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quinta-feira, 8 de março de 2018

Imagens Históricas 34: Dia Internacional da Mulher



As mulheres da foto acima atuaram como franc0-atiradoras no Exército Soviético e foram responsáveis pela morte de 775 integrantes do Exército Alemão. O leitor pode considerar isso algo um tanto quanto bárbaro e cruel. Mas imagine que a guerra estava entrando dentro de casa. Não havia outra alternativa a não ser lutar e defender o país contra inimigos, os quais inclusive, se consideravam racialmente superiores e praticavam o extermínio puro e simples dos demais. 
Em 8 de março lembramos o Dia Internacional da Mulher. É comum e plenamente justificado fazer a analogia da mulher contemporânea como uma guerreira, uma vez que as mesmas enfrentam obstáculos no cotidiano e no mundo do trabalho comparáveis aos de um campo de batalha. Infelizmente, as mulheres já viveram situações de maior participação social, exercendo atividades tidas como exclusivas dos homens. Um exemplo disso foi durante a Segunda Guerra Mundial ou Grande Guerra Patriótica (como os russos a chamam até hoje) e no pior momento da mesma em termos de perdas humanas: a invasão alemã à União Soviética. Sem o gigantesco esforço coletivo da população, os soviéticos não teriam conseguido repelir o ataque nazista, uma vez que Hitler havia assinado um acordo de não-agressão com Stalin pouco antes da guerra iniciar em setembro de 1939. De qualquer forma, a invasão por parte do Terceiro Reich (Império Alemão) era esperada para ocorrer em algum momento do conflito.
A grande mortandade, lembrando que a União Soviética foi o país que mais vítimas teve na Segunda Guerra Mundial (superando a marca dos 20 milhões) gerou escassez de mão de obra para as fábricas ao lado da necessidade de recrutar tropas para as linhas de combate, a fim de garantir a sustentação da defesa. Aproximadamente 1 milhão de mulheres foram arregimentadas nas Forças Armadas e destas 2 mil exerceram a atividade de franco-atiradoras, sendo responsáveis por mais de 12 mil mortes confirmadas, na grande maioria de oficiais do Reichswehr (Exército Alemão). Os comandantes soviéticos acreditavam que as mulheres tendiam a ser mais pacientes e cuidadosas, condições ideais para tal tipo de atividade. Como afirmou um oficial do Exército Vermelho: "a mão de uma mulher é mais sensível do que a de um homem. Portanto, quando uma mulher está atirando, seu dedo indicador puxa o gatilho de forma  mais suave e propositalmente."
As oficiais do Exercito Vermelho também receberam treinamento para adquirir habilidades de infiltração, vigilância, reconhecimento, camuflagem e localização dos alvos. Por falar em alvos, estes eram preferencialmente os comandantes e os oficiais alemães experientes, pois eram mais difíceis de serem substituídos. Por outro lado, à medida em que essas atiradoras começaram a demonstrar exito em seus ataques, a resposta alemã também tornou-se mais violenta, inclusive com eventuais prisioneiras que eram capturadas. Para se ter uma ideia dessa reação, das 2 mil oficiais atiradoras recrutadas para esse serviço, apenas 500 sobreviveram ao final da guerra. 


Uma dessas franco-atiradoras foi a ucraniana Lyudmila Pavlichenko (foto acima), sendo considerada a mais bem sucedida. Na verdade, Lyudmila já tinha experiência anterior na atividade em um clube de tiro na cidade de Kiev e ainda trabalhou como operária em fábrica de armamentos. Em 1937 entrou na Universidade de Kiev para estudar história e estava no quarto ano quando teve início o ataque nazista, tendo em seguida se alistado como voluntária. Ao ser integrada ao 25º Exército Vermelho na divisão de infantaria, Lyudmila teve a opção de trabalhar como enfermeira, mas escolheu atuar diretamente nas frentes de combate. Em função de seus conhecimentos de tiro tornou-se uma das 2 mil atiradoras de elite do sexo feminino do Exército Vermelho. Atuou na região do Mar Negro, em Odessa (onde contabilizou 187 mortes) e na Península da Crimeia (porto de Sebastopol). Em maio de 1942 foi condecorada por ter eliminado 257 alemães, entre soldados e oficiais. Até ser ferida em combate em junho de 1942, Lyudmila Pavlichenko foi responsável pela eliminação de 309 alemães em território soviético. A atiradora costumava atuar adiante de sua unidade, acompanhada de um observador, chegando a permanecer imóvel por até 18 horas seguidas a fim de obter o momento preciso para o tiro! 


Após sofrer ferimentos, Lyudmila Pavlichenko (foto acima carregando uma arma) permaneceu em recuperação por mais de um mês e, em seguida, foi enviada para a América do Norte para realizar visitas em nome do governo soviético. Naquele momento, Estados Unidos e União Soviética somavam esforços para deter o avanço dos nazistas na Europa e dos japoneses na Ásia. Lyudmila tornou-se uma garota-propaganda do regime comunista em território ianque, sendo a primeira cidadã soviética a ser recebida pelo presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt e pela primeira-dama Eleanor Roosevelt. A conhecida atiradora ainda realizou viagens pelo interior da América relatando a sua experiência, ganhando de presente uma pistola da marca Colt semi-automática e um rifle Winchester, armas muito conhecidas nos tempos da conquista do Velho Oeste. De volta à União Soviética, Lyudmila foi promovida a major, passou a treinar outras atiradoras (e atiradores também) e nunca mais precisou entrar em combate. 


Em 1943 foi agraciada com a Estrela de Ouro de Heroína da União Soviética, tendo a sua imagem estampada em um selo comemorativo (imagem acima). Após o fim da guerra, Lyudmila Pavlichenko retomou os seus estudos na Universidade de Kiev, formando-se historiadora. Entre 1945 e 1953 ainda atuou como assistente de pesquisa da Marinha Soviética. Lyudmila faleceu em 1974, aos 58 anos de idade e está enterrada em Moscou. 


Conta-se que durante a visita aos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt teria perguntado a Lyudmila Pavlichenko (na foto acima de 1942) quantos homens ela matou na guerra e esta respondeu:
- Não eram homens, eram fascistas!

Crédito das imagens:
Foto das franco-atiradoras juntas: Pinterest
Fotos de Lyudmila Pavlichenko:
http://darozhistoriamilitar.blogspot.com.br/2016/03/dia-internacional-da-mulher-historia-de.html
Foto do selo e da atiradora em 1942: Wikipédia. 

domingo, 4 de março de 2018

Leon Trotsky, Ramón Mercader e o amor aos cachorros...




Caro leitor, há pouco mais de um mês este blog fez uma postagem sobre a assassinato de Leon Trotsky, ex-integrante do governo soviético. Trata-se de um fato difícil para se indicar uma leitura específica, uma vez que a visão maniqueísta permeia de forma quase absoluta as considerações referentes a esse acontecimento. Como uma possível fonte sobre o episódio, me foi lembrada a obra do escritor cubano Leonardo Padura: "O Homem que Amava os Cachorros" (Editora Boitempo, 2013). Trata-se de um romance, algo que fica absolutamente claro já na própria capa do livro (na foto acima). Não fiz a apreciação da obra para compor a postagem, mas li o livro logo depois e acredito que pouco teria para ser acrescentado no que já está escrito e nas informações básicas a respeito desse triste episódio. Como dissemos, trata-se de um romance e no mesmo o autor pode se permitir certas liberdades ou alçar vôos, os quais seriam impróprios para quem exerce um trabalho de cunho eminentemente historiográfico.



Por outro lado, gostaria de fazer algumas observações sobre o livro de Leonardo Padura (foto acima), uma vez que na apresentação assinada por Frei Betto afirma-se que o mesmo "é e não é uma ficção". A respeito das qualidades literárias desse trabalho não há muito o que comentar, pois revela uma escrita bem construída e de grande qualidade, embora haja um certo exagero em qualifica-la como um thriller ou uma história policial (seria melhor como um romance de espionagem), até porque o seu desfecho já é bem conhecido, como também os personagens envolvidos. Por exemplo, para o leitor minimamente informado sobre o assunto é absolutamente previsível que o homem que levava os cachorros para passear na praia fosse Ramon Mercader, o assassino de Trotsky. Aqueles não familiarizados com o fato terão uma impressão absolutamente reveladora. Mas é exatamente aí que reside o problema. Esse público pode tomar a narrativa como sendo fiel aos acontecimentos. Muito dificilmente o leitor comum conseguirá ter o discernimento necessário para proceder a uma ponderação, a não ser que faça o confronto com outras leituras, outras falas, além de desenvolver uma pesquisa por seus próprios meios. 
Em geral, os grandes romances históricos, e aí penso em Marguerite Yourcenar, I. F. Stone ou Umberto Eco, preenchem determinadas lacunas que os historiadores, dependentes das fontes, ficam incapacitados em se aventurar, embora torne-se necessária a formatação do contexto, a fim de estabelecer o ambiente e o clima que permita inserir a narrativa. Nesse aspecto, Umberto Eco mostra-se um autor que domina totalmente o tema que trabalha e, mesmo tratando-se de uma ficção, a obra agrega uma contextualização histórica impecável. Algo como a micro-história também faz, embora com finalidades comprometidas com a pesquisa historiográfica, utilizando recursos e fontes muitas vezes desprezados pelos estudiosos da área. Como afirma Carlo Ginzburg, ficou para trás o tempo em que os historiadores trabalhavam apenas com documentos escritos. 



Por sua vez, a morte do ex-líder soviético Leon Trotsky (na foto acima, em 1940) ainda carrega um agravante, pois trata-se de um acontecimento inserido em uma controvérsia que dividiu (e divide) o movimento socialista internacional. Trabalhar com tal fato sem que a analise pareça pender para qualquer um dos lados, seja dos trotskistas ou dos estalinistas (ou ainda dos que se aproveitam dessa fratura para inviabilizar o projeto socialista) é algo extremamente difícil. Bem, mas a objetividade é a essência do trabalho do historiador, por meio do questionamento e de pautar a analise em bases sólidas, a fim de fundamentar um argumento. Nesse sentido, como compreender a obra em questão? Apenas como literatura? Mas a mesma estava sendo vendida nos encontros e simpósios para debater os cem anos da Revolução Russa como se fosse, de fato, um trabalho historiográfico. Nas redes sociais o livro de Padura é recomendado por professores e pesquisadores, como fonte de informação para entender os rumos da União Soviética e da sua própria formação. Nesse sentido, algumas questões necessitam ser observadas dentro desse trabalho.



Não é um ponto absolutamente confirmado que Ramon Mercader (nas fotos acima, sem data) tenha recebido as suas instruções e o seu preparo para a ação contra Trotsky na União Soviética. Alguns autores defendem que as mesmas poderiam ter sido realizadas na França. Mercader não possuía o perfil de um agente que apreendeu o treinamento mais sofisticado do Comintern  (Internacional Comunista), como o que recebeu por exemplo, Olga Benário, esposa de Luis Carlos Prestes. A mãe de Ramón, Caridad Mercader é apresentada como uma mulher cheia de rancor, e pouco afeita aos filhos, vistos apenas como instrumentos de seu ódio à sociedade capitalista. Há poucos elementos concretos para que se possa traçar um perfil psicológico dessa figura, uma revolucionária comunista convicta como milhares de outras que participaram da Guerra Civil Espanhola. O próprio livro de Padura lembrou outras mulheres com essa mesma característica, como por exemplo, Africa de las Heras e Dolores Ibárruri, conhecida como La Pasionaria. 



E Ramón Mercader? A princípio sempre esteve disposto a cumprir a missão que lhe foi oferecida, muito provavelmente sem os questionamentos ou crises de consciência tão enfatizados por Padura. Suas convicções eram as de um comunista ciente de que prestava um serviço inestimável ao governo soviético e à causa da luta em prol do socialismo. O que levou à sua morte? Uma criminosa contaminação por radioatividade? Suposições que não puderam e não poderão ser efetivamente confirmadas (na foto acima, Ramón Mercader em Cuba, em 1975). 
Trotsky incomodava com suas denúncias o governo soviético? Quanto a isso não há duvida, embora, como bem lembra o professor Gilberto Maringoni no prefácio da obra de Leonardo Padura, a sua influência fosse muito limitada no âmbito do movimento comunista internacional, o que ficou evidente no fracasso da sua tentativa de reunir a Quarta Internacional (para rivalizar com a Terceira Internacional fiel ao regime soviético). E aí reside o desastre que se constituiu para a esquerda a sua eliminação sob a benção de Stalin, bem como os expurgos promovidos por este a partir de 1936. Convém também interrogar a complacência do governo norte-americano e da mídia local com o ex-líder do Exército Vermelho, bem como o grande número de seus seguidores arregimentados nos Estados Unidos. Basta lembrar que muitos de seus guarda-costas eram norte-americanos, bem como aquela que foi responsável por apresentar Trotsky ao seu carrasco, a triste Sylvia Ageloff.
A crítica feroz de Trotsky contra Stalin pelo acordo de não-agressão assinado com Hitler em agosto de 1939, como prova de que o líder soviético traia a causa comunista, equipara-se em fragilidade à mesma crítica feita por Moscou de que Trotsky aliara-se aos nazistas para derrubar Stalin. Vale lembrar que as potências ocidentais, incluídas aí a Inglaterra e a França levavam a termo a sua política de apaziguamento, a fim de não provocar Hitler. As mesmas esperavam que o líder alemão fosse mover a sua máquina de guerra primeiramente contra a União Soviética e de que Stalin optou pelo acordo com o governo nazista depois de fracassadas as negociações similares com Londres e Paris.
O já citado prefácio de Gilberto Maringoni, o qual aliás, ao meu ver, não se alinha com as conclusões do autor da obra, acende algumas luzes dentro desse quadro absolutamente sinistro, necessário para os que pretendem escapar de um possível desencanto com a causa socialista. A subida de Stalin ao poder não se deu por alguma manobra ilícita ou "golpe de mão". Ele alcançou a posição de secretário-geral utilizando de forma legítima a estrutura do Partido Bolchevique (depois Partido Comunista), inclusive com o apoio de muitos daqueles que seriam os seus supostos opositores e posteriormente afastados. Além disso, a revolução internacional clamada por Trotsky mostrara-se uma impossibilidade no decorrer da década de 1920, o que levou teóricos como Bukharin a defender a industrialização e as medidas socializantes, como a coletivização da terra, o que deu origem à concepção do "socialismo em um só país". Trotsky interpretou tal diretriz como uma traição aos ideais revolucionários e o início de um processo de burocratização do Estado Soviético. Como afirma ainda Maringoni, Stalin não era um grande teórico, mas por outro lado, era "um tático excepcional" e obteve exito em isolar Trotsky juntamente com a chamada "oposição de esquerda". E o resto já sabemos. Cabe lembrar, como aliás fica claro no próprio livro de Leonardo Padura, que Leon Trotsky considerava a União Soviética como a grande fortaleza do socialismo proletário, apesar de Stalin.
Uma ultima observação sobre o "o Homem que Amava os Cachorros" insere-se na percepção do autor no que diz respeito à sua terra natal (Cuba), de um sentimento absolutamente negativo. O que nos leva a uma conclusão muito simples, o fracasso caberia muito mais à suposta utopia do socialismo do que ao estalinismo, dentro do foco proposto por Leonardo Padura. No que diz respeito a rejeição em relação às minorias, como no caso dos homossexuais, a mesma era presente em praticamente todo o mundo no início da década de 1970 (inclusive nas ditas democracias liberais) e não algo exclusivo do regime cubano, embora seja fundamental a lembrança desses eventos. A exclusão tão acentuada de autores e escritores contrários ao governo socialista afirmada no personagem Ivan, não é capaz de explicar o próprio Leonardo Padura, autor consagrado e premiado em seu próprio país. Mas explica os motivos que levaram a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) a elogiar e recomendar a leitura da obra em seu site, onde se encontra uma resenha do trabalho.
É um romance e o autor não o nega. A ressalva refere-se ao uso que se faz do mesmo, para além da esfera dos romances. Basta destacar que a atribuição do prefácio foi dada a um historiador e não a um crítico literário. Enfim, como o nosso blog costuma indicar, um livro para aqueles que querem saber mais, mas também questionar mais...
Crédito das imagens: 
Foto de Leonardo Padura: Wikipédia.
Foto de Trotsky em 1940 no México:
http://www.socialistamorena.com.br/leon-trotski-em-1930-o-perigo-fascista/
Ramón Mercader em foto sem data: 
http://murderpedia.org/male.M/m/mercader-ramon-photos.htm
Ramón Mercader em Cuba no ano de 1975:
http://www.elvigia.net/general/2015/8/19/asesino-fiel-208075.html

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Revista Leituras da História deste Mês




Caro leitor do blog História Mundi, estamos aqui para lembrar que continua nas bancas e livrarias a edição de março da revista Leituras da História, com duas matérias assinadas por nós, "Peripécias Brasileiras" sobre os artistas brasileiros que estiveram em contato com o cantor Elvis Presley e "Visão do Futuro?" a respeito do filme de ficção científica "No Mundo de 2020", um dos primeiros a tratar da possibilidade de uma catástrofe ambiental. Além desses dois temas, a revista proporciona artigos relacionados ao conhecimento histórico com referências à atualidade, proporcionando boas informações ao público em geral, como também aos estudantes dos Ensinos Fundamental, Médio e Pré-Vestibular. Não deixem de ler...

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Anúncio Antigo 52: calças U.S. Top



As calças U.S. Top surgiram na década de 1970 para competir com as similares importadas, sobretudo as norte-americanas Levi's e Lee. A vestimenta teve a sua origem na conquista do oeste norte-americano a partir da descoberta do ouro naquela região, na segunda metade do século XIX, sendo muito usada por garimpeiros e mineradores. A partir dos anos de 1960 tornou-se a roupa dos jovens nos países ocidentais e claro, tal influência desembarcou aqui no Brasil. Muito associado ao rock'n roll, embora os primeiros roqueiros não utilizassem tanto as calças e jaquetas jeans (Elvis Presley não gostava dessa vestimenta, por exemplo), acabou sendo agregado pra valer a esse ritmo musical no Festival de Woodstock (1969). No imaginário da época, o jeans estava vinculado à ideia de liberdade, ao amor, ao pacifismo e ao movimento estudantil, sobretudo no turbulento ano de 1968 com as grandes manifestações em Paris, nos Estados Unidos e também aqui no Brasil. Neste ultimo a preferência pelos jeans ganhou mais destaque na década de 1970, exatamente quando a fabricante Alpargatas resolveu entrar nesse mercado. 
A Alpargatas ou Fábrica Brasileira de Alpargatas e Calçados foi fundada em 1907 pelo escocês Robert Fraser em associação com outra fábrica inglesa, iniciando a sua produção no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. Em 1909, com o nome de São Paulo Alpargatas Company S.A. a empresa obteve sucesso na venda de seus produtos, principalmente na utilização de sandálias e lonas para o setor cafeeiro. Entre 1930 e 1948, a empresa ficou sob o controle da filial argentina e posteriormente acabou sendo nacionalizada, passando para o comando da Camargo Correa em 1982. E vejam só, acabou tornando-se na década de 1990, controladora da Alpargatas Argentina! Nesses anos, a empresa se firmou como uma das maiores fabricantes do ramo calçadista do Brasil. 
Mais recentemente, em 2015, o Grupo Camargo Correa vendeu ao conglomerado J&F Investimentos (a conhecida JBS) a sua participação na Alpargatas. Para fechar o assunto grandes transações, em 2017 as empresas Cambuhy Investimentos e Brasil Warrant, pertencentes à família Moreira Salles, juntamente com a holding Itaúsa (nem preciso dizer a qual banco pertence) adquiriram a Alpargatas. Juntas, as mesmas controlam atualmente 54,24% do capital total da empresa. 


Bem, voltando ao anúncio (na foto acima, modelo de calça U.S. Top do início da década de 1980), o material publicitário que mostramos completava o comercial veiculado na televisão, o qual teve um jingle (mensagem musical publicitária) que ficou famoso e motivo de nostalgia para muitos daqueles que viveram essa época, no distante ano de 1976. O mesmo foi composto por Sergio Mineiro e Beto Ruschel, exatamente como aparece abaixo: 

Liberdade é uma calça velha
Azul e desbotada
Que você pode usar
Do jeito que quiser
Não usa quem não quer
US Top
Desbota e perde o vinco
Denim Indigo Blue
US Top
Seu jeito de viver
Não usa quem não quer
US Top
Desbota e perde o vinco

Para os que estão com muitas saudades mesmo, o comercial da televisão pode ser visto no link abaixo: 
https://youtu.be/B5WHh1J5A00
O Anúncio Antigo de hoje acompanhado da partitura do jingle já citado, foi publicado na contracapa da revista Rock Espetacular volume 1, editada em 1976 pela Rio Gráfica e Editora. 
Crédito das imagens:
Foto da calça U.S. Top da década de 1980:
https://www.pinterest.co.uk/pin/557390891351800186/

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Imagens Históricas 33: Johnny Weissmuller, o Tarzan



Na imagem acima o ator Johnny Weismuller, o mais famoso Tarzan de Hollywood, prepara-se para um mergulho em uma exibição em piscina olímpica, no ano de 1950. Nessa época ele já estava aposentado do conhecido personagem, mas ainda era lembrado como um grande campeão da natação. Johnny (Johann) Weissmuller nasceu na Romênia em 1904, de uma família de origem alemã, como indica o seu sobrenome. Na época, o território romeno era parte do Império Austro-Húngaro, o qual desapareceu nos tratados assinados após a Primeira Guerra Mundial. Mas, bem antes disso, quando Johnny contava com apenas sete meses de vida a sua família emigrou para os Estados Unidos, país onde o menino acabou adquirindo a sua cidadania.


O gosto pela natação teria começado aos nove anos, quando para se curar da poliomielite o médico lhe recomendou algumas braçadas na piscina e daí em diante não parou mais. Weissmuller tornou-se um atleta e participou dos Jogos Olímpicos de Paris em 1924 (foto acima) e das Olimpíadas de Amsterdam em 1928, tendo conquistado um total de cinco medalhas de ouro, um número recorde para a época. Além disso, ainda obteve um bronze no pólo aquático. No total, Weissmuller estabeleceu 67 recordes mundiais e conquistou 52 campeonatos nacionais, tornando-se um dos maiores nadadores de todos os tempos! 



Após deixar o esporte olímpico, Johnny Weissmuller (na foto acima, em 1940) trabalhou como garoto propaganda de trajes esportivos e modelo, até ser contatado por Hollywood para viver no cinema o personagem criado pelo escritor norte-americano Edgar Rice Burrroughs (1875-1950): Tarzan. O mesmo era um inglês de origem aristocrática, que se vê perdido ainda bebê em meio às selvas da África, após a morte de seus pais. Tarzan acabaria sobrevivendo com a ajuda da macaca Kala e se impõe diante de uma natureza que lhe é hostil. Uma típica história dos tempos do imperialismo europeu no continente africano, que reforça a crença na suposta superioridade e inteligência do homem branco.



Bem, o homem macaco já havia tido cinco outros intérpretes, incluindo Elmo Lincoln, o primeiro a viver o personagem, ainda no cinema mudo (foto acima de 1918). O ator Buster Crable, conhecido por incorporar o herói Flash Gordon, também assumiu Tarzan (não de forma oficial), um ano depois de Johnny Weissmuller em 1933.  





No conhecido estúdio da Metro Goldwin Mayer (MGM) Johnny Weissmuller fez seis longas como Tarzan entre 1932 e 1942, quando teve o auge de sua popularidade. O primeiro foi "Tarzan, o Homem Macaco" de 1932 (nas imagens acima, um cartaz promocional e uma cena do filme). 



Nas primeiras películas feitas para os estúdios MGM, os personagens de Tarzan e sua namorada Jane (interpretada por Maureen O'Sullivan, mãe da atriz Mia Farrow e portanto, ex-sogra do diretor Woody Allen), a inglesa que acabaria por abandonar tudo e viver com a sua grande paixão na África, apareciam em trajes minúsculos e em cenas bem tórridas para os padrões cinematográficos da época. No segundo filme da série, "Tarzan e sua Companheira" de 1934 (na imagem acima, cena do filme com Jane usando pouca roupa e o cartaz promocional da produção) o casal surge em uma cena que mais se assemelha a um balé aquático e com Jane praticamente nua. Isso porque, até esse momento, ainda não estava em vigor o conhecido Código Hays, que impôs normas e disciplinou as produções hollywoodianas, sobretudo no que dizia respeito às referências sexuais. Por exemplo, o personagem Boy (vivido por Johnny Sheffield), que apareceu no filme "O Filho de Tarzan" de 1939 era adotado, uma vez que pareceria estranho ao público da época que Tarzan e Jane tivessem um filho sem serem casados! 



A ultima produção da série Tarzan pela MGM foi "Tarzan Contra o Mundo" lançada em 1942. Curiosamente nesse mesmo filme Elmo Lincoln, o já esquecido primeiro Tarzan, faz uma pequena aparição como figurante, que não lhe é atribuída nos créditos finais. Uma fala de Tarzan ao chegar a Nova Iorque (em busca de Boy, que tinha sido levado por um circo) e ver os prédios de Manhattan, ficou famosa: "Esta é uma selva de pedra". 



Já um pouco fora de forma, Johnny Weissmuller ainda viveria Tarzan em mais seis filmes do produtor Sol Lesser, o qual adquiriu os direitos do personagem para os estúdios da RKO, do magnata da aviação Howard Hughes (na imagem acima o cartaz de "Tarzan e a Mulher Leopardo" de 1946). Weissmuller encerrou  definitivamente a sua fase como homem macaco em 1948, com o filme "Tarzan e as Sereias" filmado em Acapulco, no México, cidade que escolheu para viver já no final de sua vida e onde se encontra enterrado. 


A carreira cinematográfica do ex-campeão olímpico ainda encontrou uma sobrevida com o personagem Jim das Selvas em treze filmes e a partir de 1955 como seriado de televisão com um total de 27 episódios (na imagem acima, cartaz do primeiro filme de Jim das Selvas com Weissmuller de 1948). Foi por esse seriado que ele se tornou conhecido do público brasileiro na década de 1960 e dos mais jovens que não chegaram a vê-lo no cinema como Tarzan, como este que vos escreve. Com o fim da série em 1958, Johnny Weissmuller deixou sua carreira de ator e apenas fez aparições esporádicas em produções menores. Ator? Um exagero qualificá-lo como tal, uma vez que era péssimo intérprete, tanto que os roteiristas sempre lhe atribuíram frases monossilábicas, no gênero "Me Tarzan, You Jane"
Um fato curioso a respeito de Weissmuller foi contado por seu filho Johnny Weissmuller Jr. no livro "Tarzan, my father". No final de 1958 o ator encontrava-se em Havana, Cuba, participando de um torneio de golfe (esporte que apreciava muito) quando foi abordado pelos guerrilheiros cubanos em plena revolução que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista e levou Fidel Castro ao poder. Weismuller se encontrava em um campo de golfe e temendo ser preso, disse aos guerrilheiros que era o Tarzan. Sem convencer os mesmos, o ator não teve dúvidas, resolveu soltar o famoso grito que utilizava nos filmes. Em seguida um dos soldados disse para os demais: "Es Tarzan! Es Tarzan de la jungla!" (É o Tarzan! Tarzan das selvas!). Imediatamente, Weissmuller foi escoltado até o hotel e logo depois deixou a ilha caribenha sem ser importunado! Além desse acontecimento, Johnny Weismuller ainda foi lembrado pelos Beatles que o incluíram na capa do famoso álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band de 1967. 
Em 1984, aos 79 anos, Johnny Weissmuller faleceu vítima de edema pulmonar, passando a ser lembrado como o mais famoso intérprete de Tarzan da história do cinema. E também como um grande atleta olímpico...
Crédito das imagens: 
Foto de Johnny Weissmuller em 1950: 1950s Decades of the 20th Century. Getty Images. Köneman, 2004, pag. 299.
Cartaz do filme "Tarzan Contra o Mundo":
https://hollywoodrevue.wordpress.com/2012/08/04/tarzans-new-york-adventure-1942/
Fotos de Johnny Weissmuller em 1928 e 1940: Wikipédia.
Foto de Elmo Lincoln: Pinterest.
Imagens e cartazes dos filmes "Tarzan, o Homem Macaco", "Tarzan e sua Companheira", "Tarzan e a Mulher Leopardo" e "Jim das Selvas": Diccionario Del Cine de Aventuras de Javier Coma. Barcelona, Plaza & Janés Editores, 1994, páginas 106, 194, 195 e 217. 
Foto de Tarzan e Jane no filme "Tarzan e sua Companheira":
https://www.ebay.com/itm/Johnny-Weissmuller-Maureen-O-Sullivan-Tarzan-Foto-/122708774202?_ul=HN

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Revista Leituras da História (edição de março)




Caro leitor, nunca imaginei que um dia fosse a uma banca de jornal comprar uma revista, para ver uma matéria sobre o cantor Elvis Presley escrita por mim mesmo. Pois esse dia chegou! Na edição de março da revista Leituras da História da Editora Escala (a qual, já está nas bancas e grandes livrarias do país) temos duas matérias de nossa autoria. Uma delas intitulada "Peripécias Brasileiras" lembra os nossos conterrâneos que estiveram com o "Rei do Rock" Elvis Presley e mesmo da influência da música brasileira na carreira do cantor. A matéria de 9 páginas revela ainda fatos pouco conhecidos do grande astro norte-americano e demonstra que, de fato, Elvis morreu. E para comprovar isso consultamos um médico brasileiro. 


A outra matéria escrita por nós, intitulada "Visão do Futuro", lembra o filme "No Mundo de 2020" lançado no ano de 1973 e que ficou conhecido por fazer da questão ecológica um dos seus temas principais, além de trazer uma visão absolutamente sombria do futuro da humanidade, abordando a poluição, a natureza destruída, a vida cotidiana deteriorada e o crescimento descontrolado da população. Este ultimo aspecto era uma preocupação muito grande na década de 1970, como hoje a questão do aquecimento global. 
Além dessas duas matérias, a edição ainda traz um assunto pouco comentado na mídia, o problema envolvendo a minoria muçulmana em Mianmar, que está sendo vítima de perseguição e mesmo de extermínio. Recomendo a leitura da revista, pois além dos temas da história, a mesma possibilita reflexões importantes e necessárias sobre o mundo em que vivemos. Boa leitura a todos...