Pesquisar este blog

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Anúncio Antigo 27: o papa recomenda a marca FIAT




É muito difícil ver um papa renunciar, como ocorre agora com Bento XVI. Mais difícil ainda é ver uma declaração do papa em um anúncio publicitário. Bem, tratando-se de automóveis da marca FIAT é até compreensível, pois ambos têm uma relação muito forte com a Itália. A maior parte dos papas que comandaram a Igreja Católica, desde o tempo de Pedro (o primeiro papa) no século I d.C., tiveram origem na península italiana. Já a "Fabbrica Italiana Automobili Torino" ou simplesmente FIAT (que em latim também significa "faça-se") é um verdadeiro símbolo da indústria daquele país e uma das maiores fábricas de automóveis do mundo. 
A indústria foi fundada por Giovanni Agnelli em 1899. Seu neto, Gianni Agnelli comandou a empresa de 1966 até a sua morte em 2003. Seu irmão, Umberto, assumiu o controle da empresa por mais um ano até a ascensão de Luca de Montezemolo. Aliás, este também responde por um outro símbolo da indústria italiana, a Ferrari, que pertence ao grupo FIAT, da mesma forma que a Alfa Romeo, a Maserati e a Lancia. 



A fábrica, em seus primeiros tempos, dedicou-se a produção de automóveis, veículos industriais e agrícolas. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) chegou a fabricar ambulâncias, metralhadoras e motores para submarinos. Mais tarde, produziu motores para aviões (como o modelo acima, conservado no Museu Aeroespacial de Washington). Foi pioneira na fabricação de automóveis na antiga União Soviética, utilizando a marca Lada, cujos modelos chegaram a ser vendidos no Brasil no início da década de 1990. 
Por meio de suas subsidiárias, o grupo FIAT atua em 61 países, entre eles o Brasil, onde ganhou prestígio com seus automóveis populares e médios. 



Bem, e o papa Pio XI (imagem acima)? Ambrogio Damiano Achille Ratti, seu verdadeiro nome, nasceu em 1857 na localidade de Decio, na antiga província de Milão. Seu pontificado durou de 1922 até a sua morte, em 1939. O fato mais importante de seu pontificado, sem dúvida, foi o Tratado de Latrão (1929). Por meio deste, a Igreja renunciou aos seus antigos territórios (os chamados Estados Papais) que haviam sido incorporados à Itália após a unificação política e territorial concluída em 1870 e reconheceu oficialmente o Reino Italiano (na época do Tratado, a Itália era uma monarquia parlamentar, tendo Mussolini como primeiro-ministro). 



Por sua vez, o governo italiano, comandado pelo ditador fascista Benito Mussolini (imagem acima, da década de 1930), reconheceu a soberania do papa sobre a área do Vaticano, situada dentro de Roma. Portanto, o papa tornava-se um chefe de Estado, comandando um pequeno território soberano na capital italiana. Estava resolvida a chamada "Questão Romana". 
O acordo foi útil ao regime fascista, pois depois de estabelecer o controle sobre as instituições italianas, faltava apenas o reconhecimento da Igreja Católica. O Tratado de Latrão permitiu isso, tanto que, em 1929, um plebiscito deu ao regime de Mussolini mais de 90% dos votos e o clero católico teve um papel importante nesse resultado. O retrato de Mussolini sempre aparecia ao lado do papa e do rei da Itália nas repartições públicas. Ao mesmo tempo, o acordo eliminava o caráter laico das instituições nacionais, estabelecendo o catolicismo como a única religião do Estado italiano e tornando obrigatório o ensino religioso nas escolas. 
Contudo, em várias encíclicas (documentos papais) publicadas nos anos seguintes, o papa condenou o fascismo e o nazismo, embora na fase final de seu pontificado. 
Pio XI também reforçou o conteúdo da encíclica "Rerum Novarum" (1891) do papa Leão XIII, condenando o comunismo, o socialismo e a luta de classes, reafirmando a necessidade de uma maior justiça social e o controle do Estado para evitar os excessos da economia de livre mercado e do capitalismo. Portanto, deste ponto de vista, era estranho que a Santa Sé permitisse a palavra do papa em uma propaganda de automóveis. De qualquer forma, foi desta maneira que a frase papal apareceu no anúncio mais acima, publicado no jornal "O Estado de São Paulo" de 22.06.1929, poucos meses antes da quebra da Bolsa de Nova Iorque. 

Crédito das imagens:
papa Pio XI:
http://summorumpontificumslz.blogspot.com.br/2012/10/quas-primas-enciclica-do-papa-xi-sobre.html
Mussolini: The Pictorial History of World War II. Charles Messenger. JG Press.
Avião italiano da II Guerra: acervo do autor.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A nossa castanha: Brazil Nut




Um produto que leva o nome do nosso país e que é consumido no mercado norte-americano e europeu. Trata-se  da castanha-do-pará (na foto acima, pacotes de castanhas no mercado Ver-o-Peso, na capital paraense) e que já teve (ou têm) outros nomes como castanha-do-Brasil (nome oficial), castanha-da-Amazônia, castanha-do-Maranhão, castanha-da-terra ou noz do Brasil. Mas no exterior seu nome mais conhecido é "Brazil nut" (tradução literal: noz do Brasil). É assim que é designada nos lugares da moda e principalmente nas confeitarias que vendem produtos a base de chocolate. A castanha também é muito utilizada como complemento para doces, bolos e sorvetes.
Aqui no Brasil o seu consumo é limitado.  O preço elevado não ajuda a disseminar o seu uso junto à nossa população, exceto nas festas de final de ano. Rica em nutrientes e proteínas, a castanha-do-pará, como ainda é mais conhecida por aqui, já foi chamada de "carne vegetal" em função dessas suas qualidades como alimento, embora um tanto quanto calórica. Sabe-se de sua riqueza em selênio, elemento considerado como preventivo à vários tipos de câncer. A castanha-do-pará é encontrada em praticamente toda a floresta Amazônica, do Brasil e dos países limítrofes, como Bolívia, Peru, Venezuela, Colômbia e nas Guianas. 
Há muito tempo conhecida dos índios, destes passou para os europeus com o início da colonização. Muitos estudiosos afirmam que a sua introdução na Europa teria se dado por intermédio dos holandeses, ainda no início do século XVII quando estiveram no baixo rio Amazonas. Nessa mesma época já eram conhecidos os castanhais (locais de grande concentração da árvore que produz a castanha) do rio Tocantins, no Sudeste do Pará. A presença maior da árvore em algumas áreas levou vários botânicos a acreditarem que os próprios nativos teriam contribuído para espalhar as sementes pela floresta, algo muito difícil de ser comprovado. A disseminação das sementes e a sua germinação é um processo extremamente complexo e demorado, uma vez que as mesmas estão sujeitas aos predadores naturais, como as cotias e os macacos.




Em termos científicos, a árvore da castanheira da Amazônia (na imagem acima, ao centro, uma castanheira nativa em Itacoatiara, no Estado do Amazonas) foi descrita pela primeira vez pelo geólogo e naturalista alemão Alexander von Humboldt, após uma viagem de estudos pela América do Sul, entre 1799 e 1804. O tamanho, altura e exuberância (excelsa) da castanheira despertou a atenção de Humboldt e de seu companheiro de viagem, Aimé Bonpland, um botânico francês. A classificação foi feita com a ajuda de outro botânico, o alemão Carl Sigmund Kunth. Desses pesquisadores viria o nome científico da castanheira:  gênero Berthollethia e espécie excelsa, acrescentando-se os sobrenomes do três pesquisadores Humboldt, Bonpland e Kunth abreviados. Portanto: Berthollethia excelsa HBK.



O fruto da castanheira da Amazônia adquire a forma de um "coco" ou ouriço (imagem acima) e dentro do mesmo se encontram as castanhas. Cada ouriço contém de 10 a 25 sementes, que é a castanha ou noz propriamente dita. O fruto não pode ser retirado diretamente da árvore em função da altura da mesma (uma castanheira da Amazônia pode alcançar até 50 metros de altura). É necessário aguardar o amadurecimento e a queda do ouriço, que é coletado no solo. A época para a coleta corresponde ao inverno amazônico ou estação das chuvas, entre os meses de janeiro e maio de cada ano. 



Para o coletador ou castanheiro (na foto acima um castanheiro da região do vale do rio Jari, no sul do  Amapá) é uma atividade que requer cuidados, pois a queda do ouriço pode ser fatal quando atinge a cabeça de um indivíduo (existem casos registrados de acidentes desse tipo). 



Em seguida o ouriço é quebrado e retiradas as castanhas (na foto acima, os ouriços e as castanhas já retiradas de dentro dos mesmos). Estas sofrem uma limpeza superficial na própria floresta (ou colocação, onde os castanheiros trabalham), quando é realizada uma primeira seleção, separando-se as castanhas já apodrecidas. Em seguida, as mesmas são recolhidas e transportadas até uma cidade próxima onde está situado um barracão ou armazém. Em seguida são conduzidas, geralmente por barcos, para um grande centro (no caso do Brasil, Manaus ou Belém) onde as mesmas são beneficiadas, com a retirada da casca que envolve a amêndoa e depois desidratadas, para evitar a umidade que provoca a deterioração do produto. 
A partir da década de 1990, o trabalho de beneficiamento e desidratação da castanha começou a ser feito por cooperativas de extratores, na própria região produtora, como no caso do Acre e do Amapá. A maior parte da produção vai para a exportação. Os grandes consumidores da castanha-do-pará são os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental. 
Muito embora diversos estudos tenham sido feitos desde o século XIX para diversificar o seu uso e aproveitamento, como na produção de farinha, no leite que pode ser extraído da amêndoa, no seu óleo que pode substituir com vantagens o azeite importado e até na obtenção de um lubrificante para motores de aviões, pouco se fez em termos concretos para melhorar a sua exploração. Pelo contrário, o desmatamento sofrido nas bordas da floresta amazônica a partir da década de 1970 levou à derrubada dos castanhais no Sudeste do Pará, que durante muitas décadas liderou a produção da amêndoa. As enormes castanheiras deram lugar aos pastos para a criação de gado. O município de Marabá teve a sua história vinculada ao produto, inclusive com o surgimento de uma verdadeira oligarquia dos castanhais, como já descreveu a pesquisadora Marília Emmi Ferreira da Universidade Federal do Pará, em seu livro "A Oligarquia do Tocantins e o Domínio dos Castanhais".
Na década de 1990, a Bolívia surgiu como concorrente do Brasil no mercado de castanha. Atualmente,  este país ostenta o primeiro lugar como produtor mundial. Como se sabe, o norte boliviano compreende parte da floresta amazônica (próxima à fronteira com o Estado do Acre, que aliás, já pertenceu à Bolívia). Os produtores bolivianos insistem na mudança do nome do produto para castanha ou "almendras" da Amazônia.
Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária pertencente ao governo brasileiro) obtiveram exito na domesticação da castanheira, reduzindo o tempo de frutificação, por meio do enxerto de uma "gema" (parte de uma outra castanheira) em uma castanheira em fase de crescimento. O domínio dessa tecnologia permitiu o plantio racional da árvore, melhorando a produtividade e as condições de extração do fruto. Como a coleta é feita na estação chuvosa (úmida), é maior o risco de contaminação por um fungo, conhecido como Aspergillus flavus, o qual absorvido pelo organismo em grande quantidade, é tido como cancerígeno. A União Européia impõe sérias restrições aos produtos com suspeita desse tipo de contaminação.



Contudo, a produção por meio do cultivo racional é ainda  pequena (na imagem acima, castanhal de cultivo na fazenda Aruanã, em Itacoatiara, no Amazonas). A maior parte das castanhas vêm do processo extrativo, que é feito por milhares de trabalhadores dentro da Amazônia. É uma atividade que ainda garante o sustento de muitas famílias de caboclos e ribeirinhos da floresta tropical.
Estudos e pesquisas desenvolvidos por mim, mostraram que a atividade de exploração da castanha com finalidades mercantis é bem mais antiga do que se imaginava, embora não deva ser associada às conhecidas drogas do sertão, exploradas na bacia amazônica no período colonial, como o cacau, o cravo ou a pimenta. A atividade antecedeu ao ciclo da borracha amazônica da segunda metade do século XIX.
Houve época no Brasil em que grandes campanhas foram promovidas a fim de disseminar o consumo da castanha-do-pará no mercado interno, notadamente por suas propriedades nutritivas. Bem, hoje a palavra de ordem é evitar produtos com alto teor de calorias e recomenda-se o consumo diário de apenas duas amêndoas, suficientes para a absorção do selênio pelo organismo. De qualquer forma, a fama do produto nos países de clima mais frio permaneceu inabalável. Trata-se de um produto com mercado garantido, apesar de não ser insubstituível. Outras nozes lhe fazem concorrência, como a castanha européia e as avelãs.



Como já dissemos, várias possibilidades de aproveitamento da castanha têm sido estudadas, como a produção de um óleo  (imagem acima), que poderia substituir o azeite de oliva. 



Até mesmo na fabricação de instrumentos musicais artesanais o ouriço da castanha pode ser aproveitado (imagem acima). Mais recentemente, a castanha-do-pará têm sido muito utilizada pela indústria de cosméticos, para a produção de sabonetes e shampoos. Trata-se de uma publicidade interessante, de colocar produtos no mercado que propiciam a manutenção da floresta amazônica e o uso sustentável da mesma. 



O cultivo racional apresenta-se como uma outra possibilidade de ampliar a oferta no mercado mundial. Na fazenda Aruanã, próxima ao município de  Itacoatiara no Amazonas, a castanheira é cultivada a partir da tecnologia desenvolvida pela Embrapa. A castanha beneficiada nessa fazenda é praticamente livre do risco de contaminação e certificado como produto orgânico, sendo vendido em latas (imagem acima) que contém 60 castanhas. Para muitos especialistas, o futuro para a manutenção do produto no mercado é o cultivo, embora a extração natural ainda seja predominante, tanto no Brasil, como na Bolívia e no Peru. O extrativismo, embora tenha as suas limitações, ainda é o sustento de muitos amazônidas. 
Pois bem, e aqui, como devemos designar o produto? Sim, oficialmente castanha-do-Brasil. Mas no mercado interno permanece o nome castanha-do-pará. Se forem ao Amazonas, prefiram a primeira designação. "Mas como, a castanha não é só do Pará, é de toda a Amazônia", dirão os amazonenses. Bem, enquanto não resolvemos a questão, lamentemos a perda da liderança no mercado mundial para os bolivianos...
Para saber mais:
Castanha-do-Brasil: da floresta tropical ao consumidor. Ariane Mendonça Pacheco e Vildes Maria Scussel. Florianópolis, SC: Editograf, 2006. 
Crédito das imagens: acervo do autor.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Férias



Caros leitores. O blog História Mundi estará de "férias" no mês de janeiro de 2013. Coloco entre aspas, porque o seu autor estará em viagem de pesquisa pelo Norte do Brasil. Aproveitem para ver ou rever algumas das postagens publicadas ao longo do ano. Voltaremos em fevereiro com muitas novidades. Aos colegas professores que, de fato, estão de férias, desejo um ótimo descanso e aos demais um grande abraço. E neste verão, cuidado com as baratas...

sábado, 29 de dezembro de 2012

Anúncio Antigo 26: edifício Joelma




A maior tragédia que a cidade de São Paulo conheceu: o incêndio do edifício Joelma. Era o dia 1 de fevereiro de 1974. Um curto-circuito em um aparelho de ar condicionado no décimo segundo andar deu início ao incêndio. O Joelma, construído em 1971, não chega a ser um arranha-céu, alcançando 25 andares e destes, 15 eram escritórios. Os demais andares eram formados por estacionamentos, que praticamente não foram afetados pelas chamas. 


O incêndio (imagem acima) teve início às 08:54 horas da manhã. Os bombeiros chegaram às 09:10 horas, praticamente quinze minutos depois. A demora foi atribuída às dificuldades no trânsito (imaginem se fosse hoje...).
A tragédia lembrava uma outra, ocorrida dois anos antes no edifício Andraus, na avenida São João, também no centro de São Paulo. Neste caso, pode-se fazer o resgate de parte das vítimas por meio de helicópteros, o que não foi possível no incêndio do Joelma. As condições da cobertura e o fogo impediam a descida dos aparelhos. Um helicóptero da Aeronaútica, que podia pairar no ar, foi deslocado para que os bombeiros pudessem alcançar a cobertura, o que ocorreu apenas uma hora e meia depois do início do incêndio. 


A configuração das salas, que eram ocupadas na época pelos escritórios do Banco Crefisul, contribuiram para a propagação rápida das chamas. Divisórias, móveis de madeira, carpetes, forros de fibra sintética, ou seja, materiais de fácil combustão. Quinze minutos após o início do desastre, as escadas comuns e os elevadores não podiam mais ser utilizados. Não existiam escadas de incêndio e portas de emergência que cortavam o fogo. A alternativa era fugir para a cobertura ou buscar abrigo nos banheiros e terraços (imagem acima). 
Em desespero, muitas vítimas se atiraram do prédio em chamas, num total de 20. Nenhuma sobreviveu. Em alguns pontos da cobertura, a temperatura alcançou os 100 graus celsius, provocando outras vítimas fatais. 
O saldo da tragédia: 187 mortos e 300 feridos. Aproximadamente 756 pessoas estavam no edifício quando o incêndio começou. 
O edifício Joelma permaneceu em reforma por quatro anos e foi reaberto em 1978. O Anúncio Antigo de hoje (imagem mais acima) refere-se à entrega e comercialização do mesmo para ser alugado após as obras. O Joelma continuou sendo um edifício comercial, com amplos salões para escritório distribuídos por 15 andares, além das garagens. E, claro, com um detalhe, o novo sistema de segurança "considerado modelar pelas autoridades", como afirma o anúncio. Era o diferencial que o novo empreendimento imobiliário tanto necessitava. 


Outra mudança ocorreu na designação do edifício. O nome Joelma, que se tornara sinônimo de tragédia, foi alterado para edifício Praça da Bandeira (na foto acima, o prédio hoje). 
Essa tragédia teve reflexos na segurança dos grandes edifícios. Com exceção de um outro incêndio ocorrido em 1981, na avenida Paulista, a cidade não conheceu mais tragédias desse porte em prédios ou arranha-céus. A fiscalização foi reforçada, a segurança foi revista e o Corpo de Bombeiros foi melhor aparelhado para enfrentar ocorrências como essa. 
Mas a cidade nunca esqueceu da tragédia do Joelma. Um filme rodado em 1979, "Joelma 23° andar", baseado em um livro psicografado por Chico Xavier, reavivou a história do incêndio. Em 1975, durante o lançamento no Brasil do filme catástrofe norte-americano, "Inferno na Torre", os distribuidores tiveram a ousadia de afirmar que a tragédia do Joelma foi uma das "inspirações" para o filme. 
Muitas lendas e histórias fantásticas acabaram envolvendo a tragédia do edifício Joelma. No local em que o prédio foi construído teria existido, no século XIX, um pelourinho onde escravos eram castigados. Os espíritos dos mesmos estariam assombrando o local, algo que muitos associaram ao incêndio. 
Além dessa lenda, um fato verídico ocorreu em 1948, também no mesmo local onde o Joelma foi construído. Um professor de Química assassinou a mãe e as irmãs dentro da casa onde moravam, jogando os corpos em um poço, o que deu nome ao caso de "crime do poço". Quando o caso foi descoberto pela polícia, o professor se matou. Ou seja, o local já teria um histórico associado a tragédias. 
Outra história tenebrosa, esta envolvendo o próprio incêndio, gira em torno de 13 pessoas que tentaram escapar pelo elevador e acabaram morrendo. Elas foram enterradas juntas e sem identificação, em um cemitério de São Paulo, dando origem ao "mistério das 13 almas", às quais os populares atribuem vários milagres. 
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de S. Paulo" de 14.09.1978. 
Crédito das imagens: 
Joelma em chamas:http://emergencianews.wordpress.com.
Detalhe dos terraços: Revista  Veja, 26.12.1979, pag. 148.
Joelma hoje: www.flick.com 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mensagem de Boas Festas


Houve uma época...



em que o Brasil tinha campeões correndo na Fórmula 1 (na foto acima, Emerson Fittipaldi, campeão mundial em 1972 e 1974 e vice em 1973 e 1975);



em que era recomendado às pessoas levar vantagem em tudo (na imagem acima, o ex-jogador Gérson no famoso comercial dos cigarros Vila Rica, de 1976);



em que o Brasil teve um presidente casado com a dona Argentina (na foto, Argentina Vianna, esposa de um dos presidentes da Ditadura Militar, Marechal Castelo Branco, em foto de 1922);


em que a Rua 25 de Março era mais tranquila para fazer compras (acima, em uma foto antiga, a rua na primeira década do século XX); 


em que os Três Patetas eram quatro (na foto acima, Ted Healy e seus Patetas, em 1929);


em que uma apresentadora de programas infantis da TV Globo deixou a carreira artística para ingressar no magistério (na foto acima, Márcia Cardeal, no centro, apresentadora da Sessão Zás Trás na TV Globo, na segunda metade da década de 1960);



em que um programa de humor tinha graça (na imagem acima, Manoel de Nóbrega e Borges de Barros no humorístico A praça da Alegria na TV Record, na década de 1960).

É por essas e por outras que eu continuo gostando da História. 
Desejo aos amigos e leitores um ótimo final de ano e boas festas...

                                                                   blog História Mundi 


Crédito das Imagens: 
Anúncio dos cigarros Vila Rica: professorarturreis.blogspot.com.br
Programa Zás Trás: grandesnomesradioetv.multiplug.com
Fotos dos Três Patetas e do humorístico A Praça da Alegria da Revista TV Séries.
Foto de dona Argentina Vianna, da coleção Nosso Século, editora Abril, 1980. 
Imagem da rua 25 de Março antiga foi extraida do livro Memória da Cidade de São Paulo de Ernani Silva Bruno, publicado pela Prefeitura Municipal de São Paulo e Secretaria Municipal de Cultura em 1981. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Lado a Lado com a História: A Revolta da Chibata parte II





"Vale é saber que as carnes de um servidor da pátria só serão cortadas pelas armas dos inimigos, mas nunca pela chibata de seus irmãos. A chibata avilta."
(João Cândido, entrevista ao Correio da Manhã durante a rebelião de 1910).

João Cândido foi chamado pela imprensa da época, que tanto criticou o movimento dos marinheiros, de "Almirante Negro". Nestes dias, em que a figura de Zumbi é tão celebrada nas comemorações do dia da consciência negra, que tal lembrarmos de alguém cuja história é bem mais documentada que a do rei de Palmares. Em nossa postagem anterior, pudemos verificar o resultado concreto da revolta dos marinheiros de novembro de 1910: o fim do castigo da chibata na Marinha do Brasil. O que falta ser contado é o preço que foi pago por essa conquista.
Apesar da anistia concedida pelo governo (na imagem acima, João Cândido lê o decreto de Anistia, ao lado do marinheiro Antônio Ferreira de Andrade, seu auxiliar), no dia seguinte, após o fim da rebelião, o presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca, assinou um outro decreto permitindo a exclusão da Marinha de todos os seus quadros considerados indesejáveis. Segundo dados do historiador Marco Morel, foram 1.216 expulsões ou o equivalente a metade dos participantes da revolta. Prisões, degredo e fuzilamentos ocorreram com respaldo do Governo da época.



Em 09.12.1910, uma outra revolta eclodiu no Batalhão Naval localizado na ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, envolvendo desta vez os fuzileiros navais. Tropas do Exército foram chamadas para pôr fim à essa nova rebelião, que deixou um saldo de 24 rebeldes mortos. Importante registrar que os marinheiros da Revolta da Chibata (na foto acima, os marinheiros do encouraçado São Paulo, após o fim da revolta) não tiveram nenhuma participação nesse novo levante, até pelo contrário, retiraram os barcos da zona de conflito para que ficassem a salvo. Contudo, o Governo usou essa segunda revolta para uma repressão violenta contra João Cândido e seus companheiros. 



Na véspera do Natal de 1910, uma onda de prisões foi desencadeada, incluindo João Cândido, Francisco Dias Martins e outros, os quais foram detidos acusados de liderar a nova rebelião (na imagem acima, marinheiros são levados presos, escoltados por soldados do Exército, pelas ruas do Rio de Janeiro). Cândido sempre acreditou que a rebelião no Batalhão Naval foi instigada pelas próprias autoridades, como forma de burlar a anistia e incriminar os marinheiros na nova revolta.
Em 24.12.1910, João Cândido e os demais presos foram levados para duas celas solitárias na ilha das Cobras. Apesar de serem celas individuais, Cândido e mais 17 presos foram jogados em uma única solitária. Em outra cela minúscula foram colocados mais 13 prisioneiros. No total 31 presos em celas que deveriam acolher apenas 2. O comandante do Batalhão Naval, capitão Marques da Rocha, levou as chaves embora. Era Noite de Natal. Gritos vindos da prisão foram ouvidos do lado de fora e o calor era insuportável. Dentro das celas praticamente não havia ar para respirar.
No dia seguinte, 25 de dezembro, o carcereiro jogou cal sobre os presos, para tirar o mal cheiro de urina e das fezes. O pó do cal terminou por asfixiar os prisioneiros que já agonizavam. No dia 26, a cela foi aberta e perguntaram se João Cândido ainda vivia. No dia seguinte, o capitão Marques da Rocha mandou retirar os detidos, que estavam desde o dia 24 sem água e sem comida. Na cela de João Cândido, apenas ele e outro marinheiro sobreviveram.
Além desse acontecimento trágico, vários outros marinheiros, que tiveram participação ativa na Revolta da Chibata, foram embarcados na véspera do Natal de 1910 para a Amazônia, em um navio chamado "Satélite". Pelos dados de Marco Morel, 105 marinheiros, juntamente com marginais e prisioneiros comuns foram colocados no barco. Vários marinheiros foram sumariamente fuzilados durante a viagem e os que conseguiram chegar no interior da Amazônia foram encaminhados para as obras da estrada de ferro Madeira-Mamoré ou para os seringais do Acre, onde poucos sobreviviam.
Por outro lado, a notícia do ocorrido na ilha das Cobras vazou e até instituições internacionais protestaram contra os maus tratos dados aos presos. Um Conselho de Guerra chegou a investigar o caso e o capitão Marques da Rocha foi absolvido (depois, continuou a seguir carreira na Marinha e alcançou o almirantado).
Profundamente abalado, João Cândido foi dado como doente mental e encaminhado a uma instituição psiquiátrica. Apesar de todo o sofrimento e contando com a ajuda dos médicos, Cândido recuperou-se e ainda recebeu um atestado de que não apresentava "nenhuma perturbação". Ao sair do hospital, foi encaminhado a uma prisão, onde permaneceu 18 meses até o julgamento.



João Cândido, Francisco Dias Martins, Manoel Gregório do Nascimento, entre outros, foram julgados não pela Revolta da Chibata (devido à anistia), mas pela rebelião no Batalhão Naval, da qual não tiveram participação. Membros da sociedade civil se mobilizaram em uma campanha, para conseguir bons advogados para a defesa. Os marinheiros foram absolvidos, por unanimidade, no final do ano de 1912. Contudo, João Cândido não teve muito tempo para comemorar. No mesmo dia em que foi solto (na imagem acima, Cândido pouco antes de ser libertado), soube que fora excluído dos quadros da Marinha.



Dessa época em diante, Cândido tentou trabalhar na Marinha Mercante, mas sem sucesso. Sob pressão dos militares, ele não conseguia emprego nos navios particulares (chegou a ter seus documentos apreendidos). Restou a João Cândido trabalhar como pescador (imagem acima, Cândido exibe uma cesta de peixes), atividade que garantiu o seu sustento até a sua morte. 
Cândido conheceu a extrema pobreza e passou por desgraças pessoais. Sua segunda esposa, Maria Dolores Vidal, cometeu suicídio ateando fogo ao corpo em 1928. A filha mais velha do casal repetiu o gesto dez anos depois. Nesses episódios trágicos, o nome de João Cândido ressurgiu na imprensa. 
Em sua trajetória política, Cândido aderiu ao Movimento Integralista Brasileiro (de inspiração fascista) comandado por Plínio Salgado, na metade da década de 1930. O militarismo presente na proposta integralista, talvez tenha atraído o velho marinheiro, habituado à disciplina militar. Com a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), a simples menção à Revolta dos Marinheiros era proibida, e Cândido ficou esquecido.
Somente em 1958, o jornalista Edmar Morel publicou um livro narrando a história dos marinheiros e batizando o levante de Revolta da Chibata. O êxito e o interesse despertado a partir da publicação trouxe João Cândido de volta ao cenário político. O país vivia os anos de liberdade democrática, imediatamente anteriores ao golpe militar de 1964. Cândido chegou a receber homenagens, concedeu entrevistas e participou de feiras literárias. Até viajou de avião.



No lançamento da segunda edição do livro, em 1963, Edmar Morel e João Cândido participaram do IV Festival do Escritor no Rio de Janeiro, uma espécie de Bienal do Livro da época. Nesse encontro, Cândido foi apresentado a personalidades como Jorge Amado, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, entre outros. Ao final da festa, não havia mais transporte para a Baixada Fluminense, onde o velho marinheiro vivia e, por isso, teria que se hospedar em um hotel. Em cada estabelecimento que se apresentava, os recepcionistas olhavam para a figura simples de João Cândido e diziam: não há vaga. Após 12 tentativas, Edmar Morel conseguiu hospedá-lo em um hotel no bairro boêmio da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro.
Em março de 1964, os marujos voltaram a desafiar o comando da Marinha, iniciando um movimento grevista sob o comando do suspeito "cabo" Anselmo (seria um agente provocador infiltrado). João Cândido foi chamado para prestigiar o movimento. A greve dos marujos foi um dos pretextos para o golpe militar de 1964. 
Após tomarem o poder, os militares lançaram suspeitas sobre o trabalho do jornalista Edmar Morel e o mesmo teve os seus direitos políticos cassados. João Cândido, já aposentado e doente (na foto acima, tirada pouco antes de sua morte), conseguiu construir a sua casa em São João do Meriti, periferia do Rio, para onde se retirou levando uma vida simples ao lado de sua última esposa e filhos. No final da vida, tornou-se evangélico, mas ainda lia e acompanhava o noticiário político.


Com a implantação da Ditadura Militar (1964-1985) tornou-se perigoso mencionar a Revolta da Chibata. Por isso, em 1968, um ano antes de sua morte, João Cândido deu uma entrevista clandestina gravada, para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. No início de dezembro de 1969 foi internado para tratar de problemas pulmonares. Um câncer em estado avançado foi diagnosticado e em 06.12.1969, aos 89 anos, João Cândido, o "Almirante Negro", morreu. Apesar da censura, a imprensa noticiou a sua morte, mas com uma certa frieza (na imagem acima, a edição da Revista Veja, de 17.12.1969, noticiando a morte de João Cândido).


Poucas pessoas compareceram ao seu enterro (na imagem acima, o filho caçula de João Cândido, Adalberto, na frente, ajuda a carregar o caixão com o corpo de seu pai). O tema Revolta da Chibata não era tratado de forma aberta em 1969, o primeiro ano em que o famigerado AI-5 (Ato Institucional que endureceu a Ditadura Militar) estava em vigor. Policiais vestidos à paisana fotografaram todos os que compareceram ao enterro. Apenas familiares e alguns membros da Associação Brasileira de Imprensa  (ABI) estavam presentes naquele dia chuvoso no Rio de Janeiro. Claro, Edmar Morel era um deles e pronunciou uma frase à beira do túmulo: "Adeus, João Cândido, você dignificou a espécie humana."
Em 1975, João Bosco e Aldir Blanc compuseram a canção que celebrou a figura de João Cândido, "Mestre-Sala dos Mares", eternizada nas vozes do próprio João Bosco e depois por Elis Regina. Sim, a letra original e o título tiveram que ser adaptados pelos compositores, em função da censura da Ditadura Militar, que ainda estava em ação em meados da década de 1970. Os censores reclamaram do excesso de referências ao termo "negro" e com o título original, "Almirante Negro", que depois foi alterado. A Marinha não iria aceitar essa afronta, dizia-se na época. Com algumas alterações, a música foi gravada e tornou-se um grande sucesso, perpetuando em definitivo a figura de João Cândido. Abaixo, o trecho inicial:

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Ha figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas 
Jovens polacas e por batalhões de mulatas...

Para saber mais: 
Morel, Marco. João Cândido: A luta pelos Direitos Humanos. Fundação Banco do Brasil, Petrobrás, Associação Cultural do Arquivo Nacional e Governo Federal. O autor estudou e pesquisou a fundo o movimento dos marinheiros. O livro está disponível em:
http://www.projetomemoria.art.br/JoaoCandido/downloads/down_livro_joao_candido.pdf
Crédito das Imagens: João Cândido lendo o decreto de anistia: Coleção Nosso Século, Ed. Abril, 1980. As demais fotos são do próprio livro de Marco Morel.