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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Imagens Históricas 10: Barão de Mauá



Irineu Evangelista de Souza, Barão e depois Visconde de Mauá (foto acima). O maior empresário do Império Brasileiro tornou-se exemplo de empreendedorismo na segunda metade do século XIX. Era o momento em que o país abolia o tráfico de escravos e aplicava a Tarifa Alves Branco (1844) deixando as mercadorias importadas mais caras. Tais medidas tiveram impactos na economia nacional, liberando recursos financeiros que passaram a ser aplicados na agricultura, em bancos e depois em ferrovias. Tratava-se de um momento favorável para aqueles que quisessem diversificar um pouco os seus investimentos, embora a agricultura, principalmente o café, fosse a atividade fundamental e a elite da sociedade brasileira marcada por um forte perfil aristocrático e avessa às outras iniciativas. 
Foi nesse momento que ganhou notoriedade a figura do futuro Barão de Mauá. No Império Brasileiro os títulos de nobreza eram conferidos pelo imperador a apadrinhados ou figuras que tivessem algum destaque no cenário nacional. Mauá colocava-se neste último caso. Afinal de contas, em 30.04.1854, a nobreza imperial, os ministros e o próprio imperador D. Pedro II estavam no porto de Estrela, na Baía de Guanabara, para a inauguração da primeira ferrovia brasileira que ia até o pé da serra em direção a Petrópolis. A estrada de ferro foi produto da iniciativa de Irineu Evangelista, que a partir daquele momento tornava-se o Barão de Mauá (Mauá era o antigo nome do porto de Estrela). 


Irineu Evangelista nasceu em uma região de fronteira, no Rio Grande do Sul com o Uruguai, em 1813. Após a morte do pai (assassinado em um litígio envolvendo gado), Irineu foi enviado para o Rio de Janeiro onde trabalhou durante muitos anos para um comerciante português, Antonio Pereira de Almeida. Entre outros negócios, esse comerciante traficava escravos. Irineu começou a trabalhar com apenas nove anos e aprendeu o ofício de caixeiro e contador. Tido como habilidoso, continuou na empresa quando esta foi vendida para um escocês, Richard Carruthers (foto acima), que atuava no Brasil com apoio do Governo Britânico (sob a proteção das leis britânicas, mesmo estando em território brasileiro). Com Carruthers, Irineu foi introduzido nos domínios da Economia Política e no pensamento liberal de Adam Smith, bem como na Maçonaria, organização que tinha uma enorme influência na sociedade daquela época. 


Em 1840 Irineu Evangelista visitou a Inglaterra e ao retornar casou-se com Maria Joaquina de Souza Machado (sua sobrinha que tinha apenas 16 anos, vista na imagem acima). O casal teve 18 filhos, dos quais 11 nasceram com vida. Acumulando uma pequena fortuna na empresa de Carruthers e em sociedade com o mesmo, Irineu adquiriu a antiga fundição da Ponta de Areia, em Niterói, transformada depois em um grande estaleiro. Há informações de que Irineu Evangelista tenha se envolvido na Revolta Farroupilha (1835-1845) contra o Império, ajudando alguns de seus líderes a escaparem da prisão no Rio de Janeiro (sua família no Sul participou do movimento). Tal atuação talvez tenha contribuído para que surgissem algumas restrições à sua imagem junto ao Governo Imperial.
Com a fundição de ferro de Ponta de Areia, Irineu pode adquirir a concessão governamental para o fornecimento de tubos que serviram para a canalização do rio Maracanã na cidade do Rio de Janeiro. Com o estaleiro, Irineu começava  a prosperar e em 11 anos, 72 navios sairam de lá, inclusive os barcos que participaram dos conflitos no rio da Prata envolvendo Brasil, Uruguai e Argentina. Outra concessão governamental deu a Irineu o direito de explorar a navegação comercial a vapor no rio Amazonas. Da fundição de Ponta da Areia vieram também os canos para a iluminação a gás na cidade do Rio de Janeiro. Aliás, a companhia de gás de Mauá, instalada em uma área de mangue, acabou vitimando vários de seus funcionários que foram atingidos pela febre amarela (a área de manguezal era um criadouro natural para o mosquito transmissor), inclusive dez engenheiros e técnicos ingleses. 


Em 1854 veio a já citada inauguração do primeiro trecho da ferrovia Rio-Petrópolis e o título pelo qual ficou conhecido, Barão. A locomotiva (foto acima), chamada de "Baronesa" em homenagem à esposa de Mauá, percorreu 15 quilômetros de trilhos em 23 minutos. Era a terceira ferrovia da América do Sul. Contudo, tornou-se deficitária por não atravessar a região serrana, o que só foi conseguido em 1882, quando a ferrovia já não pertencia mais a Mauá. 
A construção da ferrovia Santos-Jundiaí também contou com a participação do Barão de Mauá, que reuniu capitais de vários investidores, inclusive na Inglaterra. Apesar dos prejuízos pessoais que teve, a ferrovia saiu e foi inaugurada em 1867. Tornou-se a "São Paulo Railway" dos ingleses. Para esse empreendimento, Mauá empenhou recursos próprios para financiar empreiteiros, o que resultou em uma dívida destes para com Mauá de quase meio milhão de libras. A demanda se arrastou por anos na justiça e foi um dos fatores que levaram o empresário à falência. 
No auge de sua atividade empresarial, em 1860, o Barão de Mauá tinha o controle de 17 empresas localizadas em seis países. Em 1867, seus ativos foram estimados em 155 mil contos de réis ou o equivalente a 155 milhões de libras esterlinas. Para se ter uma ideia, o orçamento do Império Brasileiro nessa mesma época era de 97 mil contos de réis ou 97 milhões de libras.
Em 1872, Mauá ainda realizou outro importante empreendimento, o cabo telegráfico submarino ligando o Brasil com a Europa e o imperador enviou mensagens ao papa e à rainha da Inglaterra. Com esse feito, veio o título de Visconde de Mauá. 


Mauá apoiou financeiramente e também por meio dos barcos construidos em seu estaleiro de Ponta da Areia, a intervenção militar do Império Brasileiro no Uruguai e na Argentina em 1852, para deter a política de Manoel Rosas, presidente argentino, de controlar o rio da Prata. Com a vitória do Brasil, Mauá tornou-se credor do Uruguai e fortaleceu sua presença lá por meio do Banco Mauá, que emitia títulos (imagem acima) que funcionavam como papel-moeda. Mauá acabou comprando uma enorme fazenda de gado e participando de negócios naquele país. Contudo, sofreu em meio às disputas políticas entre o Partido Blanco e o Partido Colorado pelo controle do poder em Montevidéu nos anos seguintes. 
Como financista, Mauá soube tirar proveito das flutuações cambiais. Em 1857 conseguiu vantagens diante da desvalorização da libra esterlina em relação ao mil-réis. Nessa altura, já tinha participado da criação do segundo Banco do Brasil. O sucesso de Mauá no mercado financeiro como especulador atraiu investidores ingleses, pois oferecia juros mais altos para aqueles que investissem no Brasil. 
Seus negócios se expandiam à medida em que o crédito se contraia. Da mesma forma que a situação criada pelo fim do tráfico e pelas tarifas protecionistas de 1844 favoreceram os negócios de Mauá, as novas circunstâncias surgidas em 1860 acabaram por prejudicar os seus novos empreendimentos. A reforma Silva Ferraz que reduziu as tarifas sobre importações contribuiu para reduzir o custo de vida, mas carreou muitos recursos que eram originários do café para o exterior. Ao mesmo tempo, facilitou a entrada de equipamentos e matérias-primas importados, prejudicando o estaleiro e a fundição de Ponta da Areia, que faliu (além disso, as instalações foram destruídas por um incêndio suspeito em 1857). 
Não existia naquele momento, por parte do Governo Imperial, uma visão voltada para o desenvolvimento da indústria, pois aceitava-se a ideia de que a agricultura e o café garantiriam ao país a prosperidade. Para conseguir recursos, Mauá acabou por vender os seus negócios aos ingleses, como aconteceu com a Cia. de Iluminação a Gás, a empresa de navegação no rio Amazonas e a participação nas ferrovias. Mauá terminou seus dias falido, o que não significa que estivesse pobre, muito pelo contrário. Saldou todos os seus compromissos e ainda conseguiu levantar-se financeiramente como corretor de café. Irineu Evangelista de Souza faleceu em 1889, poucos dias antes da Proclamação da República, aos 76 anos. 
Em 1995, o jornalista Jorge Caldeira lançou o livro "Mauá: Empresário do Império" onde foram descritas as dificuldades do empresário com o Governo D. Pedro II e alguns de seus integrantes.  O livro passa a ideia de que o Governo Imperial não era simpático às iniciativas do empresário e tolhia a livre iniciativa no Brasil. De fato, as posições liberais de Mauá, contrário à escravidão e à Guerra do Paraguai, prejudicaram suas relações com alguns membros do poder monárquico. 
Por outro lado, suas relações externas fizeram de Mauá um representante dos interesses ingleses aqui no Brasil, em função de ter se associado com os mesmos em vários de seus empreendimentos, como a Companhia de Navegação no Rio Amazonas, a Estrada de Ferro São Paulo Railway (Santos-Jundiaí), o Banco Mauá, entre outros. Seus negócios  acabaram por abrir as portas ao capital inglês que naquela época se espalhava pelo mundo por meio do setor de serviços, infraestrutura, companhias de navegação e ferrovias.
A visão maniqueísta que coloca a simples oposição entre a livre iniciativa e o Estado Brasileiro foi muito influenciada pela ideologia neoliberal da década de 1990, quando o livro de Caldeira foi escrito. Muitos dos empreendimentos de Mauá, como a sua entrada no Uruguai e as concessões no setor de transportes, foram realizados com apoio do Governo Imperial. 
Talvez um estudo mais completo sobre o Barão de Mauá ainda esteja para ser feito, inclusive com fontes documentais a serem pesquisadas na Inglaterra. 
A Imagem Histórica de hoje (foto de Mauá mais acima) é de autoria de Joaquim Insley Pacheco e pertence ao Museu Histórico Nacional. Não há indicação da data em que a mesma foi tirada, suspeitando-se que seja por volta de 1870, quando Mauá se aproximava dos 60 anos. 


Para saber mais:
Caldeira, Jorge. Mauá: Empresário do Império. Companhia das Letras, 1995.
Imagens: fotos do empresário Richard Carruthers, da Baronesa de Mauá, da locomotiva "Baronesa" e do título emitido pelo Banco Mauá foram retiradas da Coleção Grandes Personagens da Nossa História, Editora Abril, 1969.


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