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terça-feira, 24 de abril de 2018

O Egito Antigo no Museu Nacional do Rio de Janeiro



Uma pergunta simples. Será que aqui no Brasil podemos ver de perto uma múmia do Egito Antigo? A resposta: sim! Basta fazer uma visita ao Museu Nacional, no antigo Palácio de São Cristovão, localizado na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se do mais importante acervo de antiguidades egípcias da América Latina, cuja existência podemos atribuir ao nosso primeiro governante, o imperador Dom Pedro I (na foto acima, o sarcófago da "Cantora de Amon"). Ao que consta, a coleção foi parar nas mãos do monarca em função de não poder alcançar o destino original, a Argentina. A região do rio da Prata passava por um momento de instabilidade política, além dos problemas que envolviam a disputa pela Província Cisplatina (atual Uruguai) entre o Império Brasileiro e o governo argentino, os quais levaram à guerra em 1825. De acordo com o professor do Museu Nacional e especialista em egiptologia, Antonio Brancaglion Junior, o navio de bandeira francesa Gustave Annce, que trazia a preciosa carga, impedido de atracar em Buenos Aires em função do bloqueio naval imposto pelo Brasil, lançou ferros no porto do Rio de Janeiro em 1826. Entre os passageiros estava um tal Nicolau Fiengo, comerciante de antiguidades, possivelmente italiano, proveniente de Marselha (porto do sul da França). Ao verificar as dificuldades que teria em chegar na Argentina, Fiengo resolveu colocar a carga que transportava em leilão na então capital do Brasil, isso depois de aguardar dois meses na alfândega para conseguir a liberação de todo o carregamento. Aliás, uma carga incomum, pois continha cinco múmias egípcias (três adultos e duas crianças), que teriam sido retiradas da antiga cidade de Tebas em pleno vale do rio Nilo, por um explorador italiano chamado Giovanni Battista Belzoni. 



Segundo alguns estudiosos, Dom Pedro I ficou interessado em arrematar o lote e teria sido aconselhado a faze-lo por José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos seus ministros de confiança (na imagem acima, quadro de autor desconhecido representando o imperador). Trata-se de algo pouco provável, uma vez que Bonifácio foi para um exílio de cinco anos, logo após a dissolução da Assembléia Constituinte em 1823 e estava rompido com o imperador. Possivelmente a decisão de ficar com a coleção egípcia partiu do próprio Dom Pedro. 


Naquela época a atração pelo Egito Antigo cresceu no mundo ocidental, sobretudo depois da campanha militar realizada por Napoleão Bonaparte naquela região em 1799 e pelos trabalhos de Jean-François Champollion que deram início à decifração da escrita hieroglífica (acima, pintura de 1868 mostrando Napoleão diante da esfinge de Gizé). Durante o século XIX era comum o comércio de múmias, sarcófagos e amuletos roubados no Egito e levados para países como Inglaterra, França e Itália. Não é por outra razão que o Museu do Louvre é um dos maiores depositários de antiguidades egípcias do mundo. 
De qualquer forma, em 1827 o imperador Dom Pedro I mandou comprar a coleção. Um documento guardado há muito tempo nos arquivos do Museu Nacional confirma a aquisição. O mesmo está escrito em primeira pessoa e com a assinatura do monarca. Eis a sua integra: 

Atendendo ao que me representou Nicolau Fiengo, que propôs a venda das antiguidades egípcias, já depositadas no Museu Nacional desta Corte: Hei por bem que pelo Tesouro Público se pague ao dito Nicolau Fiengo a quantia de cinco contos de réis em que ele avaliou as referidas antiguidades; verificando-se o pagamento desta compra a prazos de seis, doze e dezoito meses. O Marques de Queluz do meu Conselho de Estado, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Encarregado interinamente dos da Fazenda, o que tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em três de Abril de mil oitocentos e vinte sete, sexto da Independência e do Império. (Rubrica do Imperador)/(as.)/Visconde de São Leopoldo/Cumpra-se, e registre-se, Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1827/(as.) Queluz. 

O documento deixa claro, pelo menos oficialmente, que os recursos provenientes para a aquisição vieram do Tesouro Público e não das reservas privadas do imperador, embora muitos afirmem que naquela época era difícil distinguir um do outro. O valor de cinco contos seria equivalente a quanto hoje? Bem, este que vos escreve tentou fazer um cálculo. No ano de 1860 um conto de réis comprava um quilo de ouro, portanto fazendo uma aproximação (apesar da diferença de mais de trinta anos em relação à data da compra) pode-se dizer que a aquisição custou o equivalente a cinco quilos do referido metal. Atualmente, cinco quilos de ouro valem mais de 700 mil reais. Nessa mesma época, um conto de réis equivalia ao que hoje é 123 mil reais segundo os sites especializados em conversão de valores monetários. Cinco contos de réis valeriam 615 mil reais. Portanto, não há muita dificuldade em estabelecer o valor do acervo egípcio em algo em torno dos 700 mil reais atuais. Na época era uma soma suficiente para a compra de um bom lote de escravos (aproximadamente oito indivíduos jovens e saudáveis). Um valor que justificou a permanência de Nicolau Fiengo no país até as prestações terem sido quitadas de forma integral. 



Mais tarde, a coleção foi ampliada pelo herdeiro do trono Dom Pedro II, que se tornou um autêntico egiptófilo (apaixonado pelo Egito Antigo). O gosto pelo assunto levou Pedro II a viajar para a terra dos faraós em duas oportunidades (na foto acima de 1872, D. Pedro II é o terceiro da direita para esquerda e sentado, diante da esfinge de Gizé). Numa delas, entre 1876 e 1877, o imperador recebeu do governante do Egito, o quediva Ismail, um presente bem original: um sarcófago lacrado! O mesmo continha uma múmia, atualmente identificada como sendo uma mulher de aproximadamente 50 anos, cujo nome era Sha-amum-em-su (que significa "os campos verdejantes de Amon"). 
Os desenhos e inscrições contidos no sarcófago revelaram algumas informações sobre essa mulher, como por exemplo, a atividade que exercia. No museu ela é conhecida como a "Cantora de Amon", pois em vida entoava cânticos sagrados no templo dedicado ao deus Amon em Karnak (antiga Tebas), tendo vivido por volta do ano 750 a.C.. Uma curiosidade envolvendo a sua mumificação (como se sabe, os egípcios preservavam o corpo do morto para que este pudesse desfrutar de uma vida além-túmulo) é a de que os responsáveis pelo procedimento procuraram preservar a sua garganta com uma bandagem de resina, a fim de que a cantora viesse a utilizar os seus dotes vocais na outra vida. No Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago nos Estados Unidos, encontra-se outra múmia de cantora-sacerdotisa de Amon, que também tem uma proteção na garganta. Segundo o professor Brancaglion Junior essa atividade poderia ter sido transmitida das mães para as filhas por várias gerações.



Tudo isso pode ser demonstrado a partir de uma tomografia computadorizada em 3 D (três dimensões) realizada em 2013 (acima, o corpo e uma sequência de imagens da "Cantora de Amon"). Tal procedimento permitiu uma analise detalhada da múmia sem que fosse necessário manusear a mesma, pois nesse caso haveria o risco de danificar essa importante relíquia do Museu Nacional. A tomografia também revelou a presença de vários amuletos no corpo da múmia, entre eles o escaravelho-coração, um símbolo associado à ressurreição dos mortos. O coração era visto pelos egípcios como o centro da inteligência e das emoções, daí a presença de um amuleto identificado a esse órgão do corpo. 


O sarcófago com a "Cantora de Amon" (na foto acima, detalhe do mesmo) permaneceu no gabinete de Dom Pedro II até a queda da monarquia em 1889, sendo posteriormente agregado ao acervo do Museu Nacional, que já mantinha as outras antiguidades egípcias adquiridas em 1827. 




A "Cantora de Amon" não foi a única peça da coleção egípcia do Museu Nacional a ser submetida à tomografia 3D em 2013. Múmias de gatos também foram examinadas (como o gato mumificado das fotos acima). O procedimento ajudou a desvendar um mistério na coleção adquirida por Dom Pedro I, a de uma múmia que estava catalogada como sendo de um recém-nascido, mas que na verdade era de um gato. A quantidade desses animais que foram embalsamados no Egito Antigo é bem superior à de seres humanos, uma vez que o gato era um animal sagrado e que representava a deusa da fertilidade Bastet. Ao mesmo tempo, o felino era útil na agricultura (atividade fundamental no Egito Antigo) espantando animais indesejados e roedores. Portanto, os mesmos também seriam necessários na outra vida, por isso a mumificação. Os gatos eram praticamente membros da família e matar um deles poderia significar um ato gravíssimo. 



O Museu Nacional dispõe de outras três múmias inteiras de adultos, duas de crianças e partes embalsamadas de corpos humanos, do lote original adquirido por D. Pedro I. Uma delas é a múmia Kherima, uma jovem que viveu já na fase em que o Egito passou para o controle do Império Romano, nos séculos I e II da era cristã (acima, em foto antiga com uma máscara mortuária que não pertenceu originalmente a essa múmia e o estado atual da mesma). Isso mostra como a cultura do Egito antigo manteve a sua permanência por mais de três milênios, mesmo quando a região começava a conhecer o cristianismo. Durante muito tempo imaginou-se que a múmia Kherima seria de uma princesa egípcia, mas hoje sabe-se que se trata de alguém do "nível intermediário" da sociedade. A mesma tem a peculiaridade de apresentar as pernas e os braços livres. Esses membros foram enfaixados separados do resto do corpo, sendo que apenas outras oito múmias no mundo receberam esse tratamento. 




O sarcófago do sacerdote Hori (também com a múmia) é outra preciosa relíquia do acervo e data de aproximadamente 1000 a.C. (acima, detalhes dessa peça). Proveniente de Tebas, as inscrições indicam que Hori herdou do pai os títulos de escriba, mordomo e responsável pelo harém real, tendo também se tornado sacerdote do deus Amon. 


Embora as múmias do Museu Nacional não pertençam a faraós ou príncipes, a confecção das mesmas seguia o padrão estabelecido para os nobres de modo geral (acima, uma cabeça mumificada pertencente ao Museu e sem a data definida). 



O cérebro era retirado pelas narinas, os demais órgãos vitais separados e guardados em recipientes conhecidos como canopos (como os que aparecem acima e que datam de aproximadamente 740 a.C.), a fim de serem também reutilizados na outra vida (estômago, pulmões, intestinos e fígado).


A coleção do Museu Nacional conta ainda ainda com tampas de caixão, máscaras mortuárias, vasos e estátuas (como a da jovem acima, com um cone de incenso sobre a cabeça e que data de 1450 a.C.), num total de aproximadamente 700 peças. 



Entre estas estão estatuetas funerárias conhecidas pelo nome de shabtis, das quais o museu dispõe de mais de 200 exemplares (como a que aparece na imagem acima, aproximadamente do ano 1000 a.C.). Tais objetos eram muito presentes nas tumbas e deviam cumprir tarefas de auxílio ao morto na vida além-túmulo (ver a postagem "A tumba do faraó Tutancâmon" neste blog). 



O acervo do Egito Antigo do Museu Nacional ainda contém inúmeras estelas funerárias (blocos de pedras com desenhos e inscrições). Em uma delas, conhecida pelo nome de Estela de Haunefer, que data de um período situado entre 1300 e 1200 a.C. (imagem acima, onde na parte superior temos a figura do deus Osíris sentado e da deusa Isis em pé), encontramos a primeira referência a um tipo específico de ofício existente no Egito dos faraós, o de "fabricante de colchas listradas".



Na estela de Senusret-Iunefer (imagem acima), proveniente de Abidos (próxima à cidade de Tebas) e datada do século XIX a.C. existe o registro mais antigo de uma palavra equivalente a "asiático" em uma fonte egípcia. 
O acervo do Egito antigo do Museu Nacional do Rio de Janeiro é uma referência importante para o estabelecimento de parcerias internacionais no estudo dessa importante civilização. Aqui, alunos e pesquisadores são formados nos cursos de mestrado e doutorado sobre Antiguidade Oriental tendo por base essa importante coleção, a qual ainda tem muito para nos revelar. E para os interessados em conhecer ou aprofundar a história dessa civilização, o mesmo se encontra ao alcance de um simples passeio à cidade do Rio de Janeiro. 

Para ver: 

O Museu Nacional (foto acima) dispõe de um importante acervo referente a pré-história, história, arqueologia, etnologia e antropologia, do Brasil e do mundo. Quando for ao Rio de Janeiro não deixe de visitá-lo. 
Onde: Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristovão, Rio de janeiro.
Horário: De terça a domingo, das 10 às 16 horas. De segunda das 12 às 16 horas. 
Ingresso: R$ 6 (inteira). 

Crédito das imagens:
Peças do Egito Antigo do acervo do Museu Nacional: 
http://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/arqueologia/egito-antigo/index.html
Quadro mostrando Napoleão diante da esfinge de 1868:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-L%C3%A9on_G%C3%A9r%C3%B4me_003.jpg
Quadro de D. Pedro I da Pinacoteca do Estado de São Paulo:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait_of_Dom_Pedro,_Duke_of_Bragan%C3%A7a_-_Google_Art_Project.jpg
Tomografia da múmia "Cantora de Amon" e do gato mumificado:
http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2014/02/pesquisa-revela-enchimento-especial-na-garganta-de-mumia-cantora.html
Foto de D. Pedro II visitando o Egito, da múmia Kherima, da cabeça mumificada e transcrição do documento de compra da coleção egípcia por D. Pedro I: O Antigo Egito. Biblioteca da História Universal Life. Livraria José Olympio Editora, 1969, páginas 99, 170 e 171 (documento transcrito).

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