênios", grupo dissidente do judaísmo que se formou como reação à presença estrangeira na Palestina e às autoridades do Templo de Jerusalém. Nesses manuscritos, ao contrário do que se esperava inicialmente, não há nenhuma referência a Jesus. Contudo, algumas das práticas dos essênios teriam influenciado João Batista (pregador que batizou Jesus) e mesmo o cristianismo primitivo. 



Os Evangelhos "apócrifos" ("ocultos" em grego), os quais não são aceitos oficialmente pelas igrejas cristãs, também se constituem em importante fonte de informações a respeito do Jesus histórico. Boa parte desse material foi encontrado em 1945, na localidade de Nag Hammadi no interior do Egito, onde estavam guardados papiros com 52 textos diferentes datados a partir do século II, entre os quais o chamado Evangelho de Tomé (nas fotos acima, parte desses pergaminhos e a primeira página desse Evangelho). Na década de 1970 todo esse material foi traduzido para as línguas modernas. Além desses textos descobertos no século XX, temos também os livros do historiador judeu Flavio Josefo e os trabalhos dos escritores romanos que fazem referência a Jesus (Tácito, Suetônio e Plínio, o Jovem). 
Algumas descobertas arqueológicas também contribuíram para trazer informações mais precisas, não diretamente a respeito de Jesus, mas dos personagens que foram seus contemporâneos, como veremos adiante. 


Sem dúvida, os Evangelhos (palavra de origem grega e que significa "boa nova") atribuídos (importante destacar isto) a Mateus, Marcos, Lucas e João (na foto acima, o Evangelho de Lucas em um papiro de aproximadamente 220 d.C.) são as fontes mais conhecidas. Esses quatro livros constituem os textos canônicos, isto é, a lista de livros considerados inspirados pelas igrejas cristãs. Em geral, acredita-se que o evangelho de Marcos se constitui no mais antigo dos quatro, tendo adquirido forma escrita por volta do ano 70 da nossa era, quatro décadas após as morte de Jesus. Aliás os textos de Marcos, Mateus e Lucas apresentam muitas características em comum, daí a razão pela qual são conhecidos como os Evangelhos "sinóticos" (palavra que significa "com a mesma visão"). 


O evangelho de João foi escrito décadas depois (entre os anos 90 e 110) e possui características distintas dos demais (na foto acima, fragmento do Evangelho de João datado de aproximadamente 150 d.C.). Já os Atos dos Apóstolos (Cartas ou Epístolas) possuem datas diversas, variando dentro de um período que vai do ano 64 até o ano 85 d.C. (depois de Cristo). As Cartas de Paulo são as mais antigas, inclusive antecedendo o próprio evangelho de Marcos. Os estudiosos ainda aceitam a existência de uma fonte oculta nos evangelhos de Mateus e Lucas conhecida pela denominação de "Fonte Q" (da palavra alemã quelle, que significa fonte). Quando esses dois evangelistas não coincidem com Marcos é porque os mesmos teriam recorrido à fonte Q. 
A escrita dos quatro Evangelhos que compõem o Novo Testamento, está inserida no contexto da cultura helenística, marcada pela forte influência grega (helênica) mesclada com elementos culturais provenientes do Oriente. Tal influência se fez presente no leste do Mediterrâneo desde o tempo das conquistas de Alexandre, o Grande no final do século IV a.C. (antes de Cristo). Não é por outra razão que os Evangelhos foram escritos originalmente em grego, que se tornou uma espécie de língua internacional da época (como o inglês hoje). Por outro lado, tais textos nos remetem a personagens bem diferentes dos antigos poemas mitológicos, com os seus deuses e heróis, como também das obras dos grandes filósofos gregos (Platão, Aristóteles). Nos Evangelhos ouvimos falar de pastores, pescadores, agricultores e também daqueles que eram desprezados por serem provenientes das camadas mais baixas da sociedade, ou ainda por suas deficiências físicas e de saúde (leprosos, paralíticos, cegos, doentes mentais entre outros). Ah, não nos esqueçamos das figuras femininas, não rainhas e princesas, mas as mulheres da vida real e do cotidiano. Os Evangelhos não foram pensados para serem uma documentação da vida de Jesus em termos históricos. Na verdade, eles se constituem em testemunhos de fé e escritos pelas comunidades dos primeiros cristãos. Como afirma o estudioso Reza Aslan, os Evangelhos nos informam sobre o Jesus Cristo e não sobre o Jesus homem. 


E a Palestina, região onde Jesus nasceu? No ano 63 a.C. a mesma foi submetida ao controle do Império Romano pelas tropas do general Pompeu (imagem acima). De início, a estratégia romana foi a de estabelecer um governo local como forma de exercer o poder indireto e arrecadar tributos. Os romanos apoiaram a ascensão ao trono de Herodes, o Grande, cujo reinado durou de 37 a.C. até 4 a.C., como um rei-cliente (aliado) de Roma. Herodes foi um monarca cruel, sobretudo com os seus rivais e inimigos, mantendo controle inclusive sobre o conselho de sacerdotes (Sinédrio) do Templo em Jerusalém. Ao mesmo tempo, mostrou-se leal a Roma e à sua cultura, a qual procurava transplantar para a Palestina através de grandes obras. Essa verdadeira romanização cultural não era vista com simpatia por boa parte do povo judeu. 



Entre as obras de Herodes destacamos a fortaleza de Herodion, situada a 12 quilômetros de Jerusalém e onde foi encontrada a urna funerária que teria contido os seus restos mortais (nas duas imagens acima, a fortaleza e a urna descoberta em 2007). Além dessa construção, temos também a cidade de Cesareia Marítima, no litoral da Palestina (às margens do Mediterrâneo) e outras grandes fortalezas, entre elas Massada, foco de uma heroica resistência dos judeus contra Roma na rebelião dos anos 67-73 d.C. (depois de Cristo). 




Cesareia era dotada de um aqueduto para o fornecimento de água e de um Circo para as corridas, no melhor estilo da arquitetura romana (respectivamente nas imagens acima). A cidade abrigou posteriormente os governadores (ou procuradores) enviados por Roma, entre eles Pôncio Pilatos, que teve a sua figura associada à crucificação de Jesus.



Herodes também remodelou o Templo de Jerusalém, símbolo maior do antigo judaísmo (na foto acima, a maquete moderna que reconstitui a edificação). Amparado no poder militar romano, Herodes estabeleceu o controle político sobre os judeus por mais de três décadas, até falecer em 4 a.C., fato que trouxe grande instabilidade na região, o que obrigou ao deslocamento das tropas romanas da Síria para por fim à luta pela sucessão do falecido rei. De acordo com o historiador Simon Schama, a morte de Herodes deixou uma classe pobre ao desamparo com o fim das grandes obras e suscetível às futuras pregações dos cristãos, os quais afirmavam que os pobres teriam maior probabilidade de ir ao céu do que os ricos. 


Novamente sob a tutela do governo romano, agora com o imperador Augusto, procedeu-se à partilha do reino de Herodes entre os seus filhos: Arquelau (com os territórios da Idumeia, Judeia e Samaria), Filipe (com a Transjordânia) e Herodes Antipas (com a Galileia e Pereia). No mapa acima podemos observar esses territórios que constituíam a antiga Palestina. 


A partilha ainda não foi suficiente para restaurar a ordem mantida no tempo do rei Herodes (na foto acima, feita por satélite, a área no entorno do mar Morto, com a Judeia na margem esquerda e o rio Jordão na parte superior). Em função disso, o imperador Augusto decidiu transformar a área central da Palestina (Judeia e a cidade de Jerusalém) em uma província governada diretamente por Roma no ano 6 d.C., mantendo os outros territórios que eram administrados por Filipe e Herodes Antipas (incluindo a Galileia, onde viveu  Jesus).


O nascimento de Jesus (ou Yeshua, como aparece acima na grafia hebraica) é associado nos Evangelhos à época da morte do rei Herodes, fato que comprovadamente ocorreu no ano 4 a.C., como observamos anteriormente. Portanto, podemos situar o seu nascimento entre os anos 6 a.C. e 4 a.C., o que nos leva a um fato aparentemente paradoxal, o de que Jesus nasceu antes de Cristo! A respeito do dia do nascimento existe uma verdade incontestável: não foi em 25 de dezembro. As fontes conhecidas não mencionam essa data e nem mesmo a época do ano em que Jesus nasceu. No ano 525 a Igreja Católica instituiu a comemoração nesse dia para coincidir com outras festividades pagãs (não cristãs), entre elas o nascimento do Sol Invencível (ou Sol Invictus em latim), no momento em que esses cultos eram assimilados ao cristianismo. 
Jesus era filho de um carpinteiro? A palavra grega tekton, traduzida nos evangelhos como carpinteiro, tinha o significado mais apropriado de construtor civil ou mesmo pedreiro, um ofício normalmente transmitido de pai para filho naquele tempo. Portanto, Jesus deve ter exercido a mesma profissão de José. O Império Romano era constituído por várias organizações sociais agrárias, caracterizadas por uma enorme desigualdade separando as classes superiores (aristocráticas) das classes inferiores (campesinato). Jesus pertencia a esta última e a sua profissão era associada a esse mesmo segmento em outros documentos da época. 
A respeito da gravidez virginal da progenitora de Jesus, Maria, existem várias observações apontadas pelos estudiosos. Apenas nos evangelhos de Mateus e Lucas há referências sobre o assunto. Mateus cita o profeta Isaías para fundamentar a condição da virgindade da mãe de Jesus quando engravidou:

eis que a virgem terá no ventre um filho e o parturirá; e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, o que significa Deus conosco. (Mateus 1,23)

De acordo com Frederico Lourenço, tradutor e especialista em línguas clássicas, no original hebraico do Antigo Testamento (cujo texto foi recebido dos judeus) atribuído a Isaías, é utilizado o termo almah que não têm o significado de "virgem". Na versão grega do Antigo Testamento essa mesma palavra foi traduzida por parthenós, que designa uma mulher solteira, a qual pode (ou não) ser virgem. Portanto, Isaías não se referiu exatamente a uma virgem e apenas fez alusão ao nascimento do filho do rei hebreu Acaz (que veio a se chamar Ezequias). De qualquer forma, Mateus e Lucas concordam que Maria era noiva de José quando ficou grávida, ressaltando Lucas que a gravidez deu-se por obra do Espírito Santo.


Os adversários do cristianismo criticaram a concepção virginal de Jesus, divulgando que tal ideia serviria para encobrir a condição de bastardo do recém-nascido (acima, possível imagem de Maria com o menino Jesus, das catacumbas de Priscila, Roma, século III). O filósofo Celso, que viveu no século II da nossa era, foi mais longe, ao afirmar ter ouvido de um judeu que o verdadeiro pai de Jesus seria um soldado romano de nome Panthera e que portanto, a criança era fruto de uma relação ilegítima! Trata-se de uma informação implausível e sem confirmação em outras fontes. Contudo, é possível que tais rumores já existissem no tempo de Jesus. Para confirmar isso, os estudiosos citam uma passagem do evangelho de Marcos, que menciona o momento em que Jesus começou a pregar em Nazaré, quando um morador local identificou-o:

Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? (Marcos 6,3)

Chamar um primogênito judeu através do nome materno não era comum na antiga Palestina, sendo considerado algo escandaloso. O indivíduo deveria ser designado tomando como referência o nome paterno, ou seja, Jesus teria que ser reconhecido publicamente como "o filho de José". Aliás, nada sabemos a respeito do destino deste último personagem. Pela leitura dos Evangelhos somos levados a concluir que José já tivesse morrido quando Jesus iniciou o seu ministério (suas pregações) na idade adulta. 


Jesus teve irmãos? É pouco provável que tenha sido filho único, pois isso era incomum nas famílias camponesas, que necessitavam de braços para o árduo trabalho na terra (o pastoreio ainda é presente na moderna Palestina, como mostra a foto acima). O Evangelho de Marcos cita o nome de quatro de seus irmãos, como também menciona a existência de irmãs. Muitos alegam que o termo "irmão" poderia significar também primo. Contudo, a palavra grega adelphos (utilizada nesse Evangelho) significa irmão no sentido literal do termo. A dúvida é se esses irmãos seriam também filhos de Maria ou de uma união anterior de José. 
Atualmente os estudiosos são quase unânimes em considerar o local de nascimento de Jesus como sendo a pequeníssima aldeia de Nazaré. A colocação nos Evangelhos de Mateus e Lucas da cidade de Belém ocorreu no sentido de estabelecer a ligação de Jesus com a linhagem da família do rei David e dos desígnios proféticos de que o enviado de Deus viria desse lugar: 

Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, até a Judeia, a cidade de Davi que se chama Belém, pelo fato de ele ser da casa e da linhagem de Davi, para se recensear com Maria, sua esposa, estando ela grávida. (Lucas 2, 4-6)



Lucas faz referência a um recenseamento (levantamento do número de habitantes) promovido por ordem do imperador Augusto (acima, moeda de ouro com o rosto desse imperador de perfil), ocorrido quando Quirino era governador romano da Síria, fato esse que teria obrigado José e Maria a se dirigirem até Belém, supostamente a cidade de origem de José. De acordo com um dos maiores estudiosos do Jesus histórico na atualidade, John Dominic Crossan (um dos integrantes do Seminário de Jesus), Quirino apenas se tornou governador no ano 6 d.C., uma década após o nascimento de Jesus. O tal recenseamento de fato ocorreu, porém depois da deposição de Arquelau (um dos herdeiros de Herodes, o Grande já mencionado na partilha dos territórios) como governante da Judeia, no momento em que Roma estabeleceu o governo direto dessa província. O censo imperial incluía as populações da Judeia, Idumeia e Samaria, mas não da Galileia (onde viviam José e Maria), que estava sob a administração de Herodes Antipas (outro herdeiro de Herodes, o Grande). Com base em outros recenseamentos feitos pelo governo romano, os indivíduos eram registrados em seu local de residência e de trabalho (onde pagavam os seus impostos) e não no local de nascimento, como sugere Lucas. Tais inserções tiveram que ser feitas nos Evangelhos, pois era inconcebível na tradição judaica considerar um homem pobre proveniente da esquecida e periférica Galileia, como sendo o Messias (Cristo). João deixa isso claro nesta passagem: 

Outros diziam "Este é o Cristo". Mas outros ainda diziam: "Da Galileia não vem o Cristo, pois não? Não diz a Escritura que o Cristo vem da semente de Davi e de Belém, a aldeia de onde era Davi?" (João 7:41-42)

Portanto, em termos históricos, fica sem sentido a narrativa do extermínio dos meninos (Massacre dos Inocentes) nascidos em Belém por ordem do rei Herodes, a fim de impedir que Jesus (anunciado como rei dos judeus) vivesse, como também a fuga de sua família para o Egito. Não há nenhuma evidência histórica, fora o Evangelho de Mateus, de que Herodes tenha ordenado tal matança, muito embora tivesse a fama de sanguinário (teria eliminado três de seus filhos envolvidos na luta pela sucessão do trono). O relato de Mateus seria uma adequação de Jesus com a figura de outro enviado de Deus, Moisés, cuja sobrevivência ao nascimento teria ocorrido em circunstâncias semelhantes (ver a nossa postagem "Moisés, Ramsés II e o Êxodo").



Outro episódio ainda associado ao nascimento de Jesus refere-se aos magos, os quais não são referidos como "reis" no Evangelho de Mateus (o único a menciona-los) e muito menos tinham nomes próprios, tradição que se formou séculos depois por influência dos Evangelhos apócrifos (na foto acima, lamparina de azeite utilizada ao tempo de Jesus). Nem mesmo temos certeza de que fossem três magos, algo que foi deduzido pelo fato de terem levado três presentes ao recém-nascido (ouro, incenso e mirra). O termo "mago", tinha o significado de sábio ou mesmo astrólogo na antiga tradição persa e a inclusão dos mesmos no evangelho de Mateus servia para referendar a vinda de Jesus na condição de enviado de Deus. Da mesma forma, a descrição mais detalhada do local de nascimento com a manjedoura e a adoração dos pastores é encontrada apenas no Evangelho de Lucas, o qual ficou conhecido como "o evangelista do Presépio".





Embora não tenhamos praticamente nenhuma informação a respeito da infância de Jesus, a mesma deve ter sido semelhante à de muitas crianças que viviam na Galileia. A aldeia de Nazaré devia comportar algo em torno de 100 famílias no início do século I e não era sequer conhecida nos documentos da época. As escavações arqueológicas (nas fotos acima, a atual Nazaré e escavações efetuadas na parte central da cidade) não encontraram nenhum vestígio de sinagoga (templo judaico), de fortificação, de um banho público ou de rua pavimentada que fosse da época de Jesus.  A casa em que viveu devia ser igual a de um camponês pobre, com chão de terra batida, teto com estrutura de madeira coberto com palha e paredes de pedra. Os moradores poderiam contar com um pátio e um pedaço de terra para cultivo. Cada nazareno era um agricultor e também criava os seus próprios animais, sendo o estrume recolhido para fertilizar a terra. A aldeia tendia para a autossuficiência. 





A alimentação básica era constituída de pão, azeitona (e o seu derivado, o azeite) e vinho (nas fotos acima, forno para assar o pão e moenda para produção de azeite, ainda hoje presentes na região). Eventualmente as famílias podiam contar com lentilhas refogadas, nozes, frutas, queijo e iogurte. A carne bovina era rara, sendo o peixe mais comum em função da proximidade com o mar da Galileia (na verdade um lago). Os esqueletos encontrados de antigos habitantes da região mostram deficiência de ferro e proteínas, com sinais de artrite. A mortalidade infantil era alta e a expectativa de vida alcançava apenas os 30 anos (idade aproximada de Jesus quando foi crucificado). Em toda a antiga Palestina, apenas nas classes privilegiadas os indivíduos podiam alcançar os 50 ou 60 anos. 



Além da vida árdua no trabalho rural, os camponeses podiam ser requisitados para obras governamentais, como na cidade de Séforis localizada a apenas 6 quilômetros de Nazaré (ver mapa mais acima), onde Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande) erguia edifícios no estilo greco-romano (na foto acima, ruínas de Séforis). É possível que Jesus e seu pai tenham colaborado nessas obras. Além do trabalho pesado, os moradores da Galileia ainda contribuíam com tributos para Herodes Antipas e também para Roma. 
A trajetória de Jesus, até o momento em que se encontra com outro pregador (entre os vários que existiam na época) chamado João Batista, se constitui em um grande mistério. Jesus era alfabetizado? Teve algum tipo de formação religiosa junto aos rabinos ou mestres das sinagogas judaicas? Teria sido ele um discípulo de João Batista e que depois resolveu seguir o seu próprio caminho? Quais os demais grupos religiosos e políticos que existiam na Palestina ao tempo de Jesus? Todas essas questões iremos discutir na segunda parte desta postagem...
Para saber mais:


Como leitura a respeito do Jesus histórico recomendamos o trabalho "Jesus Histórico: Uma Brevíssima Introdução" da Kline Editora, escrito por dois dos maiores especialistas no assunto aqui no Brasil, os historiadores André Chevitarese (da UFRJ) e Pedro Paulo Funari (da Unicamp). Nesse livro temos um levantamento dos principais estudos feitos até o momento, das fontes utilizadas para a pesquisa e do que se sabe em termos concretos sobre essa figura ímpar da história. Além disso, o livro traz uma ótima bibliografia para aqueles que desejarem se aprofundar no tema. 
As citações da Bíblia foram tiradas de: Bíblia. Novo Testamento. Os quatro evangelhos. Traduzido do grego por Frederico Lourenço. Companhia das Letras, 2017.
Crédito das Imagens:
Jesus representado como pastor e Maria com o menino Jesus: História da Arte, Salvat Editores, 1978, volume 3, páginas 2 e 5 respectivamente. 
Foto do papiro com o Evangelho de Lucas, das cavernas de Qunram e do manuscrito de Isaías: Testamento: os textos sagrados através da história de John Romer. editora Melhoramentos, 1991.
Mapa da Palestina no século I: Zelota: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré de Reza Aslan. Zahar Editores, 2013, página 9. 
Cabeça de Pompeu e do aqueduto de Cesareia: História das Civilizações, volume I. Abril Cultural, 1975, páginas 208 e 239. 
Foto do templo de Jerusalém:
http://prophecyreviewtoday.blogspot.com/2013/09/the-temple-of-doom.html
Moeda de ouro com o rosto do imperador Augusto: Roma Imperial en el Museo Nacional de Bellas Artes. Buenos Aires, MNBA, página 43. 
Nome de Jesus em hebraico: Jesus de David Flusser. Editora Perspectiva, 2010, página 1. 
Escavações em Nazaré:
http://blogdonata.blogspot.com/2011/01/primeira-casa-da-epoca-de-jesus-e.html
Hipódromo de Cesareia:
http://geografianovest.blogspot.com/2009/02/herodes-o-tumulo-do-rei-reflete-sua.html
Fotos do fragmento do Evangelho de João, da biblioteca de Nag Hammadi encontrada em 1945, da fortaleza de Herodes (Herodion) e do mar Morto feita por satélite: A Bíblia (volume I). Coleção Grandes Impérios e Civilizações. Edições del Prado, 1996, páginas 20, 62 e 102 respectivamente.
Ossuário de Herodes, o Grande:
http://espanol.cntv.cn/program/Noticiario/20130219/102025.shtml
Fotos da moderna Nazaré, do pastor na Palestina atual, da lamparina de azeite, do forno de pão e do moedor de azeite: A Bíblia (volume II). Coleção Grandes Impérios e Civilizações. Edições del Prado, 1996, páginas 137, 143 e 144. 
Ruínas de Séforis:
https://crossexamined.org/tale-two-kings-part-2-king-jesus/

domingo, 17 de junho de 2018

Revista Leituras da História nas bancas (edição de junho)



Caro leitor, já está nas bancas e grandes livrarias de todo o país a edição 114 da revista Leituras da História com uma matéria assinada por nós sobre a Tábua Peutinger, o mapa-múndi do Império Romano, que foi copiado no século XIII sob a forma de pergaminho e que por isso chegou até os dias de hoje. Trata-se de um documento incomparável pois nos transmite a percepção que o mundo antigo tinha dos territórios e continentes até então conhecidos, como também a orientação dada aos viajantes por meio das estradas, cidades e pontos de parada para descanso. 
Além dessa matéria, a revista ainda traz uma interessante entrevista com a historiadora Daniela Levy que nos conta a respeito dos judeus que deixaram a cidade de Recife, em Pernambuco, ao final da ocupação holandesa em 1654 e se transferiram para Nova Amsterdã. Para os que não sabem, Nova Amsterdã era o antigo nome da cidade de Nova Iorque antes de passar para o controle inglês em 1661. Sim, esses judeus deram uma grande contribuição para a formação e desenvolvimento daquela que hoje é a mais conhecida cidade dos Estados Unidos. Um tema da história pouco conhecido e bastante revelador. 
Esses e outros assuntos estão nessa mesma edição, como a relação entre as Copas do Mundo de futebol e a política em matéria de Bruno Bora, sobretudo em tempos de ditadura e um ótimo artigo do historiador Aristides Leo Pardo sobre a sambista Dona Ivone Lara, recentemente falecida. 


O blog História Mundi recomenda a revista e a sua leitura...

domingo, 10 de junho de 2018

Anúncio Antigo 56: Recreio, a revista brinquedo



O Anúncio Antigo de hoje apela para os leitores que tiveram a sua infância entre as décadas de 1960 e 1970, os quais com certeza irão se lembrar da revista Recreio, conhecida como a "revista brinquedo". O título fazia jus ao conteúdo da mesma. De fato, era uma publicação precursora daquilo que hoje chamamos de interatividade, numa época em que não existia celular, internet e a televisão ainda era em preto e branco. Jogos, desenhos para serem montados, imagens que podiam ser recortadas, maquetes de papel para serem construídas e que requeriam dois materiais básicos: tesoura e cola. Tratava-se também de uma proposta pedagógica para ajudar a desenvolver habilidades manuais e o raciocínio nas crianças até a pré-adolescência. 


A publicação foi lançada em 1969 pela editora Abril (na imagem acima, o primeiro exemplar) e permaneceu sendo publicada durante onze anos. No ano 2000 voltou com outra formatação e atualmente está mais adaptada à nova era digital e há quem diga, ficou mais apegada aos hábitos de consumo supérfluos das crianças de hoje. 


Portanto, a referência que aqui estamos tomando compreende a sua primeira fase, entre 1969 e 1981. Além de entreter a garotada, a revista ainda proporcionou contato com autores infanto-juvenis, entre eles Ruth Rocha, Sônia Robatto, Ana Maria Machado, Izomar Camargo Guilherme, Edith Machado e uma grande equipe de ilustradores, que tornaram a publicação agradável do ponto de vista visual e com conteúdo voltado para o seu público específico (acima, outro anúncio da revista Recreio, do início da década de 1970, com uma maquete para montar). 


Como os pedagogos e educadores gostam de lembrar: uma criança deve viver o seu tempo de criança (acima, um presépio montado a partir da revista, de 1974). Aliás, tal raciocínio segue o que está escrito no próprio Anúncio Antigo de hoje, "criança que brinca é uma criança feliz". Ao brincar também se aprende, interações sociais são desenvolvidas e o contato com outras crianças estimula o conhecimento da sociedade no qual o jovem irá se inserir. Além disso, ajuda a evitar preconceitos e barreiras em relação ao próximo. Outro dado que está estampado nesse mesmo Anúncio Antigo, a participação dos pais, um dos grandes dramas da educação contemporânea. 
O Anúncio Antigo que abre esta postagem foi publicado na revista Veja, de 10 de dezembro de 1969, página 82. 
Crédito das imagens:
Capa da edição nº 1 da revista Recreio: Pinterest.
Demais imagens: http://gibilandiadoenrique.blogspot.com/2015/12/

segunda-feira, 4 de junho de 2018

"Coleção Tudo é História" disponível no blog História Mundi



Caro leitor, no início da década de 1980 a Editora Brasiliense, que já teve entre os seus proprietários o escritor Monteiro Lobato e o historiador Caio Prado Jr., lançou uma coleção de livros intitulada "Tudo é História" (na imagem acima, o logo da coleção). A ideia do editor Caio Graco (filho de um dos fundadores) era o de divulgar o que havia de mais novo em termos de pesquisas na área de história e estimular os jovens historiadores que realizavam os seus trabalhos de mestrado e doutorado. Na verdade, a coleção de pequenos livros já vinha no rastro de outra coletânea intitulada "O Que é", títulos escritos por especialistas, que pretendiam introduzir o leitor em temas até então restritos à área universitária ou àqueles estudiosos mais especializados. Com preço acessível, as duas coleções fizeram enorme sucesso entre os estudantes, como este que vos escreve. 



O material da "Coleção Tudo é História" mostrava-se ideal para a preparação de aulas na referida disciplina e mesmo nas demais dentro do currículo de humanidades (acima, dois títulos da grande coleção). Além disso, os livros ajudavam também como leituras paralelas para os alunos (cumprindo a função de material paradidático). 



Vários historiadores, hoje nomes de referência na disciplina, ficaram conhecidos do grande público por meio da "Coleção Tudo é História" (acima, mais dois títulos disponíveis na coleção). Entre eles podemos citar Laura de Mello e Souza, Maria Yedda Linhares, Maria Luiza Corassin, Francisco Doratioto, Sandra Jatahy Pesavento, José Augusto Drummond, Daniel Aarão Reis Filho, Pedro Puntoni, Hilário Franco Jr., Renato Janine Ribeiro, Vera Lucia Amaral Ferlini, Maria Victoria de Mesquita Benevides, Emir Sader, Maria Lígia Prado, Maria Helena Capelato com trabalhos de pesquisa, muitos dos quais se encontravam ainda em processo de elaboração para dissertações e teses na academia. Autores já consagrados também tiveram a chance de ampliar a divulgação de seus textos, entre eles, Clovis Rossi (jornalista), o já citado Caio Prado Jr., Anita Novinsky, Maria de Lourdes Mônaco Janotti, José Jobson de Andrade Arruda, Francisco Iglésias e Ciro Flamarion Cardoso. Enfim, a coleção tornou-se referência até hoje nos estudos históricos.
Agora, o blog História Mundi traz a oportunidade para o leitor acessar, em sua própria casa, uma boa parte (não todos) dos títulos dessa excelente coleção, pois estamos disponibilizando a mesma em nossos links interessantes (ver a coluna do lado direito da nossa página). Para entrar é só seguir o endereço abaixo: 
https://drive.google.com/drive/folders/0B_xg4Qsh7lhEY0M5WjVpOE45TXc
Crédito das imagens:
Acervo do autor. 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Anúncio Antigo 55: Seleção Brasileira e as feras do Saldanha



Veja o caro leitor que a Copa do Mundo de 1970 já mobilizava a torcida praticamente um ano antes, em setembro de 1969! Quase 90 milhões de "feras" (população estimada do Brasil naquela época). Bem diferente do que vemos hoje, com o público um tanto quanto indiferente à própria convocação final e mesmo na viagem dos jogadores para a Rússia. Eram outros tempos e o futebol gozava de gigantesca popularidade no sentido literal do termo, pois atraia as camadas sociais de renda baixa (e as demais também), que frequentavam os estádios de futebol e prestigiavam os seus times. A Ditadura Civil-Militar que comandava o país naquele momento percebeu isso e tratou de capitalizar politicamente a gigantesca simpatia popular pelo chamado "esporte bretão" (pois foi inventado pelos ingleses). O Anúncio Antigo acima mostra o início dessa mobilização em torno da Seleção Brasileira e como as grandes empresas também começavam a expor as suas marcas ao lado da mesma. 


Nesse material publicitário vemos uma referência ao técnico que classificou o Brasil nas eliminatórias para o mundial de futebol: João Saldanha (1917-1990). O seu time base ficou conhecido como "as feras do Saldanha" (na foto acima, João Saldanha como técnico da Seleção em 1969). Eram feras ou será que alguém ainda discorda? Vejamos: Felix, Carlos Alberto Torres, Djalma Dias, Joel, Rildo, Piazza, Gerson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. Com poucas alterações, foi o time da seleção tricampeã daquela Copa do Mundo que foi disputada no México. Grande parte desses jogadores vieram dos clubes do Santos, Botafogo e Cruzeiro, ou seja, os mesmos atuavam aqui, nenhum era do exterior, ao contrário do que ocorre hoje. 
Contudo, havia algo incomum nesse conjunto: o próprio técnico! Aqueles eram os anos em que os militares (apoiados por muitos civis) governavam o país de forma ditatorial e cuja palavra de ordem era o combate ao comunismo. Eram os "anos de chumbo" sob o comando do General Emílio Garrastazu Médici que governou entre 1969 e 1974. Médici fora o escolhido dentro dos quartéis para ocupar a presidência em 1969. Uma situação estranha! Como ter um técnico da Seleção Brasileira que era comunista e integrante de um partido proscrito (ilegal), o Partido Comunista Brasileiro (PCB)? A trajetória de João Saldanha era a de um homem absolutamente íntegro e de ótima formação. 
João Alves Jobim Saldanha nasceu no Rio Grande do Sul em 1917 e mais tarde mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde seu pai adquiriu um cartório. Na juventude chegou a ser jogador de futebol (no Botafogo, time em que atuou depois como técnico), mas deixou o esporte para estudar e se formar em Direito. Depois ainda estudou jornalismo, área em que veio a trabalhar como cronista esportivo. Nessa época já atuava politicamente no "Partidão" (como era chamado o Partido Comunista Brasileiro entre os seus simpatizantes). Saldanha tornou-se conhecido nos jornais, depois no rádio e finalmente na televisão, trabalhando em veículos como Última Hora, Jornal do Brasil e O Globo. Tido como um cronista sincero, que dizia o que pensava, angariou muitos inimigos e ainda um apelido dado pelo escritor Nelson Rodrigues, o de "João Sem-Medo". Em 1957 o time carioca do Botafogo, numa decisão inédita, ofereceu-lhe o cargo de técnico, mesmo sabendo que Saldanha nunca havia tido experiência prática na atividade. Naquele mesmo ano foi campeão do estadual numa partida empolgante, que terminou em goleada de 6 x 2 contra o Fluminense (onde jogava um certo Telê Santana). 


Alguns anos depois, em fevereiro de 1969 João Saldanha foi chamado pelo então presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, antecessora da atual CBF) João Havelange, para comandar a desacreditada Seleção Brasileira. Desacreditada depois do fracasso na campanha de 1966 na Copa da Inglaterra, quando foi eliminada ainda na fase inicial (mesmo tendo Pelé e Garrincha). A tarefa era reabilitar o símbolo maior de nosso futebol e Saldanha conseguiu (na foto acima, Saldanha nos treinos da Seleção). Uma ótima campanha nas eliminatórias deu ao Brasil o passaporte para a próxima Copa do Mundo. 


Apesar disso, Saldanha era alvo de duras críticas por parte da imprensa e do então treinador do Flamengo Dorival Knipel, popularmente chamado de "Yustrich" (apelido que recebeu em função de sua semelhança física com um jogador do Boca Juniors que tinha esse nome), pelo fato de não levar muito em consideração a preparação física dos atletas. Yustrich (na foto acima de 1970) era conhecido pelo seu estilo rígido (quase militar) em relação aos jogadores, não admitindo atletas que tivessem cabelos compridos, barbas e que fumassem. Em uma declaração feita ao jornal alternativo "O Pasquim" afirmou: "Dou graças a Deus de não comandar jogadores homossexuais". 
Irritado com a campanha capitaneada por Yustrich e alegando que este ambicionava o seu cargo na seleção (o que era verdadeiro), Saldanha invadiu a sede do Flamengo armado de revólver, para tirar satisfações com o seu desafeto, o qual, para a sua própria sorte, não se encontrava no local. 


Muitos afirmam que esse episódio e um possível desentendimento com o mandatário maior do país, o presidente e ditador Emílio Médici (na foto acima, ainda com o uniforme de general), contribuíram para a destituição de João Saldanha do cargo de treinador, poucos meses antes da Copa do Mundo. Afirma-se que Saldanha não convocou o jogador Dário (o conhecido "Dadá Maravilha") do clube Atlético Mineiro, o qual teria sido recomendado pelo presidente (e por acaso, era um dos favoritos de Yustrich também). Saldanha ainda teria dito que da mesma forma que ele não nomeava ministros não admitia que o presidente escalasse os seus jogadores. Pronto! Estava terminada a passagem de Saldanha como técnico da Seleção. Na verdade, a Seleção Brasileira já passava por uma espécie de "intervenção militar" na sua Comissão Técnica, com a presença de preparadores físicos que vieram da Escola de Educação Física do Exército, entres eles Carlos Alberto Parreira e Claudio Coutinho. Bem, as feras ficaram, Mario Jorge Lobo Zagallo assumiu e o Brasil tornou-se campeão do mundo na Copa de 1970 com o mesmo time base. Polêmicas à parte, de fato seria estranho, na perspectiva dos mandatários do país naquele momento, que o Brasil pudesse ter se tornado tricampeão de futebol com um técnico reconhecidamente comunista. 
João Saldanha acabou indo ao México, mas como comentarista da Rede Globo, acompanhando o narrador Geraldo José de Almeida (uma espécie de Galvão Bueno da época). Um comunista na Rede Globo? Como mais tarde o humorista Chico Anysio declarou em uma entrevista, que quando Roberto Marinho foi questionado a respeito de ter em sua empresa militantes do Partidão, teria respondido: "Dos meus comunistas cuido eu!"
O amor de João Saldanha pelo futebol seguiu-o até o seu último suspiro. Morreu em 1990 em Roma, com graves problemas pulmonares (era um tabagista contumaz) quando cobria a Copa do Mundo da Itália pela extinta Rede Manchete. Nesse mesmo ano morreu também o seu desafeto maior, o técnico Yustrich, completamente esquecido.


O Anúncio Antigo de hoje, que traz a famosa "bicicleta" de Pelé estilizada (feita em um amistoso da Seleção no Maracanã, em 1965, foto acima) foi publicado na Revista Veja do dia 24 de setembro de 1969, na página 7. 
Crédito das imagens: 
Fotos de João Saldanha na seleção: Revista Veja, edições de 3.12.1969, página 3 e de 27.08.1969, página 43. 
Foto de Yustrich em 1970:
https://flamengoalternativo.wordpress.com/tag/yustrich/
Foto do General Médici: capa da Revista Veja de 01.10.1969. 
"Bicicleta" de Pelé: Pinterest.