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domingo, 12 de julho de 2015

O jovem Adolf Hitler




Ser um grande artista plástico! Pelo menos era esse o desejo do adolescente Adolf Hitler (1889-1945) ainda em seu país natal, que não era a Alemanha e sim a Áustria. O homem que muitos afirmaram ter sido inteligente e que poderia ter usado a sua genialidade para o bem, não pareceu ter demonstrado isso em sua juventude. Nunca foi um bom aluno na escola e nem mesmo na sua frustrada tentativa de se tornar um pintor. Em termos artísticos, Hitler (na foto acima, ainda um simpático bebê) não conseguiu evoluir para além de um simples pintor de cartões postais e pequenas aquarelas, muito embora seja errôneo afirmar que não tivesse condições de ter desenvolvido melhor a sua arte. 
Por outro lado, muitos se perguntam a respeito da origem de seu antissemitismo (aversão aos judeus). Na sua vida pessoal, nenhum israelita teria feito algo contra o jovem que o tivesse marcado negativamente, muito pelo contrário. Nem o doutor Bloch que cuidou com grande esforço de sua mãe, quando esta sofria de câncer ou a família Epstein, mantenedora de muitos albergues para pobres que Hitler utilizou em seus piores momentos, no início do século XX. Finalmente, foi um tenente judeu chamado Gutmann que propôs o nome de Hitler para ser condecorado com a Cruz de Ferro de primeira classe como soldado do Exército Alemão, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Contudo, o contexto em que Adolf Hitler cresceu e viveu a sua juventude era permeado pelo antissemitismo e pelo pangermanismo, a ideia da expansão da comunidade alemã que vivia sob o II Reich ou Segundo Império Alemão (1871-1918). Hitler passou boa parte de sua infância e adolescência em um território onde os sentimentos antissemitas eram fortes, sobretudo diante das diferenças étnicas existentes no Império Austro-Húngaro, onde viviam católicos, judeus, cristãos ortodoxos, ciganos, entre outros. 



Adolf Hitler nasceu na pequena cidade de Braunau, na Áustria, próxima à fronteira com a Alemanha, em 20 de abril de 1889, apenas quatro dias depois do nascimento de outro conhecido personagem do século XX, que iria satirizá-lo no cinema: Charlie Chaplin. O pai do futuro ditador e líder da Alemanha, Alois Hitler (na foto acima) era um funcionário público da alfandega (local onde são vistoriados os produtos que entram e saem de um país) e pode dar à família uma vida relativamente confortável. 


A mãe de Hitler, Klara Polzl (imagem acima) era prima em segundo grau de Alois. Já em seu segundo casamento, o pai de Hitler trouxe a moça para tomar conta de seus filhos enquanto a esposa esteve doente. Após a morte desta, Alois desposou Klara, a qual adotou o sobrenome Hitler e que deu ao marido seis filhos, dos quais apenas dois sobreviveram: o próprio Hitler e sua irmã Paula. 
Ao que tudo indica, pai e filho tiveram alguns desentendimentos, sendo um dos motivos o desempenho ruim de Hitler nos estudos. Alois não tolerava notas baixas e era rigoroso no aspecto disciplinar. Hitler foi reprovado duas vezes no exame de admissão (uma espécie de vestibular) na escola secundária. Por sua vez, em sua fase de adolescente, Hitler demonstrou simpatias pelo antissemitismo e pela ideia de expansão do Império Alemão.




Em casa, Hitler (na foto acima em 1899 na escola, Hitler é o que aparece mais ao alto, no centro da primeira fileira e em detalhe na foto menor) parece ter se tornado mais próximo da mãe, a qual, ao que tudo indica, era compreensiva. 
A desavença com o pai ganhou contornos mais graves quando Hitler anunciou o seu desejo de se tornar um artista plástico. Sim, Hitler adorava pintura e arquitetura. Por outro lado, a intenção de Alois era que o filho tentasse uma carreira mais tranquila no serviço público e por isso, desaprovou a escolha de Adolf. Teria dito que, enquanto fosse vivo, seu filho não seria um artista. Pois bem, em 1903 Alois faleceu e Hitler, aos 14 anos, pode pensar em tentar a sorte na carreira que escolhera. Mas, pouco tempo depois, a vida de Hitler foi abalada pela perda da mãe, vítima de cancro (câncer nos seios). 
Não havia mais razão para Hitler permanecer em uma cidade pequena. Apesar de ter se tornado órfão, surgiu a oportunidade para Adolf Hitler realizar o desejo de ser um artista. O local para isso era Viena, capital do Império Austro-Húngaro e um grande centro cultural naquele início de século XX. A Academia de Belas Artes era a escola ideal para Hitler entrar no meio artístico, ou talvez, tornar-se um arquiteto. Contudo, o jovem foi reprovado em duas oportunidades no exame de admissão. Além disso, a herança dos pais estava acabando, como também a ajuda para os órfãos, que expirou quando ele completou 21 anos.






Sem poder estudar e sem trabalho, Hitler viveu maus momentos, tendo que pintar pequenos cartões postais e aquarelas para sobreviver (nas imagens acima, desenho da cabeça de um cachorro e de uma catedral em Viena feitos por Hitler). Muitas dessas pinturas chegaram até nós e mostram uma tendência para a arte acadêmica e pelas paisagens, como também o gosto pelo desenho de casas, edifícios e igrejas. Hitler conseguia até tirar alguns trocados com a venda dessas pinturas, o que mostra que um pouco mais de persistência poderia te-lo tornado um artista razoável. Nessa época, Hitler chegou a dormir em albergues para mendigos e até, segundo as suas próprias palavras, a passar fome. Por outro lado, Hitler frequentou a Ópera de Viena e tornou-se admirador do compositor Richard Wagner pelo fato deste exaltar a tradição cultural germânica. 
Ao que parece, o ambiente antissemita da capital austríaca influenciou Adolf Hitler. Em Viena, Hitler teve contato com textos e panfletos hostis aos judeus. A comunidade judaica da capital austríaca era numerosa e se distinguia dos demais grupos étnicos pelas suas roupas e costumes tradicionais, sobretudo os judeus ortodoxos. O antissemitismo evoluiu para o plano político, com muitos parlamentares defendendo a doutrina e a tese da superioridade da raça ariana, inclusive com o surgimento do Partido Pangermânico. Nessa doutrina existiria uma inimizade natural entre os arianos e os judeus, sendo estes últimos vistos como contrários ao nacionalismo germânico.
Em 1913 aproveitando o que restou da herança do pai, Hitler deixou Viena, atravessou a fronteira com a Alemanha e se fixou em Munique, capital da Bavária (ou Baviera e também Bayern para os alemães). Dessa forma, realizava o desejo de morar em uma cidade mais identificada com a cultura germânica. Hitler também tinha aproveitado a mudança para tentar escapar do serviço militar no Império Austro-Húngaro. O plano não deu certo e ele foi obrigado a se alistar, sendo dispensado no exame médico por ser considerado inapto para a atividade militar.


De volta a Munique, Hitler voltou a vender cartões postais pintados por ele mesmo para sobreviver. Foram os momentos mais difíceis na sua vida. Alguns biógrafos, entre os quais Lothar Machtan chegaram a sugerir que Hitler teria realizado programas com homossexuais, que o teriam ajudado a sobreviver nessa época, algo difícil de ter uma comprovação mais precisa. Mas, eis que começou a Primeira Guerra Mundial em agosto de 1914. O conflito acendeu o nacionalismo germânico e Hitler alistou-se no Exército Alemão (na foto acima, Hitler exalta a mobilização para a guerra no meio da multidão em Munique). 


Durante o conflito, Hitler serviu na França e na Bélgica atuando como mensageiro e expondo-se ao perigo, por estar diante do fogo inimigo fora das trincheiras. Com uma folha de serviços considerada muito boa, Hitler foi promovido a cabo, a patente mais elevada dada a um soldado estrangeiro no Exército Alemão (na foto acima, Hitler ao lado de seus companheiros na guerra, o primeiro sentado à esquerda). 


Duas vezes condecorado com a Cruz de Ferro, sendo a última após ferimentos recebidos em combate que chegaram a tirar-lhe temporariamente a visão (na foto acima no hospital militar, Hitler é o segundo que está em pé, da direita para a esquerda). Quando recuperou a visão, Hitler viu a sua querida Alemanha derrotada na Grande Guerra.


Com o final do conflito em 1918, Hitler (na foto acima, o futuro líder da Alemanha, ainda como soldado e com capacete) já recuperado dos ferimentos, continuou no Exército e considerava que a derrota alemã diante dos aliados ingleses, franceses e norte-americanos tinha sido mais uma capitulação do que uma derrota. O país havia sido traído ao final do conflito e parte da responsabilidade cabia aos políticos civis e não ao governo imperial alemão, que havia sido derrubado em 1918. O sentimento revanchista e nacionalista já estava arraigado em Hitler e em outros veteranos de guerra. 
A permanência do cabo austríaco na atividade militar coincidia com o levante comunista na Alemanha, na passagem de 1918 para 1919, quando se temia que a Europa pudesse ser tomada por um movimento comunista internacional, gerado a partir da Revolução Russa de 1917. Contudo, o levante foi controlado com a prisão de vários líderes de esquerda, entre eles Rosa Luxemburgo, assassinada pela polícia alemã. Ao mesmo tempo, a Alemanha deixava de ser uma monarquia para se tornar república: a República de Weimar (nome da cidade onde foi aprovada a Constituição do novo regime). A república parlamentarista (com um presidente, mas tendo um primeiro-ministro como chefe de governo) durou até a ascensão de Hitler ao poder, em 1933. 
Nesse momento, Hitler exercia uma espécie de trabalho de espionagem nos agrupamentos políticos alemães, sobretudo os de esquerda. Os inimigos da Primeira Guerra, os comunistas e os judeus eram apontados pelos militares alemães como os grandes responsáveis pela situação em que a Alemanha se encontrava após o conflito. De fato, o Tratado de Versalhes assinado com os vencedores ingleses e franceses impôs condições humilhantes, como uma pesada indenização de guerra, a perda das colônias alemãs na África, de territórios da própria Alemanha na Europa (corredor polonês e os sudetos) e a limitação para a formação de forças militares, imposições que criaram um ambiente propício para o nacionalismo exaltado.


Em 1919, Hitler assistiu a algumas reuniões do pequeno Partido dos Trabalhadores Alemães na condição de observador (na verdade, espião). Contudo, ao verificar que, apesar do nome, a agremiação não era um partido de esquerda e sim de direita, Hitler aderiu ao mesmo no final de 1919. Muitos integrantes do partido comungavam das mesmas ideias que Hitler, como o nacionalismo germânico e o antissemitismo, entre eles Dietrich Eckart. Em 1920, já liberado do Exército, Hitler começou a participar de forma mais intensa do partido até se tornar o seu principal dirigente. Com a sua capacidade de oratória, Hitler (na foto acima de 1921, com o visual que o tornou famoso) logo passou a ser designado como o führer (o líder). O partido começou a reunir vários seguidores, muitos dos quais veteranos da Primeira Guerra. 


Foi nesse momento que ele sugeriu a mudança no nome da agremiação para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Na língua alemã, da abreviatura de Nacional Socialista temos o termo "Nazi", nome pelo qual o partido ficou mais conhecido. A "cruz suástica" (na imagem acima de 1924, Hitler uniformizado e com a braçadeira da suástica) associada à raça ariana e a saudação romana dada aos antigos imperadores (já utilizada pelos fascistas na Itália) foram adotadas para identificar o partido. Seguindo o modelo de Mussolini, o Partido Nazista instituiu um grupo paramilitar uniformizado: as S.A. ou tropas de assalto. Tal grupo era comandando por um nazista de primeira hora, o capitão Ernest Röhm. O grande modelo de liderança para Hitler, naquele momento, era Benito Mussolini, que se propunha a restaurar a grandeza da Itália. 


Em 1923, a Alemanha viveu uma terrível crise econômica, tendo de pagar a indenização imposta pelos aliados vencedores da Primeira Guerra. Em função disso, a emissão de papel-moeda cresceu de forma desordenada. O marco alemão sofreu uma desvalorização jamais vista na história, chegando um dólar norte-americano a ser trocado por 4 bilhões e 200 milhões de marcos alemães! Foi nesse momento que os nazistas resolveram dar uma demonstração de força e realizar uma tentativa de tomada do poder na província da Bavária e na sua principal cidade: Munique. Após se reunirem em uma cervejaria, os membros do Partido Nazista, incluindo Hitler (na foto acima, assinalado com um "x" em 1923) e o general Ludendorff, tentaram tomar o governo local, sendo duramente reprimidos pela polícia alemã. Foi o chamado putsch ou "golpe da cervejaria". Com o fracasso do movimento, Hitler foi preso e condenado a cinco anos de prisão. Mas, a pena foi reduzida para apenas oito meses em função de seu bom comportamento.


Na prisão Hitler pode receber a visita de seus companheiros do Partido Nazista, entre eles, Rudolf Hess (na foto acima, vemos Hitler, primeiro à esquerda e Rudolf Hess, segundo a partir da direita, na sala da prisão em 1924). Enquanto esteve preso, Hitler redigiu, com a ajuda de Hess, a sua autobiografia, o livro Mein Kampf ou "Minha Luta". Nessa obra, iremos encontrar aquilo que tornou o nazismo uma doutrina totalitária, de forma ainda mais extrema do que o similar italiano, o fascismo. O nacionalismo exagerado, o antissemitismo, a tese da suposta superioridade da raça ariana (que seria correspondente ao próprio povo alemão), o Estado acima do indivíduo e um ferrenho anticomunismo. A ideologia comunista de Karl Marx (aliás, um judeu) pregava a união dos trabalhadores de todos os países, portanto era internacionalista, algo que entrava em choque com o nacionalismo exacerbado proposto pelo nazismo. 


Ao sair da prisão (imagem acima) ainda no ano de 1924, Hitler pode reorganizar o Partido Nazista com o apoio de seus integrantes, entre eles Rudolf Hess, Ernest Röhm (chefe das S.A.), Herman Goering (ex-aviador na Primeira Guerra) e Joseph Goebbels, o mestre da propaganda do partido. 


Entre 1925 e 1930, Hitler moldou  seu personagem e o seu discurso para apresentar-se ao público, sempre com grande energia para eletrizar e envolver as massas. A sua postura era cuidadosamente trabalhada e ensaiada. Muitas fotos desses "ensaios" chegaram até nós (como na imagem acima, de 1925). Nesse momento, a situação econômica da Alemanha começou a melhorar, dando uma maior estabilidade para a República de Weimar. Em plena recuperação econômica, inclusive contando com a ajuda norte-americana, país com o qual a Alemanha começou a manter um comércio intenso, o ambiente não era tão favorável às pregações nazistas. 
Contudo, em 1929 veio a maior crise econômica do século XX, a partir do colapso da Bolsa de Nova Iorque. A Grande Depressão derrubou as exportações alemãs e impedia a importação das matérias-primas necessárias, gerando um desemprego em massa. Mais de seis milhões de trabalhadores alemães perderam as suas colocações. Nesse momento de crise, como destaca o historiador Eric Hobsbawm, o discurso nazista voltou a encontrar o ambiente propício para as suas pregações. O partido de Hitler cresceu no início da década de 1930 e elegeu muitos representantes no Reichstag (o Parlamento alemão). Contudo, os comunistas também ampliavam a sua participação. Em 1930 os nazistas tinham 107 representantes no Parlamento e os comunistas 77. O extremismo contagiou o ambiente político da Alemanha. O discurso nazista ganhava espaço dentro da classe média, entre os camponeses e junto aos capitalistas, que temiam o avanço dos segmentos mais à esquerda e ligados aos trabalhadores. 
Muitos grandes conglomerados industriais alemães apoiaram o nazismo, sobretudo a partir de 1932 e depois do mesmo chegar ao poder, no ano seguinte: os laboratórios da I. G. Farben (que depois da Segunda Guerra mudou de nome para Bayer), a Siemens, a Hugo Boss (que chegou a fabricar uniformes para o Exército Alemão e para a S.S.), o grupo siderúrgico Krupp (que teve participação ativa no rearmamento do Exército Alemão) e a Volkswagen (que surgiu dentro do próprio governo nazista a partir da proposta de fabricação de um carro popular, o nosso conhecido "Fusca"). Até empresas norte-americanas, como a Ford e a Kodak deram a sua colaboração com suas filiais na Alemanha. Muitas dessas indústrias utilizaram trabalho escravo de prisioneiros dos campos de concentração. Daí para chegar ao poder foi apenas mais um passo e pela via democrática parlamentar. 
Genialidade de um indivíduo ou o ambiente econômico e social propício é que favoreceu a chegada do nazismo ao poder? De qualquer forma, o que veio depois já é de pleno conhecimento da humanidade......
Para saber mais: Hitler (vários autores). Coleção História Viva. Ediouro Duetto Editorial Ltda., 2015. 
Crédito das Imagens: 
Hitler bebê, fotos do pai, da mãe, na escola, com os companheiros na Primeira Guerra e com capacete de soldado: Hitler.Coleção História Viva. Ediouro Duetto Editorial Ltda., 2015.
Desenhos feitos por Hitler: http://www.socialphy.com/posts/images-pics/4484/Paintings-and-drawings-by-Hitler.html.
Hitler no meio da multidão: O Segredo de Hitler: a vida dupla de um ditador. Autoria de Lothar Machtan. Rio de Janeiro. Editora objetiva, 2001, p. 60. 
Fotos de Hitler em 1921, com uniforme nazista, em 1923 dentro do automóvel, na prisão, saindo da prisão e ensaiando um discurso: http://jornalggn.com.br/noticia/a-vida-de-hitler-em-imagens. 



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