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domingo, 7 de outubro de 2012

Hebe Camargo e os Anos de Chumbo




Não há como negar a importância que teve a apresentadora Hebe Camargo para o cenário artístico. Sua trajetória se confunde com a própria história da televisão brasileira inaugurada em 1950. Hebe esteve presente no porto de Santos quando os equipamentos importados pelo jornalista Assis Chateaubriand chegaram ao Brasil para a inauguração da TV Tupi naquele mesmo ano. 
Por outro lado, também não há como negar que o seu público apresentava um nítido traço conservador característico da classe média urbana, sobretudo a paulistana, da qual ela representava uma espécie de modelo a ser seguido. Hebe acompanhou o crescimento desse segmento social com a acelerada urbanização da década de 1950 em diante. Apesar de suas origens humildes, ela encarnou esse papel de ícone das donas de casa por mais de cinquenta anos, principalmente nos seus programas de entrevistas, cujo padrão foi moldado nos tempos da TV Record na década de 1960. Seu programa noturno era líder de audiência e marcou o auge da emissora comandada por Paulo Machado de Carvalho. Os especiais dos quais participou também marcaram época, principalmente os humorísticos, como a atração "Romeu e Julieta" ao lado do comediante Ronald Golias.
Hebe se comunicava de forma simples e direta com o seu público. As suas atrações eram puro entretenimento, sem grandes reflexões ou críticas. Por isso, não teve nenhum problema com os generais que davam plantão em Brasília nos tempos da ditadura, muito pelo contrário. 
Para os que a criticavam por não ter diploma escolar, ela exibia em sua casa o "Diploma homenagem a Hebe Camargo, pela colaboração prestada na divulgação do primeiro aniversário do Governo do Presidente Costa e Silva". O mesmo contava ainda com a assinatura de três ministros.
A frivolidade e superficialidade de suas falas eram alvo de duras críticas por parte de intelectuais e críticos da alienação política promovida pela televisão. Em 1969, quando perguntada a respeito do presidente militar Arthur da Costa e Silva (1967-1969) afirmou gostar do mesmo:
- Você viu, ele chorou no dia da posse. Homem que tem capacidade de chorar é porque é bom, não tem veneno na alma, pode compreender o problema dos outros. Que pena que ele esteja doentinho...
Contudo, em 1969, o seu programa apresentava alguns sinais de desgaste agravados pela censura da própria Ditadura Militar, a existência de entrevistas impostas e os desencontros da equipe de produção. O Brasil já vivia as  consequências do Ato Institucional número 5 que limitava a liberdade de expressão. A própria emissora entrava em um período de declínio após três incêndios seguidos que destruíram os seus auditórios.
Em uma quase entrevista dada ao renomado jornalista José Hamilton Ribeiro para a revista Realidade de novembro de 1969, ela demonstrava muita tristeza com relação às críticas que lhe eram feitas e muito sentida quando lembravam de sua pouca escolaridade. Segundo Hamilton, ela simplesmente chorava ao ler ou ouvir tais comentários, algo que, na visão do citado jornalista refletia uma insegurança por parte da apresentadora. Hebe achava que não tinha uma boa bagagem cultural para ser uma artista, mesmo quando comparada com apresentadores que também estudaram pouco, como Chacrinha e Silvio Santos. Nessa mesma época, um rapaz em São Paulo chegou a anotar os erros que a apresentadora cometia em suas entrevistas, como o de perguntar o número de integrantes de um sexteto, a idade de um irmão gêmeo sabendo qual era a do outro e prometer que levaria o teatrólogo Ibsen ao seu programa para comentar as suas peças. Por outro lado, há sessenta anos quando a televisão começou ninguém era especializado em comunicação através de curso superior e para os que trabalhavam, seja na frente ou atrás das câmeras, tudo era aprendizado. Com Hebe não foi diferente. 
O programa de Hebe Camargo que era exibido na TV Record a partir de 1966 foi por mais de três anos o mais importante da televisão brasileira. A lista de pessoas que aguardavam para serem entrevistadas em seu programa no final de 1969 tinha mais de 2.200 nomes. Em torno de 8 mil entrevistas foram recusadas pela produção e muitos tentavam obter uma participação no programa oferecendo altas quantias. Foram três anos e meio no ar sem férias e sem nenhuma falta. Hebe era uma grande profissional com relação aos seus compromissos. 
José Hamilton Fernandes foi correspondente na Guerra do Vietnã e em 1968 teve parte da perna decepada após ser atingido pela explosão de uma mina. Recuperado, foi convidado para o programa de Hebe para dar uma entrevista. Tinha receio do estilo da apresentadora e de que esta se referisse a ele como "gracinha", marca registrada de Hebe (os famosos "selinhos" apareceram mais tarde em seus tempos de SBT). Hamilton chegou a ser aconselhado a não participar do programa pois nos meios jornalísticos Hebe era vista como uma entrevistadora sem cultura. Contudo, o jornalista notou a forma e a desenvoltura como a apresentadora conduzia a entrevista dirigindo-se a ele como se já o conhecesse há muito tempo. A entrevista transcorreu bem e teve grande repercussão. A grande ironia é que coube a ele depois fazer uma reportagem com a própria Hebe, agora pela revista Realidade. Aliás, uma revista que marcou época no jornalismo brasileiro pela qualidade do texto e pela abordagem crítica dos temas, isso em plena censura da Ditadura Militar. 



Hebe Maria Camargo nasceu em 1929 na cidade de Taubaté em uma família de nove filhos, sendo que as duas primeiras filhas morreram antes de completar dois anos. O pai de Hebe, Fêgo Camargo (na imagem acima, ao lado de Dona Ester, mãe de Hebe, em foto de 1969) ganhava a vida como violinista e tocava no cinema durante a exibição dos filmes, que na década de 1920 eram mudos e acompanhados com fundo musical ao vivo. Quando Hebe nasceu, os filmes sonoros já estavam chegando às salas de cinema e o "Seu Fêgo" perdeu o trabalho.
Contudo, em 1932, São Paulo se levantava contra o Governo Provisório de Getúlio Vargas na Revolução Constitucionalista e o pai de Hebe foi incorporado ao Exército de São Paulo como músico da banda militar. Talvez o passado de seu pai como ex-combatente de 1932 tenha contribuído para as suas futuras posições conservadoras no cenário político paulista, como o notório apoio dado por Hebe ao político Paulo Maluf durante muitos anos.
Com doze anos, Hebe trabalhava como arrumadeira e começava a frequentar programas de calouros imitando Carmem Miranda. Em seguida, seguindo o estilo do trio vocal norte-americano "The Andrews Sisters", Hebe formou com a sua irmã Stela e as primas Helena e Maria o "Quarteto Dó-Ré-Mi-Fá" (Hebe era o "Ré"). Depois do fim do quarteto, Hebe ainda chegou a formar uma dupla caipira com a irmã Stela: Rosalinda e Florisbela.
Mais tarde já atuando como cantora, lhe sugeriram um outro nome artístico que soasse melhor ao público: Magali Pôrto. Hebe não aceitou a ideia. Na década de 1950 existia uma superstição de que o nome dos artistas que faziam sucesso tinham cinco sílabas, como por exemplo, Car-mem Mi-ran-da, Or-lan-do Sil-va ou Fran-cis-co Al-ves. Bem, Hebe Camargo continuava tendo cinco sílabas. 



Em 1945 seguiu carreira solo e no ano seguinte lançou o seu primeiro disco. Em 1949 chegou a atuar no cinema e em alguns filmes do conhecido comediante Mazzaropi. No início da década de 1950 iniciou a carreira de apresentadora na Rádio Nacional e depois na antiga TV Paulista. Nesta última emissora apresentou o programa "O Mundo é das Mulheres" por nove anos (imagem acima). Em 1957, Hebe tingiu os cabelos de loiro pela primeira vez, o que acabou se tornando a sua marca registrada. 



Apesar de apresentar o programa também no Rio de Janeiro, sua carreira de apresentadora firmou-se mesmo em São Paulo, onde recebeu o título de "A Madrinha da TV" em 1960. Em 1964 deixou temporariamente a televisão para casar e ser mãe (na foto acima, seu filho Marcelo).
A fama de namoradeira já acompanhava Hebe nos tempos de cantora. Nessa época ela fazia uso de um colar de argolas que enfeitava o decote de seu busto, o que dava margem a comentários do tipo: "Você desmancha os noivados, mas mantém as alianças junto ao peito, hem?" Dizia-se que Hebe era a mulher mais cortejada do mundo artístico nos anos de 1950. 
Hebe teve muitos amores, chegando a ser noiva três vezes, inclusive com um membro do clã Matarazzo. Este último caso teria durado dois anos e após a separação, Hebe devolveu todos os presentes que ganhou como namorada e noiva. Uma amiga da apresentadora teria dito que se ela tivesse ficado somente com as jóias não precisaria trabalhar mais. Contudo, teve também suas desilusões amorosas, uma das quais com um famoso animador de auditório por quem se apaixonara. Contudo, ao comparecer a um de seus programas para prestigiar o seu grande amor, notou que este usava uma aliança e que a sua batalha amorosa estava perdida. A matéria da revista Realidade de 1969 que menciona esse acontecimento não identifica o tal apresentador. 



Apesar das tantas paixões, Hebe só veio a se casar aos 35 anos com o empresário Décio Capuano de quem teve seu único filho, Marcelo (na imagem acima, a família reunida na casa de Hebe no bairro do Sumaré em São Paulo, no ano 1969). O primeiro casamento durou até 1971. Em 1974, Hebe casou-se com  Lélio Ravagnani.



Após o nascimento do filho, Hebe retorna à televisão em 1966 pela TV Record para o seu "Hebe aos Domingos". Foi com este programa que a Hebe apresentadora se consolidou de vez. A atração chegou a alcançar a maioria absoluta da audiência e ficou no ar até o início da década seguinte (na foto acima, Hebe no auge de sua fase na TV Record em 1967). Hebe ainda teve passagens pela TV Tupi, TV Bandeirantes e a partir de 1986 no SBT. Em todos esses anos o seu público se manteve fiel e continuaria com ela até os seus momentos derradeiros. Nunca mudou o seu estilo, declarando sempre estar preocupada em ajudar pessoas, dar entretenimento, diversão, alegria e otimismo.
- Diante das pessoas, eu não me sinto como entrevistadora; eu as admiro, eu vibro com elas, eu fico gostando e digo isso diretamente, sem reservas e sem receio de parecer ridícula.




Um fato curioso envolveu indiretamente a apresentadora no ano de 1968 relacionado com a oposição armada à Ditadura Militar. O assassinato de um oficial do Exército norte-americano que era vizinho de Hebe Camargo em São Paulo, o capitão Charles Rodney Chandler. Veterano da Guerra do Vietnã e estudante de Sociologia, foi identificado pelos grupos armados de esquerda como agente da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) e visto como colaborador da ditadura no combate aos comunistas. A governanta da casa de Hebe (na foto acima, a residência da apresentadora no bairro do Sumaré na capital paulista) já havia notado uma movimentação estranha diante da casa e na manhã do dia 12.10.1968 quando pegou o telefone para acionar a polícia ouviu uma rajada de tiros. Chandler fora metralhado quando saia de casa em seu automóvel.



O livro que carregava quando morreu não deixa dúvidas de que pelo menos era um anti-comunista (na imagem acima, o militar norte-americano baleado e o livro com o título "Origem da Autocracia Comunista"). 
Bem, era o tumultuado ano de 1968 e o início da dura repressão da Ditadura aos grupos armados. Mas a "rainha da TV" vivia o seu grande momento ao lado de outros nomes, como Sílvio Santos, Chacrinha e Flavio Cavalcante. Até que ponto tais programas alienavam de fato a população fica para o caro leitor pensar...
Fontes consultadas: Boa parte do conteúdo deste post foi extraído da Revista Realidade, Editora Abril, n. 44, novembro de 1969, pags. 68 a 78.
Gaspari, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo, Cia. das Letras, 2002.
Rixa. Almanaque da TV: 50 anos de memória e informação. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2000. 
Crédito das imagens: as fotos coloridas são de David Drew Zingg para a Revista Realidade. Hebe em 1967 do jornal "Última Hora". Hebe no programa "O Mundo é das Mulheres" da coleção Nosso Século 1960/1980, editora Abril, 1980. A foto do capitão Rodney Chandler do livro A Ditadura Envergonhada. 





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