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sábado, 9 de maio de 2015

Brasiliana Fotográfica



Uma ótima notícia para os historiadores, pesquisadores da área de ciências humanas, estudantes, amantes da fotografia e todos aqueles que se interessam pela História do Brasil. A Fundação Biblioteca Nacional, em parceria com o Instituto Moreira Salles, está disponibilizando desde o último dia 17.04, um precioso acervo fotográfico: a Brasiliana Fotográfica. O internauta poderá acessar fotos dos séculos XIX e XX por meio de uma pesquisa no portal da própria Brasiliana. 
A consulta aos arquivos fotográficos permite salvar o resultado no próprio portal ou ainda compartilhar a imagem por meio das redes sociais (como a fotografia acima, de 1885, da entrada da baia de Guanabara, de autoria do célebre fotografo Marc Ferrez). O acervo pode ser consultado por data, autor, assunto e local. Trata-se de uma preciosa ferramenta para o pesquisador conhecer e analisar imagens dos mais variados momentos de nossa história, começando a partir da metade do século XIX, no período correspondente ao Segundo Reinado (1840-1889), onde tivemos os primórdios da fotografia em nosso país, passando pela primeira metade do século XX. 


Por meio das mesmas podemos, por exemplo, visualizar a evolução urbana de importantes cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro, capital do Brasil até 1960 (quando foi inaugurada Brasília) ou São Paulo, em sua transformação como centro industrial e financeiro do país. A foto acima, de 1860, nos lembra que a cidade do Rio de Janeiro possui a maior floresta em área urbana do mundo: a floresta da Tijuca (a foto é de 1860 e mostra a conhecida cascatinha da Tijuca). 


No século XIX, o hábito de frequentar praias para tomar banho de mar não era algo comum e muitas faixas do litoral da então capital do Brasil eram praticamente desertas, como Copacabana e Ipanema (na foto acima, a praia de Ipanema e o morro dos "Dois Irmãos" ao fundo, em foto do início do século XX). 


A cidade de São Paulo também aparece em várias fotos, ainda quando muitos de seus rios eram navegáveis, utilizados para o lazer e recreação. Esse foi o caso do rio Tamanduateí, próximo a atual rua 25 de Março, onde estava localizado o "porto geral", com passeios de barco (na foto acima, de 1910).


Parte do acervo da família imperial brasileira também consta da coleção, com imagens raras das viagens de Dom Pedro II à Europa e ao Oriente Médio (incluindo o Egito). Podemos observar várias imagens do imperador D. Pedro II, aliás um amante da fotografia, em diferentes momentos de sua vida (como na foto acima, de aproximadamente 1860). 


A discreta imperatriz Teresa Cristina aparece também em várias fotografias (na foto acima, de 1873).


Vários outros membros da família imperial, como a princesa Isabel (foto acima, sem data) também podem ser observados no acervo. 


Muitas cenas do cotidiano dos tempos finais da escravidão podem ser visualizadas nas centenas de exemplares disponibilizados digitalmente na Brasiliana (como o escravo que trabalhava com tropeiros em meados do século XIX, foto acima). 
O blog História Mundi deixará disponiblizado em seus links interessantes, o acesso direto a esse portal da Fundação Biblioteca Nacional, que nos últimos anos têm digitalizado um imenso acervo de documentos, livros, mapas, fotografias, jornais e revistas, muito úteis aos historiadores e pesquisadores. Agora é só navegar e apreciar essas belas imagens históricas.......

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Comodoro Cinerama: O Melhor Cinema do Brasil parte II



"Terremoto" mobilizou o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil da capital paulista no ano de 1975. Fiquem tranquilos caros leitores, estamos nos referindo ao filme "Terremoto" (Earthquake, produção de 1974). Quando de sua exibição no cine Comodoro, o sistema de som desenvolvido pelos estúdios da Universal Pictures, em Hollywood, chamado de Sensurround, dava a impressão de um tremor de terra real. Nada que viesse a abalar a estrutura do cinema e nem a sensibilidade dos espectadores. Em relação aos vizinhos mais próximos do Comodoro, os moradores do edifício Lucerna A, houve uma maior preocupação e as autoridades municipais ficaram em alerta durante a realização dos primeiros testes para a exibição da película, em julho de 1975, há praticamente quarenta anos. 




O cine Comodoro (acima, uma rara foto do interior da sala e reconstituição da fachada original, em 1959) viveu nas décadas de 1970 e 1980, o seu auge como sala de espetáculos. Contudo, o Cinerama original foi uma novidade que teve curta duração e a técnica se mostrou inadequada para produções que não fossem documentários. 



O antigo sistema de três projetores, exibindo cada um deles uma terça parte do filme, deixou de ser novidade e as películas nesse formato não foram mais produzidas. A opção dos grandes estúdios se fixou no desenvolvimento de outras técnicas de projeção panorâmica, inicialmente o Cinemascope, depois o VistaVision, o Technirama 70 milímetros e, finalmente, o Panavision (o mais utilizado). Na verdade, a transformação da antiga película de bitola (largura) de 35 para 70 milímetros produzia um resultado semelhante ao do antigo Cinerama, no mesmo tamanho de tela com 146º de curvatura, como no caso do filme "Uma Batalha no Inferno" (The Battle of the Budge, 1966, cujo anúncio de exibição no Comodoro aparece na imagem acima). Para este último filme a propaganda avisava que a película seria exibida sem as emendas que caracterizavam a projeção no sistema do antigo Cinerama. Por sua vez, a marca registrada Cinerama continuou sendo utilizada nas salas de espetáculos, inclusive no cine Comodoro. Mesmo os filmes clássicos, como "...E o vento levou", "Os Dez Mandamentos", "Ben-Hur" e "Doutor Jivago" tiveram cópias novas feitas no formato 70 mm. 
No início da década de 1960, tudo indicava que o mesmo problema gerado pela concorrência da televisão nos Estados Unidos estava ocorrendo também no Brasil. Uma pesquisa divulgada pelo jornal "O Estado de S. Paulo", na edição do dia 18.07.1965, mostrou que a frequência aos cinemas estava deixando de acompanhar o crescimento populacional da capital paulista. Os dados abrangiam um período de 19 anos. Em 1956, o público dos cinemas atingiu o número recorde de 58.715.965 espectadores para uma população de 3.037.309 habitantes na cidade. Contudo, em 1963, sendo a população paulistana de 4.329.212 habitantes, o número de frequentadores caiu para 40.402.640. O preço dos ingressos foi descartado como fator responsável por essa queda de público, uma vez que os mesmos tiveram reajustes inferiores ao do salário mínimo. A televisão foi apontada como sendo a maior responsável.
A comodidade de ficar em casa, de ter simultaneamente várias opções de programas e a exibição de filmes dublados eram vantagens apontadas para a opção pela televisão. Devemos destacar que, até a década de 1960, parcela ainda considerável da população era mal alfabetizada e tinha dificuldades para a leitura das legendas dos filmes. Além disso, a maior facilidade que as pessoas tinham para viajar nos finais de semana (o uso mais frequente do automóvel) e o futebol, também eram apontados, em menor grau, como fatores que contribuíam para essa queda de público.



Por outro lado, isso parece não ter afetado algumas salas de exibição, entre elas o cine Comodoro. Além do atrativo da tela panorâmica, a sala era equipada com som estereofônico de excelente qualidade. Em função disso, o Comodoro foi escolhido para sediar a exibição quinzenal dos "Concertos Audiovisuais" promovidos pela Juventude Musical de São Paulo, entre os meses de setembro e outubro de 1968. A iniciativa buscava atrair o público jovem, formado por estudantes do ensino médio e universitários, para a musica erudita. Obras de Bach, Mozart, Brahms e Villa-Lobos, entre outras, poderiam ser ouvidas em gravações das grandes orquestras do mundo, com acompanhamento visual de imagens projetadas em slides no telão do Comodoro e que foram preparadas por uma equipe de jovens artistas plásticos, entre os quais, Fabio Magalhães, Carmela Gross e Marcelo Nitzche. Filas chegaram a se formar no quarteirão onde se localizava o cinema, na avenida São João, centro de São Paulo, para a exibição do evento, que teve início em 29.09.1968 (como mostra o anúncio acima). Além do espetáculo audiovisual, a Orquestra Sinfônica Jovem da Prefeitura realizou um ensaio aberto ao público no cinema. 
Além desse evento, registramos que em abril de 1969, o cine Comodoro exibiu uma fita soviética, "Anna Karenina" (União Soviética, 1967), que contou com a participação de uma das estrelas do Balé Bolshoi: Maya Plissetskaya. No ano de 1972 outro filme soviético foi exibido na sala, o documentário "O Circo do Século". Os dois filmes vieram com cópias em 70 mm em plena época da Guerra Fria. 


O público da década de 1970, como este blogueiro, que assistiu a exibição de "2001: Uma Odisseia no Espaço" (2001: A Space Odissey, 1968) do diretor Stanley Kubrick, no Comodoro, sabia da qualidade do som daquela sala para a exibição de filmes que tivessem como destaque a trilha sonora. Entre 1971 e 1972, a sala exibiu o filme "Elvis é Assim" (That's the Way It Is de 1970) que mostrava a abertura de uma temporada do conhecido astro do rock em Las Vegas. O anúncio, publicado nos jornais da época (imagem acima) utilizava uma expressão típica dos tempos da Jovem Guarda no Brasil: "Elvis mandando brasa como nunca". Em 1978, o Comodoro exibiu, com exclusividade, o filme "Grease, nos Tempos da Brilhantina" (Grease, 1978) com o então astro das discotecas John Travolta.



No início da década de 1970, o Comodoro viveu o seu grande momento de público e prestígio, com os antigos filmes de Hollywood com cópias novas em 70 mm, som estereofônico e a onda dos filmes de catástrofe, como as películas da série Aeroporto (o Comodoro exibiu Airport 1975 e Airport 1977), Pânico na Multidão (Two-Minute Warning de 1977), Vôo 502: em Perigo (Skyjacked, 1972) e o que mais tempo permaneceu em cartaz nessa época: "Terremoto" (nas imagens acima, podemos ver os anúncios de "Pânico na Multidão" e "Vôo 502: em Perigo").



Para a exibição do filme catástrofe "Terremoto"(na imagem acima, o anúncio divulgando a estréia da película no Comodoro), o estúdio Universal desenvolveu um novo sistema sonoro: o Sensurround. O termo é o resultado da junção de duas palavras: sense de sensibilidade e surround de envolvimento. 


O Sensurround permitia ao espectador a sensação de estar em meio a um terremoto (pelo menos era o que o material de propaganda prometia), em função dos efeitos sonoros de baixa frequência e das vibrações no ar proporcionadas por 14 caixas acústicas e mais 4 amplificadores que eram controlados por uma espécie de "mini-computador" (na foto acima, os amplificadores do Sensurround). 


O novo sistema de som (no fotograma acima, o aviso que antecedia a exibição de um filme que utilizasse o Sensurround) tornou-se a grande novidade surgida na década de 1970, para mais uma vez atrair as plateias pelo envolvimento com o espetáculo cinematográfico. Apesar das advertências com relação às "reações físicas ou emocionais" que o espectador poderia ter, em termos práticos, o Sensurround não chegava sequer a ameaçar a estabilidade de um saco de pipocas.


Contudo, quando o primeiro teste do Sensurround foi feito no cine Comodoro, com a aparelhagem ainda desregulada, numa madrugada de julho de 1975, muitos vizinhos do cinema saíram às ruas com as roupas de dormir, imaginando que o edifício estivesse caindo. Em função desse incidente, fiscais da Prefeitura Municipal de São Paulo ficaram por quase um mês, medindo os decibéis nos apartamentos do edifício Lucerna A, o mesmo do cine Comodoro. Em uma primeira avaliação chegou-se a cogitar da interdição do cinema para a exibição do filme "Terremoto" (no fotograma acima, uma cena do filme). Contudo, outras medições feitas por engenheiros da Prefeitura, munidos de decibelímetros (aparelho para a medição dos decibéis) acabaram dando um parecer favorável à exibição da fita. Uma matéria publicada no jornal "O Estado de S. Paulo", em 31.07.1975, lembrava que a lei municipal 8.106, de agosto de 1974, determinava a proibição do uso de alto falantes e demais aparelhos sonoros que se fizessem ouvir fora do recinto onde os mesmos se encontravam, não importando a quantidade de decibéis. Para o fiscal da Prefeitura, Moacyr Pupo Ferreira e para o proprietário do cine Comodoro, Paulo Sá Pinto, os ruídos produzidos pelo filme estavam abaixo do esperado e não muito diferentes do que se ouvia no trânsito. Testes realizados dentro da sala durante a exibição experimental de "Terremoto", sem os ajustes no volume, registraram 105 decibéis, equivalente a um grande congestionamento, onde todas as buzinas estivessem tocando de forma simultânea. 
Apesar das restrições da citada lei, a conclusão foi de que o filme podia ser exibido com 66 decibéis durante o dia e 54 à noite. Não haveria a sessão da meia noite e por isso o filme começava a ser exibido às 10h45 da manhã. A aparelhagem foi toda ajustada para obedecer a esses limites. Para se ter uma ideia da intensidade dos decibéis já ajustados do Sensurround, tratava-se de um barulho inferior ao da avenida São João (onde estava localizado o Comodoro) no horário do rush, o qual alcançava 85 decibéis. 


Apesar disso, como medida preventiva, a Prefeitura de São Paulo pediu ajuda à Polícia Militar e ao Corpo de Bombeiros, que ficariam a postos na manhã de estréia do filme, no dia 03.09.1975, uma vez que os espectadores poderiam ter a mesma sensação dos moradores do Lucerna, quando o teste foi realizado pela primeira vez (na foto acima, a fachada do cine Comodoro em 1975, durante a exibição de "Terremoto").


"Terremoto" foi um grande êxito de bilheteria, permanecendo por mais de sete meses em cartaz no Comodoro. Isso mesmo, mais de sete meses em cartaz na mesma sala, de forma ininterrupta (como mostra o anúncio acima)! Algo absolutamente impensável para os dias de hoje. 
Além do filme "Terremoto", o sistema Sensurround foi utilizado em outras três produções dos estúdios Universal: a "Batalha de Midway" (Midway, 1976), Terror na Montanha Russa (Rollercoaster, 1977) e "Galactica: Astronave de Combate" (Battlestar Galactica, 1978). Desses, apenas "Terror na Montanha Russa" foi exibido no Comodoro, em 1978. Esses filmes, do ponto de vista da arte cinematográfica, eram pouco representativos, atraindo as plateias mais em função dos efeitos especiais. Por isso, nenhum deles ficou nos registros dos grandes clássicos do cinema.



Isso não significava que o Comodoro não tivesse exibido outras películas mais representativas da sétima arte, como por exemplo, "...E o vento levou" (Gone With the Wind, 1939, na imagem acima o anúncio do filme), Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1963), "Jesus Cristo Superstar" (idem, 1973), "A Filha de Ryan" (Ryan's Daughter, 1970) e o já citado "2001: Uma odisséia no Espaço".



Também tivemos bons lançamentos, como "A Ilha do Adeus" (Islands in the Stream, 1977), tida como a melhor adaptação de uma obra de Ernest Hemingway para o cinema (na imagem acima, anúncio do filme). 
Em 1979, a sala passou por uma reforma e continuou a exibir películas no formato 70 mm. No início da década de 1980, o Comodoro viveu os seus últimos dias de glória em meio à deterioração do centro de São Paulo. O público do cinema, que já vinha diminuindo desde a década de 1960, caiu ainda mais com a expansão dos shoppings centers e da segurança que estes proporcionavam à classe média, que continuou a frequentar cinemas. Mas o Comodoro sobreviveu por mais de uma década até sucumbir diante do esvaziamento dos antigos cinemas de rua. É o que veremos na ultima parte desta postagem......
Crédito das imagens:
Logo do Comodoro: anúncio publicado no "Jornal da Tarde" no ano de 1977 (sem registro do dia). Acervo do autor.
Fachada original: Pinterest. 
Foto do interior do cine Comodoro: blog Salas de Cinema de São Paulo.
Anúncio do filme "Uma Batalha no Inferno": 
cinescopiotv.com/2014/06/24/cinerama-antigo-pouco-conhecido-formato-cinematografico. 
Anúncios "Musica em som cinerama" e do filme "Elvis é Assim": jornal "O Estado de S. Paulo", edições de 21.09.1968 e 19.12.1971, respectivamente.
Anúncio do filme "Pânico na Multidão": "Jornal da Tarde", de uma edição de 1977, sem registro da data. Acervo do autor.
Anúncio do filme "Vôo 502: em Perigo". Jornal "O Estado de S. Paulo" sem registro de data. Acervo do autor.
Anúncio de estréia do filme "Terremoto": jornal "Diário Popular", edição de 02.09.1975. Acervo do autor.
Fotos do amplificador Sensurround, do logo do sistema e cena do filme "Terremoto": fotogramas do documentário "Sounds of Midway", produzido pela Universal Studios, 2001.
Fachada do cine Comodoro em 1975: blog Salas de Cinema de São Paulo.
Anúncio da 35ª semana do filme "Terremoto": "Jornal da Tarde", edição de 1975. Acervo do autor.
Anúncio do filme "E o Vento Levou": Jornal "O Estado de S. Paulo", sem data registrada. Acervo do autor. 
Anuncio do filme "A Ilha do Adeus": Jornal "O Estado de S. Paulo", sem data registrada. Acervo do autor. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Anúncio Antigo 35: Volkswagen SP2



Um carro esporte concebido no Brasil pela conhecida montadora alemã, a qual, devemos lembrar, nasceu dos sonhos da ditadura totalitária de Adolf Hitler, de que todo cidadão alemão deveria ter o seu automóvel. Daí veio o nome do modelo destinado a esse fim: Volkswagen ou carro do povo, em uma tradução literal. Após a Segunda Guerra Mundial, o conhecido "fusquinha" ganhou o mundo e, sobretudo, caiu nas graças dos brasileiros. A imagem da fábrica alemã se firmou no Brasil em torno desse modelo, simples e de fácil manutenção, originalmente projetado por Ferdinand Porsche, que depois emprestou o seu sobrenome aos automóveis esportivos e de grande desempenho.
Mas, no início da década de 1970, a Volkswagen do Brasil resolveu investir em um modelo voltado para o público que buscava um carro esportivo, diferente dos veículos mais robustos e econômicos que a fábrica havia apresentado até aquela época. O Karmann Ghia não era tido, de fato, como um modelo verdadeiramente esportivo e a fábrica resolveu apostar em algo novo. Daí surgiu o projeto do SP2 (na imagem acima, anúncio de lançamento do modelo). Até hoje, existe uma controvérsia a respeito do significado da sigla SP. Para alguns seria "Sport Protótipo" e outros defendem que significava simplesmente São Paulo, em alusão à localização da fábrica, no município de São Bernardo do Campo, no Estado de São Paulo. 



Entre as montadoras que estavam instaladas no Brasil, a Volkswagen era a que mais concedia autonomia para a sua subsidiária, inclusive no que dizia respeito a pequenas alterações no desenho dos modelos fabricados aqui. Em 1969 chegou ao ponto de permitir a produção de um automóvel totalmente concebido no Brasil, exatamente o SP-2 (na foto acima, a parte dianteira do veículo).


Contudo, existem informações de que o presidente da Volkswagen brasileira desde 1967, Rudolf Leiding, teria ouvido em uma conversa, a afirmação de que a fábrica alemã não tinha capacidade para produzir um carro igual ao Puma GT 1500, com uma carroceria feita de plástico e reforçada com fibra de vidro. O SP2 foi a resposta a esse desafio (na imagem acima, a lateral e a traseira do SP2). 


Existe ainda uma outra versão. O motivo da irritação de Leiding foi o fato da Ditadura Militar ter imposto à montadora alemã a obrigação de dar suporte técnico e mecânico (inclusive o motor) à fabricante nacional Puma (na imagem acima, o modelo mais conhecido da fábrica, o Puma GTS versão Spider, em um processo de restauro, em Itu, interior de São Paulo). Comentava-se que um dos sócios da Puma, Luiz Roberto Alves da Costa, era influente no Governo Federal e também junto ao presidente, o marechal Arthur da Costa e Silva (que governou de 1967 a 1969). De qualquer forma, Rudolf Leiding deu sinal verde para o desenvolvimento da ideia de um carro esportivo para a sua equipe de projetistas. A proposta do desenho, que foi a característica marcante do SP2, foi feita pela equipe de desenhistas encabeçada por Márcio Piancastelli e teria sido inspirada em um projeto italiano, o do Chevrolet Corvair Testudo, com motor traseiro.
A ideia inicial era lançar duas versões: o SP1 e o SP2. O SP1 era uma versão básica, do qual foram produzidos apenas 168 unidades, sendo em razão disso, um item raro entre os colecionadores de hoje. O seu motor tinha apenas 1.584 cm³ com 54 cavalos de potência, igual ao da perua Variant, sendo inferior aos 1.679 cm³ e 65 cavalos de força do seu "irmão maior", o SP2. Para a época, era uma boa potência para os veículos fabricados no Brasil (os importados eram raríssimos), embora hoje um automóvel de mil cilindradas consiga a mesma perfomance, com a velocidade máxima de 154 km/hora, a mesma do SP2.


Lançado no final de 1972 e apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo, ainda naquele ano, representou uma grande novidade no mercado automotivo do país. O mentor do projeto, Rudolf Leiding já havia retornado para a Alemanha para assumir a direção da Audi, outra subsidiária da Volkswagen, e em função da troca na direção da empresa, o lançamento sofreu um atraso. No final de 1972, quando o carro foi apresentado, chamou a atenção da imprensa especializada, com o seu interior requintado e um acabamento superior à média dos veículos fabricados no Brasil, naquele momento. O SP2 tinha bancos de couro opcionais e um painel com muitos instrumentos (imagem acima), podendo sair de fábrica já equipado com o rádio.


Contudo, o modelo não conseguiu superar o seu maior rival, o Puma, em termos de desempenho. Isto por uma razão simples, apesar do motor ser o mesmo, o Puma era feito em fibra de vidro, muito mais leve do que o aço que era empregado no SP2. Tal diferença de desempenho acabou dando margem a uma piada maldosa de que, na verdade, SP significava "Sem Potência". A relação desempenho e preço também não era boa, pois pelo mesmo valor desse veículo era possível adquirir dois "Fuscas" 1.300. Dessa forma, o SP2 saiu de linha no final de 1975. A produção total do SP2 alcançou 10.207 unidades, algumas das quais foram exportadas para a Europa. Hoje, o carro é muito valorizado entre os colecionadores (na foto acima, uma maquete do modelo de 1973). A montadora chegou a cogitar na possibilidade de continuar a produção do modelo, tentando resolver o seu principal problema enquanto veículo esportivo: o do desempenho. Um motor 1.8 (o mesmo do Passat TS) seria instalado e o modelo passaria a se chamar SP3. Contudo, os custos elevados para a colocação dessa versão em uma linha de produção levaram a montadora a abortar o projeto e, assim, o SP2 encerrou definitivamente a sua história.
Uma outra piada era contada entre os meus colegas de escola, no meu já distante ginásio da primeira metade da década de 1970:
- Você veio para a escola de carro ou de ônibus? Resposta:
- Eu vim de "S Pé dois".....
O Anúncio Antigo de hoje, veiculado no final do ano de 1972, está reproduzido na coleção "Carros Inesquecíveis do Brasil" da editora Altaya, fascículo correspondente ao Volkswagen SP2, bem como as fotos do veículo e de seu painel. 
Um agradecimento especial ao meu amigo e comentarista de Fórmula 1, Wilton Sturn, por ter disponibilizado a foto de seu Puma GTS Spider 1978, de sua coleção particular.
A maquete do SP2 pertence ao acervo deste autor. 




domingo, 29 de março de 2015

Imagens Históricas 17: Avenida São João




"Alguma coisa acontece" quando vemos estas fotos antigas da cidade de São Paulo, registradas até a década de 1950. A intensa vida noturna e o movimento de pessoas, mesmo após o horário comercial, isto é, depois das 18 horas, se destacavam na paisagem urbana. Com a tradicional avenida São João, no centro da capital paulista, não era diferente. Este cenário boêmio inspirou canções como "A Volta do Boêmio", de Adelino Moreira, consagrada na voz de Nelson Gonçalves, "Ronda" de Paulo Vanzolini e, mais recentemente (mas não tanto), "Sampa" de Caetano Veloso. 
De qualquer forma, era o chamado "centrão" de São Paulo, sem o toque de recolher informalmente implantado na capital paulista nas últimas três décadas, com o abandono dessa área pelos antigos moradores e comerciantes. A depreciação do antigo centro fez com que o mesmo acabasse concentrando os grupos sociais mais marginalizados de nossa sociedade, como mendigos, drogados, menores abandonados, moradores de rua (os conhecidos "sem teto") e os traficantes e viciados da atual "cracolândia". A falta de uma atuação mais intensa do Poder Público na preservação dessa região e a especulação imobiliária, levaram ao abandono do "centro histórico", que deveria ter mais moradores, pois possui uma excelente infraestrutura urbana e de transportes. 
Por outro lado, São Paulo sempre foi uma cidade desigual, com os bairros mais "elegantes" ou de elite e os bairros operários, por abrigarem as antigas fábricas e as residências dos seus trabalhadores, que impulsionaram a industrialização brasileira no início do século XX, como o Brás, a Moóca e o Belenzinho. Contudo, tal desigualdade se fez aumentar em proporções inimagináveis para os que viviam na cidade, até a década de 1950. A chegada dos imigrantes europeus (italianos, espanhóis e portugueses) e depois dos nordestinos, ampliou ainda mais as áreas periféricas e as favelas. Foi o trabalho desses imigrantes que deu grandeza à cidade. 
De qualquer forma, eis uma foto de 1957, mostrando a citada avenida, vista a partir do ponto onde se localiza o edifício Altino Arantes, mais conhecido como o prédio do Banespa (antigo Banco do Estado de São Paulo, que já foi privatizado). A avenida São João, tendo do lado direito da foto, em segundo plano, o prédio dos Correios, podendo-se ver na sequência, uma parte das árvores do largo Paissandú. Até onde a avenida alcança, temos uma linha horizontal, exatamente no cruzamento com a avenida Ipiranga, que inspirou a célebre canção de Caetano Veloso. Neste ponto, tinha início a antiga Cinelândia, área de concentração das melhores salas de espetáculos da capital paulista, e talvez, do Brasil. 
A foto pertence ao acervo do Instituto Moreira Salles e o autor é desconhecido. Ah, os veículos dão um certo ar "novaiorquino" para a cena. Nessa época estávamos nos primórdios da chegada das fábricas de automóveis ao Brasil, durante o Governo Juscelino Kubitschek e, em razão disso, predominavam os veículos importados dos Estados Unidos. 
A Imagem Histórica de hoje está publicada no livro "Cotidiano: um dia na vida de brasileiros", da Coleção Folha:"Fotos Antigas do Brasil", volume 11, página 25, de 2012. 

sábado, 21 de março de 2015

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sexta-feira, 20 de março de 2015

Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal




O homem que tentou restabelecer a grandeza de Portugal e reposicionar o país no contexto político e econômico da Europa, na segunda metade do século XVIII. Sebastião José de Carvalho e Melo ou Marquês de Pombal (imagem acima, em um quadro de 1770) foi uma figura-chave na história portuguesa e, por conseguinte do Brasil, entre os anos de 1750 e 1777, quando recebeu "carta branca" do rei Dom José I para administrar o Estado Português. Uma espécie de primeiro-ministro, embora Portugal fosse uma monarquia ao estilo absolutista. Mas, neste caso, o ministro foi mais absolutista do que o rei. 



Nascido no ano de 1699, em Lisboa (na imagem acima, a capital portuguesa, antes do terremoto de 1755), originário de uma família de fidalgos ou baixa nobreza, que havia se destacado por ter, entre os seus membros, indivíduos que atuaram junto ao Estado Português na condição de soldados, sacerdotes e funcionários públicos, que serviram nos mais distantes pontos do império colonial lusitano. Por exemplo, seu pai, Manuel de Carvalho e Ataíde, prestou serviços na Marinha e no Exército, tornando-se oficial de cavalaria da corte portuguesa. O tio de Pombal, o sacerdote Paulo de Carvalho e Ataíde, foi professor da Universidade de Coimbra e tinha muitas propriedades em Lisboa e em Oeiras, nas proximidades da capital portuguesa. Tais bens foram herdados por Pombal. 



Em Oeiras, Pombal veio a construir uma casa de campo (imagem acima) e ainda adquiriu terras para a plantação de uvas. Por isso, antes de se tornar marquês, Pombal recebeu o título de Conde de Oeiras em 1759, já na função de ministro plenipotenciário (com plenos poderes) do rei. Pombal era o filho mais velho em um total de doze, dos quais quatro morreram ainda jovens. Dois irmãos tornaram-se colaboradores diretos do futuro ministro, um dos quais foi Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1769) que veio a se tornar governador e capitão-geral do Grão-Pará e Maranhão, que compreendia toda a área do vale do rio Amazonas. 
Após a morte do pai, Sebastião José de Carvalho e Melo se retirou para uma propriedade familiar em Pombal, no centro de Portugal, em 1723. Foi nessa época que se casou com a viúva Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, que o ligou à alta nobreza, apesar da família da mulher não ter aceito bem a união. Com a morte da esposa, Pombal casou-se pela segunda vez, em 1746, com Maria Leonor Ernestina Daun, de origem austríaca, com a qual teve cinco filhos. Esse casamento ocorreu na época em que Pombal serviu como diplomata na corte austríaca e a união recebeu as bençãos da imperatriz Maria Teresa. Para combinar com esse casamento, devemos lembrar que a rainha de Portugal, na época, era também de origem austríaca. Um detalhe importante a ser mencionado na carreira administrativa de Pombal foi o fato de ter servido em Londres, na corte de St. James, como representante do rei de Portugal, entre 1739 e 1743. Nessa época, Pombal viu de perto as circunstâncias que estavam transformando a Inglaterra em uma grande potência econômica: as suas fábricas. 



Durante a enfermidade de D. João V, rei português, Pombal foi chamado de volta a Lisboa para cuidar dos assuntos de Estado, na transição para o reinado de D. José I (imagem acima), que chegou ao poder em 1750. O novo rei dedicava grande parte de seu tempo livre à caça e ao gosto pela ópera. Daí a presença de Pombal ser importante para gerir os assuntos governamentais e administrativos. A permanência de Pombal como ministro de D. José I coincidiu exatamente com o reinado deste, entre 1750 e 1777. 
Ao caro leitor, devemos contextualizar melhor o período de Pombal. O século XVIII foi a época em que tiveram início as criticas às estruturas que compunham aquilo que ficou conhecido como Antigo Regime, cujas características básicas eram a monarquia absolutista, os privilégios ostentados pela nobreza e pelo clero provenientes da era feudal e a interferência do Estado no processo econômico, chamada depois pelos historiadores de mercantilismo. Tais criticas vieram do movimento filosófico conhecido como Ilustração ou Iluminismo. 
Necessário lembrar que o pensamento iluminista, ao contrário do que parece, não formava uma corrente filosófica homogênea, uma vez que os filósofos que dela fizeram parte criticavam aspectos do Antigo Regime, sendo que alguns propunham, em termos concretos, uma reforma do mesmo, como a tese de limitar o poder do rei por meio de uma Constituição. Contudo, as ideias de Montesquieu, Voltaire e Rousseau foram apropriadas de acordo com as circunstâncias de cada país ou território, fossem esses metrópoles europeias ou as colônias de ultramar. Neste último caso, a enfase na questão do direito à liberdade e a não interferência do Estado na atividade produtiva ganhou maior destaque. 



Nesse contexto, Pombal (no quadro acima, pintado em 1769) foi uma figura ímpar. Um ministro, associado ao Antigo Regime de teor absolutista, mas que, em termos práticos, aplicou ideias provenientes da Ilustração, como tentar diminuir a influência política do clero e modernizar o processo produtivo de Portugal, estimulando a abertura de manufaturas e fábricas. Algo ainda mais interessante, tentar introduzir essas mudanças também nas colônias. Contudo, em muitos aspectos, o ideário mercantilista de fortalecimento da economia nacional, ainda predominava. Por isso, a figura de Pombal pode ser caracterizada dentro daquilo que ficou conhecido como reformismo ilustrado ou despotismo esclarecido
No quadro da situação política da Europa, Portugal se encontrava em uma posição perigosa em relação à Espanha e à sua aliada, a França, as quais ameaçavam a própria soberania da monarquia portuguesa. Por outro lado, em troca de muitos favores econômicos, Portugal contava com o apoio da Inglaterra, praticamente desde o fim da União Ibérica (ou Domínio Espanhol) em 1640. A economia de Portugal estava submetida aos ditames do Tratado de Methuen (1703), pelo qual os ingleses adquiriam, de forma preferencial, o vinho português (o tradicional e conhecido vinho do Porto), enquanto os portugueses importavam os panos de lã ingleses. Tal situação levou Portugal a ter uma balança comercial deficitária (importava mais do que exportava), a qual, em parte, foi coberta com o ouro explorado nas minas do Brasil.


Mas, voltemos ao nosso Marquês de Pombal. Já na condição de ministro plenipotenciário, Pombal procurou colocar em prática os acertos provenientes do Tratado de Madri (1750) com a Espanha, que praticamente garantiram aos portugueses a posse de grande parte do que hoje é a Amazônia e o Centro-Oeste do Brasil, extinguindo o antigo Tratado de Tordesilhas do tempo da Expansão Marítima. Contudo, restava um obstáculo à concretização da autoridade portuguesa nesses territórios: a Companhia de Jesus. O controle que a mesma exercia sobre as populações indígenas no sul do Brasil e em torno da bacia do rio Amazonas (na imagem acima, um mapa do rio Amazonas e de seus afluentes, feito por volta do ano de 1700), tornaram essa ordem religiosa muito poderosa e rica, explorando produtos, como as drogas do sertão (cacau, cravo e canela) e criando gado, como no caso da ilha do Marajó. Tais produtos e as propriedades dos jesuítas gozavam de isenções tributárias, o que contrariava os interesses do Estado Português e dos colonos, que não podiam recorrer à mão de obra do índio ou escraviza-los, por sofreram forte oposição dos religiosos. Foi então que Pombal decidiu expulsar os jesuítas de Portugal e de todas as suas colônias, inclusive com o confisco das suas propriedades. Ao mesmo tempo, os índios não ficaram mais submetidos à tutela dos jesuítas, os quais, embora interferissem na cultura dos mesmos, protegiam os nativos da exploração escravista promovida pelos brancos. A proposta de Pombal era de estimular a miscigenação dos portugueses com os índios, a fim de efetivar o povoamento da colônia. 



A saída dos jesuítas gerou um prejuízo na educação, uma vez que muitos professores eram ligados a essa ordem religiosa. Para compensar essa falta de professores, Pombal empreendeu algumas reformas na educação, a mais importante delas na Universidade de Coimbra, a partir de 1760. O objetivo era colocar a educação sob o controle do Estado e padronizar o currículo. A escola deveria preparar indivíduos para exercerem funções na administração e na burocracia do governo. As ciências naturais, a matemática, a medicina (com a introdução dos estudos de anatomia por meio da dissecação de cadáveres, antes proibido pela Igreja) ganharam destaque na reforma (no desenho acima, projeto arquitetônico para o laboratório de química da universidade). 
Para estabelecer um controle mais rigoroso do comércio com a colônia e promover o combate ao contrabando, atendendo aos conselhos de seu irmão, Mendonça Furtado, Pombal criou duas companhias de comércio: a do Grão-Pará e Maranhão e a Companhia Geral de Comércio de Pernambuco e Paraíba. Essas companhias teriam o monopólio no fornecimento de escravos e produtos para a colônia e de adquirir a produção local. No Grão-Pará e Maranhão a produção de cacau, arroz e algodão ganhou um grande estímulo.


No século XVIII o Brasil viveu o conhecido ciclo da mineração no Centro-Sul da colônia, principalmente em Minas Gerais (na gravura acima, de Rugendas, lavagem do ouro nas proximidades de Ouro Preto). Portugal encontrou na sua mais importante colônia um recurso fundamental para poder manter o seu comércio externo, principalmente com a Inglaterra. Contudo, boa parte do ouro que saia do Brasil era contrabandeado. Visando sanar esses desvios, várias medidas administrativas foram colocadas em prática, entre elas, a transferência da sede da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763. Coube também ao Marquês de Pombal o estabelecimento da cota mínima de 100 arrobas de ouro (algo em torno de 1,5 tonelada) que o Brasil deveria enviar anualmente a Portugal, correspondente a todos os impostos sobre esse minério. Caso essa soma não fosse alcançada, poderia ser decretada uma derrama (confisco de bens) para completar a cota. Ao mesmo tempo, a Coroa Portuguesa assumiu o controle direto da extração de diamantes no Distrito Diamantífero (atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais). Uma polícia militar, a Guarda dos Dragões (da qual fez parte o alferes Joaquim José da Silva Xavier) deveria fiscalizar os caminhos do ouro na região das minas. 


Em 1755, a administração do Marquês de Pombal teve de enfrentar uma grande catástrofe: o terremoto de Lisboa. No dia 1º de novembro daquele ano, quando os portugueses celebravam o Dia de Todos os Santos, às nove e meia da manhã, o abalo começou. De acordo com o relato do cônsul britânico Edward Hay, o terremoto destruiu grande parte da cidade e foi seguido por incêndios, que chegaram a durar quase uma semana (como mostra a gravura acima, impressa poucos anos após o tremor). O terremoto atingiu os pontos mais importantes de Lisboa, como o cais, a alfândega e o palácio real. As águas do rio Tejo teriam se elevado de seis a nove metros no momento do terremoto, provocando inundações.


Trinta e cinco, das quarenta igrejas de Lisboa, desabaram, matando muitos fiéis que assistiam a missa na hora do abalo. Apenas três mil, das vinte mil casas da cidade, permaneceram habitáveis. Palácios e residências da aristocracia também foram atingidas, sendo que, em apenas uma delas, duzentas pinturas, incluindo um Rubens e um Ticiano, foram perdidas (na gravura acima, de 1757, as ruínas da Ópera de Lisboa). O cálculo do número de mortos não pode ser bem estabelecido, variando de no mínimo dez mil até quarenta mil. A família real encontrava-se fora da cidade e escapou da tragédia.


O rei D. José I viu no Marquês de Pombal, o único integrante de seu governo capaz de organizar e planejar a reconstrução da capital. E Pombal não decepcionou. O ministro reuniu os melhores engenheiros, topógrafos e arquitetos, todos de mentalidade prática, que fizeram de Lisboa uma cidade nova e planejada. Até mesmo edificações com estruturas que se adaptavam ao movimento da terra durante os abalos sísmicos, conhecidas como "gaiolas" (imagem acima), foram planejadas para os novos casarios. Sob influência das ideias científicas da Ilustração, esses técnicos deixaram bem claro que os terremotos eram eventos da natureza e que era preciso se precaver contra os mesmos. De acordo com o historiador inglês Kenneth Maxwell, a nova Lisboa de Pombal visava "celebrar a independência econômica nacional e um Estado moderno" para Portugal.
Mas, Pombal também criou inimigos na sociedade portuguesa. Ao privilegiar os comerciantes e capitalistas considerados mais aptos para defender os interesses econômicos nacionais, o ministro contrariou muitos daqueles que eram vinculados ao comércio externo com a Inglaterra. Ao enfrentar a Companhia de Jesus também sofreu oposição dos setores ligados a essa ordem religiosa. Aos olhos da aristocracia tradicional, Pombal era uma espécie de "novo rico" ou não pertencente à verdadeira nobreza de sangue. 



Em 1758, surgiu a oportunidade para Pombal agir com rigor contra os seus opositores e revelar a face absolutista do Estado Português. O rei D. José sofreu um atentado a tiros quando visitava a sua amante, que era esposa do Marquês Luís Bernardo de Távora. O ferimento foi sério, obrigando o rei a se afastar temporariamente do trono. Por dois meses, o governo silenciou sobre o ocorrido, até que tiveram início as prisões, sobretudo dos membros da família Távora: o duque de Aveiro e o conde de Atouguia. Os jesuítas foram colocados sob vigilância permanente por serem suspeitos de apoiarem a conspiração. Em janeiro de 1759 saiu a sentença, onde os condenados foram acusados pelo crime de lesa-majestade, traição e rebelião. O Duque de Aveiro foi condenado a ser despedaçado vivo, com os braços e pernas esmagados, depois queimado e tendo as suas cinzas jogadas ao mar (na imagem acima, execução do Duque de Aveiro). Com a punição aos Távora, que ocupavam posição de grande destaque na alta nobreza, Pombal procurava mostrar que ninguém estava acima das instituição monárquica. O caso teve repercussão em toda a Europa.



No Brasil, ao prestigiar a elite colonial e colocá-la à frente de importantes tarefas, como os contratos para arrecadação de impostos (uma espécie de "terceirização" desse serviço administrativo) viu o fortalecimento de um grupo social privilegiado que, posteriormente, iria contestar a própria autoridade portuguesa. Indivíduos como Joaquim Silvério dos Reis e João Rodrigues de Macedo (na foto acima, a imponente residência de Macedo, conhecida como Casa dos Contos, em Ouro Preto) tiveram envolvimento na Inconfidência Mineira, em 1788.
Na década de 1770, a administração pombalina começou a entrar em declínio. A situação econômica pouco favorável, com a diminuição da produção de ouro no Brasil, colaborou para isso. Contudo, a morte do rei D. José I, em 1777, encerrou a permanência de Pombal no poder. Os seus opositores (entre os quais, os britânicos e grande parte do clero conservador) acabaram se reunindo em torno da rainha D. Maria I e de seu ministro, Martinho de Melo e Castro, bem visto pelos ingleses. Muitos daqueles que trabalharam com Pombal foram destituídos. O ex-ministro teve que se retirar incógnito para o norte do país e, já com 80 anos, sofreu um processo movido pelo novo regime, ao qual se defendeu alegando ter obedecido ordens do rei, como no episódio da punição aos que praticaram o atentado. Enfermo e abandonado, embora não por todos, Sebastião José de Carvalho e Melo faleceu em 1782. 
Contudo, muitos dos grupos econômicos promovidos no período pombalino continuaram a prosperar, inclusive no Brasil, onde se criou uma contradição entre os interesses locais e as amarras do sistema colonial. Como afirma o historiador Fernando Novais, o colonialismo moderno, ao permitir o processo de acumulação de capital que desembocou na era industrial, não conseguiu conviver com esta, a qual necessitava de mercados abertos e do fim dos monopólios, exatamente o que Pombal havia tentado fortalecer em sua administração. Os movimentos emancipacionistas trouxeram essa contradição à tona. O colonialismo mercantilista entrava em crise.....
Para saber mais:
Marquês de Pombal: Paradoxo do Iluminismo. Autor: Kenneth Maxwell. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1996. 
Crédito das imagens: 
Foto da Casa dos Contos: Arte no Brasil. São Paulo: editora Abril, 1982, pag. 107.
Gravura de Rugendas mostrando a lavagem do ouro: Rugendas, publicação especial da empresa BYK, 1981. 
Mapa da Amazônia de 1700: Acervo Digital da Biblioteca Nacional.
Demais imagens: extraídas do livro do historiador Kenneth Maxwell, já citado.