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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os Ossos do Imperador: A Exumação de D. Pedro I




O que irá mudar na nossa história a partir da exumação (tirar da sepultura ou desenterrar) dos restos mortais de nosso primeiro imperador D. Pedro I e das imperatrizes Dona Leopoldina (na imagem acima, os crânios de Dona Leopoldina e Pedro I, à esquerda e à direita, respectivamente) e Dona Amélia? Muitas questões podem ser esclarecidas, dirão alguns, mas nada que altere em profundidade os rumos históricos da independência do Brasil e do Primeiro Reinado, dirão outros, entre os quais se inclui este historiador blogueiro. 
Período absolutamente conturbado de nossa história, o quase decênio que vai de 1822 a 1831 foi marcado pela formação do Estado Nacional Brasileiro e de suas mais importantes instituições, entre as quais o nosso Parlamento. As ameaças de desagregação territorial, que tiveram o seu pior momento no Período Regencial (que se seguiu à renúncia do imperador em 1831), mostraram as dificuldades que a jovem nação enfrentava nos seus primeiros anos após a independência. Isto sem lembrarmos que, mesmo após o rompimento com Portugal, celebrado em 07.09.1822, o Brasil continuava sendo governado por um português, tendo herdado da terra lusitana o regime monárquico e se transformando na única monarquia das Américas no século XIX (após curtas experiências no México e no Haiti). 




Por outro lado, a permanência de D. Pedro (na imagem acima, em uma gravura de 1831 feita em Portugal) no Brasil, aliando-se aos líderes políticos locais, garantiu um processo de independência menos traumático do que em outras regiões da América Hispânica. A manutenção da escravidão foi assegurada, algo que não contrariava a elite da época e que preservava os privilégios sociais e econômicos herdados da fase colonial. 



Contudo, sob o aspecto da vida privada dos personagens envolvidos existem alguns pontos que podem ser melhor esclarecidos a partir da analise detalhada de seus restos mortais. Primeiramente, vamos a alguns detalhes do processo de exumação. O trabalho surgiu como proposta de tese de mestrado da historiadora e arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel (na imagem acima, com o crânio de D. Pedro), que desde a sua infância no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo, tem mostrado um profundo interesse pelo estudo da família imperial. A sua dissertação foi defendida no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. A pesquisadora obteve as devidas autorizações para o trabalho, inclusive dos herdeiros da família real brasileira e o apoio de toda a estrutura do Hospital das Clínicas de São Paulo (também pertencente à USP). Para entender melhor o objetivo da pesquisadora ao realizar esse estudo só mesmo lendo a sua dissertação, que deverá estar disponível na internet ou no banco de teses da USP (é só entrar no site da USP em nosso link e digitar o nome da historiadora).


O trabalho foi absolutamente sigiloso e realizado no decorrer do ano passado, entre os meses de março e agosto, em três oportunidades. Em cada ocasião foram examinados respectivamente, os restos do imperador D. Pedro I (na foto acima, a ossada do imperador), das imperatrizes Leopoldina e Amélia (segunda esposa de D. Pedro). Os três ilustres personagens foram fichados como pacientes do Hospital das Clínicas (pelo menos a posteridade poderá afirmar que nosso imperador chegou a ser tratado em um hospital público). D. Pedro I foi, com certeza, o paciente mais idoso a dar entrada naquele hospital: 215 anos. Os restos mortais dos três foram submetidos a uma tomografia computadorizada de altíssima resolução. Uma verdadeira "autópsia virtual" foi realizada, o que poderá depois ser feito com outros personagens históricos, abrindo a possibilidade de reconstituição do rosto e até mesmo das vozes que os personagens tinham na vida real. 
Algumas descobertas já foram reveladas. O nosso imperador era relativamente baixo para os padrões atuais, tendo entre 1,66 a 1,73 m de altura. Foram encontradas fraturas em quatro costelas resultante de duas quedas de cavalo, o que confirma o gosto do imperador por cavalgadas, fato já descrito em várias biografias. No seu caixão há poucas referências de que tenha sido imperador do Brasil, pois, como sabemos, ele morreu em 1834, com quase 36 anos, após ter garantido o trono português à sua filha, Dona Maria da Glória, sendo enterrado com roupas de general português. Uma boa notícia para os herdeiros da família imperial, a de que os ossos da imperatriz Leopoldina não apresentam sinais de fratura, o que desmente o fato da mesma ter quebrado o fêmur após uma discussão caseira com o esposo. Contudo, isso é absolutamente insuficiente para reverter a fama de  D. Pedro de péssimo marido e que maltratava a esposa, comprovada em farta documentação. As fraturas do imperador em suas costelas talvez tenham afetado o seu pulmão, agravando a tuberculose que o levou à morte. Essa constatação contribui para desmentir também as especulações de que D. Pedro I teria sido vitima de sífilis (uma doença sexualmente transmissível e que na época não tinha cura). Tais informações agradaram o representante da família imperial brasileira e tetraneto de D. Pedro I, príncipe Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittelsbach, que afirmou que a imagem de nosso imperador estava sendo difamada por "historiadores malévolos".



A exumação revelou uma pequena surpresa no que diz respeito aos restos da imperatriz Dona Amélia de Leuchtenberg, a de que seu corpo ficou mumificado (imagem acima), conservando a pele, cabelos, cílios, unhas e  orgãos intactos. Talvez o cuidado com a preparação de seu corpo para o funeral tenha sido um tanto quanto excessivo.


Dona Amélia (na foto acima, a imperatriz em trajes de luto semelhantes aos encontrados em seu caixão, que aparece na imagem abaixo) guardou luto por 42 anos pela morte do imperador, vindo a falecer em 1876. Seus restos mortais foram trazidos ao mausoléu do Ipiranga em 1982. O interesse histórico por Dona Amélia é menor, uma vez que ela chegou ao Brasil com 17 anos, quando desposou o viúvo D. Pedro e partiu aos 20 com o marido para a Europa. A documentação da época atestava a sua beleza, que teria encantado o imperador. 


A professora Isabel Lustosa, autora de uma biografia de D. Pedro I, em um artigo publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" no dia 24.02.2013 esclarece algumas questões levantadas pela exumação. Não há grandes revelações. Por exemplo, no que diz respeito ao fato do imperador ter agredido a imperatriz e provocado o surgimento de uma fratura no fêmur, nenhuma documentação havia atestado isso anteriormente. Da mesma forma, o aborto sofrido dias depois pela imperatriz não teve relação com essa suposta agressão. Contudo, na época da abdicação (renúncia) de Pedro I no início de 1831, os boatos de que este teria agredido a imperatriz em estado de gravidez ganharam força. Tal fato era associado à presença da amante do imperador, Dona Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos (ver Imagens Históricas 4, neste blog), em cerimônias públicas na Corte Imperial. Essas histórias circularam na Europa e criaram embaraços para que D. Pedro I encontrasse uma pretendente para casamento nas cortes do Velho Mundo, após a morte de Leopoldina. Nada menos do que 16 mulheres recusaram o pedido enviado por representantes do Brasil. 


Os exames realizados também não podem desmentir os dissabores sofridos por Dona Leopoldina (imagem acima) na condição de esposa do imperador. Com uma educação absolutamente refinada, adquirida na Corte dos Habsburgos da Aústria, tendo como tia a rainha Maria Antonieta (que foi executada na Revolução Francesa) e como irmã mais velha Maria Luisa (segunda esposa de Napoleão Bonaparte), Leopoldina aceitou o casamento com D. Pedro sem conhecê-lo. O matrimônio envolvia interesses de Estado, algo comum nas monarquias da época. Segundo nos informa Laurentino Gomes, em seu best-seller "1822", Leopoldina engravidou nove vezes, uma média de uma gravidez por ano, sofreu dois abortos e conseguiu dar a luz a sete filhos, entre os quais, Pedro de Alcântara, futuro imperador do Brasil, e Maria da Glória, futura rainha de Portugal. Além de suportar um marido mulherengo e adúltero, sofreu com as explosões de fúria do imperador. Sempre solidária com os pobres, sua lembrança foi perpetuada na memória popular. Nos momentos que antecederam à independência do Brasil, em setembro de 1822, apoiou o futuro imperador no rompimento com Portugal e mostrou-se interessada nos destinos do país. Mas logo vieram as desilusões conjugais, a saúde abalada (afinal, nove gestações seguidas...) e a depressão. Morreu pouco antes de completar 30 anos, em dezembro de 1826. 
Na opinião de Isabel Lustosa, embora a exumação não traga tantas novidades colabora com a abertura de novas possibilidades de pesquisa para o historiador, uma vez que esses corpos são verdadeiros documentos e que podem ser importantes para novos enfoques a respeito do cotidiano da Corte. 



A presença dos despojos de D. Pedro I no Brasil foi produto do acordo de duas ditaduras: a Militar do Brasil e a Fascista de Portugal. Em 1972 o Brasil celebrou o sesquicentenário (150 anos) da independência e a vinda dos restos de D. Pedro foi o auge das comemorações, que ainda incluíram uma Mini-Copa do Mundo de Futebol (com uma final entre Brasil e Portugal), um filme (na imagem acima, Tarcísio Meira como D. Pedro em "Independência ou Morte") e várias publicações alusivas ao evento. A Ditadura Militar no Brasil vivia o seu "melhor" momento (na visão dos militares, pois a oposição armada estava destruída). Já a Ditadura Fascista de Portugal entrava em seu crepúsculo, sendo derrubada menos de dois anos depois, em 1974, durante a Revolução dos Cravos. 
Crédito das Imagens e Informações:
Fotos e informações sobre a exumação da família imperial: jornal "O Estado de S. Paulo", edição de 19.02.2013, páginas C1, C3, C4 e C5. 
Foto de Dona Amélia em trajes de luto: imperiobrasileiro-rs.blogspot.com.br/2010/06/imperatriz-dona-amelia-do-brasil-e.html
Filme "Independência ou Morte": Coleção Nosso Século. Editora Abril, 1980, pag. 254.
Gravura de D. Pedro I de 1831 e retrato de Dona Leopoldina, de autoria de Josef Kreutzinger: "1822" de Laurentino Gomes, editora Nova Fronteira, 2010.


8 comentários:

  1. Respostas
    1. Caro leitor Joey, onde está o desrespeito? As informações contidas na postagem seguem rigorosamente as fontes históricas. Seja mais preciso em suas críticas para não ser deselegante. Utilizar termos mais adequados é bom e os meus leitores agradecem.

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    2. A matéria está 100% fundamentada em fatos históricos. Amei .Muito me acrescentou.

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. A matéria está 100% fundamentada em fatos históricos. Amei. Muito conhecimento me acrescentou.
      Obrigada.

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    5. Obrigado por sua leitura e comentário Anna. Um grande abraço.

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  2. me interesse tanto por esse assunto que estou aguardando ansiosamente a noticia da exumaçao da princesa Isabel e de Dom Pedro II. Toda a historia da familia imperial brasileira é recheada de pérolas e dissabores. Parabens pela belissima materia.Vou postar em meu instagram a unica foto de D Pedro I, que aparece nessa materia e que foi usada na capa do livro da arqueologa Valdirene do Carmo Ambiel.

    no instagram: @paulinhog76

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  3. me interesse tanto por esse assunto que estou aguardando ansiosamente a noticia da exumaçao da princesa Isabel e de Dom Pedro II. Toda a historia da familia imperial brasileira é recheada de pérolas e dissabores. Parabens pela belissima materia.Vou postar em meu instagram a unica foto de D Pedro I, que aparece nessa materia e que foi usada na capa do livro da arqueologa Valdirene do Carmo Ambiel.

    no instagram: @paulinhog76

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