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domingo, 29 de março de 2015

Imagens Históricas 17: Avenida São João




"Alguma coisa acontece" quando vemos estas fotos antigas da cidade de São Paulo, registradas até a década de 1950. A intensa vida noturna e o movimento de pessoas, mesmo após o horário comercial, isto é, depois das 18 horas, se destacavam na paisagem urbana. Com a tradicional avenida São João, no centro da capital paulista, não era diferente. Este cenário boêmio inspirou canções como "A Volta do Boêmio", de Adelino Moreira, consagrada na voz de Nelson Gonçalves, "Ronda" de Paulo Vanzolini e, mais recentemente (mas não tanto), "Sampa" de Caetano Veloso. 
De qualquer forma, era o chamado "centrão" de São Paulo, sem o toque de recolher informalmente implantado na capital paulista nas últimas três décadas, com o abandono dessa área pelos antigos moradores e comerciantes. A depreciação do antigo centro fez com que o mesmo acabasse concentrando os grupos sociais mais marginalizados de nossa sociedade, como mendigos, drogados, menores abandonados, moradores de rua (os conhecidos "sem teto") e os traficantes e viciados da atual "cracolândia". A falta de uma atuação mais intensa do Poder Público na preservação dessa região e a especulação imobiliária, levaram ao abandono do "centro histórico", que deveria ter mais moradores, pois possui uma excelente infraestrutura urbana e de transportes. 
Por outro lado, São Paulo sempre foi uma cidade desigual, com os bairros mais "elegantes" ou de elite e os bairros operários, por abrigarem as antigas fábricas e as residências dos seus trabalhadores, que impulsionaram a industrialização brasileira no início do século XX, como o Brás, a Moóca e o Belenzinho. Contudo, tal desigualdade se fez aumentar em proporções inimagináveis para os que viviam na cidade, até a década de 1950. A chegada dos imigrantes europeus (italianos, espanhóis e portugueses) e depois dos nordestinos, ampliou ainda mais as áreas periféricas e as favelas. Foi o trabalho desses imigrantes que deu grandeza à cidade. 
De qualquer forma, eis uma foto de 1957, mostrando a citada avenida, vista a partir do ponto onde se localiza o edifício Altino Arantes, mais conhecido como o prédio do Banespa (antigo Banco do Estado de São Paulo, que já foi privatizado). A avenida São João, tendo do lado direito da foto, em segundo plano, o prédio dos Correios, podendo-se ver na sequência, uma parte das árvores do largo Paissandú. Até onde a avenida alcança, temos uma linha horizontal, exatamente no cruzamento com a avenida Ipiranga, que inspirou a célebre canção de Caetano Veloso. Neste ponto, tinha início a antiga Cinelândia, área de concentração das melhores salas de espetáculos da capital paulista, e talvez, do Brasil. 
A foto pertence ao acervo do Instituto Moreira Salles e o autor é desconhecido. Ah, os veículos dão um certo ar "novaiorquino" para a cena. Nessa época estávamos nos primórdios da chegada das fábricas de automóveis ao Brasil, durante o Governo Juscelino Kubitschek e, em razão disso, predominavam os veículos importados dos Estados Unidos. 
A Imagem Histórica de hoje está publicada no livro "Cotidiano: um dia na vida de brasileiros", da Coleção Folha:"Fotos Antigas do Brasil", volume 11, página 25, de 2012. 

sábado, 21 de março de 2015

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sexta-feira, 20 de março de 2015

Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal




O homem que tentou restabelecer a grandeza de Portugal e reposicionar o país no contexto político e econômico da Europa, na segunda metade do século XVIII. Sebastião José de Carvalho e Melo ou Marquês de Pombal (imagem acima, em um quadro de 1770) foi uma figura-chave na história portuguesa e, por conseguinte do Brasil, entre os anos de 1750 e 1777, quando recebeu "carta branca" do rei Dom José I para administrar o Estado Português. Uma espécie de primeiro-ministro, embora Portugal fosse uma monarquia ao estilo absolutista. Mas, neste caso, o ministro foi mais absolutista do que o rei. 



Nascido no ano de 1699, em Lisboa (na imagem acima, a capital portuguesa, antes do terremoto de 1755), originário de uma família de fidalgos ou baixa nobreza, que havia se destacado por ter, entre os seus membros, indivíduos que atuaram junto ao Estado Português na condição de soldados, sacerdotes e funcionários públicos, que serviram nos mais distantes pontos do império colonial lusitano. Por exemplo, seu pai, Manuel de Carvalho e Ataíde, prestou serviços na Marinha e no Exército, tornando-se oficial de cavalaria da corte portuguesa. O tio de Pombal, o sacerdote Paulo de Carvalho e Ataíde, foi professor da Universidade de Coimbra e tinha muitas propriedades em Lisboa e em Oeiras, nas proximidades da capital portuguesa. Tais bens foram herdados por Pombal. 



Em Oeiras, Pombal veio a construir uma casa de campo (imagem acima) e ainda adquiriu terras para a plantação de uvas. Por isso, antes de se tornar marquês, Pombal recebeu o título de Conde de Oeiras em 1759, já na função de ministro plenipotenciário (com plenos poderes) do rei. Pombal era o filho mais velho em um total de doze, dos quais quatro morreram ainda jovens. Dois irmãos tornaram-se colaboradores diretos do futuro ministro, um dos quais foi Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1769) que veio a se tornar governador e capitão-geral do Grão-Pará e Maranhão, que compreendia toda a área do vale do rio Amazonas. 
Após a morte do pai, Sebastião José de Carvalho e Melo se retirou para uma propriedade familiar em Pombal, no centro de Portugal, em 1723. Foi nessa época que se casou com a viúva Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, que o ligou à alta nobreza, apesar da família da mulher não ter aceito bem a união. Com a morte da esposa, Pombal casou-se pela segunda vez, em 1746, com Maria Leonor Ernestina Daun, de origem austríaca, com a qual teve cinco filhos. Esse casamento ocorreu na época em que Pombal serviu como diplomata na corte austríaca e a união recebeu as bençãos da imperatriz Maria Teresa. Para combinar com esse casamento, devemos lembrar que a rainha de Portugal, na época, era também de origem austríaca. Um detalhe importante a ser mencionado na carreira administrativa de Pombal foi o fato de ter servido em Londres, na corte de St. James, como representante do rei de Portugal, entre 1739 e 1743. Nessa época, Pombal viu de perto as circunstâncias que estavam transformando a Inglaterra em uma grande potência econômica: as suas fábricas. 



Durante a enfermidade de D. João V, rei português, Pombal foi chamado de volta a Lisboa para cuidar dos assuntos de Estado, na transição para o reinado de D. José I (imagem acima), que chegou ao poder em 1750. O novo rei dedicava grande parte de seu tempo livre à caça e ao gosto pela ópera. Daí a presença de Pombal ser importante para gerir os assuntos governamentais e administrativos. A permanência de Pombal como ministro de D. José I coincidiu exatamente com o reinado deste, entre 1750 e 1777. 
Ao caro leitor, devemos contextualizar melhor o período de Pombal. O século XVIII foi a época em que tiveram início as criticas às estruturas que compunham aquilo que ficou conhecido como Antigo Regime, cujas características básicas eram a monarquia absolutista, os privilégios ostentados pela nobreza e pelo clero provenientes da era feudal e a interferência do Estado no processo econômico, chamada depois pelos historiadores de mercantilismo. Tais criticas vieram do movimento filosófico conhecido como Ilustração ou Iluminismo. 
Necessário lembrar que o pensamento iluminista, ao contrário do que parece, não formava uma corrente filosófica homogênea, uma vez que os filósofos que dela fizeram parte criticavam aspectos do Antigo Regime, sendo que alguns propunham, em termos concretos, uma reforma do mesmo, como a tese de limitar o poder do rei por meio de uma Constituição. Contudo, as ideias de Montesquieu, Voltaire e Rousseau foram apropriadas de acordo com as circunstâncias de cada país ou território, fossem esses metrópoles europeias ou as colônias de ultramar. Neste último caso, a enfase na questão do direito à liberdade e a não interferência do Estado na atividade produtiva ganhou maior destaque. 



Nesse contexto, Pombal (no quadro acima, pintado em 1769) foi uma figura ímpar. Um ministro, associado ao Antigo Regime de teor absolutista, mas que, em termos práticos, aplicou ideias provenientes da Ilustração, como tentar diminuir a influência política do clero e modernizar o processo produtivo de Portugal, estimulando a abertura de manufaturas e fábricas. Algo ainda mais interessante, tentar introduzir essas mudanças também nas colônias. Contudo, em muitos aspectos, o ideário mercantilista de fortalecimento da economia nacional, ainda predominava. Por isso, a figura de Pombal pode ser caracterizada dentro daquilo que ficou conhecido como reformismo ilustrado ou despotismo esclarecido. 
No quadro da situação política da Europa, Portugal se encontrava em uma posição perigosa em relação à Espanha e à sua aliada, a França, as quais ameaçavam a própria soberania da monarquia portuguesa. Por outro lado, em troca de muitos favores econômicos, Portugal contava com o apoio da Inglaterra, praticamente desde o fim da União Ibérica (ou Domínio Espanhol) em 1640. A economia de Portugal estava submetida aos ditames do Tratado de Methuen (1703), pelo qual os ingleses adquiriam, de forma preferencial, o vinho português (o tradicional e conhecido vinho do Porto), enquanto os portugueses importavam os panos de lã ingleses. Tal situação levou Portugal a ter uma balança comercial deficitária (importava mais do que exportava), a qual, em parte, foi coberta com o ouro explorado nas minas do Brasil.


Mas, voltemos ao nosso Marquês de Pombal. Já na condição de ministro plenipotenciário, Pombal procurou colocar em prática os acertos provenientes do Tratado de Madri (1750) com a Espanha, que praticamente garantiram aos portugueses a posse de grande parte do que hoje é a Amazônia e o Centro-Oeste do Brasil, extinguindo o antigo Tratado de Tordesilhas do tempo da Expansão Marítima. Contudo, restava um obstáculo à concretização da autoridade portuguesa nesses territórios: a Companhia de Jesus. O controle que a mesma exercia sobre as populações indígenas no sul do Brasil e em torno da bacia do rio Amazonas (na imagem acima, um mapa do rio Amazonas e de seus afluentes, feito por volta do ano de 1700), tornaram essa ordem religiosa muito poderosa e rica, explorando produtos, como as drogas do sertão (cacau, cravo e canela) e criando gado, como no caso da ilha do Marajó. Tais produtos e as propriedades dos jesuítas gozavam de isenções tributárias, o que contrariava os interesses do Estado Português e dos colonos, que não podiam recorrer à mão de obra do índio ou escraviza-los, por sofreram forte oposição dos religiosos. Foi então que Pombal decidiu expulsar os jesuítas de Portugal e de todas as suas colônias, inclusive com o confisco das suas propriedades. Ao mesmo tempo, os índios não ficaram mais submetidos à tutela dos jesuítas, os quais, embora interferissem na cultura dos mesmos, protegiam os nativos da exploração escravista promovida pelos brancos. A proposta de Pombal era de estimular a miscigenação dos portugueses com os índios, a fim de efetivar o povoamento da colônia. 



A saída dos jesuítas gerou um prejuízo na educação, uma vez que muitos professores eram ligados a essa ordem religiosa. Para compensar essa falta de professores, Pombal empreendeu algumas reformas na educação, a mais importante delas na Universidade de Coimbra, a partir de 1760. O objetivo era colocar a educação sob o controle do Estado e padronizar o currículo. A escola deveria preparar indivíduos para exercerem funções na administração e na burocracia do governo. As ciências naturais, a matemática, a medicina (com a introdução dos estudos de anatomia por meio da dissecação de cadáveres, antes proibido pela Igreja) ganharam destaque na reforma (no desenho acima, projeto arquitetônico para o laboratório de química da universidade). 
Para estabelecer um controle mais rigoroso do comércio com a colônia e promover o combate ao contrabando, atendendo aos conselhos de seu irmão, Mendonça Furtado, Pombal criou duas companhias de comércio: a do Grão-Pará e Maranhão e a Companhia Geral de Comércio de Pernambuco e Paraíba. Essas companhias teriam o monopólio no fornecimento de escravos e produtos para a colônia e de adquirir a produção local. No Grão-Pará e Maranhão a produção de cacau, arroz e algodão ganhou um grande estímulo.


No século XVIII o Brasil viveu o conhecido ciclo da mineração no Centro-Sul da colônia, principalmente em Minas Gerais (na gravura acima, de Rugendas, lavagem do ouro nas proximidades de Ouro Preto). Portugal encontrou na sua mais importante colônia um recurso fundamental para poder manter o seu comércio externo, principalmente com a Inglaterra. Contudo, boa parte do ouro que saia do Brasil era contrabandeado. Visando sanar esses desvios, várias medidas administrativas foram colocadas em prática, entre elas, a transferência da sede da colônia de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763. Coube também ao Marquês de Pombal o estabelecimento da cota mínima de 100 arrobas de ouro (algo em torno de 1,5 tonelada) que o Brasil deveria enviar anualmente a Portugal, correspondente a todos os impostos sobre esse minério. Caso essa soma não fosse alcançada, poderia ser decretada uma derrama (confisco de bens) para completar a cota. Ao mesmo tempo, a Coroa Portuguesa assumiu o controle direto da extração de diamantes no Distrito Diamantífero (atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais). Uma polícia militar, a Guarda dos Dragões (da qual fez parte o alferes Joaquim José da Silva Xavier) deveria fiscalizar os caminhos do ouro na região das minas. 


Em 1755, a administração do Marquês de Pombal teve de enfrentar uma grande catástrofe: o terremoto de Lisboa. No dia 1º de novembro daquele ano, quando os portugueses celebravam o Dia de Todos os Santos, às nove e meia da manhã, o abalo começou. De acordo com o relato do cônsul britânico Edward Hay, o terremoto destruiu grande parte da cidade e foi seguido por incêndios, que chegaram a durar quase uma semana (como mostra a gravura acima, impressa poucos anos após o tremor). O terremoto atingiu os pontos mais importantes de Lisboa, como o cais, a alfândega e o palácio real. As águas do rio Tejo teriam se elevado de seis a nove metros no momento do terremoto, provocando inundações.


Trinta e cinco, das quarenta igrejas de Lisboa, desabaram, matando muitos fiéis que assistiam a missa na hora do abalo. Apenas três mil, das vinte mil casas da cidade, permaneceram habitáveis. Palácios e residências da aristocracia também foram atingidas, sendo que, em apenas uma delas, duzentas pinturas, incluindo um Rubens e um Ticiano, foram perdidas (na gravura acima, de 1757, as ruínas da Ópera de Lisboa). O cálculo do número de mortos não pode ser bem estabelecido, variando de no mínimo dez mil até quarenta mil. A família real encontrava-se fora da cidade e escapou da tragédia.


O rei D. José I viu no Marquês de Pombal, o único integrante de seu governo capaz de organizar e planejar a reconstrução da capital. E Pombal não decepcionou. O ministro reuniu os melhores engenheiros, topógrafos e arquitetos, todos de mentalidade prática, que fizeram de Lisboa uma cidade nova e planejada. Até mesmo edificações com estruturas que se adaptavam ao movimento da terra durante os abalos sísmicos, conhecidas como "gaiolas" (imagem acima), foram planejadas para os novos casarios. Sob influência das ideias científicas da Ilustração, esses técnicos deixaram bem claro que os terremotos eram eventos da natureza e que era preciso se precaver contra os mesmos. De acordo com o historiador inglês Kenneth Maxwell, a nova Lisboa de Pombal visava "celebrar a independência econômica nacional e um Estado moderno" para Portugal.
Mas, Pombal também criou inimigos na sociedade portuguesa. Ao privilegiar os comerciantes e capitalistas considerados mais aptos para defender os interesses econômicos nacionais, o ministro contrariou muitos daqueles que eram vinculados ao comércio externo com a Inglaterra. Ao enfrentar a Companhia de Jesus também sofreu oposição dos setores ligados a essa ordem religiosa. Aos olhos da aristocracia tradicional, Pombal era uma espécie de "novo rico" ou não pertencente à verdadeira nobreza de sangue. 



Em 1758, surgiu a oportunidade para Pombal agir com rigor contra os seus opositores e revelar a face absolutista do Estado Português. O rei D. José sofreu um atentado a tiros quando visitava a sua amante, que era esposa do Marquês Luís Bernardo de Távora. O ferimento foi sério, obrigando o rei a se afastar temporariamente do trono. Por dois meses, o governo silenciou sobre o ocorrido, até que tiveram início as prisões, sobretudo dos membros da família Távora: o duque de Aveiro e o conde de Atouguia. Os jesuítas foram colocados sob vigilância permanente por serem suspeitos de apoiarem a conspiração. Em janeiro de 1759 saiu a sentença, onde os condenados foram acusados pelo crime de lesa-majestade, traição e rebelião. O Duque de Aveiro foi condenado a ser despedaçado vivo, com os braços e pernas esmagados, depois queimado e tendo as suas cinzas jogadas ao mar (na imagem acima, execução do Duque de Aveiro). Com a punição aos Távora, que ocupavam posição de grande destaque na alta nobreza, Pombal procurava mostrar que ninguém estava acima das instituição monárquica. O caso teve repercussão em toda a Europa.



No Brasil, ao prestigiar a elite colonial e colocá-la à frente de importantes tarefas, como os contratos para arrecadação de impostos (uma espécie de "terceirização" desse serviço administrativo) viu o fortalecimento de um grupo social privilegiado que, posteriormente, iria contestar a própria autoridade portuguesa. Indivíduos como Joaquim Silvério dos Reis e João Rodrigues de Macedo (na foto acima, a imponente residência de Macedo, conhecida como Casa dos Contos, em Ouro Preto) tiveram envolvimento na Inconfidência Mineira, em 1788.
Na década de 1770, a administração pombalina começou a entrar em declínio. A situação econômica pouco favorável, com a diminuição da produção de ouro no Brasil, colaborou para isso. Contudo, a morte do rei D. José I, em 1777, encerrou a permanência de Pombal no poder. Os seus opositores (entre os quais, os britânicos e grande parte do clero conservador) acabaram se reunindo em torno da rainha D. Maria I e de seu ministro, Martinho de Melo e Castro, bem visto pelos ingleses. Muitos daqueles que trabalharam com Pombal foram destituídos. O ex-ministro teve que se retirar incógnito para o norte do país e, já com 80 anos, sofreu um processo movido pelo novo regime, ao qual se defendeu alegando ter obedecido ordens do rei, como no episódio da punição aos que praticaram o atentado. Enfermo e abandonado, embora não por todos, Sebastião José de Carvalho e Melo faleceu em 1782. 
Contudo, muitos dos grupos econômicos promovidos no período pombalino continuaram a prosperar, inclusive no Brasil, onde se criou uma contradição entre os interesses locais e as amarras do sistema colonial. Como afirma o historiador Fernando Novais, o colonialismo moderno, ao permitir o processo de acumulação de capital que desembocou na era industrial, não conseguiu conviver com esta, a qual necessitava de mercados abertos e do fim dos monopólios, exatamente o que Pombal havia tentado fortalecer em sua administração. Os movimentos emancipacionistas trouxeram essa contradição à tona. O colonialismo mercantilista entrava em crise.....
Para saber mais:
Marquês de Pombal: Paradoxo do Iluminismo. Autor: Kenneth Maxwell. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1996. 
Crédito das imagens: 
Foto da Casa dos Contos: Arte no Brasil. São Paulo: editora Abril, 1982, pag. 107.
Gravura de Rugendas mostrando a lavagem do ouro: Rugendas, publicação especial da empresa BYK, 1981. 
Mapa da Amazônia de 1700: Acervo Digital da Biblioteca Nacional.
Demais imagens: extraídas do livro do historiador Kenneth Maxwell, já citado. 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O documentário "No Paiz das Amazonas"



Até a década de 1920, falar sobre a Amazônia parecia algo tão distante para a maioria dos brasileiros, como descrever a África, a Oceania ou a Antártida. As informações vindas por meio dos jornais e das poucas revistas que existiam na época, mostravam uma região exótica e selvagem. De sua população tradicional, que vivia na beira dos grandes rios e tirava o seu sustento da própria natureza local, o conhecimento era mais escasso ainda, exceto por alguns poucos nomes de nossa literatura que viajaram ou moraram lá, entre os quais Euclides da Cunha e Inglês de Sousa, que chegaram a observar as terríveis condições em que viviam aqueles que trabalhavam na floresta, sobretudo os seringueiros. Nem mesmo as próprias autoridades tinham informações mais claras daquela região, pelo menos até o período de Getúlio Vargas, na década de 1930. 
Isso era algo grave, uma vez que, no início do século XX, a borracha extraída de suas florestas se tornou o segundo produto mais importante nas exportações do Brasil, perdendo apenas para o café. A região gerava uma renda considerável para o país naquele momento.
Pois bem, em 1921, o cineasta de origem portuguesa e radicado no Estado do Amazonas, Silvino Santos (1886-1970), realizou várias tomadas para a produção de um documentário, que começou a mudar um pouco esse cenário: "No Paíz das Amazonas" (na imagem acima, o cartaz original do filme).


Em 1922, o filme foi mostrado na capital federal, Rio de Janeiro, durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência (na foto acima, um dos portões de entrada da grande exposição). Mas o sucesso do filme extrapolou os objetivos iniciais, sendo agraciado com a medalha de ouro na exposição. A película foi exibida depois em Paris e nas grandes capitais da Europa. Em 1923, foi lançada comercialmente no Rio de Janeiro e mostrada também no Palácio do Catete para o presidente da República e demais ministros. 
Apesar de ser uma novidade para muitos brasileiros no início do século XX, o cinema não era algo estranho no Amazonas. Em 1897, no conhecido Teatro Amazonas, localizado em Manaus, onde se apresentavam as companhias de ópera vindas da Europa, foi realizada a primeira sessão de cinema naquele Estado. O boom da borracha fez das cidades de Belém e Manaus dois grandes centros urbanos, onde surgiram novidades, que a maior parte das capitais brasileiras só viria a conhecer algum tempo depois, como os bondes, o telefone, a eletricidade e o próprio cinema.



Em 1899, o português Silvino Santos (na foto acima) desembarcou em Belém, capital do Estado do Pará e trabalhou por algum tempo no comércio local. Poucos anos depois, quando já começava a se familiarizar com a fotografia, transferiu-se para Manaus. Em 1910, começou a trabalhar como fotógrafo. 




O início da carreira de Silvino Santos na arte cinematográfica (na foto acima, o cineasta filmando em Rondônia, no ano de 1918) ocorreu de uma forma que, aos olhos de hoje, talvez não parecesse tão louvável. Santos foi contratado pelo empresário e comerciante Julio César Araña para produzir um documentário. De origem peruana, Araña fez fortuna vendendo mercadorias pelos rios do interior do Estado do Amazonas até o Acre. Naquela época, trocar manufaturas por produtos extrativos, como a borracha e a castanha-do-pará, proporcionava ganhos enormes, pois os comerciantes forneciam ou aviavam mercadorias para os seringueiros e extratores, a um valor muito acima do que haviam pago para adquirir os mesmos. Era o chamado sistema de aviamento, que ainda hoje persiste na Amazônia. Além disso, Araña e a sua empresa, The Peruvian Amazon Rubber Company, que também tinha sócios ingleses, foi acusada de escravizar e massacrar populações indígenas. Alguns relatos apontaram que, aproximadamente 30 mil índios trabalharam como escravos na extração da borracha, nos seringais controlados por Araña. Processado nas cortes de justiça da Inglaterra, o empresário resolveu apresentar um material que mostrasse a sua versão dos fatos e que servisse para apaziguar os sócios ingleses. 



Araña verificou que o melhor meio de mostrar a sua defesa era o cinema e foi aí que, o ainda fotografo Silvino Santos foi contratado (no fotograma acima, índios do antigo território de Rio Branco, atual Roraima, filmados por Silvino Santos em 1924). 




Contudo, Silvino Santos não dominava, naquele momento, a técnica cinematográfica (na imagem acima, Santos improvisa um laboratório fotográfico no tronco de uma árvore, em plena floresta). Em função disso, Araña patrocinou a ida do fotografo até Paris, para que o mesmo se familiarizasse com as novidades do cinema. Na capital francesa, Santos fez estágios nos estúdios Pathé e nos laboratórios dos irmãos Lumière (os inventores do cinema). Em 1913, de volta ao Brasil, o já cineasta realizou um documentário na região do rio Putumayo, entre o Brasil e a Colômbia, que serviu como argumento para o empresário Araña em sua defesa na Inglaterra. Por intermédio também de Araña, Santos conheceu sua futura esposa, Anna Maria Schermuly, descendente de alemães e protegida do empresário. Uma dúvida, que jamais poderá ser resolvida, dizia respeito ao conteúdo exato do filme realizado pelo cineasta e de que forma serviu de argumento em favor de J. C. Araña, uma vez que o negativo da película ficou perdido com o afundamento de um navio, com todo o material, em 1914.


Mas, felizmente, a carreira de Silvino Santos não se resumiu a essa controvertida colaboração com o empresário Araña. O cineasta realizou outros filmes, a maior parte dos quais também foram perdidos, como por exemplo, "Amazonas, o Maior Rio do Mundo", feito para a Amazônia Cine Film, companhia fundada pelo comerciante Manoel Gonçalves, em 1918. A firma fechou e, posteriormente, o seu espólio cinematográfico foi adquirido por um outro empresário, o comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, mais conhecido como J. G. Araújo (imagem acima), que também fez fortuna como comerciante. Além de ter se dedicado à borracha, J. G. Araújo diversificou as suas atividades, como por exemplo, exportando o pirarucu e a tartaruga para países da Europa e para os Estados Unidos. Sua firma, J. G. Araujo e Cia. possuía filiais em várias cidades do interior da Amazônia. Posteriormente, o empresário foi responsável por uma incursão pioneira na área industrial, voltada para o beneficiamento da borracha e da castanha-do-pará, a Fábrica Brasil Hévea.



O filho do empresário, Agesilau Araújo, era um entusiasta da fotografia e do cinema. Por sua iniciativa foi aberta uma seção cinematográfica na empresa do pai. Para o gerenciamento da mesma, Agesilau contratou o cineasta Silvino Santos. Uma loja de material fotográfico e cinematográfico também foi aberta, a "Manaus Arte". Por intermédio de Agesilau, é que a empresa acabou patrocinando a realização do documentário exibido no Rio de Janeiro, na já citada exposição do centenário da independência: "No Paíz das Amazonas" (no fotograma acima, em uma cena do documentário, índios conduzem uma embarcação, no antigo território de Rio Branco, atual Roraima).


Trata-se do primeiro longa-metragem exibido no Brasil sobre a Amazônia. O documentário têm, como ponto de partida, o porto de Manaus e os seus armazéns, com o grande movimento remanescente da fase da borracha, que no início da década de 1920, já estava em decadência. 
Algumas cenas mostradas dos rios e lagos da Amazônia, com a pesca do pirarucu e do peixe-boi (fotograma acima) deixam a ideia de que o processo de depredação da natureza local é mais antigo do que se imagina. 


A pesca predatória do peixe-boi (fotograma acima, o peixe-boi abatido) é um aspecto que talvez cause estranheza aos defensores contemporâneos da natureza. 


Impressionam as cenas nas quais o animal era abatido por meio de arpões. A força do peixe-boi, após ter sido ferido e em agonia, chegava a carregar o barco e o seu condutor, como se o mesmo tivesse um motor na popa (na imagem acima, o peixe-boi trazido em um barco, após ter sido morto). 


Por outro lado, o filme revelava uma série de aspectos da região ainda desconhecidos dos brasileiros, como os caboclos ribeirinhos, os índios e destes, os que se dedicavam à extração da borracha, da castanha e à pesca. A coleta da castanha-do-pará é mostrada em detalhes, na floresta onde eram encontrados os castanhais nativos, o trabalho de quebra dos ouriços (o fruto onde se encontravam as castanhas propriamente ditas, como mostrado acima) e o processamento da amêndoa em Manaus, na própria fábrica montada pelo patrocinador do documentário, J. G. Araújo. Apesar da região ainda se destacar como grande produtora da goma elástica, embora já sofresse os efeitos da produção asiática, na década de 1920 a castanha-do-pará chegou a ultrapassar a borracha como mais importante produto de exportação da Amazônia.
Imagens raras dos campos naturais do antigo território de Rio Branco (atual Roraima) mostravam cenas atípicas para aqueles que imaginam a Amazônia dominada por mata fechada e floresta: a criação de gado e cavalos. A presença dos vaqueiros tomando conta dos animais parecem mais relacionados com os pampas gaúchos do que à Amazônia.
Pelo rio Madeira, em direção ao Acre, a ferrovia Madeira-Mamoré aparece no filme, em pleno funcionamento.


A carreira de Silvino Santos não se resumiu a esse documentário. No mesmo ano de 1922, durante a sua estada no Rio de Janeiro, rodou "Terra Encantada". Entre 1924 e 1925, o cineasta filmou outro longa-metragem: "No Rastro do Eldorado". Deste filme, restam apenas fragmentos (como na imagem acima). Realizado também com o patrocínio do grupo J. G. Araújo & Cia., esse documentário acompanhou a expedição científica do médico e explorador norte-americano Alexander Hamilton Rice, ao território do Rio Branco, para mapear os rios daquela região. Nesse filme, foram realizadas as primeiras tomadas aéreas da Amazônia, por meio de um hidroavião levado na expedição. 
Silvino Santos trabalhou até o final de sua vida na firma de J. G. Araújo, inclusive acompanhando a família do empresário em uma viagem a Portugal, entre 1925 e 1930. Nos anos seguintes, continuou a produzir curta-metragens para o comendador Araújo e para outras empresas do Amazonas.
Em 1970, no ano de sua morte, foi rodado um curta-metragem sobre o seu trabalho como cineasta. Em 1981, sua obra fotográfica foi exibida em uma galeria de Manaus.
A lembrança da obra pioneira do cineasta Silvino Santos reapareceu em um filme de 1997, intitulado "O Cineasta da Selva", do diretor Aurélio Michiles, um semi-documentário, com o ator José Abreu revivendo a trajetória do cineasta. A partir daí, a figura de Silvino Santos começou a ser colocada no merecido papel de precursor do cinema brasileiro e o seu trabalho como um documento importante para todos aqueles que estudam a História da Amazônia.
Para ver: "No Paiz das Amazonas" de Silvino Santos. Versátil Home Vídeo, 2014 (imagem abaixo).


Crédito das Imagens:
Cartaz original do filme, estúdio fotográfico improvisado na selva:Cinema no Amazonas de Selda Vale da Costa e Narciso Julio Freire Lobo. Artigo contido em Estudos Avançados USP 53: Dossiê Amazônia brasileira I, jan/abril 2005, pags. 296 e 297. 
Foto da Exposição Internacional do Centenário da Independência: Arquitetura: da taipa ao arranha-céu. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012, pag. 29.
Foto do comendador J. G. Araújo: http://joriatavora-arquivista.blogspot.com.br/
Demais imagens e fotogramas: DVD "No Paiz das Amazonas". 










sábado, 14 de fevereiro de 2015

Imagens Históricas 16: Congestionamento em São Paulo



Para os desavisados, que imaginam que o trânsito congestionado de São Paulo é algo recente, eis uma imagem que não deixa dúvidas de que o mesmo era complicado já há algumas décadas. A foto acima provavelmente refere-se ao ano de 1969 (a fonte não indica a data precisa), publicada em uma edição especial da revista Veja, sobre o legado da década de 1960. Mostra o vale do Anhangabaú, antes da reforma feita por Jânio Quadros, na sua segunda passagem pela Prefeitura de São Paulo, a partir de 1985.
Um desses legados, pelo menos para a cidade de São Paulo, foram os congestionamentos. Dados estatísticos já confirmavam que o trânsito matava mais no mundo do que as guerras da Coréia e do Vietnã juntas. Ou seja, ir à uma guerra poderia estar se tornando menos perigoso do que atravessar a rua de uma grande cidade. Em 1968, três mil pessoas haviam morrido nas capitais brasileiras, vítimas de acidentes de trânsito. Na cidade de São Paulo, morriam duas pessoas por dia e no Rio de Janeiro eram constatados 60 acidentes envolvendo os veículos motorizados, diariamente. Impressionados com as estatísticas? Atualmente, morrem em São Paulo quase dois motoqueiros por dia, fora os envolvidos em acidentes com automóveis, caminhões, ônibus e atropelamentos. 
Em 1966, a cidade de São Paulo tinha um veículo para cada doze habitantes, sendo que dois anos depois, esse número subiu para um veículo para cada sete habitantes, com um total de 600 mil veículos em circulação na capital paulista, segundo constatava a edição especial da revista Veja, com o balanço daquela década. 
No caso brasileiro, isso foi fruto da política de estímulo ao transporte automotivo, impulsionado pelo Governo de Juscelino Kubitschek, a partir de 1956, com a implantação das fábricas de automóveis no Brasil, a construção de estradas de rodagem e o apelo consumista à compra de veículos de passeio, como um sinal de status social. Nos anos da Ditadura Militar (1964-1985) esse apelo ganhou o reforço do curto período de crescimento econômico, chamado de Milagre, a partir de 1968 e até 1973, quando ocorreu a crise do petróleo. Bem, pelo que estamos vendo, outras alternativas de transporte não foram estimuladas? Em termos. São Paulo começou, desde o final da década de 1960, a construção de seu metrô. Mas a implantação do mesmo foi tardia. Outras grandes cidades do mundo tinham iniciado a implantação de linhas férreas subterrâneas acompanhando o crescimento urbano, desde o início do século XX. Isso foi feito em cidades como Londres, Nova Iorque e até mesmo na América Latina, em Buenos Aires. Na capital paulista o impulso inicial para construção do metrô parou nas décadas de 1980 e 1990. E aí veio o que hoje chamamos de questão da mobilidade urbana. O nome mudou, mas o problema é antigo, como mostra a foto acima.
A Imagem Histórica de hoje, foi publicada em "Os Anos 60: A Década que Mudou Tudo". Edições Veja, 1970 (data provável), pag. 131. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Editorial 2015

Caros leitores, o blog História Mundi completou, neste mês de dezembro último, três anos. Ao longo desse período procuramos estimular a leitura e a pesquisa de assuntos e temas relacionados com o conhecimento histórico e tratados em uma perspectiva temporal. Afinal de contas, tudo aquilo que se relaciona com a vida em sociedade é passível de um tratamento histórico. 
No ano de 2014, em função dos compromissos deste que vos escreve com a conclusão de sua tese de doutoramento, o blog praticamente não foi abastecido de artigos e postagens. Mesmo assim, nunca deixou de ter os seus leitores e curiosos em geral, interessados em ampliar o seu conhecimento e em obter ferramentas para isso. 
Agora, em 2015, estamos, aos poucos, retomando este espaço e abastecendo o História Mundi com novas postagens. Aproveitamos também para incluir na lista de links interessantes o blog Salas de Cinema de São Paulo, voltado para todos aqueles que queiram saber um pouco mais sobre os antigos cinemas de rua da capital paulista. Além desse blog, estamos acrescentando também uma boa dica para todos os que gostam de História e Ciências de modo geral: o arquivo da Revista Superinteressante, desde 1987. Com isso, damos continuidade à ideia deste blog de ser um facilitador da pesquisa e da boa leitura.
Agradeço a todos os que acompanham o História Mundi e aguardem novas postagens e curiosidades da História.

Abraços......