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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Roteiro de Viagem: Cidades Históricas de Minas Gerais




Caro leitor, ouvimos falar que o Brasil não está em condições de receber os turistas provenientes do exterior, os quais, além dos aspectos relativos à natureza, desejam conhecer um pouco mais a respeito da história do país visitado. Somos comparados, por exemplo, com o México que, além das belezas naturais, oferece também o legado material das antigas culturas pré-colombianas (asteca e maia). Trata-se de uma observação muito relativa. O caso do México (e também do Peru com relação aos incas) é específico em função da presença das duas culturas citadas em seu território. Se não tivemos por aqui nenhuma civilização tão antiga e exuberante, por outro lado, temos um patrimônio da era colonial comparável ao de qualquer outro país latino-americano, mesmo com as particularidades da colonização espanhola já descritas por grandes historiadores, como Sérgio Buarque de Holanda. A prova disso são as cidades de Belém, São Luís, Recife (e claro, Olinda), Salvador, Rio de Janeiro e aquelas representativas do chamado ciclo do ouro, localizadas no Estado de Minas Gerais. Dentre estas últimas, destacamos Ouro Preto, Mariana (foto acima), São João Del Rei, Tiradentes, Sabará e Diamantina. 



Uma outra comparação possível é com a América do Norte (Canadá e Estados Unidos), praticamente carente de um grande patrimônio artístico e arquitetônico referente à sua fase colonial. Basta lembrarmos do Barroco brasileiro e de seus artistas, como o Aleijadinho (acima, cópia de uma pintura do século XIX, presumivelmente retratando o Aleijadinho) e o mestre Ataíde, algo que não observamos na colonização anglo-saxônica, em função desta ter tido como matriz cultural o protestantismo. Este último, pelo fato de sua doutrina reprovar a adoração de imagens e relíquias, não produziu uma arte e uma arquitetura tão exuberante. Atenção, aqui não cabe nenhum tipo de crítica a esta ou aquela corrente religiosa. Trata-se de uma simples constatação. Neste aspecto referente ao passado artístico da fase colonial, podemos nos considerar em grande vantagem em relação aos nossos irmãos americanos do norte. 
Por outro lado, há um detalhe que pode ser um obstáculo (não intransponível) para quem deseja conhecer um pouco mais essas realizações de nossa história: as distâncias que separam esses antigos núcleos coloniais. Afinal, o Brasil tem dimensões quase continentais. Contudo, em muitos casos, tal obstáculo poderia ser amenizado por algumas soluções simples e baratas, como por exemplo, uma sinalização decente nas rodovias. No caso específico do roteiro que estamos propondo, as cidades históricas de Minas Gerais, não produz nenhum resultado positivo, nem para o país e nem para os moradores locais que vivem do turismo, ignorar a existência de São Paulo. Os caminhos das rodovias que percorrem essas cidades trazem a sinalização apenas em direção a Belo Horizonte, mas não para o maior centro de negócios da América do Sul. É um absurdo! Da mesma forma, indicar a direção e a distância correta das cidades ao invés das placas inúteis da tal Estrada Real, que mais confunde do que explica e que, além de tudo, é uma mera abstração histórica. Um turista proveniente do exterior teria enormes dificuldades para chegar ao seu destino de carro. Isso é um trabalho que deveria ficar a cargo, principalmente, das prefeituras e dos governos estaduais. Não se pode alegar que não há verba, pois é algo simples, de baixo custo e que proporciona retorno no fluxo de turistas.
Pois bem, feitas essas ressalvas, vamos a um roteiro simples e básico! O mesmo requer o uso do automóvel para facilitar o deslocamento de uma cidade para outra, e só! Reduzindo o número de cidades visitadas é possível fazer sem carro. 
O caminho pode começar a partir de qualquer grande centro, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Neste caso em particular (ou seja, daquele que vos escreve), partimos de São Paulo, através da rodovia Fernão Dias (cujo nome lembra o de um bandeirante do século XVII e solenemente ignorado nas sinalizações dos ramais rodoviários) até a entrada para Lavras, sul do Estado de Minas Gerais, aproximadamente 300 quilômetros saindo de São Paulo em direção a Belo Horizonte. O acesso para Lavras (à direita da Fernão Dias) é o caminho ideal para percorrermos as cidades históricas da época do ouro, uma vez que entramos na BR 265, que alcança São João Del Rei e a pequena cidade de Tiradentes. Estabeleça nesta última a sua primeira base, inclusive em termos de hospedagem, pois existem pousadas e hotéis para todos os bolsos. 



Não é por outra razão que Tiradentes (foto acima), antiga Vila de São José do Rio das Mortes, têm esse nome. Trata-se da terra natal do nosso mais importante personagem dos tempos coloniais, o alferes (cargo equivalente ao de tenente) Joaquim José da Silva Xavier, um dos inconfidentes que aspiraram a separação entre Brasil e Portugal no final do século XVIII. Na verdade, Tiradentes nasceu na fazenda Pombal (situada atualmente no município vizinho de Ritápolis), mas passou a sua juventude na cidade que leva o seu nome.


Pequena, porém muito agradável, Tiradentes inspira os passeios a pé, a começar pela Igreja de Santo Antônio, na parte alta da cidade (imagem acima), que começou a ser erguida a partir de 1710. É uma visita obrigatória. 



Os altares foram revestidos com mais de meia tonelada de ouro, o que torna a igreja a segunda ou terceira do Brasil (há controvérsias) em termos de quantidade do valioso metal nas decorações (na foto acima, o altar-mor da igreja). Para uma comparação aproximada, essa soma era equivalente a praticamente metade do total de ouro que o Brasil enviava anualmente para Portugal em meados do século XVIII. 
Este templo reúne as características mais elementares das demais igrejas barrocas da região. O destaque cabe ao altar principal, ricamente ornamentado, obra do entalhador português João Ferreira Sampaio. As belas pinturas presentes no teto, de autoria de Manoel Vitor e o magnífico órgão trazido de Portugal são outros destaques. O assoalho da igreja é um grande cemitério, pois as famílias mais importantes enterravam os seus membros dentro do templo, sendo que cada sepultura está numerada. A de número 49, por exemplo, pertence a uma prima de Tiradentes. Quanto maior a proximidade com o altar-mor, maior o prestígio social do indivíduo. Os mais pobres eram enterrados em um outro cemitério, do lado de fora. O frontispício da Igreja de Santo Antônio foi desenhado pelo mestre Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como o Aleijadinho, em 1810, quase no final de sua vida.


Ainda em Tiradentes é possível visitar a antiga residência do padre Carlos Correia de Toledo (foto acima), um dos envolvidos na Inconfidência Mineira de 1789. A mais opulenta residência da cidade hoje é um museu com valiosas obras de arte e com exposições temporárias. 



Destaque para as pinturas no forro das salas e com poltronas especialmente instaladas para que o visitante possa olhar para o teto e apreciar o conjunto decorativo.



Sugerimos uma permanência de dois dias em Tiradentes para essas visitas. Para aqueles que estão ligados no turismo ecológico e interessados em conhecer a natureza, Tiradentes ainda reserva trilhas e passeios a cavalo. Por exemplo, a visita ao topo da serra de São José, no alto de seu exuberante paredão (foto acima). A trilha, de sete quilômetros, requer um certo preparo e é recomendada para aqueles que estejam minimamente acostumados a uma boa caminhada. O grau de dificuldade para a mesma é considerado médio, sendo necessário o acompanhamento de um guia.



A partir de Tiradentes, é possível visitar São João Del Rei (na foto acima, parte do seu centro histórico), pois as duas cidades são muito próximas. Esse passeio pode ser feito, de quarta a domingo, em uma antiga "Maria Fumaça".


Em São João Del Rei, tire um dia para conhecer o centro histórico e a igreja de São Francisco de Assis (foto acima), com os seus altares preparados para serem banhados a ouro. Contudo, na segunda metade do século XVIII, o precioso metal começou a diminuir pelo esgotamento das minas e lavras. Por isso, muitos altares não foram contemplados com o banhamento. 



Por outro lado, isso não tira a beleza das obras (como vemos na foto acima). O projeto arquitetônico é do Aleijadinho. Esta é uma das poucas igrejas da região onde é permitido tirar fotos em seu interior. 



Em São João Del Rei, além das igrejas e das casas típicas dos séculos XVIII e XIX, é possível observar o solar da família Neves, onde morou o ex-presidente Tancredo Neves (na foto acima).
Após a visita a São João, é hora de tomar o caminho para Ouro Preto, pela rodovia que leva a Belo Horizonte. Cuidado com as sinalizações, são confusas! No caminho, a estrada atravessa várias cidades, entre elas Lago Dourado, a terra do rocambole. Não deixe de experimentar!



Em Ouro Preto, a Vila Rica dos tempos de Tiradentes, prepare-se para pelo menos dois dias inteiros de visita à antiga capital do Estado de Minas Gerais. Trata-se da nossa "Atenas", um verdadeiro museu a céu aberto e, por isso, vá preparado para andar, com um bom tênis para suportar o calçamento de pedra da cidade (para os homens evitar os sapatos sociais e para as mulheres, nem pensar em salto alto).
Tome como referência no centro a praça Tiradentes (foto acima), local onde ficou exibida a cabeça do mártir da Inconfidência Mineira em 1792, até que o tempo a consumisse, de acordo com a sentença. 


Interessante começar pelo Museu da Inconfidência (foto acima), que não pode deixar de ser visitado. Esse museu está instalado no antigo edifício do Tribunal, que também serviu de cadeia nos séculos XVIII e XIX. Foi projetado e construído pelo governador português Luis da Cunha Meneses, a partir de 1784, com a utilização de presos e escravos para ser erguido. A edificação destoa do estilo barroco e já revelava uma influência arquitetônica do neoclassicismo vindo da Europa e que predominou no século seguinte no Brasil. 



Nesse museu é possível encontrar peças do antigo mobiliário das residências mais opulentas, exemplares da fabulosa coleção de arte sacra com destaque para vários trabalhos do Aleijadinho e do pintor Manuel da Costa Ataíde (como o quadro acima, São Simão Stock com Nossa Senhora do Carmo). Além disso, peças e documentos referentes ao episódio da Inconfidência Mineira, como por exemplo, um relógio usado por Tiradentes e duas traves da forca utilizadas em sua execução, podem ser vistas. 



Um panteão com os restos mortais dos inconfidentes (na fotografia acima), muitos dos quais foram repatriados mais de um século depois, inclusive o de Tomás Antônio Gonzaga e de sua amada Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a "Marília de Dirceu" dos seus poemas. Não é permitido tirar fotos nesse museu. Portanto, se o visitante quiser lembranças terá que recorrer à lojinha dentro da instituição.
Outro museu que não deve deixar de ser visto é o da Escola de Minas, também na praça Tiradentes. Trata-se de uma instituição federal que preserva um valioso acervo de minerais da região e do mundo. Além disso, fósseis que contam a origem de nosso planeta e a sua evolução geológica apresentados de forma clara e didática. Nesse museu também não são permitidas fotos, mas dê uma passada na lojinha, que possui itens como livros e lembranças, a preços bem mais acessíveis do que nos demais museus da região.


Ah, claro, as igrejas. A igreja de São Francisco é uma das mais importantes e que concentra um bom número de obras do mestre Aleijadinho. A própria igreja é um projeto do artista e no seu interior, uma boa mostra do Barroco e do Rococó dos séculos XVIII e XIX. O teto da nave foi obra do pintor Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), talvez o nome mais importante do Barroco brasileiro na pintura. Aliás, essa pintura ainda está por merecer uma atenção maior por parte dos historiadores da arte. Nas visitas é possível vislumbrar inúmeras obras desses pintores. 



A igreja Nossa Senhora do Pilar começou a ser construída em 1736 pelo arquiteto português Francisco Antonio Pombal (tio do Aleijadinho), sendo conhecida pela enorme quantidade de ouro utilizada na confecção de seus altares. Necessário lembar que as famílias mais importantes da cidade mandavam erguer altares na parte lateral do interior do templo, algo que conferia prestígio e refletia a riqueza das mesmas, inclusive na quantidade de ouro que era oferecida na confecção.


Outra visita que não deve deixar de ser feita é a Casa dos Contos (na foto acima). Antiga residência de um dos homens mais ricos de Minas Gerais no final do século XVIII, João Rodrigues de Macedo. 



Em função de suas dívidas com a Fazenda Real, a casa foi confiscada e depois transformada em local para arrecadação do quinto, imposto de 20% do ouro que cabia à Coroa Portuguesa (na foto acima, barras de ouro "quintadas", já com o desconto do tributo). Atualmente, pertence ao Ministério da Fazenda, que mantém um Centro de Estudos do Ouro, com um arquivo e documentos referentes aos séculos XVIII e XIX. O local serviu também de prisão para alguns dos inconfidentes em 1789, inclusive Claudio Manoel da Costa, que foi encontrado morto em sua cela.


As casas de alguns dos inconfidentes podem ser vistas em Ouro Preto, inclusive a de Tomás Antônio Gonzaga, aberta à visitação (na foto acima, a sala superior do solar do poeta Gonzaga, local de encontro dos inconfidentes) e a de Claudio Manoel da Costa. A casa onde viveu Tiradentes, na conhecida rua São José (próxima à Casa dos Contos) foi demolida, como previa a sentença, que declarou o alferes Joaquim José da Silva Xavier infame perante a Coroa Portuguesa.


A partir de Ouro Preto, reserve um dia para conhecer Mariana (imagem acima), a pouco mais de 15 quilômetros da antiga Vila Rica. A cidade, que já foi chamada de Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo, foi o berço de toda a organização administrativa e institucional da região do ouro em Minas Gerais. Primeiro núcleo a ser elevado à categoria de cidade e que recebeu o primeiro bispado da capitania das Minas Gerais em 1745.
A igreja da Sé ou Matriz de Nossa Senhora da Conceição merece uma visita, com destaque para o fabuloso órgão do século XVIII, trazido da Europa. Uma única instrumentista permanece na cidade para manter o instrumento em funcionamento e realizar apresentações duas vezes por semana (quem tiver interesse, consultar os dias e horários). Em seguida, uma visita obrigatória ao Museu Arquidiocesano de Arte Sacra, com uma das melhores coleções do gênero no Brasil, incluindo trabalhos de Aleijadinho. A praça do Pelourinho onde está a Câmara Municipal, uma das edificações mais importantes do século XVIII e as igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo também devem ser vistas (na foto mais ao alto, que abre esta postagem). Aproveite bem Mariana, cidade absolutamente hospitaleira e simpática.



No retorno para São Paulo sugerimos a visita a Congonhas do Campo para conhecer o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Em torno dessa igreja encontram-se os famosos profetas de Aleijadinho (na foto acima, o profeta Jeremias), esculpidos em pedra-sabão entre os anos de 1800 e 1805. 


Os profetas estão inseridos na fase de amadurecimento de Aleijadinho, onde o artista adquiriu sua plena expressão estética para se tornar o nome mais importante do Barroco no Brasil (acima, o profeta Isaías). 


Diante da igreja estão as seis capelas onde encontramos outra preciosidade do fabuloso artista: as passagens da Via Crucis de Jesus Cristo (acima, detalhe do Caminho para o Calvário). As esculturas foram executadas entre os anos de 1796 e 1799. 


Um inconveniente, os portões das capelas estão fechados e as obras precisam ser vistas do lado de fora. Mesmo assim, é possível admirar as esculturas, sobretudo na passagem referente à Santa Ceia (na foto acima) e a Crucificação. Para esta última etapa do roteiro sugerimos um dia inteiro. Em seguida, cumprido o que foi sugerido, voltar para casa.
Resumindo o nosso roteiro:

primeiro dia: Tiradentes.

segundo dia: Tiradentes com a sugestão de um passeio ecológico (trilha, andar a cavalo ou um passeio de bicicleta);
terceiro dia: visita a São João Del Rei e ida para Ouro Preto.
quarto dia: Ouro Preto e o seu centro histórico (sugestão: visita à Casa dos Contos);
quinto dia: museus de Ouro Preto (sugestão: Museu da Inconfidência e Museu da Escola de Minas, ambos na praça Tiradentes);
sexto dia: visita de um dia inteiro em Mariana.
sétimo dia: visita a Congonhas do Campo e retorno.
custo aproximado: R$ 1.800,00 para duas pessoas ou um casal.

O roteiro acima é apenas uma sugestão básica. Por exemplo, é possível sair de Tiradentes, visitar São João Del Rei e voltar no mesmo dia. Vá preparado para deixar o automóvel encostado enquanto estiver dentro das cidades. Um problema grave nesses centros históricos é o excesso de veículos, sobretudo em Ouro Preto, o que prejudica demais a circulação dos turistas. Futuramente, algo terá que ser feito para limitar ou mesmo proibir em alguns locais a passagem de automóveis.
Regra geral: na dúvida, pergunte. O povo mineiro é muito atencioso e hospitaleiro!
No mais, aproveite bem e boa viagem.......

Informações úteis (inclusive para obtenção de mapas turísticos):
Em Ouro Preto, Secretaria de Cultura e Turismo: Rua Claudio Manoel, 61, centro (exatamente no solar onde morou o poeta Tomás Antonio Gonzaga). 
Em Mariana: Centro de Atenção ao Turismo: telefones (31) 3558-2314/3558-1062
Em Tiradentes as próprias pousadas dispõem de mapas com as principais atrações da cidade. 
Crédito das Imagens:
Pintura representando Aleijadinho: Ouro Preto: Museus. Ouro Preto Editora, 2014, pag. 52.
Altar-mor da igreja de Santo Antonio em Tiradentes. Cartão postal. 
Panteão dos Inconfidentes e pintura de Manuel da Costa Ataíde: Museu da Inconfidência, MinC/IPHAN/Museu da Inconfidência, 1995, pags. 103 e 117. 
Demais fotos: acervo do autor. 


domingo, 12 de julho de 2015

O jovem Adolf Hitler




Ser um grande artista plástico! Pelo menos era esse o desejo do adolescente Adolf Hitler (1889-1945) ainda em seu país natal, que não era a Alemanha e sim a Áustria. O homem que muitos afirmaram ter sido inteligente e que poderia ter usado a sua genialidade para o bem, não pareceu ter demonstrado isso em sua juventude. Nunca foi um bom aluno na escola e nem mesmo na sua frustrada tentativa de se tornar um pintor. Em termos artísticos, Hitler (na foto acima, ainda um simpático bebê) não conseguiu evoluir para além de um simples pintor de cartões postais e pequenas aquarelas, muito embora seja errôneo afirmar que não tivesse condições de ter desenvolvido melhor a sua arte. 
Por outro lado, muitos se perguntam a respeito da origem de seu antissemitismo (aversão aos judeus). Na sua vida pessoal, nenhum israelita teria feito algo contra o jovem que o tivesse marcado negativamente, muito pelo contrário. Nem o doutor Bloch que cuidou com grande esforço de sua mãe, quando esta sofria de câncer ou a família Epstein, mantenedora de muitos albergues para pobres que Hitler utilizou em seus piores momentos, no início do século XX. Finalmente, foi um tenente judeu chamado Gutmann que propôs o nome de Hitler para ser condecorado com a Cruz de Ferro de primeira classe como soldado do Exército Alemão, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Contudo, o contexto em que Adolf Hitler cresceu e viveu a sua juventude era permeado pelo antissemitismo e pelo pangermanismo, a ideia da expansão da comunidade alemã que vivia sob o II Reich ou Segundo Império Alemão (1871-1918). Hitler passou boa parte de sua infância e adolescência em um território onde os sentimentos antissemitas eram fortes, sobretudo diante das diferenças étnicas existentes no Império Austro-Húngaro, onde viviam católicos, judeus, cristãos ortodoxos, ciganos, entre outros. 



Adolf Hitler nasceu na pequena cidade de Braunau, na Áustria, próxima à fronteira com a Alemanha, em 20 de abril de 1889, apenas quatro dias depois do nascimento de outro conhecido personagem do século XX, que iria satirizá-lo no cinema: Charlie Chaplin. O pai do futuro ditador e líder da Alemanha, Alois Hitler (na foto acima) era um funcionário público da alfandega (local onde são vistoriados os produtos que entram e saem de um país) e pode dar à família uma vida relativamente confortável. 


A mãe de Hitler, Klara Polzl (imagem acima) era prima em segundo grau de Alois. Já em seu segundo casamento, o pai de Hitler trouxe a moça para tomar conta de seus filhos enquanto a esposa esteve doente. Após a morte desta, Alois desposou Klara, a qual adotou o sobrenome Hitler e que deu ao marido seis filhos, dos quais apenas dois sobreviveram: o próprio Hitler e sua irmã Paula. 
Ao que tudo indica, pai e filho tiveram alguns desentendimentos, sendo um dos motivos o desempenho ruim de Hitler nos estudos. Alois não tolerava notas baixas e era rigoroso no aspecto disciplinar. Hitler foi reprovado duas vezes no exame de admissão (uma espécie de vestibular) na escola secundária. Por sua vez, em sua fase de adolescente, Hitler demonstrou simpatias pelo antissemitismo e pela ideia de expansão do Império Alemão.




Em casa, Hitler (na foto acima em 1899 na escola, Hitler é o que aparece mais ao alto, no centro da primeira fileira e em detalhe na foto menor) parece ter se tornado mais próximo da mãe, a qual, ao que tudo indica, era compreensiva. 
A desavença com o pai ganhou contornos mais graves quando Hitler anunciou o seu desejo de se tornar um artista plástico. Sim, Hitler adorava pintura e arquitetura. Por outro lado, a intenção de Alois era que o filho tentasse uma carreira mais tranquila no serviço público e por isso, desaprovou a escolha de Adolf. Teria dito que, enquanto fosse vivo, seu filho não seria um artista. Pois bem, em 1903 Alois faleceu e Hitler, aos 14 anos, pode pensar em tentar a sorte na carreira que escolhera. Mas, pouco tempo depois, a vida de Hitler foi abalada pela perda da mãe, vítima de cancro (câncer nos seios). 
Não havia mais razão para Hitler permanecer em uma cidade pequena. Apesar de ter se tornado órfão, surgiu a oportunidade para Adolf Hitler realizar o desejo de ser um artista. O local para isso era Viena, capital do Império Austro-Húngaro e um grande centro cultural naquele início de século XX. A Academia de Belas Artes era a escola ideal para Hitler entrar no meio artístico, ou talvez, tornar-se um arquiteto. Contudo, o jovem foi reprovado em duas oportunidades no exame de admissão. Além disso, a herança dos pais estava acabando, como também a ajuda para os órfãos, que expirou quando ele completou 21 anos.






Sem poder estudar e sem trabalho, Hitler viveu maus momentos, tendo que pintar pequenos cartões postais e aquarelas para sobreviver (nas imagens acima, desenho da cabeça de um cachorro e de uma catedral em Viena feitos por Hitler). Muitas dessas pinturas chegaram até nós e mostram uma tendência para a arte acadêmica e pelas paisagens, como também o gosto pelo desenho de casas, edifícios e igrejas. Hitler conseguia até tirar alguns trocados com a venda dessas pinturas, o que mostra que um pouco mais de persistência poderia te-lo tornado um artista razoável. Nessa época, Hitler chegou a dormir em albergues para mendigos e até, segundo as suas próprias palavras, a passar fome. Por outro lado, Hitler frequentou a Ópera de Viena e tornou-se admirador do compositor Richard Wagner pelo fato deste exaltar a tradição cultural germânica. 
Ao que parece, o ambiente antissemita da capital austríaca influenciou Adolf Hitler. Em Viena, Hitler teve contato com textos e panfletos hostis aos judeus. A comunidade judaica da capital austríaca era numerosa e se distinguia dos demais grupos étnicos pelas suas roupas e costumes tradicionais, sobretudo os judeus ortodoxos. O antissemitismo evoluiu para o plano político, com muitos parlamentares defendendo a doutrina e a tese da superioridade da raça ariana, inclusive com o surgimento do Partido Pangermânico. Nessa doutrina existiria uma inimizade natural entre os arianos e os judeus, sendo estes últimos vistos como contrários ao nacionalismo germânico.
Em 1913 aproveitando o que restou da herança do pai, Hitler deixou Viena, atravessou a fronteira com a Alemanha e se fixou em Munique, capital da Bavária (ou Baviera e também Bayern para os alemães). Dessa forma, realizava o desejo de morar em uma cidade mais identificada com a cultura germânica. Hitler também tinha aproveitado a mudança para tentar escapar do serviço militar no Império Austro-Húngaro. O plano não deu certo e ele foi obrigado a se alistar, sendo dispensado no exame médico por ser considerado inapto para a atividade militar.


De volta a Munique, Hitler voltou a vender cartões postais pintados por ele mesmo para sobreviver. Foram os momentos mais difíceis na sua vida. Alguns biógrafos, entre os quais Lothar Machtan chegaram a sugerir que Hitler teria realizado programas com homossexuais, que o teriam ajudado a sobreviver nessa época, algo difícil de ter uma comprovação mais precisa. Mas, eis que começou a Primeira Guerra Mundial em agosto de 1914. O conflito acendeu o nacionalismo germânico e Hitler alistou-se no Exército Alemão (na foto acima, Hitler exalta a mobilização para a guerra no meio da multidão em Munique). 


Durante o conflito, Hitler serviu na França e na Bélgica atuando como mensageiro e expondo-se ao perigo, por estar diante do fogo inimigo fora das trincheiras. Com uma folha de serviços considerada muito boa, Hitler foi promovido a cabo, a patente mais elevada dada a um soldado estrangeiro no Exército Alemão (na foto acima, Hitler ao lado de seus companheiros na guerra, o primeiro sentado à esquerda). 


Duas vezes condecorado com a Cruz de Ferro, sendo a última após ferimentos recebidos em combate que chegaram a tirar-lhe temporariamente a visão (na foto acima no hospital militar, Hitler é o segundo que está em pé, da direita para a esquerda). Quando recuperou a visão, Hitler viu a sua querida Alemanha derrotada na Grande Guerra.


Com o final do conflito em 1918, Hitler (na foto acima, o futuro líder da Alemanha, ainda como soldado e com capacete) já recuperado dos ferimentos, continuou no Exército e considerava que a derrota alemã diante dos aliados ingleses, franceses e norte-americanos tinha sido mais uma capitulação do que uma derrota. O país havia sido traído ao final do conflito e parte da responsabilidade cabia aos políticos civis e não ao governo imperial alemão, que havia sido derrubado em 1918. O sentimento revanchista e nacionalista já estava arraigado em Hitler e em outros veteranos de guerra. 
A permanência do cabo austríaco na atividade militar coincidia com o levante comunista na Alemanha, na passagem de 1918 para 1919, quando se temia que a Europa pudesse ser tomada por um movimento comunista internacional, gerado a partir da Revolução Russa de 1917. Contudo, o levante foi controlado com a prisão de vários líderes de esquerda, entre eles Rosa Luxemburgo, assassinada pela polícia alemã. Ao mesmo tempo, a Alemanha deixava de ser uma monarquia para se tornar república: a República de Weimar (nome da cidade onde foi aprovada a Constituição do novo regime). A república parlamentarista (com um presidente, mas tendo um primeiro-ministro como chefe de governo) durou até a ascensão de Hitler ao poder, em 1933. 
Nesse momento, Hitler exercia uma espécie de trabalho de espionagem nos agrupamentos políticos alemães, sobretudo os de esquerda. Os inimigos da Primeira Guerra, os comunistas e os judeus eram apontados pelos militares alemães como os grandes responsáveis pela situação em que a Alemanha se encontrava após o conflito. De fato, o Tratado de Versalhes assinado com os vencedores ingleses e franceses impôs condições humilhantes, como uma pesada indenização de guerra, a perda das colônias alemãs na África, de territórios da própria Alemanha na Europa (corredor polonês e os sudetos) e a limitação para a formação de forças militares, imposições que criaram um ambiente propício para o nacionalismo exaltado.


Em 1919, Hitler assistiu a algumas reuniões do pequeno Partido dos Trabalhadores Alemães na condição de observador (na verdade, espião). Contudo, ao verificar que, apesar do nome, a agremiação não era um partido de esquerda e sim de direita, Hitler aderiu ao mesmo no final de 1919. Muitos integrantes do partido comungavam das mesmas ideias que Hitler, como o nacionalismo germânico e o antissemitismo, entre eles Dietrich Eckart. Em 1920, já liberado do Exército, Hitler começou a participar de forma mais intensa do partido até se tornar o seu principal dirigente. Com a sua capacidade de oratória, Hitler (na foto acima de 1921, com o visual que o tornou famoso) logo passou a ser designado como o führer (o líder). O partido começou a reunir vários seguidores, muitos dos quais veteranos da Primeira Guerra. 


Foi nesse momento que ele sugeriu a mudança no nome da agremiação para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Na língua alemã, da abreviatura de Nacional Socialista temos o termo "Nazi", nome pelo qual o partido ficou mais conhecido. A "cruz suástica" (na imagem acima de 1924, Hitler uniformizado e com a braçadeira da suástica) associada à raça ariana e a saudação romana dada aos antigos imperadores (já utilizada pelos fascistas na Itália) foram adotadas para identificar o partido. Seguindo o modelo de Mussolini, o Partido Nazista instituiu um grupo paramilitar uniformizado: as S.A. ou tropas de assalto. Tal grupo era comandando por um nazista de primeira hora, o capitão Ernest Röhm. O grande modelo de liderança para Hitler, naquele momento, era Benito Mussolini, que se propunha a restaurar a grandeza da Itália. 


Em 1923, a Alemanha viveu uma terrível crise econômica, tendo de pagar a indenização imposta pelos aliados vencedores da Primeira Guerra. Em função disso, a emissão de papel-moeda cresceu de forma desordenada. O marco alemão sofreu uma desvalorização jamais vista na história, chegando um dólar norte-americano a ser trocado por 4 bilhões e 200 milhões de marcos alemães! Foi nesse momento que os nazistas resolveram dar uma demonstração de força e realizar uma tentativa de tomada do poder na província da Bavária e na sua principal cidade: Munique. Após se reunirem em uma cervejaria, os membros do Partido Nazista, incluindo Hitler (na foto acima, assinalado com um "x" em 1923) e o general Ludendorff, tentaram tomar o governo local, sendo duramente reprimidos pela polícia alemã. Foi o chamado putsch ou "golpe da cervejaria". Com o fracasso do movimento, Hitler foi preso e condenado a cinco anos de prisão. Mas, a pena foi reduzida para apenas oito meses em função de seu bom comportamento.


Na prisão Hitler pode receber a visita de seus companheiros do Partido Nazista, entre eles, Rudolf Hess (na foto acima, vemos Hitler, primeiro à esquerda e Rudolf Hess, segundo a partir da direita, na sala da prisão em 1924). Enquanto esteve preso, Hitler redigiu, com a ajuda de Hess, a sua autobiografia, o livro Mein Kampf ou "Minha Luta". Nessa obra, iremos encontrar aquilo que tornou o nazismo uma doutrina totalitária, de forma ainda mais extrema do que o similar italiano, o fascismo. O nacionalismo exagerado, o antissemitismo, a tese da suposta superioridade da raça ariana (que seria correspondente ao próprio povo alemão), o Estado acima do indivíduo e um ferrenho anticomunismo. A ideologia comunista de Karl Marx (aliás, um judeu) pregava a união dos trabalhadores de todos os países, portanto era internacionalista, algo que entrava em choque com o nacionalismo exacerbado proposto pelo nazismo. 


Ao sair da prisão (imagem acima) ainda no ano de 1924, Hitler pode reorganizar o Partido Nazista com o apoio de seus integrantes, entre eles Rudolf Hess, Ernest Röhm (chefe das S.A.), Herman Goering (ex-aviador na Primeira Guerra) e Joseph Goebbels, o mestre da propaganda do partido. 


Entre 1925 e 1930, Hitler moldou  seu personagem e o seu discurso para apresentar-se ao público, sempre com grande energia para eletrizar e envolver as massas. A sua postura era cuidadosamente trabalhada e ensaiada. Muitas fotos desses "ensaios" chegaram até nós (como na imagem acima, de 1925). Nesse momento, a situação econômica da Alemanha começou a melhorar, dando uma maior estabilidade para a República de Weimar. Em plena recuperação econômica, inclusive contando com a ajuda norte-americana, país com o qual a Alemanha começou a manter um comércio intenso, o ambiente não era tão favorável às pregações nazistas. 
Contudo, em 1929 veio a maior crise econômica do século XX, a partir do colapso da Bolsa de Nova Iorque. A Grande Depressão derrubou as exportações alemãs e impedia a importação das matérias-primas necessárias, gerando um desemprego em massa. Mais de seis milhões de trabalhadores alemães perderam as suas colocações. Nesse momento de crise, como destaca o historiador Eric Hobsbawm, o discurso nazista voltou a encontrar o ambiente propício para as suas pregações. O partido de Hitler cresceu no início da década de 1930 e elegeu muitos representantes no Reichstag (o Parlamento alemão). Contudo, os comunistas também ampliavam a sua participação. Em 1930 os nazistas tinham 107 representantes no Parlamento e os comunistas 77. O extremismo contagiou o ambiente político da Alemanha. O discurso nazista ganhava espaço dentro da classe média, entre os camponeses e junto aos capitalistas, que temiam o avanço dos segmentos mais à esquerda e ligados aos trabalhadores. 
Muitos grandes conglomerados industriais alemães apoiaram o nazismo, sobretudo a partir de 1932 e depois do mesmo chegar ao poder, no ano seguinte: os laboratórios da I. G. Farben (que depois da Segunda Guerra mudou de nome para Bayer), a Siemens, a Hugo Boss (que chegou a fabricar uniformes para o Exército Alemão e para a S.S.), o grupo siderúrgico Krupp (que teve participação ativa no rearmamento do Exército Alemão) e a Volkswagen (que surgiu dentro do próprio governo nazista a partir da proposta de fabricação de um carro popular, o nosso conhecido "Fusca"). Até empresas norte-americanas, como a Ford e a Kodak deram a sua colaboração com suas filiais na Alemanha. Muitas dessas indústrias utilizaram trabalho escravo de prisioneiros dos campos de concentração. Daí para chegar ao poder foi apenas mais um passo e pela via democrática parlamentar. 
Genialidade de um indivíduo ou o ambiente econômico e social propício é que favoreceu a chegada do nazismo ao poder? De qualquer forma, o que veio depois já é de pleno conhecimento da humanidade......
Para saber mais: Hitler (vários autores). Coleção História Viva. Ediouro Duetto Editorial Ltda., 2015. 
Crédito das Imagens: 
Hitler bebê, fotos do pai, da mãe, na escola, com os companheiros na Primeira Guerra e com capacete de soldado: Hitler.Coleção História Viva. Ediouro Duetto Editorial Ltda., 2015.
Desenhos feitos por Hitler: http://www.socialphy.com/posts/images-pics/4484/Paintings-and-drawings-by-Hitler.html.
Hitler no meio da multidão: O Segredo de Hitler: a vida dupla de um ditador. Autoria de Lothar Machtan. Rio de Janeiro. Editora objetiva, 2001, p. 60. 
Fotos de Hitler em 1921, com uniforme nazista, em 1923 dentro do automóvel, na prisão, saindo da prisão e ensaiando um discurso: http://jornalggn.com.br/noticia/a-vida-de-hitler-em-imagens. 



segunda-feira, 22 de junho de 2015

Anúncio Antigo 38: Lâminas de Barbear Gillette



Caros leitores, o êxito de uma invenção ou de um produto pode ser comprovado quando o mesmo acaba incorporando o nome de seu inventor. Nenhuma pessoa, por exemplo, vai a um supermercado e pede uma "palha de aço", mas solicita um "Bom Brill", como também ninguém pede a fotocópia de um documento, mas uma "Xerox". Um outro caso bem conhecido foi o da lâmina de barbear. A marca "Gillette" acabou por permanecer associada ao próprio produto, independente do fabricante ser a Gillette ou outro concorrente.


Aliás, a imagem de seu criador, o norte-americano e ex-vendedor de rolhas King Camp Gillette (1855-1932), ficou também imortalizada nas embalagens da lâmina (na foto acima, o rosto tão conhecido de King Gillette), tornando-o uma espécie de "garoto-propaganda" do próprio invento. De acordo com o escritor Marcelo Duarte, autor de "O Livro das Invenções" (Companhia das letras, 1997), Gillette teve a ideia da lâmina descartável depois de ouvir o conselho de um amigo para criar um produto que o freguês comprasse e depois jogasse fora, para logo depois comprar outro. 
Em 1895, King Gillette começou a reparar que apenas a ponta da navalha era necessária para fazer a barba. Dessa forma, ele imaginou uma lâmina de aço bem menor, que fosse descartável e com dois lados cortantes. Para viabilizar a produção da lâmina e que a mesma tivesse um bom corte, Gillette contou com a ajuda de vários técnicos, entre eles um mecânico, William Nickerson, que já tinha inventado um sistema de botões para serem utilizados em elevadores. Com a superação dos entraves operacionais para colocar em pratica a ideia surgiu a Gillete Safety Company e a produção da famosa lâmina começou em 1903. Claro, era necessário que o invento estivesse acompanhado do aparelho de barbear, como aparece em nosso Anúncio Antigo de hoje (na imagem mais acima). A ideia da lâmina de barbear para substituir a navalha não foi exclusividade de Gillette, mas o que impulsionou o seu negócio foi torná-la eficiente, pratica e barata. O fato de ser descartável era um estímulo para que as vendas se tornassem permanentes. 


O sucesso do produto não foi imediato, mas a partir de 1905 as vendas aumentaram. Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a fábrica de Gillette produziu mais de 3,5 milhões de aparelhos de barbear e 36 milhões de lâminas para o governo norte-americano, que distribuiu esses produtos para os soldados que foram lutar na Europa. Uma guerra pode prejudicar muitos e beneficiar outros, como podemos verificar. A lâmina Gillette começou a ser conhecida em todo o mundo e o resto virou história. 
King Gillette tornou-se um magnata (na foto acima, Gillette em 1927, com 72 anos) e dedicou os seus últimos anos de vida a propor a criação de uma sociedade mais humanizada e menos desigual. Em seu livro The Human Drift, Gillette defendia que todas as indústrias poderiam ser administradas por uma grande corporação comandada pelo Poder Público. O próprio Gillette chegou a oferecer o comando dessa corporação para o presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, o qual, obviamente, declinou da oferta. Tal proposta, de controle estatal sobre a atividade econômica, assemelhava-se ao socialismo na visão da elite norte-americana, sendo Gillette considerado por alguns estudiosos como um "socialista utópico". 
O Anúncio Antigo de hoje foi originalmente publicado na revista Manchete, edição de 03.03.1956, pagina 29. 
Crédito das Imagens:
Foto de King Gillette: Wikipédia.
Foto de King Gillette com 72 anos: www.washingtonpost.com








sexta-feira, 12 de junho de 2015

Anúncio Antigo 37: Dia dos Namorados




Neste Dia dos Namorados um anúncio simples, singelo e direto: o amor é o que importa. Sim, numa época em que era comum um material publicitário ter textos longos, sobretudo nos jornais e revistas, surpreende este material de propaganda. Com a evolução da mídia e sobretudo, da informática, os anúncios tenderam a uma maior objetividade no que se refere ao conteúdo. 
Claro, o apelo comercial sempre foi importante. Nos tempos atuais temos uma sequência sem fim em termos de campanhas publicitárias. Por exemplo, a época próxima ao Dia das Mães têm uma continuidade imediata com o Dia dos Namorados, este com as férias escolares e em seguida, no mês de agosto, com o Dia dos Pais. Ou seja, as motivações de mercado para a produção de peças publicitárias não param. 
Como o blog História Mundi privilegia a objetividade e a clareza nos textos, algo fundamental em uma época onde as pessoas são tão pouco apegadas à leitura, o material que selecionamos para homenagear todos os casais, vejam bem, estou me referindo a "todos os casais", combina com a ideia que defendemos. Aos caros leitores feliz Dia dos Namorados!
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado no dia 06.06.1982, no jornal "O Estado de S. Paulo", pelo Jumbo Eletro, que um dia já foi Pão de Açucar e hoje atende pelo nome de Extra. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Anúncio Antigo 36: Salão da Criança



Para aqueles que já cruzaram a faixa dos cinquenta anos e passaram a sua infância na capital paulista, como este blogueiro, a lembrança da Semana da Criança, no início do mês de outubro, estava associada a um evento que marcou época em São Paulo: o Salão da Criança. Inicialmente realizado no Pavilhão do Ibirapuera e depois, no início da década de 1970, no Anhembi, o Salão era muito aguardado pela garotada. Era o momento de nos divertirmos com os palhaços, que sempre nos recebiam na entrada do evento, de vermos as novidades em matéria de brinquedos, jogos, livros infantis (às vezes, nem tanto) e os modelos de bicicletas que estavam surgindo no mercado. O meu primeiro livro de história foi comprado por meu pai nesse evento. Tratava-se de uma História do Brasil em Quadrinhos, a qual, recentemente, pude ter de volta em uma compra na internet. 
Pois bem, o Anúncio Antigo de hoje nos traz essa lembrança, mas de uma forma não tão voltada para o público infantil. A frase do material publicitário faz um trocadilho com um dos lemas da Ditadura Militar: "Brasil, ame-o ou deixe-o". Ou seja, para aqueles que não estivessem satisfeitos com o governo, a "porta da rua era serventia da casa". Um recado direto para todos os que faziam algum tipo de oposição, sobretudo aquela que não era tolerada, aquela que apontava para os graves problemas do país, como o arrocho salarial, a concentração de renda, a violenta repressão policial e as desigualdades regionais. Para a classe média mais privilegiada, que conseguiu se dar bem com o ilusório "milagre econômico", ter o seu automóvel e os eletrodomésticos mais desejados na época (televisão em preto e branco, geladeira, máquina de lavar, fogão moderno) a propaganda oficial alardeava as maravilhas do crescimento econômico, escondendo as distorções sociais. Tratava-se de um crescimento que gerava o inchamento das cidades, as periferias pobres, a violência urbana (sim, ela veio dessa época) e um amplo segmento da sociedade marginalizado e que não foi contemplado com o crescimento econômico.
Mas as crianças de melhor condição social, o ingresso do Salão não era barato, apenas aguardavam a época do evento para se divertirem. Como dizia um trecho da musiquinha da propaganda do Salão da Criança na televisão, que ainda recordo: "No Ibirapuera têm competição, têm pra criançada muita diversão...".
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", do dia 08.10.1970. 
Para ver o jingle do Salão da Criança vocês podem acessar:
https://www.youtube.com/watch?v=EESwsSGezyA

domingo, 31 de maio de 2015

Tiradentes e a Inconfidência dos Letrados parte I




Uma conspiração que contou com a participação de uma elite formada por proprietários, mineradores e mercadores, que prosperou com o ouro, os diamantes e os negócios na época em que Minas Gerais era a região mais rica do Império Português, na segunda metade do século XVIII. Ah, mas Joaquim José da Silva Xavier, cuja alcunha (apelido) o tornou célebre, Tiradentes, não fez parte dessa mesma elite. Em termos... Se de nascimento não era um nobre ou aristocrata influente, também não se pode dizer que fosse totalmente carente de recursos ou patrimônio. Na verdade, era um não aristocrata que circulava bem dentro desse meio. Não era um letrado, mas sabia conversar com argumentação e se esforçava para entender a sua época, inclusive lendo obras em outras línguas com o auxílio de dicionários. Contudo, o traço que parece ter marcado a sua curta trajetória histórica foi a convicção de suas ideias em favor da autonomia do Brasil, tendo, inclusive, mantido-as perante os seus inquiridores durante o seu julgamento, daí a sua condenação à forca, tendo, em seguida, o corpo esquartejado. Não foi por outro motivo que o seu rosto ficou associado ao de Jesus Cristo, como aparece no retrato acima, que pode ser visto no Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) e que persiste no imaginário coletivo dos brasileiros. 



Em termos concretos, a Inconfidência Mineira foi um "esboço" de movimento. Um vago projeto de república foi pensado e discutido, muito por influência do êxito da luta dos colonos ingleses da América do Norte, iniciada em 1776. "Liberdade ainda que tarde" era o seu lema, mas uma coisa era certa, tal liberdade dificilmente seria estendida aos escravos, a exemplo do que ocorreu na independência dos Estados Unidos. Os ideais da Era das Luzes ou Iluminismo referentes aos direitos naturais do homem, podiam ser interpretados de diferentes formas por aqueles que participaram da conspiração, muitos dos quais eram figuras de destaque na sociedade do ouro e até ligados à administração da antiga capitania de Minas Gerais (como aparece no mapa acima, do século XVIII, com destaque para a Vila do Carmo, atual Mariana). Também existiam aqueles que se preocupavam com o futuro da colônia e das vantagens que a mesma poderia ter separando-se de Portugal. Tiradentes era um deles.



O período posterior a 1750 trouxe o declínio gradual da mineração no centro-sul da colônia brasileira, área que hoje corresponde a Minas Gerais, Goiás e parte de Mato Grosso (atual Cuiabá). O ouro fácil retirado dos rios estava se esgotando (o chamado ouro de aluvião, como mostrado na foto acima, tirada por Marc Ferrez em 1870) e a exploração das minas requeria mais mão de obra escrava e recursos materiais. Contudo, as exigências por parte da metrópole portuguesa se mantinham, como o quinto (a quinta parte do ouro retirado era entregue à Coroa) cobrado nas Casas de Fundição e a nova cota de cem arrobas anuais (algo em torno de 1,5 toneladas de ouro) que Portugal estabeleceu para a colônia. Caso tal cota não fosse alcançada, existia a possibilidade da cobrança da Derrama (confisco dos bens) para completá-la.
A política do ministro português Sebastião José de Carvalho e Mello, o marquês de Pombal, de promover os indivíduos da colônia beneficiou a elite da mineração, que recebia inclusive, o privilégio de arrematar contratos para a arrecadação dos impostos (uma forma de "terceirização" desse serviço) para a própria Coroa Portuguesa. Tal política buscava tornar mais eficiente a administração e a burocracia no Império Português. Contudo, muitos desses indivíduos acabaram aumentando as suas riquezas, utilizando o dinheiro arrecadado ao invés de repassa-lo à Coroa Portuguesa. 



Ao mesmo tempo, havia grande preocupação por parte das autoridades de Portugal com o contrabando do ouro e dos diamantes, que saiam de Minas Gerais a caminho do Rio de Janeiro e que muitas vezes eram desviados, sem pagar os encargos devidos a Portugal (na gravura acima, a lavagem dos diamantes, em desenho de Carlos Julião feito em 1770).
A sociedade que surgiu com a descoberta do ouro em Minas Gerais, a partir do final do século XVII, trouxe diferenças em relação às outras áreas do Brasil Colônia, como o Nordeste açucareiro. A descoberta das minas atraiu colonos das mais variadas origens sociais, a começar pelos paulistas, responsáveis, em grande parte, pelos achados das minas. Esses indivíduos eram os conhecidos bandeirantes, palavra que passou a designar os antigos moradores de São Paulo. Logo em seguida, muitos portugueses também se deslocaram para a região. Depois, vieram os escravos, uma grande leva de aventureiros, mercadores (mascates), artesãos, funcionários da Coroa e membros do clero. 
Em poucas décadas constituiu-se uma sociedade urbanizada nas cidades que floresceram com a atividade da mineração, sobretudo Vila Rica, Mariana, São João Del Rey e o Serro Frio (Diamantina). As famílias mais prósperas, em sua segunda geração, já enviavam os filhos para estudarem na Europa, na Universidade de Coimbra em Portugal ou em universidades francesas, como a Faculdade de Medicina de Montpellier. Em 1786, dentre os 27 estudantes brasileiros matriculados em Coimbra, 12 eram mineiros. Essa elite social era profundamente ligada através de casamentos, compadrios, negócios e costumava promover encontros ou saraus para a divulgação de obras literárias. 



Sem dúvida, o centro mais dinâmico dessa vida social era Vila Rica. Segundo a tradição, coube ao bandeirante Antonio Dias de Oliveira estabelecer um acampamento naquela região para explorar o "ouro preto", pois o precioso metal, já conhecido no local, vinha misturado com óxido de ferro (na gravura acima de Rugendas, exploração do ouro nas proximidades de Vila Rica, 1827-1835). 



Da fusão desses acampamentos ou arraiais é que surgiu Vila Rica (mais tarde, chamada de Ouro Preto), cuja fundação foi estabelecida em 1698 (na foto acima, a cidade em 1890, um século depois da Inconfidência Mineira). 



O crescimento foi rápido, mas Vila Rica só ganhou ares de cidade após 1750, durante a gestão do governador Antônio Gomes Freire de Andrade. Durante o seu governo veio o arquiteto português Manuel Francisco Lisboa, que criou as primeiras igrejas no estilo barroco. Mas foi o filho que teve com uma escrava, que consagrou definitivamente esse estilo artístico nas Minas Gerais do século XVIII: Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como o "Aleijadinho" (no desenho acima, feito por Belmonte na década de 1940, um rosto possível para Aleijadinho). 



Aleijadinho ficou famoso como arquiteto e escultor, sendo lembrado por suas obras feitas em pedra sabão e madeira (como na foto acima, o Cristo na Flagelação). Aos 47 anos teria sido afetado por uma doença que deixou o seu corpo deformado. Em função disso, contava com a ajuda de um escravo para adaptar as ferramentas de trabalho ao seu pulso. Existe também a possibilidade de que parte da obra atribuída a ele tenha sido feita por discípulos e de que o perfil de Aleijadinho, como um indivíduo doente e isolado, seja mais uma criação literária do que baseado em fontes documentais. O que de fato se sabe é que a cidade em que viveu, Vila Rica, teria entre 70 mil e 80 mil habitantes no ano de 1780.
O ambiente cultural urbano levou ao aparecimento de outras manifestações artísticas e literárias que exaltavam os valores e feitos locais, como o poema épico "Vila Rica" de Claudio Manuel da Costa e o "Canto Genetlíaco" de Alvarenga Peixoto. Este último era um elogio das riquezas, dos homens e da terra brasileira, sendo o feito dos seus habitantes comparados aos de Hércules, Ulisses e Alexandre, o Grande. 



Entre as figuras mais conhecidas da elite social mineira estavam os indivíduos letrados e que ganharam destaque em nossa literatura ainda em formação, com o chamado Arcadismo. Um deles foi o já citado Claudio Manuel da Costa (na gravura acima, uma suposta imagem do poeta). Nascido na própria região do ouro, filho de português com uma paulista de família tradicional, tornou-se advogado formado em Coimbra e autor do poema "Vila Rica". Sua mulher chamava-se Francisca Arcângela de Sousa, uma negra, possivelmente uma ex-escrava, com a qual teve cinco filhos. Como podemos perceber, a união entre brancos e escravas era comum na colônia, embora não significasse que a mulher negra tivesse plena aceitação social. Na época a proporção de mulheres brancas era muito inferior ao de homens brancos. Aliás, em 1776, a população da capitania de Minas Gerais era de 320 mil habitantes, sendo 71 mil brancos, 82 mil mulatos e 167 mil negros. Apenas 8% da população era formada por mulheres brancas. Basta que lembremos de outro caso bem conhecido, o da escrava Chica da Silva, ligada a um contratador de diamantes português e que frequentou a alta sociedade de Diamantina. 



Mas, voltando ao poeta Claudio Manuel da Costa (na foto acima, assinatura do poeta em um documento), após retornar ao Brasil foi figura sempre presente na Câmara Municipal de Vila Rica, sendo depois nomeado secretário do governador da capitania de Minas Gerais. Com o seu bom relacionamento, montou uma banca de advocacia. Claudio tornou-se um homem muito rico, com uma boa clientela. Além disso, constituiu um bom patrimônio, pois possuía escravos, sociedade na exploração de várias minas de ouro, além da propriedade de uma fazenda. 



Seu casarão em Vila Rica (imagem acima) era ponto de reunião dos homens ricos e letrados de Minas Gerais.



Apenas um outro letrado poderia ser comparado ao advogado Claudio e superá-lo nos dotes literários: Tomás Antônio Gonzaga. Português de nascimento, embora filho de um brasileiro com uma mulher descendente de ingleses. Seu pai tinha sido ouvidor (juiz superior) em Pernambuco e juiz no Tribunal Superior da Bahia, entre outras importantes funções. Claro, o destino de Gonzaga foi Coimbra, onde estudou Direito e posteriormente foi nomeado ouvidor em Vila Rica no ano de 1782. Homem vaidoso, consumia grande parte do que ganhava em roupas, pois gostava de andar bem vestido. O ouvidor teve uma caso amoroso com uma moça chamada Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a "Marília de Dirceu" de seus poemas (na foto acima, a casa onde viveu Maria Doroteia em Vila Rica, demolida em 1927). Uma bela jovem de cabelos negros e que contava com 19 anos de idade quando Gonzaga tentou pedi-la em casamento, num momento ruim para o poeta, que terminara o seu mandato de ouvidor e estava sendo transferido para Salvador, na Bahia. 
Ainda entre os letrados, lembramos do juiz e também poeta José de Alvarenga Peixoto. Aos 36 anos de idade engravidou a jovem, bela e culta Bárbara Eliodora Guilhermina da Silveira, 20 anos mais nova e filha do advogado José Silveira e Sousa. A família de Bárbara era de origem paulista e tinha entre os seus ancestrais nomes ilustres, como Amador Bueno e o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como o "Anhanguera". A união em forma de concubinato (não oficializada) foi conveniente para a família da jovem e para Alvarenga, que deixou o posto de juiz para cuidar de seus negócios privados como fazendeiro e minerador, sendo depois nomeado coronel da Guarda dos Dragões. Por insistência da Igreja, a união do casal acabou sendo oficializada. 



Todos esses indivíduos mantinham uma relação direta ou indireta com aquele que era considerado o homem mais rico de Vila Rica: o contratante João Rodrigues de Macedo. Proprietário da mais bela residência da cidade, a atual Casa dos Contos (imagem acima), Macedo foi o melhor exemplo daqueles que se beneficiaram dos contratos para arrecadar impostos em nome da Coroa Portuguesa e utilizando tal recurso em benefício próprio. Tornou-se um grande devedor do governo português. Ao perceber que a quantidade de tributos arrecadada declinava atribuiu isso ao contrabando. Para combater o comércio ilegal contou com a ajuda do alferes Joaquim José da Silva Xavier, que conhecia os caminhos do ouro como "a palma da mão". Macedo era também uma espécie de banqueiro, emprestando dinheiro a juros e até financiando os estudos dos jovens na Universidade de Coimbra. Entre os seus devedores estavam Alvarenga Peixoto e Tomás Antônio Gonzaga. Mas, quem era o seu advogado? Claudio Manuel da Costa. Tendo o melhor advogado e sendo credor do ouvidor (juiz) de Vila Rica, Macedo ganhou todos os processos movidos pela Coroa Portuguesa contra ele. 
A sua casa era o centro financeiro e fiscal da cidade. No térreo ficavam os guichês para pagamento dos tributos que ele arrecadava e também as mercadorias distribuídas pelo contratante, o qual ocupando tal função estava isento de pagar tributos à Coroa Portuguesa.



O chamado "grupo de Vila Rica" (no desenho acima do final do século XVIII, o centro de Vila Rica, atual praça Tiradentes), como foi designado pelo historiador inglês Kenneth Maxwell, ainda contava com outros indivíduos de grande prestígio e fortuna, como o padre paulista Carlos Correia de Toledo e Melo, dono de muitos escravos, fazendas e minas de ouro. Sempre que passava por Vila Rica, hospedava-se na casa do ouvidor Gonzaga, possuindo também uma biblioteca em sua residência, situada no rio das Mortes. O cônego Luís Vieira da Silva, da catedral de Mariana (antiga Vila do Carmo, próxima a Ouro Preto), era um padre erudito e estudioso, muito conhecido por abrigar uma biblioteca com mais de 600 volumes, uma coleção enorme para os padrões da época. Vieira da Silva foi também professor de filosofia e um entusiasta da independência dos Estados Unidos, falando sobre o tema com muitas pessoas e destacando que os europeus não tinham o direito de dominar a América. 
Como podemos notar, os laços que ligavam esses indivíduos eram fortes, mesmo fora de Vila Rica. Por exemplo, o padre José da Silva de Oliveira Rolim, proveniente do arraial do Tejuco (atual Diamantina), contrabandista de diamantes, falsificador de moedas, agiota e suspeito de um crime de morte, tinha fortes relações com a elite de Vila Rica. Na condição de padre pode livrar-se de um processo por assassinato. Rolim tinha amigos poderosos, entre os quais João Rodrigues de Macedo e o fazendeiro José Aires Gomes. A mulher que teria sido mãe de seus cinco filhos era filha da célebre escrava Chica da Silva. Rolim também era amigo do português Domingos de Abreu Vieira, tenente-coronel da cavalaria da Guarda dos Dragões, que foi padrinho da filha ilegítima do alferes Joaquim José da Silva Xavier (o Tiradentes), comandante de um destacamento da mesma Guarda, que patrulhava o "Caminho Novo" para o Rio de Janeiro. 
Eis o homem! Joaquim José da Silva Xavier era um indivíduo de muitas habilidades, tendo recebido uma educação formal com leitura, escrita e as operações matemáticas fundamentais. Contudo, parece ter sido uma pessoa que gostava de aprender mais e movia-se pela curiosidade. Sua data de nascimento parece ter sido o ano de 1746, na fazenda de Pombal, de propriedade de seus pais, próxima a São João Del Rei. O pai era português e a mãe mineira, tendo os mesmos se fixado na região em função das possibilidades trazidas pela mineração. O casal não fez fortuna, mas melhorou de vida. O pai de Tiradentes chegou a ter 35 escravos, que trabalhavam na lavoura e nas minas. Tiradentes foi o quarto de um total de sete filhos. Contudo, aos 11 anos já tinha perdido os pais e passou a viver com um tio, que além de minerador, era um cirurgião-dentista. Sim, foi com ele que o jovem rapaz aprendeu o ofício que lhe rendeu o famoso apelido: Tiradentes. Depois de completar 18 anos, Tiradentes deixou a casa do tio e trabalhou como tropeiro, conduzindo gado e mercadorias, o que possibilitou conhecer bem a região das Minas Gerais. 
O ofício de dentista e prático (sabia tratar de doenças) o fez ser muito requisitado. Tiradentes chegou a ser sócio de uma botica (farmácia) em Vila Rica, na qual conservava uma coleção de ervas, raízes e pós para combater diversas doenças. O próprio Tiradentes preparava remédios com vários ingredientes, entre os quais a quinina, para combater febres e a salsaparrilha para tratar das doenças venéreas. Mas, sem dúvida, a sua maior habilidade era a extração de dentes e a confecção de próteses, que eram feitas de ouro, ossos de animais ou de marfim. A qualidade do seu trabalho era reconhecida em toda a região do ouro. 



Em 1775, Tiradentes deixou a vida de tropeiro para se alistar na guarda que o governo da capitania de Minas Gerais estava organizando. Para ser um oficial da mesma era preciso ser branco e pertencer a uma boa família (na ilustração acima, de Ivan Wasth Rodrigues, um oficial da Guarda dos Dragões do século XVIII). Tiradentes foi aceito como alferes (cargo equivalente ao de segundo-tenente). 



Em 1780, Tiradentes (no desenho acima, o alferes como foi imaginado pelo ilustrador Ivan Wasth Rodrigues) assumiu o comando das patrulhas que combatiam o contrabando na estrada para o Rio de Janeiro e ainda ajudou o governo português a abrir um caminho para controlar melhor a saída do ouro, recebendo o direito de explorar sete sesmarias (lotes de terra), além das outras três que já possuía. Também pode comprar um terreno e construir uma casa em Vila Rica, bem próxima de seu amigo João Rodrigues de Macedo. Contudo, a partir dessa época a sua ascensão foi interrompida em favor de vários outros oficiais militares que receberam promoções, enquanto Tiradentes continuava alferes. Apesar de circular entre as pessoas mais importantes da capitania, tinha dificuldades em fazer parte da elite, tendo sido negado a ele o pedido de casamento com uma sobrinha do padre Rolim. 
O crescimento econômico da capitania de Minas Gerais era o contrário daquilo que Portugal esperava de sua colônia naquele momento, ou seja, o de fornecer riquezas para a metrópole e não tornar-se autossuficiente, como se verificava na década de 1780. A tendência da política portuguesa era a de reverter a diversificação econômica de Minas Gerais e restringir qualquer possibilidade de desenvolvimento contrária aos ditames da metrópole. Para isso, Portugal enviou um novo governador: Luís da Cunha Meneses. 
Meneses não estava mais orientado pela visão pombalina de promover a elite branca nascida na terra e que começava a prosperar. Muito pelo contrário, tratava-se, na verdade, de reduzir a atuação desses indivíduos. Tal postura gerou choques entre a nova autoridade e os poderosos da capitania, sobretudo a respeito dos arrendamentos para a cobrança dos tributos (os contratos). Na verdade, Cunha Meneses tentou promover pessoas de sua confiança mais direta, o que prejudicou a antiga elite habituada com os privilégios que havia conquistado. Na sua gestão podem ser identificados os atritos que conduziram à ideia de uma sublevação contra Portugal, por parte dos poderosos da capitania, inspirados no caso norte-americano e nos ideais da Era das Luzes. Tiradentes foi um dos mais ardentes defensores desse levante. É o que veremos na segunda e última parte desta postagem...
Para saber mais:
Kenneth Maxwell. A Devassa da Devassa. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1978 (existe uma edição atualizada dessa obra). 
Crédito das imagens:
Imagem de Tiradentes e gravura de Rugendas sobre Vila Rica: Ethevaldo Siqueira. A eterna busca da Liberdade. Brasil: 500 anos de comunicações. BCP Telecomunicações, 2000, pags. 62 e 65. 
Lavagem de ouro de Marc Ferrez (1870). O Brasil Rural: a ocupação do território. Coleção Folha Fotos Antigas do Brasil. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2012, pag. 14. 
Mapa da capitania de Minas Gerais: Mapas Históricos Brasileiros (coleção Grandes Personagens da Nossa história. São Paulo, Abril Cultural, 1973. 
Foto de Ouro Preto em 1890: Museu da Inconfidência de Ouro Preto. 
O Cristo na Flagelação de Aleijadinho e a Casa dos Contos: Arte no Brasil. São Paulo, Abril Cultura, 1982, pags. 107 e 113. 
Gravura com o suposto rosto de Claudio Manuel da Costa e documento com a sua assinatura: Laura de Mello e Souza. Claudio Manuel da Costa. Coleção Perfis Brasileiros. São Paulo, Cia. das Letras, 2011. 
Rosto de Aleijadinho por Belmonte, desenho da praça central de Vila Rica no final do século XVIII e lavagem dos diamantes: Grandes Personagens da Nossa História. São Paulo, Abril Cultural, 1973, pags. 228, 240 e 239 respectivamente. 
Casa de Claudio Manuel da Costa: www.famososquepartiram.com
Casa de Marília de Dirceu em Vila Rica. Pedro Dória. 1789. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014. 
Ilustração de um guarda dos Dragões do século XVIII e do alferes Joaquim José da Silva Xavier: História do Brasil em Quadrinhos. 1ª parte. Rio de Janeiro. Editora Brasil-América, 1970 (data presumida).