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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

A Gemini V no Brasil e a exposição "Trabalhismo nos Estados Unidos" (1966)

 

Isso mesmo o que você, caro leitor (a), observou no título desta postagem, longo mas necessário. Inicialmente pretendíamos escrever um simples relato da exibição da nave espacial Gemini V, em sua passagem por terras brasileiras (acima, a cápsula sendo preparada para ser exposta em uma tenda, em plena Praça da Sé, no centro da capital paulista). No entanto, descobrimos que a exibição da mesma era parte de um evento maior intitulado "Trabalhismo nos Estados Unidos". A estranha combinação temática deve ser atribuída aos organizadores da exposição, a qual, além do Brasil percorreu a Argentina e o México, no início de 1966. Até onde se sabe é a primeira e única vez que uma nave espacial autêntica foi exibida por estas bandas. Embora referindo-se a assuntos tão díspares, a exposição cumpria uma dupla função, a de divulgar como a maior potência capitalista do mundo tratava a sensível relação envolvendo patrões e empregados, como também mostrar a sua maior realização naquele momento, as missões ao espaço. Vale lembrar que o título "Trabalhismo" não tinha nenhuma relação com o legado das leis de proteção ao trabalhador brasileiro, concebidas durante o governo Getúlio Vargas em seu primeiro mandato (1930-1945), até porque a exposição remetia ao movimento sindical nos Estados Unidos. Aliás, o trabalhismo daqui (e o Partido Trabalhista Brasileiro) estava proscrito desde o golpe militar de 1964, sendo até estranho que a exposição carregasse essa denominação. 


O blog História Mundi já teve a oportunidade de publicar algumas postagens sobre a corrida espacial nos tempos da Guerra Fria, período que marcou a rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética (acima, a Gemini V em foto de 2018). Os soviéticos acumulavam, até meados da década de 1960, uma série de feitos como o lançamento do primeiro satélite artificial (o Sputnik), do primeiro ser vivo a ir ao espaço (a cadela Laika), do primeiro homem numa viagem espacial (Iuri Gagarin) e ainda o de terem colocado a primeira mulher em órbita (Valentina Tereshkova), isso sem falar no primeiro cosmonauta (como os soviéticos chamavam os seus astronautas) a fazer um passeio fora da nave (Aléxei Leonov). Diante desse quadro, o presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (1917-1963), lançou ainda em 1961, um desafio: colocar o primeiro homem na Lua até o final daquela década. Para isso, além dos gigantescos recursos financeiros e tecnológicos que foram mobilizados, a propaganda foi fundamental para mostrar a capacidade da economia de mercado diante dos prodígios até então apresentados pelo regime comunista. Foi nesse momento que o Brasil entrou como escala para os astronautas (vejam por exemplo, a nossa postagem "Imagens Históricas 42: o astronauta Neil Armstrong no Brasil") e até para as naves espaciais. Verdade seja dita que o soviético Iuri Gagarin (1934-1968) já havia estado aqui em 1961, tendo na ocasião afirmado o seu orgulho em ser proveniente da classe operária, quando da visita ao Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Mas isso foi antes do já citado golpe de 1964 e do posicionamento anticomunista da ditadura militar. As relações entre o Brasil e os Estados Unidos, que já eram próximas desde o final da Segunda Guerra Mundial, se aprofundaram ainda mais após o golpe.


Os vôos espaciais da série Gemini foram preparatórios para o projeto Apollo, que deveria levar astronautas à Lua (acima, o lançamento da Gemini V no foguete Titan II, em agosto de 1965). A Gemini V foi o 11º voo espacial estadunidense tripulado, o 19º voo espacial humano de todos os tempos (incluindo aqui oito voos espaciais soviéticos) e a terceira missão do projeto Gemini. A nave ficou no espaço entre os dias 23 e 29 de agosto de 1965, quebrando o recorde de permanência em órbita da Terra, mesmo tendo antecipada a sua volta devido a um furacão. De qualquer forma, ficou demonstrada a resistência dos astronautas para uma viagem de ida e volta à Lua. A missão ainda bateu o recorde de voltas em torno da Terra, num total de 120 (o recorde anterior era dos soviéticos com 81). 


A Gemini V teve como tripulantes os astronautas Charles Conrad (1930-1999) e Gordon Cooper (1927-2004), sendo este último o comandante. Cooper participou dos três programas espaciais que culminaram com a chegada do homem à Lua: o projeto Mercury, o programa Gemini e o projeto Apollo (na foto acima, Conrad e Gordon antes do lançamento da Gemini V). 

Gordon se tornou o primeiro estadunidense a passar um dia inteiro no espaço, o primeiro a dormir no espaço (acima, Cooper após o retôrno na última viagem do projeto Mercury em 1963) e depois o terceiro humano a andar na Lua (como participante da missão Apollo 12).

A cápsula era o único artefato da missão a retornar à Terra (era o habitáculo dos astronautas) e não podia mais ser reutilizada. A nave chegou ao Rio de Janeiro na noite do dia 6 de janeiro de 1966, para ser apresentada ao público carioca junto com a exposição "Trabalhismo nos Estados Unidos", na sede do Automóvel Clube do Brasil (na foto acima, sem data, o edifício do ACB). Depois do Brasil, a exposição seguiria para a Argentina e para o México. Por isso, esta primeira apresentação ao público era um teste importante para os organizadores. 


Para receber a Gemini V foi montada uma tenda com faixas verticais em amarelo e azul, semelhante a um pequeno circo e posicionada bem em frente ao prédio do Automóvel Clube, no Passeio Público, centro do Rio de Janeiro (na foto acima, a chegada da Gemini ao local e ao fundo a entrada da exposição). A espaçonave nem havia completado um semestre de sua viagem e nunca havia sido mostrada ao público, nem mesmo nos Estados Unidos. Por sua vez, a exposição "Trabalhismo nos Estados Unidos" foi organizada pelo Serviço de Divulgação e Relações Culturais dos Estados Unidos (USIS) em colaboração com a Federação Americana dos Trabalhadores - Congresso das Organizações Industriais (AFL-CIO) e da Secretaria de Turismo da Guanabara (antigo Estado da Guanabara, que compreendia a cidade do Rio de Janeiro). 

No mesmo dia da chegada da Gemini, os organizadores concederam uma entrevista coletiva na Embaixada dos Estados Unidos (ainda instalada no Rio de Janeiro, apesar de Brasília) para que detalhes da exposição fossem divulgados à imprensa. 

Noyes Thompson Powers (1929-2007), assessor direto do Secretário do Trabalho dos Estados Unidos era, muito provavelmente, a maior autoridade daquele país presente (na imagem acima, a Miss Trabalhismo Susan Strickland e Thompson Powers, o segundo da direita para a esquerda). Powers havia sido organizador da campanha de John F. Kennedy à presidência e trabalhou depois nas campanhas primárias de seu irmão Robert Kennedy (até o seu assassinato em 1968). Em 1965, Thompson Powers havia estado no Brasil para liderar um projeto internacional de gestão na área trabalhista, tendo portanto uma familiaridade com o país e era considerado um grande apreciador da nossa cultura. Na entrevista também estiveram presentes os representantes sindicais da AFL-CIO, Ferdinand Sylvia e Gualberto Silva, sendo ambos de origem portuguesa e que por isso, falavam a nossa língua. Além deles, destaque para Susan Strickland, eleita Miss Trabalhismo especialmente para o evento e que era estudante da tradicional Escola Americana do Rio de Janeiro, uma instituição privada voltada para receber filhos de cidadãos estadunidenses (e de outras partes do mundo também) residentes na cidade. Para a exposição em São Paulo foi apresentada outra Miss Trabalhismo, a senhorita Pris (Priscila) Goslin. 

Durante a coletiva, os organizadores responderam muitas perguntas, sobretudo a respeito das questões trabalhistas, sendo uma delas sobre o desemprego nos Estados Unidos, que na época girava em torno de 4,4% da população trabalhadora (algo em torno de 3 milhões e 300 mil trabalhadores). Para os sindicalistas, o problema do desemprego seria superado quando fosse aprovada no Congresso uma lei enviada pelo presidente Lyndon Johnson (1908-1973), a qual permitia a redução da jornada de trabalho e aposentar os trabalhadores mais cedo (exatamente o contrário do que se pensa hoje), a fim de ampliar as vagas no mercado de trabalho. Os entrevistados destacaram que o país dispunha de seguro social, um auxílio que durava 36 semanas, tempo considerado suficiente para que o trabalhador conseguisse outro emprego. A automação (conjunto de tecnologias que permitem a operação automática da produção, sem a intervenção direta de operadores humanos) era vista como o fator que mais contribuia para a redução dos empregos. A previsão era de que, com o tempo, ocorreria o desaparecimento dos trabalhadores não especializados e rurais. De acordo com os representantes sindicais, o governo estadunidense incentivava as empresas a ampliarem as suas atividades em outras áreas, para empregar os operários que estavam sendo substituídos pela automação e capacitando trabalhadores para outros segmentos. A ideia era de que, enquanto estivessem em fase de treinamento, receberiam uma bonificação para a compra de cigarros, jornais, ingressos para teatros e para poderem participar de associações recreativas.  


Os sindicatos não necessitavam de consentimento governamental para se formar e nem sofriam interferências por parte das autoridades estadunidenses (na imagem acima, a Miss Trabalhismo, Susan Strickland, ao lado dos sindicalistas). Como afirmou Thompson Powers, o papel do governo em relação ao movimento sindical é semelhante ao desempenhado com outros grupos da iniciativa privada e que as leis existiam apenas para "manter certos níveis de atuação e regular as relações entre empregadores e empregados". Powers afirmou ainda que o intercâmbio com as entidades sindicais brasileiras visava estreitar as relações entre os trabalhadores dos dois países.

Um assunto, ao que parece um tanto quanto delicado, foi lembrado na coletiva: a greve no transporte público na cidade de Nova Iorque. Os representantes sindicais estadunidenses não deram maiores informações sobre esse movimento, alegando que estavam em viagem para o Brasil quando o mesmo teve início. Contudo, ressaltaram que uma lei estadual proibia greves e paralizações no funcionalismo público daquela cidade e que a Corte de Justiça teria de considerar o movimento ilegal, determinando a prisão de seus líderes (algo que, de fato, ocorreu). 


No dia 7 de janeiro de 1966, um sábado, a exposição foi inaugurada com a presença de aproximadamente 400 convidados (na foto acima, visitantes observam a Gemini V). Pelos relatos dos jornais da época, nenhuma autoridade de peso compareceu à cerimônia, nem o prefeito do Rio de Janeiro e nem o governador do antigo Estado da Guanabara. A recepção foi oferecida por Philip Raine, encarregado de Negócios da representação dos Estados Unidos, o qual ressaltou que o sucesso na melhoria das condições de vida da população estadunidense era decorrência do fato dos trabalhadores serem livres e também disso decorreu a formação dos sindicatos, possibilitando aos empregados negociarem em "igualdade de condições" com os empregadores. Uma mensagem do presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson (1908-1973), foi lida na ocasião e na mesma foi destacado o desejo compartilhado pelas organizações sindicais democráticas daquele país, de que os povos possam viver unidos em paz, com liberdade e progresso. 


Também estiveram presentes na inauguração o adido de imprensa da embaixada Jack Wyant, o adido científico Andre Simonpieri (1911-1986) e o encarregado da divulgação do programa espacial, Edward Hickey, que também era locutor da rádio "Voz da América", emissora estatal e internacional de notíciais  dos Estados Unidos (na foto acima, Hickey em 1962), os quais deram informações sobre as viagens espaciais. Hickey rebateu a ideia de que estivesse ocorrendo uma corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética. 


O que havia era a determinação em realizar a conquista do espaço para fins pacíficos, embora sempre fosse destacado que, naquele momento, levar o homem à Lua era o objetivo maior (na imagem acima, Hickey, segundo da esquerda para a direita e Simonpietri, primeiro à direita, presentes na abertura da exposição). Simonpietri previa que isso deveria ocorrer em 1970 ou, talvez, em 1969 (como, de fato, ocorreu), embora não soubesse afirmar se antes ou depois dos soviéticos, pois pouco se sabia a respeito do real estágio dos mesmos. Os Estados Unidos reconheciam que os rivais dominavam conhecimentos técnicos e científicos consideráveis, mas que a NASA (Agência Nacional de Aeronaútica e Espaço) estava "trabalhando direitinho", com vistas a colocar a bandeira dos Estados Unidos na Lua antes da União Soviética. Apesar da negativa dos entrevistados, era evidente que atingir essa meta seria um grande trunfo diante dos soviéticos. 


A exposição deveria ficar aberta ao público entre os dias 8 e 23 de janeiro de 1966, seguindo depois para São Paulo. A distribuição da mostra (feita em pelo menos 4 salas), começava logo na entrada com as fotos do presidente Lyndon Johnson e de George Meany (1894-1980), presidente da AFL-CIO, a maior central sindical dos Estados Unidos até os dias de hoje (na foto acima, Meany e Johnson em 1968), com 13 milhões de afiliados naquela época. Vários gráficos e estatísticas foram apresentados, como por exemplo, a evolução do salário médio do trabalhador, desde o início do século XX; de que um em cada três trabalhadores estadunidenses eram do sexo feminino ou de que 13 milhões de indivíduos recebiam cheques mensais de instituições previdenciárias, por aposentadoria ou invalidez (permanente ou temporária). De um total de 75 milhões de trabalhadores, algo em torno de 25% eram sindicalizados e o setor que mais agregava trabalhadores filiados era, na época, o da indústria automobilística. 

Os visitantes também poderiam ver 25 slides (imagens e fotos projetadas em uma tela de 1,50 por 1,80 metros) mostrando a história do movimento sindical nos Estados Unidos, a partir da década de 1930. Pela descrição feita no jornal "Tribuna da Imprensa" foram também exibidos filmes, reproduzindo como era um sindicato "típico" dos Estados Unidos, tendo como exemplo o dos trabalhadores do setor de energia elétrica. A imagem cinematográfica foi o recurso mais utilizado na exposição. Esse segmento teve uma frequência maior de empresários, executivos e dirigentes sindicais, como era de se esperar. 



Para os mais jovens e aficcionados pelas viagens espaciais, foi mostrado o documentário "Passeio no Espaço" (acima, um trecho desse filme), com as imagens tomadas durante o voo da Gemini IV, que marcou a primeira caminhada de um astronauta estadunidense fora da cápsula, protagonizada por Edward White (1930-1967). As maquetes das espaçonaves atraíram a atenção das crianças presentes ao evento. 


Mas, sem dúvida, a "vedete" (expressão muito comum na época, referência às atrizes do teatro de revista) da exposição era a cápsula espacial, com filas de mais de meia hora para ver e tocar a mesma (acima, painel de controle de uma nave modelo Gemini, como visto pelos astronautas). 

Para o público feminino, a atração foi o desfile de moda, com modelos desenhados pelos integrantes do Sindicato da Indústria de Confecções de Roupas Femininas.


Vieram dos Estados Unidos aproximadamente 60 modelos incluindo trajes de banho (como os apresentados na imagem acima, ao lado da Gemini V), que foram vestidos por nove alunas da Escola Americana do Rio de Janeiro. Os desfiles estavam previstos para durar 15 minutos e seriam exibidos a cada meia hora. Finalmente, em um quiosque, foi feita a distribuição de material impresso, contendo informações sobre o movimento sindical nos Estados Unidos, tais como guias referentes às negociações trabalhistas, livros tratando dos contratos coletivos de trabalho, entre outros. Várias entidades sindicais brasileiras tiveram encontros agendados com os representantes estadunidenses, às quais foi apresentado o "sindicalismo democrático", como era conhecido o modelo praticado pela AFC-CIO. 

De acordo com uma matéria do jornal Correio da Manhã, publicada no dia 9 de janeiro de 1966, o recinto da exposição recebeu um fundo musical com canções dos trabalhadores americanos, as quais por se referirem às greves, campanhas salariais, dificuldades sociais e choques entre patrões e empregados, não foram traduzidas para o português, a fim de não criar problemas com a ditadura militar que governava o país. As recepcionistas (também recrutadas entre as alunas da Escola Americana) fizeram apenas comentários gerais, sem entrar em maiores detalhes. 

Talvez essa exposição não seja tão lembrada pelos cariocas, em função de uma das maiores (senão, talvez, a maior) tragédia natural que a cidade do Rio de Janeiro sofreu: as chuvas que tiveram início na madrugada do dia 10 de janeiro de 1966 e que perduraram por cinco dias. Um rastro de destruição foi verificado em praticamente toda a área urbana, com deslizamentos nos morros, milhares de desabrigados e um saldo de mais de 250 mortes. 



A exposição não escapou aos efeitos do temporal. A cápsula ficou ilhada em meio a enchente na rua do Passeio Público e serviu até de abrigo para as pessoas (como mostram as duas fotos acima), correndo sério risco de sofrer danos em função da elevação do nível das águas, que alcançou 60 centímetros debaixo do toldo que a protegia. Os organizadores desmentiram a informação de que populares tivessem trepado na espaçonave para escapar da enchente. Em função desse imprevisto, a exposição ficou fechada por um dia. 


Não sabemos se foi algo programado com antecedência ou não, mas a Gemini V seguiu depois para a cidade serrana de Petrópolis (RJ), onde foi exibida por apenas dois dias no "Salão da Ciência", no conhecido Hotel Quitandinha (conforme vemos no anúncio acima). Já a exposição "Trabalhismo nos Estados Unidos" veio direto para São Paulo. Na capital paulista foi cumprido o mesmo ritual, com entrevistas à imprensa para apresentação e com roteiro de visita idêntico ao que foi visto no Rio de Janeiro. O mesmo Edward Hickey, da rádio "Voz da América", respondeu a várias perguntas, uma das quais sobre os requisitos para um indivíduo ser escolhido astronauta: ser nascido nos Estados Unidos; ter mais de duas mil horas de vôo em jatos; ser engenheiro aeronaútico e ter saúde perfeita. E acrescentou que em função dessas exigências, nenhuma mulher havia sido escolhida até aquele momento. Provavelmente, Hickey foi questionado sobre isso por algum jornalista, uma vez que a União Soviética já havia enviado uma mulher ao espaço. No dia 30 de janeiro, a Gemini V estava exposta na Praça da Sé, em frente à catedral, e lá permaneceu até o dia 6 de fevereiro. Já a exposição "Trabalhismo nos Estados Unidos" foi instalada na Galeria Prestes Maia (uma passagem ampla, debaixo do Viaduto do Chá) em pleno centro de São Paulo. 


A exposição foi inaugurada no dia 11 de fevereiro e contou com a presença do prefeito Faria Lima (na foto acima, da esquerda para a direita, Faria Lima; a Miss Trabalhismo, Pris Goslin e o consul dos Estados Unidos, Niles W. Bond, no corte da faixa inaugural). Além da mensagem do presidente Johnson, na mostra em São Paulo foi mencionada uma carta enviada por George Meany da central sindical AFL-CIO aos trabalhadores brasileiros. 


A etapa seguinte da exposição, após passar pela capital paulista, era a cidade de Buenos Aires. Infelizmente não conseguimos rastrear os detalhes da mesma na capital argentina, a não ser um envelope postal comemorativo sobre a Gemini V (imagem acima). A cápsula espacial foi exibida no Aeroparque George Newberry (o aeroporto situado dentro de Buenos Aires). 

Como já mencionamos anteriormente, a greve nos transportes públicos de Nova Iorque era um assunto delicado para os integrantes do AFL-CIO, que como vimos, pregava um modelo de sindicalismo mais comportado e não afeito ao estilo luta de classes, o que na visão deles, era identificado com o comunismo. Portanto, a AFL-CIO não teve participação nessa paralização. 


A greve foi organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transporte da América (TWU sigla em inglês) entre os dias 1 e 13 de janeiro de 1966, sendo a primeira a obter a adesão simultânea dos serviços de ônibus e metrô daquela cidade (na foto acima, trabalhadores na paralização). O inconveniente para os sindicalistas que estavam aqui no Brasil era que a greve questionou a ideia de existir plena liberdade para as organizações sindicais estadunidenses, pois o líder da TWU, Mike Quill (1905-1966) foi detido e morreu em decorrência de um ataque cardíaco, sofrido quando era levado à prisão, por suposto desacato a uma autoridade judicial. A paralização resultou em um aumento salarial consideravel aos trabalhadores e foi tida pelas lideranças sindicais como vitoriosa

De acordo com a historiadora Larissa Rosa Correa, em sua tese de doutorado "Disseram que voltei americanizado: Relações Sindicais Brasil-Estados Unidos na Ditadura Civil-Militar (1964-1978)" defendida na Unicamp em 2013, no início da década de 1960 existia a preocupação dos Estados Unidos com a infiltração comunista na América Latina, muito em função do êxito da Revolução Cubana (1959), que poderia se tornar um "mal exemplo" aos países da região. O alerta foi reiterado ao presidente brasileiro João Goulart, num encontro com John F. Kennedy em abril de 1962, na cidade de Washington. Em função disso, era desejo do governo Kennedy (e depois de seu assassinato, de Lyndon Johnson, seu vice e sucessor) de estreitar os laços da AFL-CIO com os sindicalistas brasileiros e que estes assimilassem a linha de atuação da mesma. O presidente Goulart não demonstrou o interesse esperado pelos Estados Unidos nessa questão. 

A Federação Americana dos Trabalhadores (AFL) surgiu em 1886, a partir da união das seis grandes organizações sindicais estadunidenses, estando focada essencialmente nas reinvindicações salariais e melhorias nas condições de trabalho. A central sindical agrupava trabalhadores com maior qualificação e foi acusada de discriminar negros e imigrantes. O Congresso das Organizações Industriais (CIO) surgiu em 1935, inicialmente como dissidência da AFL, procurando organizar os trabalhadores não especializados na luta por benefícios e leis sociais. O CIO foi resultado das políticas do New Deal para combater os efeitos da crise de 1929 sobre a classe trabalhadora, sobretudo o desemprego, buscando romper o individualismo e a postura apartidária predominante no movimento sindical. Mas, ao longo das décadas seguintes prevaleceu a linha adotada pela AFL, com o afastamento dos elementos mais radicais e dos comunistas, sobretudo na fase da Guerra Fria. Sob tais condições, as duas organizações acabaram se unindo em 1955, formando a AFL-CIO, a qual se tornou a maior confederação sindical dos Estados Unidos. 




Ainda de acordo com a historiadora Larissa Rosa Corrêa, a concepção da AFL-CIO era por uma pratica sindical focada na melhoria das condições de trabalho e reajustes salariais, o chamado sindicalismo "puro e simples" ou ainda "sindicalismo democrático", sem a interferência do Estado, de partidos políticos e pregando as negociações coletivas e diretas com os empregadores (acima, o logo da AFL-CIO e a sua sede em Washington). Era esse modelo, também chamado de contratualista, que a instituição pretendia exportar para o Brasil e para o mundo. Para isso, a AFL-CIO criou em 1961 o Instituto Americano para o Sindicalismo Livre (IADESIL), que veio depois a promover palestras, cursos, visitas e intercâmbio entre sindicalistas, inclusive do Brasil. Embora pregassem a independência do movimento sindical em relação ao Estado, o IADESIL acabou por se tornar um braço dos interesses do governo estadunidense, havendo inclusive suspeitas de colaboração de seus integrantes com a Agência Central de Inteligência (CIA). Uma anedota circulava entre vários sindicalistas brasileiros de que, na verdade, a AFL-CIO era a "AFL-CIA". 

Por outro lado, as praticas do movimento sindical no Brasil eram reguladas pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) implantada no período ditatorial de Getúlio Vargas, o Estado Novo (1937-1945), inspirado no modelo fascista italiano. Por exemplo, a mesma proibia o funcionamento de centrais sindicais que agregassem trabalhadores de diferentes setores da economia, sendo que a estrutura sindical era organizada a partir de sindicatos únicos e divididos por ramos de produção e regiões, com federações e confederações, as quais eram fiscalizadas e controladas pelo Ministério do Trabalho. O modelo brasileiro era classificado como corporativista, onde o Estado regulava as relações trabalhistas, intermediava e julgava os conflitos no setor (individuais e coletivos) por meio da Justiça do Trabalho.

Tornou-se evidente que existia uma grave contradição por parte da AFL-CIO em pregar o "sindicalismo democrático" num país que era governado por uma ditadura militar, que entre outras coisas, perseguia lideranças sindicais, mesmo as que não eram comunistas (nacionalistas, por exemplo). Embora também pregasse a liberdade dos trabalhadores, episódios como a greve nos transportes de Nova Iorque em 1966, deixam dúvidas sobre os limites dessa liberdade. Nenhuma referência foi feita pelos representantes da AFL-CIO presentes no Brasil a respeito da luta dos negros estadunidenses pelos direitos civis e igualdade, que tornou o pastor Martin Luther King conhecido em todo o mundo. Enfim, por trás da vinda da nave espacial, do filme sobre o passeio no espaço, do desfile de moda e da exposição sobre o trabalhismo democrático estadunidense, havia toda uma mensagem ideológica a ser transmitida. Afinal de contas, as guerras são travadas também no campo das ideias...

Crédito das imagens:

Fotos da Gemini V em 2028, do lançamento da nave, dos astronautas, do logo da AFL-CIO e da sede da mesma em Washington: Wikipédia.

Cenas do documentário "Passeio no Espaço": Youtube

Foto de George Meany da AFL-CIO com presidente Johnson: https://www.holdenluntz.com/artists/stan-stearns/president-johnson-with-afl-cio-founder-george-meany/

Foto da sede do Automóvel Clube: https://twitter.com/ORioAntigo/status/1280948548591370241

Foto da inauguração da exposição em São Paulo: The Foreign Service Journal, volume 43, nº 6, junho de 1966, página 35. 

Postal da exibição da Gemini V em Buenos Aires: https://www.ebay.co.uk/itm/283641786069

Fotos da Gemini V na Praça da Sé e no Passeio Público: Acervo Estadão. 

Foto da entrevista coletiva no dia da chegada da Gemini V ao Rio: O Jornal. Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1966, página 10 (1º Caderno). 

Foto de Susan Strickland com sindicalistas: Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 7 de janeiro de 1966, página 2, 1º Caderno. 

Público vendo a Gemini V no Rio: Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1966, página 16 (1º Caderno).

Entrevista no dia da inauguração da Exposição no Rio: Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 8 de janeiro de 1966, página 53. 

Foto de Edward Hickey: Voice of America: 75 years of After-Hours Wisdom. Washington D.C., pag. 67.

Foto dos populares abrigados debaixo do toldo da Gemini V: Revista Manchete. Bloch Editores, edição 0718, pag. 7.

Foto colorida do toldo da capsula Gemini V em meio à enchente: Revista Manchete. Bloch Editores, edição 0719, pag. 42. 

Anúncio da exibição da Gemini V em Petrópolis: Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 1966, página 10. 

Modelos posando ao lado da Gemini V: Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 19 de janeiro de 1966, página 10, 1º caderno. 

Foto dos grevistas do transporte público em Nova Iorque: https://www.twu.org/remebering-the-bravery-of-mike-quill-and-twu-local-100/

Fotos do retorno do astronauta Gordon Cooper e do painel da Gemini: O Homem e o Espaço. Biblioteca Científica Life. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1968, páginas 91 e 188 respectivamente.

domingo, 24 de dezembro de 2023

Salão dos Premiados 2023 da APBA





Já está aberto o Salão dos Premiados de 2023 na Associação Paulista de Belas Artes (APBA). Este que vos escreve participa da mostra, pois foi agraciado com a medalha de ouro no Salão da Figura Humana desta temporada.  



A atividade das (dos) modelos vivos é de fundamental importância para os artistas que tem como tema a figura humana e por isso, a procura por essas (esses) profissionais é muito grande. A APBA conta com modelos experientes nesse métier, para sorte dos frequentadores das sessões semanais de desenho do corpo humano (acima modelo vivo; autor: Jonas Almeida; lápis grafite e caneta nanquim sobre papel; tamanho 27 x 35 cm; ano 2023).

A mostra permanecerá aberta ao público até o dia 17 de janeiro de 2024 na sede da APBA. O endereço e o horário estão no convite acima...

Crédito das imagens:

APBA e acervo do autor.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Mensagem de Boas Festas e Feliz 2024

E a tão aguardada mensagem de final de ano do blog História Mundi chegou. Então vamos a ela!

Houve uma época...


em que os palestinos de origem árabe viviam em paz na Faixa de Gaza (acima, pintura do artista inglês Harry Fenn, 1838-1911, intitulada "Muçulmanos estudando o Alcorão com Gaza ao fundo", década de 1880); 


em que astros de Hollywood andavam tranquilamente pelo centro da cidade de São Paulo (acima, o casal de atores Tony Curtis e Janet Leigh, na avenida São João, em novembro de 1961, se dirigem ao cine Metro para a estréia do filme Psicose, de Alfred Hitchcock);


em que os governadores do Estado de São Paulo entregavam obras durante os seus mandatos (na foto acima, o governador Adhemar de Barros, em pé no carro da frente à direita, inaugura a via Anchieta, em abril de 1947); 


em que era possível reunir este "quarteto" para uma apresentação informal ou jam session, no estúdio da Sun Records, onde o dono, Sam Philips, encontrava-se no local e ligou o gravador (na foto acima, de 4 de dezembro de 1956, da esquerda para a direita, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Johnny Cash e Elvis Presley); 



em que o nosso futebol era, incontestavelmente, o melhor do mundo (acima, a Seleção que conquistou a Copa da Mundo de 1962 no Chile, liderada por Garrincha, o segundo agachado da esquerda para a direita);



em que o cavalo de Napoleão Bonaparte era, de fato, branco (na foto acima, o cavalo Vizir, em foto de 2019, que pertenceu a Napoleão, empalhado, no Musée de l'Armeé em Paris e atualmente com o pêlo meio acinzentado); 




em que a nudez não era castigada (na imagem acima, desenho de modelo vivo, feito pelo artista Jonas. Grafite e caneta nanquim sobre papel, tamanho 35 cm x 25 cm, ano 2023);


em que esta roupa foi utilizada no filme mais caro já produzido em Hollywood, até o início da década de 1960 (acima, traje usado pelo ator Richard Burton no filme Cleópatra, de 1963 e que se encontra no museu da Cinecittá Studios, em Roma); 


em que o Brasil era, de fato, o maior produtor mundial de castanha-do-pará (ou castanha do Brasil) e não a Bolívia (na foto acima, de 1940, em Porto Velho, atual capital de Rondônia, o presidente Getúlio Vargas segura em uma das mãos o ouriço, fruto da castanheira e dentro do qual estão as amêndoas ou castanhas); 



em que a orelha de Van Gogh virou souvenir para turistas (acima, chaveiro com a orelha de Van Gogh vendido no Palazzo Bonaparte em Roma, durante a exposição "Van Gogh: Masterpieces from The Kröller-Müller  Museum" em abril de 2023). 


Por essas e por outras é que este que vos escreve continua adorando a História. Um Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos (as) que acompanham o blog História Mundi...

Crédito das imagens:

Foto dos atores Tony Curtis e Janet Leigh em São Paulo: 

https://www.facebook.com/AAndreaMatarazzo/photos/s%C3%A3o-paulo-novembro-de-1961-o-ator-tony-curtis-e-sua-esposa-a-atriz-janet-leigh-e/2634926189909411/?paipv=0&eav=AfZLNMdqso8-vKJSaqrdmYYm5jtBv2JeBczlH5FL_RXNhd0gwTTs7udE_oT9HbmeOEU&_rdr

Pintura de Harry Fenn e o "quarteto" da Sun Records: Wikipédia.

Adhemar de Barros inaugurando a Via Anchieta: https://memoriasantista.com.br/via-anchieta-e-aberta-ao-publico-e-inicia-uma-nova-era-rodoviaria-em-sao-paulo/

Seleção Brasileira de 1962: https://www.band.uol.com.br/esportes/colunistas/blog-do-guri/ha-60-anos-brasil-ganhava-o-bi-na-malandragem-dentro-e-fora-de-campo-16564161

Foto de Getúlio Vargas com o ouriço da castanheira: A Castanha do Pará na Amazônia de José Jonas Almeida. Paco Editorial, 2016, página 286. 

Cavalo de Napoleão, traje do filme Cleópatra, foto do desenho de modelo vivo e chaveiro com orelha de Van Gogh: acervo do autor. 

sábado, 4 de novembro de 2023

A ascensão do Império Chinês e a Rota da Seda: primeira parte

 

Civilização surgida na Antiguidade, com uma história superior a quatro mil anos, dos quais mais de dois mil como Estado imperial, tendo uma cultura que subsiste e se revigora (acima, guerreiro de terracota, dinastia Qin, século III a.C.). Em seu período como império até os tempos modernos, a China foi a maior potência econômica e militar do mundo. Além disso, deixou um legado que transcendeu as suas fronteiras originais, por meio de invenções como a seda, o papel, a bússola e a pólvora, apenas para ficar nas mais conhecidas. A formação do Império Chinês ocorreu na mesma época em que os romanos iniciavam a conquista do mar Mediterrâneo, no século III a.C.. Duas civilizações que sabiam da existência uma da outra (porém sem contatos diplomáticos) e que chegaram a trocar produtos, dos quais o mais conhecido foi a seda, muito apreciada nas províncias orientais de Roma. Não é por outra razão que o caminho por onde o produto era comercializado teve este nome: Rota da Seda. 

Atualmente, o acelerado processo de desenvolvimento da República Popular da China nada mais seria do que a retomada desse papel histórico de grande potência, interrompido no século XIX e início do XX, em função do domínio imperialista promovido pelas nações industriais do Ocidente. Tendo como inspiração esse passado duradouro, a Nova Rota da Seda está sendo concebida pela China junto a vários governos orientais, como forma de integração econômica e comercial para se tornar um novo modelo de globalização, inicialmente centrada na Eurásia (lembremos que em termos territoriais, a Europa é uma extensão da Ásia), mas que deverá incluir povos e nações dos demais continentes. 

A formação da China guarda semelhanças com as demais civilizações da Antiguidade Oriental, sobretudo Egito, Mesopotâmia e Índia. O fato desses antigos povos se situarem no entorno das grandes bacias hidrográficas foi fundamental (para muitos historiadores até determinante) para a formação dessas sociedades. 


No caso chinês esse papel coube ao rio Huang Ho ou rio Amarelo (no mapa acima, o curso dos rios Huang Ho ao norte e Yang Tsé ao sul). O nome desse curso fluvial de 5.464 quilômetros (segundo rio da China depois do Yang Tsé ou rio Azul) guarda uma boa justificativa. Em meio a uma planície relativamente seca e empoeirada, o curso do Huang Ho carrega um sedimento amarelado, proveniente das montanhas da Mongólia ao norte, o qual durante as inundações se acumula no solo. Esse material fértil, chamado de loesse (do alemão löss) também trazido pelos ventos, contém na sua composição quartzito, calcário e calcita, além do óxido de ferro, do qual provém a cor amarelada. Portanto, o Huang Ho pode ser considerado o berço da civilização chinesa. O seu curso foi alterado ao longo do tempo, tanto pelas inundações como pela ação humana, através da construção de canais navegáveis e de irrigação. A sua bacia foi parcialmente desflorestada já no período anterior à formação do Império Chinês. Os bosques de carvalho foram utilizados para a construção de casas, móveis e na obtenção de lenha. Algumas áreas escaparam desse processo, o suficiente para abrigar muitos animais, como veados e patos selvagens. 

Os textos antigos mencionam os reis Xia como sendo a primeira dinastia a governar a China, tendo como fundador Yu, o Grande, o qual teria governado aproximadamente no final do terceiro milênio antes de Cristo (acima uma representação do rei Yu feito em seda, século XIII da nossa era). Não existem evidências arqueológicas a respeito dessa casa real e muitos historiadores a consideram mitológica, o que não significa que a sociedade chinesa não estivesse em processo de transformação nos finais do Neolítico (última etapa da Pré-História). A agricultura era a principal atividade econômica e possivelmente já fosse conhecida a irrigação do solo, como também a domesticação de animais como bois, porcos, cães, cabras e carneiros. A produção da seda era conhecida desde tempos imemoriais. 



A Pré-História chinesa termina com a subida ao poder da dinastia Shang, cuja origem vamos encontrar no nordeste do território chinês, na atual província de Henan (na imagem acima, o rei Tang, primeiro governante da dinastia Shang, numa representação do século XIII da nossa era). 



O período Shang, entre 1600 e 1100 a.C. (antes de Cristo) marcou o início da Idade do Bronze na China e de vários aperfeiçoamentos, sobretudo no campo militar (acima, vaso ritual de bronze da época da dinastia Shang) .  


O surgimento dos carros puxados a cavalo trouxeram maior mobilidade aos guerreiros, levando à formação de uma nobreza, que utilizava as reuniões de caça como treino para as batalhas (acima, túmulo onde temos um carro com os restos do condutor e dos cavalos, aproximadamente ano 1000 a.C.). Duas ou até três centenas de clãs (grupos familiares que se identificavam por terem os mesmos antepassados) se impunham através do monopólio no uso das armas de bronze (elmos e espadas). As expedições militares, principalmente contra as tribos do norte, culminavam com o saque e o pagamento de tributos tirados aos inimigos, além da obtenção de prisioneiros para os sacrifícios rituais e escravos. 

Na dinastia Shang, o estado já era capaz de mobilizar trabalhadores para a construção de muralhas de terra batida, túmulos e até mesmo cidades. 




Da mesma forma, havia o uso rudimentar de moedas de conchas e depois de bronze, utilizadas para fins específicos como compra de ferramentas e armas (acima, duas moedas de bronze imitando a forma de pás da dinastia Shang). 



A maioria da população era formada por camponeses e a atividade agrícola organizada por superintendentes do rei que forneciam os instrumentos de trabalho (acima, vaso para vinho feito em bronze, dinastia Shang). As colheitas eram guardadas nos celeiros reais após descontados os tributos. Também existiam feudos (territórios que podiam ser explorados) concedidos pelo poder central a príncipes, generais e altos funcionários, os quais se tornavam vassalos do rei, devendo auxílio militar em tempo de guerra. 

A sucessão ao trono era feita na própria Corte Shang, entre as famílias tradicionais e de acordo com o número de antepassados importantes que cada príncipe tivesse. 




Para orientar a escolha eram feitas adivinhações por meio da "leitura" de um casco de tartaruga ou dos ossos dos animais. Os prognósticos a respeito das guerras, das caçadas, das chuvas e das colheitas também eram feitos dessa forma e as previsões anotadas nos próprios objetos. Em razão disso, para muitos estudiosos, esses rituais contribuíram para o desenvolvimento da escrita (acima, o osso de oráculo e casco de uma tartaruga com inscrições das previsões). 

Por volta do ano 1046 a.C., o último governante Shang foi destituído do poder após o confronto com o estado de Zhou, localizado a oeste, no vale do rio Wei (afluente do Huang Ho). A subida ao poder da dinastia Zhou foi marcada, inicialmente, por uma fase próspera de pelo menos duzentos anos, sendo a mais longa de todas as casas reais que comandaram a China. 



Muitos dos costumes Shang foram mantidos pela nova dinastia, até como forma de legitimar o poder junto aos súditos, como por exemplo, os rituais que buscavam influenciar os espíritos e a vontade celestial (acima, recipiente em bronze para rituais, final da dinastia Shang). Os mesmos estimularam a produção dos vasos cerimoniais, recipientes feitos de bronze ou em ouro. 


Muitos artesãos metalúrgicos foram trazidos a força de outros territórios a fim de produzir esses objetos, contribuindo ainda mais para a evolução da metalurgia (acima, lamparina de bronze em forma de mulher, século II a.C.). 

Com a dinastia Zhou foi consolidada a ideia do "Mandato Celestial" onde o rei era visto como "filho do céu". Sob tal condição, o mundo lhe pertencia e por isso o rei deveria comandá-lo, desde que o fizesse com justiça e respeito ao bem-estar dos súditos. Caso fugisse a esses princípios, o Céu poderia, após um aviso, retirar-lhe o mandato e entregá-lo a outro. Certos acontecimentos do mundo natural, como terremotos, queda de meteoritos, aparições de cometas e secas prolongadas eram vistos como sinais da inadequação moral ou ritual do governante. Ao contrário das outras culturas contemporâneas, não existia entre os antigos chineses a ideia da revelação divina ou força sobrenatural dos deuses (ou deus único) atuando de forma determinante. A força decisiva era proveniente dos próprios indivíduos, que ofereciam celebrações aos espíritos da natureza e aos antepassados a fim de obterem aprovação. 


Tal concepção de poder celestial estimulou o desenvolvimento da astronomia, na qual o calendário era baseado (acima detalhe de um calendário, tido como o documento chinês mais antigo e feito em seda, cerca do ano 500 a.C.).  



O reinado Zhou ampliou a concessão dos feudos, agora entregues a parentes dos governantes, podendo ser restituídos aos reis (acima, vaso cerimonial feito em bronze, que contém uma inscrição registrando a entrega de um feudo pelo rei, dinastia Zhou). Contudo, os mesmos acabaram por se tornar posses hereditárias. Tal pratica (que em menor escala, era feita na dinastia anterior, como vimos) acabou diminuindo de modo progressivo a autoridade real. No século VI a.C., o rei Zhou era uma figura simbólica, comandando rituais arcaicos e caçadas reais, destituído de poder político. Essa fase foi caracterizada pelos historiadores como o período feudal chinês, pela semelhança com a Idade Média europeia. 



Apesar da desagregação da dinastia Zhou, a sociedade chinesa apresentava uma dinâmica própria (acima, tigre em bronze do final da dinastia Zhou). A população camponesa desenvolveu aperfeiçoamentos como o uso da tração animal na agricultura (arado puxado por bois) e o ferro fundido para a confecção dos instrumentos de trabalho. 



Enquanto cavaleiros e barões ainda usavam armas feitas de bronze, os camponeses cada vez mais dependiam do ferro para cultivar a terra, o que fez aumentar a produção agrícola (acima, pequenos leopardos de bronze, usados como peso e  encontrados no túmulo de uma mulher nobre, século II a.C.). Como afirmou o historiador e sinólogo (especialista em China) estadunidense Edward H. Schafer, no final do período Zhou o bronze era aristocrático e o ferro plebeu. Com o aumento na produção de alimentos, a população cresceu e até mesmo as cidades expandiram as suas áreas de influência. 


No contexto dessas transformações técnicas e materiais, havia a ameaça das tribos nômades do norte (região que hoje corresponde à Mongólia), que sobreviviam da caça, do pastoreio e como recurso complementar, a guerra e a pilhagem (acima, representação posterior, feita em argila, dos cavaleiros mongois, século VI d.C.). Essas populações eram consideradas bárbaras, da mesma forma que os povos que habitavam ao sul do rio Yang-Tsé (chamado mais tarde de rio Azul), os primeiros a desenvolver o cultivo do arroz em grande escala. Apesar disso, os chineses tiveram de adotar muitas técnicas de combate desses "bárbaros", como o uso da cavalaria. 

Hua era como os antigos designavam a China original e depois "Império do Meio", expressão que reflete a concepção de centro de poder e de cultura, rodeada de territórios e tribos tidas como selvagens. 

No entanto, esse núcleo "civilizado" da China entrou em convulsão. A forma descentralizada de poder não atendia mais às necessidades de organização econômica e proteção militar dos territórios, agora divididos em estados independentes, os quais guerreavam entre si, daí o nome dado a essa época de Período dos Reinos Combatentes (481-221 a. C.). 



A desordem política e social não escapou a atenção de intelectuais e pensadores, um deles chamado Kung Fu-tzu cujo nome ocidentalizado ficou Confúcio (551 a.C.-479 a.C.). Nascido no Estado de Lu (hoje província de Shantung, no nordeste da China) e oriundo de família nobre empobrecida, Confúcio (acima, representação do pensador pintada em seda, sem data) cultivou a leitura e o gosto pela música. Adulto, tornou-se tutor de nobres e princípes. Em certo momento de sua vida, descontente com a sociedade, Confúcio resolveu sair em uma longa viagem, que durou treze anos, tentando disseminar certos princípios morais junto a elite e aos governantes. Na sua visão, o indivíduo de boa formação poderia se transformar em uma pessoa superior, combinando virtudes como o altruísmo (desprendimento e abnegação) na vida privada e a polidez na vida pública. A boa educação deveria ser desenvolvida junto com a apreciação da música, pois esta ajudaria a constituir um bom caráter, inclusive entre os governantes, os quais deveriam conduzir a administração com justiça. Confúcio não deixou nada escrito, mas o seu pensamento foi transmitido para as gerações seguintes por seus discípulos, através de aforismos (sentenças morais) como estes:

Um homem de boa formação é o que, de um lado, é sério e perspicaz e, de outro, mostra ter genialidade. Ele é sério e perspicaz entre seus amigos e mostra-se genial entre seus irmãos. 

Se há honestidade no coração, há beleza no caráter. Se há beleza no caráter, há harmonia no lar. Se há harmonia no lar, há ordem na nação. Se há ordem na nação, há paz no mundo. 

Mais tarde, na dinastia Han, suas teses foram reinterpretadas e serviram de base ao pensamente filosófico e político chinês, a ponto das crianças em idade escolar terem de decorar vários de seus aforismos. O conhecimento profundo de seu pensamento se tornou requisito para o ingresso na carreira pública e sua influência, quase religiosa, perdurou por mais de dois mil anos. Contudo, no Período dos Reinos Combatentes, suas teses não haviam tido grande repercussão, exceto entre os aristocratas, os quais viam em suas ideias uma defesa da tradição Zhou. 



Sete estados (os mais fortes) constituiam os chamados Reinos Combatentes: Han, Wei, Zhao, Qi, Qin, Chu e Yan (como mostra o mapa acima com destaque para o Estado de Qin). A amplitude dos conflitos deveu-se às várias transformações ocorridas na sociedade chinesa, como o crescimento populacional e o papel exercido pelas cidades, algumas com até cem mil habitantes. A mobilização dos exércitos atingiu uma escala nunca antes vista e a própria guerra acabou por ser incorporada ao cotidiano das populações. Grande parte da riqueza gerada pela agricultura e pelas poucas trocas comerciais era requisitada para manter o estado de guerra permanente. 

Su Qin (380-284 a.C.), pensador e mestre em retórica (a arte de falar bem) descreveu como as mobilizações pesavam sobre os cidadãos comuns: 

Quando se escuta o som da guerra, as riquezas pessoais tem de ser diminuídas para enriquecer os soldados. A comida e a bebida são racionadas para mimar os guerreiros suicidas. Os carros são desfeitos para se arranjar lenha para fogueiras. Os bois são abatidos para alimentar os exércitos... Os cidadãos dizem orações. Os governantes fazem oferendas. Desde a mais acessível das cidades até o mais pequeno dos distritos, aparecem altares por todo o lado. Cada cidade suficientemente grande para ter um mercado, pára toda a atividade para manter o rei... [E depois de tudo terminado] as famílias dos pobres ficam empobrecidas para poderem enterrar os seus familiares (...).     

A mobilização de trabalhadores possibilitou a construção das muralhas de terra batida, algumas com centenas de quilômetros, erguidas não apenas para separar o território chinês dos territórios bárbaros ao norte, mas também para dividir os próprios estados chineses entre si. O recrutamento dos camponeses para essas obras era feito numa espécie de trabalho obrigatório ou servidão coletiva, bem diferente da escravidão, pois era por um período de tempo determinado. Tais muros de defesa formaram o embrião da futura Grande Muralha da China.  

Nesse período conturbado, vários tratados sobre estratégias militares foram escritos, sendo o mais conhecido deles "A Arte da Guerra" de Sun Tzu (544-496 a.C., aproximadamente). O autor (ou conjunto de autores) considerava a guerra uma atividade vital para o Estado e por isso se propôs a orientar reis e generais.



No entanto, Sun Tzu dava maior importância aos aspectos morais, intelectuais e circunstânciais envolvidos nos confrontos entre Estados, sem recorrer necessariamente às lutas ou cercos prolongados (acima, uma cópia escrita em bambu de "A Arte da Guerra"). A vitória poderia ser alcançada preservando-se, na medida do possível, os bens materiais e as cidades. Sun Tzu enfatizava o enorme custo econômico que um conflito poderia causar, como a inflação nos preços dos alimentos. 


Um aspecto que hoje pode ser caracterizado como atividade de inteligência ganhou destaque: o de conhecer o inimigo por dentro e perceber as suas fraquezas (acima, punho de adaga feito em ouro, século IV a.C.). Até mesmo o uso de informações falsas para confundir o adversário e a infiltração de agentes espiões faziam parte das estratégias preconizadas. A obra influenciou futuros líderes, como Napoleão, Mao Tsé-Tung, os generais Vo Nguyen Giap (do Vietnã) e mais recentemente Colin Powel (dos Estados Unidos). 

O reino de Qin (mais a oeste) reuniu os requisitos para assumir a liderança dos Reinos Combatentes. Em meados do século IV a.C., Shang Yang (390-338 a.C. aproximadamente), primeiro-ministro de Qin, implantou reformas que transformaram o antigo estado feudal em um reino centralizado e forte. O território foi dividido em distritos administrativos e as terras camponesas convertidas em propriedade privada (na verdade, concedidas pelo Estado) permitindo-se a compra e venda das mesmas. Os camponeses que produzissem acima de uma determinada cota estavam isentos do trabalho compulsório prestado ao governo. Vadios, ociosos e criminosos eram considerados escravos do Estado.  

Shang Yang modernizou o exército de Qin com uma nova elite militar, cujo critério de ascensão era o mérito e não mais a ancestralidade. A quantidade de cabeças cortadas dos inimigos passou a ser aceita como comprovação da habilidade no campo de batalha. O exército foi equipado com suprimentos extras de alimentos, armas e cavalos, o que permitia manter as campanhas militares por um período maior de tempo. Tal condição ajudou a desenvolver a guerra de cerco, com o uso de torres de assalto (que abordavam as muralhas inimigas) e túneis escavados. A cavalaria foi aperfeiçoada para campanhas militares de maior duração. Com a adoção do alistamento militar obrigatório, o exército começou a se profissionalizar. 


O regime estabelecido pelo reino de Qin fundamentava-se em leis rigorosas e severas contra os inimigos do Estado (acima, adaga de ferro com o punho feito em ouro e turquesa, Período dos Reinos Combatentes). Tal sistema de governo, conhecido como Legalismo, contrastava com o pensamento de Confúcio, mais simpático aos tempos aúreos da dinastia Zhou e seus valores tradicionais. 

Na primeira metade do século III a.C., dois novos sistemas de irrigação foram construidos (nos rios Min e Wei, afluentes do Huang-Ho) fazendo aumentar a produção de alimentos. O controle dos centros de produção de ferro na região de Chu (que havia sido tomada) ampliou a disponibilidade desse metal. Na agricultura a substituição da força humana pela tração animal progrediu, através do uso do arado (de ferro) puxado por bois. Qin passou a ser um estado temido pelos demais e também criticado por ter abandonado os antigos valores da fase feudal.  

Em 246 a.C., quando o rei Zhao Zheng subiu ao poder em Qin, com apenas 12 anos de idade, o processo expansionista já estava em pleno andamento. O Estado de Shu (atual Sichuan) havia sido anexado e o território avançou sobre o vale de dois importantes rios, o Han (afluente do Yang Tzé) e o Fen (afluente do Huang Ho). Por volta do ano 250 a.C., a supremacia de Qin era incontestável e tendo uma população maior do que qualquer outro Estado chinês. 




Finalmente, em 221 a.C., após conquistar o último dos antigos Reinos Combatentes (Qi), Zhao Zeng se autoproclamou primeiro imperador, passando a ser designado como Qin Shi Huang, literalmente primeiro imperador da dinastia Qin, exatamente como aparece nos "Registros do Grande Historiador" do escritor Sima Quian (145-90 a.C.), considerado "o pai da história chinesa" (na gravura acima, uma representação do primeiro imperador chinês feita em 1850). Para a maioria dos estudiosos este foi o marco fundador do Império Chinês, não apenas pelo fato de existir um monarca com título imperial, mas também em termos de centralização do poder e unificação territorial. 


Qin Shi Huang estendeu as campanhas militares ao sul, onde alcançou as tribos Yue que viviam onde hoje é o Vietnã e no nordeste alcançou os limites da península da Coreia (no mapa acima, o Império Qin e os seus limites, inclusive ao norte, a Grande Muralha). O imperador determinou a ocupação de parte dessas terras por meio da migração forçada de chineses han, a etnia que até hoje predomina na China com mais de 90% da população. 

Os territórios foram organizados em 36 (depois 40) unidades administrativas (ou províncias) contendo condados, distritos e aldeias (a menor unidade), tendo estas até uma centena de famílias. Os administradores desses territórios passaram a ser escolhidos com base no mérito e não mais na condição hereditária, o que enfraqueceu a velha aristocracia feudal. 

Na implantação do governo imperial teve destaque o primeiro-ministro Li Si (280-208 a.C. aproximadamente), leal seguidor do Legalismo e que determinou a padronização dos pesos e medidas, além de criar um sistema monetário único. Até mesmo as carroças passaram a ter uma bitola (largura) padrão para facilitar a circulação nos sulcos abertos nas estradas. 



A escrita chinesa foi simplificada a fim de ser uniforme em todo o império (acima, caligrafia da dinastia Qin). Além disso, foram construidas estradas e canais navegáveis favorecendo as trocas comerciais. Em função dessas medidas, uma nova classe de comerciantes, arrendatários de minas, salinas e fundições começou a prosperar. 

A população camponesa estava sujeita a impostos sobre a terra e a produção, como também requisitada para a construção das obras públicas, como a interligação da Grande Muralha, no limite norte do império. Centenas de milhares de trabalhadores construiram os muros numa extensão de aproximadamente dois mil quilômetros. Vale lembrar que a mesma foi sendo ampliada e remodelada ao longo do tempo, até atingir a sua extensão máxima no período da Dinastia Ming (século XIV da nossa era). 

Qin Shi Huang foi descrito mais tarde como um governante cruel e sanguinário, lembrando que tais qualificações foram dadas pelos seus sucessores da dinastia Han, os quais não eram simpáticos ao seu legado. Conta-se que os indivíduos acusados de crimes contra o Estado eram decapitados, cortados ao meio pela cintura (ainda vivos) ou fervidos em enormes caldeirões. Ao descobrir que um de seus músicos favoritos estava envolvido em um complô, o imperador, para não perder o talentoso artista aplicando-lhe a pena de morte, determinou que durante uma apresentação o músico tivesse os seus olhos arrancados e em seguida continuasse a tocar o instrumento. 



A fim de evitar conspirações ou golpes de Estado, as antigas famílias nobres foram "convidadas" a viver na nova capital, Xianyang (acima, uma possível reconstituição do palácio do imperador Qin). Eventuais críticas ao sistema de governo não eram toleradas, sobretudo as provenintes dos aristocratas e seguidores de Confúcio. O primeiro-ministro Li Si ordenou a queima dos livros confucionistas, os quais em sua opinião estavam presos ao passado e se esquecendo do presente. Relatos posteriores, embora controversos, davam conta de que centenas de intelectuais confucionistas teriam sido enterrados vivos. Segundo o historiador Mark Elvin (especialista em China na Universidade Nacional Australiana) as tendências feudais sobreviveram no interior da China nos mil anos seguintes, envolvendo uma luta constante entre o poder central (e sua burocracia) e o poder local (aristocrático). 




O imperador planejou cedo o seu governo no plano celestial. O mausoléu que deveria abrigar o seu corpo começou a ser construído quando tinha 13 anos (nas imagens acima, uma possível reconstituição do túmulo e como está o local atualmente) utilizando centenas de milhares de trabalhadores. O enorme complexo está localizado nas proximidades da cidade de Xi'an (atual província de Shaanxi), mas ainda não foi escavado pelos arqueólogos que temem possíveis danos na estrutura do monumento. Os mesmos aguardam novos aperfeiçoamentos técnológicos para começar o trabalho, previsto talvez para daqui um século. Muitos acreditam que verdadeiros tesouros possam estar enterrados nesse local e no seu entorno, uma vez que os historiadores consideram tratar-se de um gigantesco complexo. Contudo, uma descoberta surpreendente foi feita, ao acaso, nas proximidades.


No ano de 1974, um grupo de trabalhadores iniciava a escavação de um poço, a aproximadamente um quilômetro e meio a leste do local onde está o maúsoleu do imperador, quando várias estátuas soterradas começaram a aparecer (foto acima).


Era apenas o começo de uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX, um exército de mais de seis mil soldados, todos em tamanho natural, feitos em terracota (argila cozida ao forno) e enterrados em quatro câmaras subterrâneas, designadas posteriormente como valas (acima a vala 1).


A vala 1 era a maior, com os milhares de guerreiros em formação de combate. Nas escavações iniciais, muitas das estátuas se quebraram e tiveram de ser posteriormente remontadas (acima, detalhe da vala 1). 



Na vala 2, descoberta em 1976, foram encontrados mais de 1400 carros de combate com os respectivos condutores, também em terracota (acima, guerreiros acompanhados dos cavalos). Na vala 3 existia uma formação com os comandantes militares de elite. Já a vala 4 estava vazia, um sinal de que o trabalho talvez não estivesse concluído quando da morte do imperador. 

Cada guerreiro foi moldado em detalhes, sendo possível saber a graduação pelo uniforme  (na imagem acima, pelo tipo de penteado e armadura, sabe-se que este militar encontrado na vala 2 pertence à guarda do imperador). Cabeças, braços e corpos foram confeccionados separadamente e depois unidos com tiras de barro. O corpo era oco e ligado às pernas, que eram maciças. As orelhas, barbas e armaduras também foram moldadas a parte e depois acrescentadas na face dos guerreiros. Por isso, cada um deles tinha o seu próprio rosto, não existindo guerreiros iguais. Os cavalos foram moldados seguindo esse mesmo procedimento. Ao final, as figuras eram cozidas em altas temperaturas e a base abaixo dos pés (cozida separadamente) colocada mais tarde. 




Todas as esculturas foram pintadas em cores vivas cujos vestígios ainda podiam ser observados (nas imagens acima, guerreiro em terracota portador de besta e o mesmo reconstituído em cores). Infelizmente em contato com o ar após serem desenterrados, os pigmentos de cor acabaram se dissolvendo. 



Os guerreiros estavam posicionados como se estivessem prontos para entrar em combate (acima, soldados de terracota ainda com os vestígios das cores originais). 


Muitos guerreiros foram confeccionados com as armas verdadeiras (espadas, lanças e bestas) junto ao corpo (acima, uma besta encontrada junto aos soldados de terracota, em excelente estado de conservação). O curioso é que nenhum documento, da época e posterior, fez menção ao Exército de Terracota, como passou a ser conhecido em todo o mundo. 



Em sua outra vida, Qin Shi Huang contaria com a proteção desse exército (acima, uma armadura toda confeccionada em pedra, encontrada no complexo do mausoleu, provavelmente feita para finalidades rituais).

Em seus últimos anos de governo, o imperador, temendo atentados (já havia sofrido três), dormia em lugares diferentes todas as noites. Aquele que revelasse os locais de refúgio era sentenciado à morte. Contudo, a sobrevivência de seu poder no plano celestial parece não ter sido suficiente. Ao perceber a chegada da velhice, o imperador ficou obsecado com a ideia da imortalidade. Para isso, cercou-se de centenas de médicos e alquimistas pedindo-lhes que encontrassem o elixir da vida eterna. Alguns cometerem o erro de tentar ludibria-lo e por isso pagaram com a própria vida, sendo enterrados vivos. 

O mais curioso é que um desses elixires, o qual deveria lhe conceder a vida eterna, acabou por levá-lo à morte. O motivo: a elevada taxa de mercúrio na fórmula. 



Em 210 a. C., Qin Shi Huang morreu aos 49 anos, durante uma viagem, acompanhado pelo seu ministro Li Si, o qual temia dar a notícia do falecimento até mesmo para a comitiva que o acompanhava (na imagem acima, Qin Shi Huang em uma viagem, retratado em um álbum do século XVIII). Por isso, colocou o corpo do imperador em um carro isolado, fingindo estar conversando com ele e levando diariamente as suas refeições. Li Si chegou ao ponto de mandar trazer um carregamento de peixe podre para disfarçar o odor do corpo em estado de decomposição. A notícia oficial de sua morte foi dada apenas quando chegaram à capital. 

Ao longo de seu governo Qin Shi Huang nunca teve uma imperatriz consorte e nem chegou a nomear um herdeiro legítimo, embora tivesse tido filhos com suas concubinas. 

Controvérsias a parte, a figura de Qin Shi Huang ganhou, afinal, a sua importância na história. Visto inicialmente como um déspota sanguinário, acabou depois reverenciado como aquele que levou a China ao seu primeiro momento de grandeza. Além disso, defendeu-a de seus inimigos, um dos quais os cavaleiros Xiongnu, a mais poderosa nação da antiga Mongólia, numa luta que veio a contribuir para a construção da Grande Muralha e na formação da Rota da Seda. 

Mas a unidade política constituída pela dinastia Qin iria perdurar após a morte do primeiro imperador? O Império Chinês conseguiria enfrentar os invasores Xiongnu? E como surgiu, afinal, a Rota da Seda? Vamos deixar essas e outras questões para a segunda e última parte desta postagem...

Crédito das imagens:

Guerreiro de terracota; vaso ritual de bronze da dinastia Shang; túmulo com restos de carro puxado a cavalo; conchas e moedas do século XII a.C.; vaso para vinho da dinastia Shang; vaso ritual de bronze da dinastia Shang; casco de tartaruga com inscrições; lamparina de bronze; leopardos de bronze; cavaleiros bárbaros; cabo de punhal feito em ouro e guerreiros em terracota desenterrados e guerreiros acompanhados dos cavalos: Coleção Grandes Impérios e Civilizações. China: gigante milenário. Volume I. Edições del Prado, 1997, páginas 86, 78, 59, 70, 58, 55, 106, 107, 99, 72, 87 e 85.

Moedas de bronze da dinastia Shang e tigre em bronze: História das Civilizações. Volume I. Abril Cultural, 1975, páginas 53 e 60. 

Detalhe dos guerreiros na vala 1 e armadura de pedra: Pinterest. 

Vaso cerimonial da dinastia Zhou com inscrição: https://www.worldhistory.org/image/3045/bronze-zhou-cooking-vessel/

Recipiente para rituais do final da dinastia Shang: http://www.jameelcentre.ashmolean.org/collection/4/901/909/11944

Mapa dos rios Amarelo e Azul: https://sitedabisa.com/sitedabisa-com/apresentacao/civilizacoes-do-extremo-oriente/

Possível reconstituição do mausoleu de Qin Chi Huang: https://www.shutterstock.com/pt/video/clip-1079586065-this-hypothetical-simulation-model-ancient-qin-shi

Mapa do Império Qin e escrita da fase Qin: https://brewminate.com/the-art-and-architecture-of-china-before-1279-ce/

Retrato de Yu, o Grande; documento do ano 500 a.C. e representação de Confúcio: China Antiga. Biblioteca de História Universal Life, Livraria José Olympio Editora, 1973, páginas 78, 145 e 60 respectivamente. 

Recipiente em bronze para rituais da dinastia Shang; livro de Sun Tzu escrito em bambu; representação do imperador Qin Shi Huang feita em 1850; aspecto atual do mausoléu do imperador Qin Shi Huang e guerreiro de terracota com vestígio de cor: Wikipédia. 

Guerreiro portador de uma besta e reconstituição do mesmo em cores: Impérios em Ascensão: 400 a.C.-200 d.C.. Coleção História em Revista. Editores de Time-Liufe Livros e Abril Livros, Rio de Janeiro, 1995, páginas 138 e 145. 

Reconstituição do palácio do imperador Qin: https://www.chinafetching.com/qin-dynasty

Adaga de ferro com punho em ouro e turquesa e detalhe do oficial em terracota da guarda do imperador: http://www.alaintruong.com/archives/2019/07/31/37532999.html

Besta desenterrada: https://www.ancient-origins.net/news-history-archaeology/excellently-preserved-crossbow-2200-years-ago-terracotta-020269

Mapa dos Reinos Combatentes: https://www.thecollector.com/qin-shi-huangdi-chinese-emperor/ 

Qin Shi Huang representado durante uma viagem: https://www.laphamsquarterly.org/roundtable/art-not-dying

Rei Tang e osso de oráculo: //www.worldhistory.org