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terça-feira, 17 de abril de 2018

Como era e como está: o Circo Máximo de Roma



Caro leitor, o blog História Mundi inaugura uma nova seção: como era e como está. A mesma insere-se dentro da nossa proposta de estimular o interesse pela história trazendo assuntos e fatos curiosos, que ajudem a desenvolver o gosto por essa disciplina. Nesta seção iremos buscar exemplos da cultura material dos antigos povos, principalmente na arquitetura (mas não apenas) e mostrar como se encontram hoje, mesmo que tenhamos apenas vestígios daquilo que foram em épocas passadas. O primeiro exemplo que traremos aqui é o do Circo Máximo (em latim Circus Maximus), localizado na antiga cidade de Roma (na imagem acima, maquete com a reconstituição do mesmo). Originalmente era um espaço de entretenimento com uma pista para corridas em formato quase oval. A mesma media aproximadamente 621 metros de comprimento por 118 metros de largura. No seu auge podia receber uma platéia de até 150 mil espectadores, tornando-se modelo para vários outros circos construídos nas demais cidades do Império Romano. 
O complexo do Circo Máximo foi resultado da evolução de uma antiga arena, cujo uso remonta ao período em que Roma era uma cidade-estado governada por reis, entre 753 a.C. e 509 a.C. (fase da Monarquia), sendo um espaço reservado para jogos e espetáculos. Os mesmos eram promovidos por cidadãos ricos (patrícios e plebeus enriquecidos), líderes políticos e pelo Estado nos tempos posteriores, tendo por finalidade entreter a população, homenagear os deuses ou mesmo para festividades privadas. 
Com a expansão territorial de Roma na fase da República (509 a.C. a 27 a.C.) os jogos ganharam requintes de grandes espetáculos, ocupando 57 dias do ano, incluindo as famosas lutas de gladiadores. As guerras de expansão forneciam escravos, dos quais alguns eram selecionados para se apresentarem nos espetáculos. Tradicionalmente situa-se aí o objetivo do Estado romano de distrair a plebe pobre para evitar revoltas, com a política do panis et circensis ("pão e circo"). Muitos historiadores contestam hoje a efetividade dessa política, a qual pressupõe a existência de uma plebe excessivamente submissa e passiva, uma visão preconceituosa sustentada pela antiga aristocracia romana. 
De qualquer forma, no século I da nossa era (no período dos imperadores), o interesse pelos jogos fez surgirem arenas especializadas, como o famoso Coliseu voltado para os espetáculos de lutas, as caçadas de animais e também os estádios, forma de construção trazida da Grécia destinada aos jogos atléticos e desportivos, cujo exemplo mais importante em Roma foi o Estádio de Domiciano. Por isso, o Circo Máximo ficou voltado para as corridas de quadrigas (veículos puxados por quatro cavalos), embora fosse utilizado eventualmente para procissões religiosas e caçadas. Para comportar todos esses eventos nas várias arenas, os jogos passaram a ocupar 135 dias ao ano. 



O Circo Máximo estava situado em um pequeno vale entre os montes Palatino e Aventino (na maquete acima, as duas elevações respectivamente no lado esquerdo e no lado direito), numa antiga área agrícola cortada por um córrego. Os historiadores acreditam que as primeiras competições ocorriam em meio a uma paisagem rural e a única referência visível (além da pista) eram os marcos de virada ou metas, na verdade três pilares cônicos, os quais podem ter sido as primeiras estruturas permanentes do Circo. 


Na ilustração acima de 1649, vemos uma representação aproximada do Circo Máximo. A arena era constituída por uma pista de areia tendo na parte central a spina (literalmente "espinha") que separava as duas faixas, com as metas sinalizadoras da virada nas suas extremidades. Também na spina encontramos dois obeliscos, sendo o maior deles, bem ao centro, conhecido pelo nome de Obelisco Laterano (trazido do Egito no século IV e que remonta ao tempo do faraó Tutmés III). O monumento ainda se encontra em pé na cidade de Roma, próximo ao Palácio de Latrão, daí o nome Obelisco Laterano. 



Em uma das extremidades do Circo (imagem acima à esquerda) ficavam as baias de partida ou carceres, construídas no final do século IV a.C. e posteriormente ampliadas, com doze baias que comportavam um número equivalente de carruagens de competição. Desse local, os competidores saiam para a volta de apresentação e a corrida propriamente dita. 




Para que o leitor tenha uma ideia mais precisa de como eram realizadas as corridas, nas duas imagens acima temos a reprodução de um mosaico do século III da nossa era, proveniente da província da Gália (atual França) que reproduz uma competição de quadrigas. Um agitator ficava na pista para estimular os competidores (imagem inferior à direita) enquanto que um sparsor atirava água nas rodas fumegantes das quadrigas (imagem superior à esquerda). Os cavaleiros solitários que aparecem na cena eram reguladores da marcha. Na spina ainda podem ser observados os marcadores das voltas, num total de sete, onde a cada volta completada um funcionário virava um dos golfinhos (que vertia água) e tirava um ovo de uma trave (esses marcadores aparecem nas duas imagens acima). No centro da spina dois indivíduos seguravam a palma do vencedor e a coroa de louros da vitória (imagem inferior, lado esquerdo). 



Os competidores não apenas apresentavam-se conduzindo os veículos, mas também em jogos de equilíbrio, saltando de um cavalo para outro ou ainda recolhendo estandartes espalhados pela pista (no mosaico acima proveniente da Espanha, uma quadriga onde temos inclusive o nome do vencedor: Eridanus). Os mesmos chegavam a adquirir prestígio e riqueza, caso conseguissem se manter em atividade e obter vitórias, exatamente como mostrado no filme "Ben-Hur"(ver a postagem "Ben-Hur: Uma história da época de Jesus Cristo").



No alto relevo acima, temos uma reprodução de uma corrida no próprio Circo Máximo, onde podemos observar um competidor (ao centro), um menino (sparsor) que joga água nas rodas da quadriga e outro montado a cavalo ditando o ritmo da competição (ambos na direita da imagem). Um magistrado posicionado para dar o sinal de partida (na esquerda) e ao fundo a spina onde aparece um obelisco e os marcadores de voltas. 
Em várias oportunidades o Circo Máximo recebeu ampliações e reformas, como por exemplo no ano 50 a.C., quando Júlio César aumentou as arquibancadas, as quais eram separadas da pista por um fosso, que protegia o público e também drenava as águas da chuva. Evidentemente havia locais privilegiados para os espectadores acompanharem as provas (da mesma forma que nas corridas de Fórmula 1 dos tempos atuais), como a seção frontal situada na reta principal (pulvinar), que era reservada aos senadores e construída no tempo do imperador Augusto (27 a.C.- 14 d.C.). As fileiras de arquibancadas mais distantes (dois terços do total) eram ocupadas pelos plebeus (cidadãos livres). No lado externo do Circo existiam galerias onde funcionavam lojas, oficinas artesanais e até casas de prostituição.  Após o incêndio de Roma no ano 64 d. C., o imperador Nero promoveu reparos no Circo Máximo e no ano 81 d. C. foi erguido um arco em uma das extremidades do Circo (do lado oposto ao dos carceres) para a entrada dos desfiles e procissões. O conjunto adquiriu o seu formato mais conhecido durante o governo do imperador Trajano no início do século II. 
Com a ascensão do cristianismo como religião do Estado Romano os jogos foram perdendo importância e popularidade, sobretudo as lutas de gladiadores. Até o século VI consta terem sido realizadas caçadas a animais e corridas, já na fase em que a Itália foi ocupada pelos bárbaros ostrogodos, após o desaparecimento do Império Romano do Ocidente. No final desse mesmo século o Circo Máximo foi abandonado e toda a sua estrutura foi dilapidada, sobretudo para o aproveitamento das pedras como material de construção. No século XVI o local foi utilizado como mercado. 



Os níveis inferiores e a pista propriamente dita sofreram com as inundações constantes (lembremos que era uma área de baixada), o acúmulo de terra e detritos. Calcula-se que o piso original da pista esteja a mais de cinco metros de profundidade, fato que tem criado dificuldades para a realização de escavações arqueológicas (na foto acima, o local do Circo Máximo no início da década de 1970). 



Mesmo assim, restos da antigas estruturas estão sendo recuperados. Em 2016 uma parte das ruínas escavadas foi aberta ao público (como mostra a foto acima). 



Hoje a área é um parque localizado no centro da cidade de Roma (na foto acima, o antigo Circo Máximo em 1978), muito utilizado para shows e mesmo manifestações públicas, como ocorreu durante as comemorações da conquista da Copa do Mundo pela Itália em 2006. Um belo local de passeio e excelente ponto de partida para se conhecer as ruínas da Roma Imperial...
Crédito das imagens:
Todas as imagens referentes à maquete do Circo Máximo de autoria do arquiteto Italo Gismondi, que se encontra no Museu da Civilização Romana, foto do Circo no início da década de 1970 e alto relevo com cena de corrida: Roma dos Césares. Bonechi-Edizioni "Il Turismo", Firenze, Itália, 1974, páginas 81, 83, 84, 85 e contracapa. 
Mosaico da Gália com ilustração de uma corrida de quadrigas. Roma Imperial. Biblioteca de História Universal Life. Livraria José Olympio Editora, 1969, páginas 58 e 59. 
Ilustração do Circo Máximo de 1649 e foto do Circo de 1978: Wikipédia. 
Mosaico proveniente da Espanha com a quadriga vencedora: História da Arte. Tomo 2. Salvat Editora, 1978, página 318. 
Antigas estruturas recuperadas em 2016:
https://istoe.com.br/parte-do-antigo-circo-maximo-de-roma-e-restaurada-e-aberta-ao-publico/

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