Infelizmente, cumprimos o dever de informar a todos os (as) leitores (as) que a III Feira do Livro da Unesp foi cancelada, como medida de precaução contra a pandemia de Coronavírus que se alastra pelo mundo e conforme as recomendações das autoridades de saúde....
O História Mundi é um blog voltado para a divulgação de temas e assuntos relacionados ao conhecimento histórico atuando também como um facilitador da leitura e da pesquisa dentro das ciências humanas.
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segunda-feira, 16 de março de 2020
domingo, 8 de março de 2020
III Feira do Livro da Unesp
Mais uma ótima oportunidade de adquirir livros novos a preços acessíveis ao público em geral. Trata-se da III Feira do Livro da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O evento é gratuito e acontecerá entre os dias 1 e 5 de abril de 2020 (de quarta-feira a sábado, das 9h às 21h e domingo, das 9h às 18h). O local é o campus da Unesp em São Paulo ao lado da estação Palmeiras-Barra Funda do Metrô. Neste ano a edição contará com um espaço maior, a fim de que mais editoras participem com uma variedade maior de conteúdos para o público leitor.
Por falar em editoras, estão confirmadas, entre outras, Companhia das Letras, Contexto, Cortez, Ediouro/Nova Fronteira, Escala, Hucitec, L&PM, LeYa, Perspectiva, Publifolha além, é claro, das editoras universitárias, como a própria Editora da Unesp, da Edusp e da Editora da Unicamp. Trata-se de um leque bem diversificado e com excelentes opções que abrangem diversas áreas do conhecimento. Uma excelente opção para compras e lazer intelectual...
Para ver:
III Feira do Livro da Unesp
Quando: entre os dias 1 e 5 de abril de 2020.
Onde: Rua Jornalista Aloysio Biondi s/n, Barra Funda (Campus da Unesp), São Paulo (SP).
Site do evento: http://feiradolivrodaunesp.com.br/
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Egito Antigo: Do Cotidiano à Eternidade no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo
Em abril de 2018, o blog História Mundi colocou no ar uma postagem convidando os seus leitores a visitarem o Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde se encontravam aproximadamente 700 peças originais (como a que aparece acima) do Egito Antigo, inclusive quatro múmias completas. Uma delas era muito rara, por ter pertencido a uma mulher que, em vida, entoava cânticos sagrados no templo do deus Amon, daí o nome dado a ela de "Cantora de Amon" (ver a postagem "O Egito Antigo no Museu Nacional do Rio de Janeiro", neste blog). A mesma, no processo de mumificação, teve a sua garganta preservada, a fim de que pudesse fazer uso dos seus talentos vocais na vida pós-morte. E iniciávamos a postagem com a pergunta: Será que aqui no Brasil podemos ver de perto uma múmia do Egito Antigo? A resposta, naquele momento, era: sim! Infelizmente, não contamos mais com o acervo egípcio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, destruído por um incêndio naquele mesmo ano de 2018 (todas as múmias viraram cinzas). A instituição continha a maior coleção sobre o Egito faraônico em toda a América Latina. Agora, com grande alarde, algo perfeitamente compreensível pelo interesse que a civilização egípcia desperta no imaginário do público, nos chega a exposição "O Egito Antigo: Do Cotidiano À Eternidade" em São Paulo. E vejam só, o público vai poder ver, de perto, uma múmia original dos tempos faraônicos, como se isso fosse algo inédito por estas bandas.
Mas, chega de lembranças de um passado triste no que se refere aos nossos museus e lancemos o foco nessa mostra, que estará aberta ao público paulista a partir do dia 19 de fevereiro próximo e que ficará até o dia 11 de maio com entrada grátis, no Centro Cultural Banco do Brasil (acima, uma esfinge dos tempos da conquista romana). Trata-se de uma excelente oportunidade para apreciarmos uma civilização que se manteve pelos três milênios anteriores ao nascimento de Cristo. Ao todo são 140 itens provenientes do Museu Egípcio de Turim (fundado em 1824) na Itália, cujo acervo contempla aproximadamente 26.500 peças, sendo considerada a segunda maior coleção sobre Egito Antigo do mundo, perdendo apenas para o Museu do Cairo (no próprio Egito). A coleção foi formada no século XIX, logo após a rapina promovida por Napoleão Bonaparte nas terras egípcias, em uma de suas campanhas militares. Foi o início de uma verdadeira espoliação de peças do Antigo Egito por parte dos países ocidentais em plena era do Imperialismo.
Como já dissemos, a mostra conta com uma múmia, cujo nome era Tararo (imagem acima). De acordo com Pieter Tjabbes, um dos curadores (organizadores) da exposição, trata-se de uma senhora que viveu no tempo da 25ª dinastia de faraós, aproximadamente no século VIII a.C., cujos governantes seriam provenientes da Núbia (atual Sudão) e conhecidos como os "faraós negros". A múmia está acompanhada de um sarcófago repleto de hieróglifos (antiga forma de escrita egípcia) e pinturas, com orientações para que a alma da mulher encontrasse o corpo mumificado.
Esculturas, pinturas, papiros (onde eram contidos textos), amuletos, múmias de animais, peças provenientes das tumbas e objetos do cotidiano fazem parte também dessa mostra. Uma das esculturas em destaque é a da deusa Sekhmet (associada à guerra) com mais de 2 metros de altura e pesando meia tonelada (imagem acima).
A exposição está dividida em três seções: cotidiano, religião e eternidade. Cada uma dessas seções está representada por uma cor: amarelo, verde e azul respectivamente. Da mesma forma, as seções foram organizadas para criarem efeitos perceptivos nos visitantes, por meio da variação na iluminação, com o brilhante (cotidiano, associado ao dia), suave (religião) e baixa (a eternidade presente no interior das tumbas). Na verdade, todas as seções estão entrelaçadas, uma vez que os egípcios acreditavam piamente em uma vida além-túmulo, daí terem desenvolvido o processo de mumificação, a fim de que o corpo pudesse ser utilizado nessa outra vida.
Não apenas o corpo humano, mas vários animais associados aos deuses, eram também mumificados, como por exemplo, o gato, associado à deusa Bastet (na imagem acima, esse mesmo animal mumificado e presente na mostra), o chacal ao deus Anúbis, o falcão com o deus Hórus, a leoa com a deusa Sekhmet e o íbis com o deus Thot. Como se sabe, a religião egípcia era politeísta. As múmias eram acompanhadas de amuletos (muitos deles presentes na exposição), os quais deveriam auxiliar o morto em sua trajetória pela outra vida. A mumificação foi útil para o conhecimento do corpo humano, inclusive na prática de cirurgias, algo inédito naqueles tempos. Os túmulos, alguns em forma de pirâmides, requeriam o trabalho de arquitetos, escribas, artesãos e trabalhadores braçais (não necessariamente escravos), influenciando a vida cotidiana daquela civilização. A agricultura, organizada em torno das cheias anuais do rio Nilo (aproximadamente no mês de julho), era parte inseparável da vida dos felás ou camponeses egípcios.
A exposição está dividida em três seções: cotidiano, religião e eternidade. Cada uma dessas seções está representada por uma cor: amarelo, verde e azul respectivamente. Da mesma forma, as seções foram organizadas para criarem efeitos perceptivos nos visitantes, por meio da variação na iluminação, com o brilhante (cotidiano, associado ao dia), suave (religião) e baixa (a eternidade presente no interior das tumbas). Na verdade, todas as seções estão entrelaçadas, uma vez que os egípcios acreditavam piamente em uma vida além-túmulo, daí terem desenvolvido o processo de mumificação, a fim de que o corpo pudesse ser utilizado nessa outra vida.
Não apenas o corpo humano, mas vários animais associados aos deuses, eram também mumificados, como por exemplo, o gato, associado à deusa Bastet (na imagem acima, esse mesmo animal mumificado e presente na mostra), o chacal ao deus Anúbis, o falcão com o deus Hórus, a leoa com a deusa Sekhmet e o íbis com o deus Thot. Como se sabe, a religião egípcia era politeísta. As múmias eram acompanhadas de amuletos (muitos deles presentes na exposição), os quais deveriam auxiliar o morto em sua trajetória pela outra vida. A mumificação foi útil para o conhecimento do corpo humano, inclusive na prática de cirurgias, algo inédito naqueles tempos. Os túmulos, alguns em forma de pirâmides, requeriam o trabalho de arquitetos, escribas, artesãos e trabalhadores braçais (não necessariamente escravos), influenciando a vida cotidiana daquela civilização. A agricultura, organizada em torno das cheias anuais do rio Nilo (aproximadamente no mês de julho), era parte inseparável da vida dos felás ou camponeses egípcios.
Além das múmias, muitas das peças expostas também fazem referência ao aspecto da eternidade, como os vasos canopos (imagem acima), onde eram depositados os órgãos do corpo humano, a fim de serem reutilizados na outra vida (intestino, estômago, pulmão e fígado). Por sua vez, através desses objetos, é possível entrever os aspectos relacionados ao trabalho, à alimentação, à saúde e, até mesmo, à sexualidade dos antigos egípcios. Por exemplo, a magia era um recurso para o enfrentamento de doenças ou mesmo em desavenças com outras pessoas. Da mesma forma, muitas das peças expostas permitem perceber a existência de grupos privilegiados, entre os quais a nobreza faraônica (parentes do faraó ou rei), a classe sacerdotal e até mesmo os escribas, que conheciam a complexa forma de escrita hieroglífica utilizada nas altas esferas do Estado e na religião. Um dos sinais característicos desses grupos, que eram os mais representados nas pinturas, era o kohl, uma tinta preta aplicada ao redor dos olhos. Nessa forma de sociedade era muito difícil a mobilidade social, daí a mesma ser classificada como estamental.
Nessa exposição há destaque também para a interatividade, recurso considerado apropriado a fim de atrair um público não tão familiarizado com o assunto. Interessante que na Europa, onde este que vos escreve esteve recentemente, tal recurso é quase inexistente, até porque toma o tempo para o visitante apreciar, de fato, as obras e peças de um acervo. A interatividade serve mais como um complemento para exposições pequenas, como esta em questão. Classifico como pequena em comparação com o que vemos em outros países do hemisfério norte.
Ainda como complemento às peças da mostra, uma "maquete gigante" da pirâmide de Queóps, medindo 6 metros de altura, que nos dá uma ideia da dimensão da mesma quando comparada aos camelos (imagem acima) representados na mesma escala. Cuidado, pois o camelo não era um animal muito comum no Egito do tempo dos faraós e sim mais presente após a conquista árabe na Idade Média. Como introdução, um vídeo em 3D vai aproximar o espectador dos monumentos e das paisagens do vale do rio Nilo.
O evento do CCBB teve enorme sucesso no Rio de Janeiro, de onde veio, com mais de 1 milhão de visitantes e após ser apresentada em São Paulo, segue para Brasília e Belo Horizonte. Por isso, recomenda-se o agendamento da visita pela internet. Sem dúvida, embora não seja uma megaexposição como muitos afirmam, pela sua importância (mas não pelo ineditismo) há de se recomendar a visita e estimular o público a vê-la, até porque outra mostra desse tipo em nosso país e com peças cedidas por museus europeus, não será algo tão fácil de se ver nos próximos tempos...
Para ver:
Egito Antigo: Do Cotidiano À Eternidade no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
Rua Álvares Penteado, 112, centro de São Paulo.
De quarta a segunda, das 9h às 17 horas.
De 16.10 a 03.01.2021
A entrada é grátis.
Nessa exposição há destaque também para a interatividade, recurso considerado apropriado a fim de atrair um público não tão familiarizado com o assunto. Interessante que na Europa, onde este que vos escreve esteve recentemente, tal recurso é quase inexistente, até porque toma o tempo para o visitante apreciar, de fato, as obras e peças de um acervo. A interatividade serve mais como um complemento para exposições pequenas, como esta em questão. Classifico como pequena em comparação com o que vemos em outros países do hemisfério norte.
Ainda como complemento às peças da mostra, uma "maquete gigante" da pirâmide de Queóps, medindo 6 metros de altura, que nos dá uma ideia da dimensão da mesma quando comparada aos camelos (imagem acima) representados na mesma escala. Cuidado, pois o camelo não era um animal muito comum no Egito do tempo dos faraós e sim mais presente após a conquista árabe na Idade Média. Como introdução, um vídeo em 3D vai aproximar o espectador dos monumentos e das paisagens do vale do rio Nilo.
O evento do CCBB teve enorme sucesso no Rio de Janeiro, de onde veio, com mais de 1 milhão de visitantes e após ser apresentada em São Paulo, segue para Brasília e Belo Horizonte. Por isso, recomenda-se o agendamento da visita pela internet. Sem dúvida, embora não seja uma megaexposição como muitos afirmam, pela sua importância (mas não pelo ineditismo) há de se recomendar a visita e estimular o público a vê-la, até porque outra mostra desse tipo em nosso país e com peças cedidas por museus europeus, não será algo tão fácil de se ver nos próximos tempos...
Para ver:
Egito Antigo: Do Cotidiano À Eternidade no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).
Rua Álvares Penteado, 112, centro de São Paulo.
De quarta a segunda, das 9h às 17 horas.
De 16.10 a 03.01.2021
A entrada é grátis.
Em função da pandemia de covid-19 os ingressos só podem ser adquiridos pelo site:
https://www.eventim.com.br/tickets.html?affiliate=BRl
https://www.eventim.com.br/tickets.html?affiliate=BRl
Todos os protocolos de segurança estão no site acima.
Última atualização: 10.11.2020
Crédito das imagens:
Tampa de sarcófago:
http://www.revistaeletricidade.com.br/index.php/2019/10/23/ccbb-recebe-exposição-sobre-o-egito-antigo/
Esfinge e gato mumificado:
https://catracalivre.com.br/agenda/exposição-egito-antigo-ccbb-rio-de-janeiro/
Tampa de sarcófago:
http://www.revistaeletricidade.com.br/index.php/2019/10/23/ccbb-recebe-exposição-sobre-o-egito-antigo/
Esfinge e gato mumificado:
https://catracalivre.com.br/agenda/exposição-egito-antigo-ccbb-rio-de-janeiro/
Vasos canopos:
https://anba.com.br/ccbb-do-rio-prepara-megaexposição-sobre-egito-antigo/
https://anba.com.br/ccbb-do-rio-prepara-megaexposição-sobre-egito-antigo/
Múmia e pirâmide com camelos:
http://www.embarquenaviagem.com/2019/10/30/egito-antigo-do-cotidiano-a-eternidade-ccbb-rj/
Escultura da deusa Sekhmet:
https://vejasp.abril.com.br/blog/arte-ao-redor/mumia-ccbb-egito
Escultura da deusa Sekhmet:
https://vejasp.abril.com.br/blog/arte-ao-redor/mumia-ccbb-egito
domingo, 2 de fevereiro de 2020
Como era e como está: avenida São Luís (centro de São Paulo)
Uma avenida que já foi símbolo de elegância, requinte e que tinha aspecto de cidade européia, como Paris ou Viena. Estamos nos referindo à avenida São Luís no centro histórico (ou velho, como alguns preferem) da capital paulista. Este que vos escreve, embora não tenha vivido na época em que a foto acima foi tirada, possivelmente no ano de 1939 (quando teve início a Segunda Guerra Mundial), têm boas lembranças desse logradouro, pois me impressionava o fato de abrigar os escritórios das grandes companhias aéreas, entre elas a KLM, Lufthansa e Air France. Alguns consulados também se localizavam nas redondezas, como o da África do Sul, na praça da República, onde estive em 1974 para solicitar um material audiovisual, a fim de apresentar como trabalho de escola, o qual aliás, modéstia à parte, ficou excelente. De certa forma, essa tendência voltada para o exterior e o turismo ainda se mantém, pois a avenida São Luís abriga atualmente muitas agências de viagens e casas de câmbio. Porém, antes de mostrar essa vocação, a avenida São Luís teve outra história, vinculada à elite (sobretudo cafeicultores) da província e depois estado de São Paulo. Quando outras áreas da cidade começaram a desbancar o centro no que se refere à presença das classes de maior poder aquisitivo, veio o declínio que perdura até hoje.
A avenida São Luís está situada no bairro da Consolação, distrito da Sé e subdistrito da República. Trata-se de uma avenida curta e de mão única, que têm apenas um quarteirão, começando na Avenida Ipiranga, quando esta atravessa lateralmente a praça da República e o antigo Colégio Caetano de Campos, uma escola pública que já foi referência na cidade de São Paulo (hoje, o prédio abriga a Secretária de Educação do Estado). A avenida termina na rua da Consolação, na altura da praça Dom José Gaspar onde se encontra a Biblioteca Mário de Andrade, outra edificação importante da cidade. Na avenida São Luís encontramos também o edifício Itália (o segundo mais alto de São Paulo com 46 andares e 165 metros de altura) e a Galeria Metrópole, onde existiu uma famosa sala de cinema do mesmo nome. Esse centro comercial pode ser considerado um precursor dos shoppings centers, que se espalharam pela cidade, contribuindo também para o declínio da área central e do comércio de rua.
A avenida São Luís está situada no bairro da Consolação, distrito da Sé e subdistrito da República. Trata-se de uma avenida curta e de mão única, que têm apenas um quarteirão, começando na Avenida Ipiranga, quando esta atravessa lateralmente a praça da República e o antigo Colégio Caetano de Campos, uma escola pública que já foi referência na cidade de São Paulo (hoje, o prédio abriga a Secretária de Educação do Estado). A avenida termina na rua da Consolação, na altura da praça Dom José Gaspar onde se encontra a Biblioteca Mário de Andrade, outra edificação importante da cidade. Na avenida São Luís encontramos também o edifício Itália (o segundo mais alto de São Paulo com 46 andares e 165 metros de altura) e a Galeria Metrópole, onde existiu uma famosa sala de cinema do mesmo nome. Esse centro comercial pode ser considerado um precursor dos shoppings centers, que se espalharam pela cidade, contribuindo também para o declínio da área central e do comércio de rua.
No mapa mais antigo da cidade de São Paulo, confeccionado em 1810 (portanto, antes da independência do Brasil), o logradouro já aparece, porém sem denominação, embora pouco depois fosse mencionado como o Beco Comprido. O mesmo poderia ser um caminho ou mesmo uma trilha. Na imagem mais acima, entre as letras C e G temos esse caminho, que termina na rua da Consolação, cujo nome aparece à direita. Não sabemos quem foi o responsável pela abertura ou desbravamento dessa via, mas conhecemos quem a batizou, o Coronel Luís Antônio de Sousa Queiroz, que se tornou o Brigadeiro Luís Antônio (nome de outra avenida importante da cidade), militar luso-brasileiro e um dos homens mais ricos de São Paulo no início do século XIX (acima, na legenda do mapa de 1810, o seu nome aparece exatamente na letra C, mostrando ser ele o proprietário do quarteirão esquerdo da futura rua São Luís). Este integrante da aristocracia paulista fez fortuna como tropeiro (condutor e vendedor de cavalos e mulas) e negociante. Com a renda obtida a partir dessas atividades, adquiriu terras na então área periférica da cidade de São Paulo, entre as quais a chácara apontada no mapa anterior, no bairro da Consolação, entre a rua 7 de Abril e a praça da República (antes chamada de largo dos Curros). O Brigadeiro Luís Antônio casou-se com Genebra de Barros Leite, de uma tradicional família paulista, cujos laços reuniam os ramos Pais de Barros e Jorge Velho, dos antigos bandeirantes. Segundo a pesquisadora Paula da Cruz Landim y Goya, a sede da chácara do brigadeiro estava localizada exatamente onde hoje é a Biblioteca Municipal Mário de Andrade e muitas das árvores existentes na praça Dom José Gaspar (atrás da biblioteca) remontam ao tempo do brigadeiro, que as teria mandado plantar.
Após a morte do Brigadeiro Luís Antônio, a propriedade passou para o seu filho Francisco Antônio de Sousa Queiroz, que depois tornou-se o Senador Queiroz (e que também recebeu do imperador D. Pedro II o título de barão). No mapa acima de 1874, na parte inferior, está apontado o local da sede da chácara do Senador Queiroz, exatamente na confluência da São Luís com a rua da Consolação (o terreno da chácara era o quarteirão inteiro). A rua São Luís ainda era designada como Beco Comprido. Pelo que se sabe, o logradouro recebeu o nome de São Luís por iniciativa do Senador Queiroz, por ter sido o santo devoto de seu pai, o falecido Brigadeiro Luís Antônio. Coube também ao Senador Queiroz arborizar a rua com duas fileiras de jacarandás-mimosos, os quais, um dia, teriam feito sombra para o imperador D. Pedro II. O senador casou-se com Antonia Eufrosina de Campos Vergueiro, filha do também senador Nicolau de Campos Vergueiro (que foi regente do Império, depois nome de um logradouro conhecido e de estação de metrô) e de sua esposa, Maria Angélica de Vasconcellos, que era prima de Genebra de Barros Leite, mãe do Senador Queiroz. Muito confuso? Basta lembrar que nesse tempo, as famílias da elite paulista promoviam enlaces entre seus integrantes a fim de ampliar a influência política e econômica.
Com o fim do Império e a morte do Senador Queiroz em 1891 a família foi deixando a atividade política para a geração nova de republicanos. Com isso, a chácara do Senador Queiroz, que passou a ser chamada de "Chácara Velha", foi sendo dividida e loteada, inicialmente entre os próprios familiares (nas imagens acima, a planta com a divisão dos terrenos entre os familiares e o local da Chácara Velha, em foto sem data). Portanto, a rua São Luís passou a abrigar todo o clã Souza Queiroz.
Um dos filhos do Senador Queiroz, Luís Antonio de Souza Queiroz manteve um palacete, situado na esquina da rua São Luís com a rua Epitácio Pessoa, hoje avenida Ipiranga (nas fotos, de cima para baixo, a esquina da São Luís com a Ipiranga em 1939 e o palacete de Luís Antonio de Souza Queiroz). Do lado direito da primeira foto, atrás do guarda, onde vemos dois pinheiros e uma palmeira é o local onde hoje se encontra o edifício Itália.
A partir do início do século XX, a rua São Luís foi perdendo a característica de ser um logradouro pertencente a uma só família. Em 1909, a Cúria Metropolitana (Igreja Católica) adquiriu um terreno naquela via, onde era a Chácara Velha, que se tornou sede da arquidiocese da cidade de São Paulo (exatamente onde hoje é a praça Dom José Gaspar). No ano de 1923, o Circolo Italiano adquiriu outro terreno, onde estava o palacete de Antônio de Souza Queiroz (cuja reconstituição vemos acima) e como já dissemos, local onde hoje se encontra o edifício Itália. A rua São Luís começou a abrigar mansões e palacetes de características bem ecléticas (diversificadas), que tornaram a mesma uma das vias mais charmosas da cidade, exatamente como aparece na foto que abre esta postagem.
A rua São Luís transformou-se em avenida em 1944, sendo alargada pelo prefeito Prestes Maia, como parte do seu Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo. Como nos informa mais uma vez Paula da Cruz Landim y Goya, alguns palacetes perderam os seus jardins e outros foram demolidos para o alargamento da avenida. Na década de 1950, o setor de serviços começou a ocupar o local, dividindo o uso da avenida com as moradias e simultaneamente, teve início a verticalização.
Em pouco mais de 10 anos, a paisagem da avenida sofreu alterações significativas dentro de um processo semelhante ao ocorrido depois na avenida Paulista. Os casarões deram lugar aos prédios (na foto acima, de 1955, a verticalização já praticamente consolidada). O primeiro foi o São Luís, inaugurado em 1945. Vários desses edifícios eram constituídos por apartamentos de luxo, dos primeiros a serem erguidos na capital paulista, quebrando a resistência da antiga elite com relação a esse modelo de moradia.
O edifício Itália (foto acima e à direita do mesmo a avenida São Luís), um arranha-céu, é o grande símbolo desse período, sendo inaugurado em 1965. Dessa fase em diante, a avenida São Luís conheceu a sua mais recente vocação que recebeu, inicialmente, os escritórios de companhias aéreas, agências de viagens e casas de câmbio.
A avenida São Luís (acima, em foto de 2013) constitui um exemplo das mutações pelas quais passou a capital paulista nos últimos duzentos anos, notadamente no seu centro histórico, caracterizado pela diversidade de usos e de atividades, desde habitações rurais (chácaras), depois residenciais e mais recentemente, escritórios e setor de serviços. A cidade de São Paulo se desfaz do seu passado num "piscar de olhos", infelizmente sem muitas vezes respeitar a sua história, situação que continua diante da acelerada especulação imobiliária e do jogo permissivo do livre mercado...
Com o fim do Império e a morte do Senador Queiroz em 1891 a família foi deixando a atividade política para a geração nova de republicanos. Com isso, a chácara do Senador Queiroz, que passou a ser chamada de "Chácara Velha", foi sendo dividida e loteada, inicialmente entre os próprios familiares (nas imagens acima, a planta com a divisão dos terrenos entre os familiares e o local da Chácara Velha, em foto sem data). Portanto, a rua São Luís passou a abrigar todo o clã Souza Queiroz.
Um dos filhos do Senador Queiroz, Luís Antonio de Souza Queiroz manteve um palacete, situado na esquina da rua São Luís com a rua Epitácio Pessoa, hoje avenida Ipiranga (nas fotos, de cima para baixo, a esquina da São Luís com a Ipiranga em 1939 e o palacete de Luís Antonio de Souza Queiroz). Do lado direito da primeira foto, atrás do guarda, onde vemos dois pinheiros e uma palmeira é o local onde hoje se encontra o edifício Itália.
A partir do início do século XX, a rua São Luís foi perdendo a característica de ser um logradouro pertencente a uma só família. Em 1909, a Cúria Metropolitana (Igreja Católica) adquiriu um terreno naquela via, onde era a Chácara Velha, que se tornou sede da arquidiocese da cidade de São Paulo (exatamente onde hoje é a praça Dom José Gaspar). No ano de 1923, o Circolo Italiano adquiriu outro terreno, onde estava o palacete de Antônio de Souza Queiroz (cuja reconstituição vemos acima) e como já dissemos, local onde hoje se encontra o edifício Itália. A rua São Luís começou a abrigar mansões e palacetes de características bem ecléticas (diversificadas), que tornaram a mesma uma das vias mais charmosas da cidade, exatamente como aparece na foto que abre esta postagem.
A rua São Luís transformou-se em avenida em 1944, sendo alargada pelo prefeito Prestes Maia, como parte do seu Plano de Avenidas para a Cidade de São Paulo. Como nos informa mais uma vez Paula da Cruz Landim y Goya, alguns palacetes perderam os seus jardins e outros foram demolidos para o alargamento da avenida. Na década de 1950, o setor de serviços começou a ocupar o local, dividindo o uso da avenida com as moradias e simultaneamente, teve início a verticalização.
Em pouco mais de 10 anos, a paisagem da avenida sofreu alterações significativas dentro de um processo semelhante ao ocorrido depois na avenida Paulista. Os casarões deram lugar aos prédios (na foto acima, de 1955, a verticalização já praticamente consolidada). O primeiro foi o São Luís, inaugurado em 1945. Vários desses edifícios eram constituídos por apartamentos de luxo, dos primeiros a serem erguidos na capital paulista, quebrando a resistência da antiga elite com relação a esse modelo de moradia.
O edifício Itália (foto acima e à direita do mesmo a avenida São Luís), um arranha-céu, é o grande símbolo desse período, sendo inaugurado em 1965. Dessa fase em diante, a avenida São Luís conheceu a sua mais recente vocação que recebeu, inicialmente, os escritórios de companhias aéreas, agências de viagens e casas de câmbio.
A avenida São Luís (acima, em foto de 2013) constitui um exemplo das mutações pelas quais passou a capital paulista nos últimos duzentos anos, notadamente no seu centro histórico, caracterizado pela diversidade de usos e de atividades, desde habitações rurais (chácaras), depois residenciais e mais recentemente, escritórios e setor de serviços. A cidade de São Paulo se desfaz do seu passado num "piscar de olhos", infelizmente sem muitas vezes respeitar a sua história, situação que continua diante da acelerada especulação imobiliária e do jogo permissivo do livre mercado...
Crédito das imagens:
Foto da rua São Luís em 1939 com os seus casarões e palacetes: São Paulo de Antigamente
https://www.facebook.com/groups/168719980662932/
Foto da rua São Luís em 1939 com os seus casarões e palacetes: São Paulo de Antigamente
https://www.facebook.com/groups/168719980662932/
Mapa de 1810:
http://www.arquiamigos.org.br/info/info20/i-1810.htm
Mapa de 1874 e do palacete de Luís Antônio de Sousa Queiroz: São Paulo: três cidades em um século de Benedito Lima de Toledo. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1981, páginas 160 e 127 respectivamente.
Foto da esquina da avenida Ipiranga com a rua São Luís em 1939: Memória da Cidade de São Paulo: Depoimentos de Moradores e Visitantes/1553-1958 de Ernani da Silva Bruno. Prefeitura do Município de São Paulo. Secretaria Municipal de Cultura, 1981, página 193.
Planta dos lotes da família Sousa Queiroz e foto da Chácara Velha: História da Família Souza Queiroz. Instituto D. Ana Rosa, sem data, página 5 e 4 respectivamente.
Desenho do palacete de Antônio de Sousa Queiroz: Mutação da paisagem urbana. Um caso significativo na cidade de São Paulo: a Avenida São Luiz de Paula da Cruz Landim y Goya. Revista Paisagem e Ambiente, 1989, página 46.
Foto da avenida São Luís em 1955: Instituto Moreira Salles.
Foto do edifício Itália:
http://www.arquiamigos.org.br/info/info20/i-1810.htm
Mapa de 1874 e do palacete de Luís Antônio de Sousa Queiroz: São Paulo: três cidades em um século de Benedito Lima de Toledo. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1981, páginas 160 e 127 respectivamente.
Foto da esquina da avenida Ipiranga com a rua São Luís em 1939: Memória da Cidade de São Paulo: Depoimentos de Moradores e Visitantes/1553-1958 de Ernani da Silva Bruno. Prefeitura do Município de São Paulo. Secretaria Municipal de Cultura, 1981, página 193.
Planta dos lotes da família Sousa Queiroz e foto da Chácara Velha: História da Família Souza Queiroz. Instituto D. Ana Rosa, sem data, página 5 e 4 respectivamente.
Desenho do palacete de Antônio de Sousa Queiroz: Mutação da paisagem urbana. Um caso significativo na cidade de São Paulo: a Avenida São Luiz de Paula da Cruz Landim y Goya. Revista Paisagem e Ambiente, 1989, página 46.
Foto da avenida São Luís em 1955: Instituto Moreira Salles.
Foto do edifício Itália:
https://vejasp.abril.com.br/cidades/edifício-italia-50-anos/
Foto da avenida São Luís em 2013:
https://www.flickr.com/photos/brunograziano/44502409302/
Foto da avenida São Luís em 2013:
https://www.flickr.com/photos/brunograziano/44502409302/
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Imagens Históricas 43: os reis Luís XVI e Luís XVIII ainda crianças
Duas crianças que tiveram os seus destinos profundamente influenciados por um dos grandes acontecimentos da história da humanidade: a Revolução Francesa. Do lado direito temos o duque de Berry, que depois se tornou o rei Luís XVI. Sim, o monarca que foi guilhotinado na Grande Revolução, no ano de 1793. Ao seu lado, à esquerda, está o irmão, conde de Provence, mais tarde Luís XVIII, que se tornou rei da França após a queda de Napoleão Bonaparte e a restauração da monarquia em 1815. Os dois eram netos do rei Luís XV, portanto legítimos integrantes da Dinastia Bourbon, que governava a França desde o final do século XVI. Outro irmão desses meninos, o conde de Artois, veio também a se tornar rei da França, com o título de Carlos X. O quadro acima é de autoria do pintor François-Hubert Drouais (1727-1775), especialista em retratos durante a fase final do reinado de Luís XV, que durou de 1715 a 1774. O trabalho foi feito em 1757.
O prestígio e a qualidade do trabalho de Drouais o fez tornar-se o retratista da alta aristocracia e dos integrantes da corte de Luís XV, inclusive de uma jovem princesa austríaca recém chegada ao Palácio de Versalhes: Maria Antonieta (acima, retrato de Maria Antonieta com 18 anos, feito por Drouais em 1773). Drouais recebeu os primeiros ensinamentos na arte da pintura com o seu pai Hubert Drouais e mais tarde aprimorou o seu ofício com outros mestres, entre eles Charles-André van Loo, Charles-Joseph Natoire e François Boucher.
Drouais gostava de inserir os seus retratados em paisagens campestres e ficou conhecido entre as grandes damas da época pela riqueza de detalhes que impunha aos vestidos. Por isso, as mesmas recorriam ao que tinham de melhor no guarda-roupa para as poses com o artista, entre elas Madame Pompadour e Madame du Barry, as amantes mais famosas de Luís XV (acima, Luís XV e Madame du Barry, em pinturas de Drouais). Além disso, o artista realçava a beleza e a sensualidade das mulheres agregando à pele das mesmas uma fina e sutil camada de tinta branca, numa época em que ninguém imaginava a invenção da fotografia e muito menos os recursos do atual photoshop. Portanto, ser retratado (a) por François-Hubert Drouais virou uma exigência da moda na alta nobreza francesa de meados do século XVIII. Fica evidente que os trabalhos do artista estavam vinculados à elite do Antigo Regime francês, já em sua fase de declínio.
Para aqueles que imaginam que o quadro que apresentamos mais acima, em nossas Imagens Históricas, seja difícil de se ver ou acessível apenas aos que adentram no Museu do Louvre ou no Palácio de Versalhes, ambos em Paris, uma boa notícia: o mesmo faz parte do acervo permanente do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Aos que residem na cidade de São Paulo, como este que vos escreve, fica bem mais fácil apreciar essa obra de perto e para os demais, recomendo que quando visitarem a capital paulista, não deixarem de ir a esse museu. O acervo do MASP é um dos mais importantes do mundo...
Crédito das imagens:
Quadro com o duque de Berry e o conde de Provence quando crianças: Museu de Arte de São Paulo. Coleção Museus Brasileiros - 3. Rio de Janeiro: Edição Funarte, 1981, página 49.
Retratos de Madame du Barry e Luís XV: Visitar Versailles. Château de Versailles, 2019, páginas 66 e 156 respectivamente.
Retrato de Maria Antonieta: Wikipédia.
O prestígio e a qualidade do trabalho de Drouais o fez tornar-se o retratista da alta aristocracia e dos integrantes da corte de Luís XV, inclusive de uma jovem princesa austríaca recém chegada ao Palácio de Versalhes: Maria Antonieta (acima, retrato de Maria Antonieta com 18 anos, feito por Drouais em 1773). Drouais recebeu os primeiros ensinamentos na arte da pintura com o seu pai Hubert Drouais e mais tarde aprimorou o seu ofício com outros mestres, entre eles Charles-André van Loo, Charles-Joseph Natoire e François Boucher.
Drouais gostava de inserir os seus retratados em paisagens campestres e ficou conhecido entre as grandes damas da época pela riqueza de detalhes que impunha aos vestidos. Por isso, as mesmas recorriam ao que tinham de melhor no guarda-roupa para as poses com o artista, entre elas Madame Pompadour e Madame du Barry, as amantes mais famosas de Luís XV (acima, Luís XV e Madame du Barry, em pinturas de Drouais). Além disso, o artista realçava a beleza e a sensualidade das mulheres agregando à pele das mesmas uma fina e sutil camada de tinta branca, numa época em que ninguém imaginava a invenção da fotografia e muito menos os recursos do atual photoshop. Portanto, ser retratado (a) por François-Hubert Drouais virou uma exigência da moda na alta nobreza francesa de meados do século XVIII. Fica evidente que os trabalhos do artista estavam vinculados à elite do Antigo Regime francês, já em sua fase de declínio.
Para aqueles que imaginam que o quadro que apresentamos mais acima, em nossas Imagens Históricas, seja difícil de se ver ou acessível apenas aos que adentram no Museu do Louvre ou no Palácio de Versalhes, ambos em Paris, uma boa notícia: o mesmo faz parte do acervo permanente do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Aos que residem na cidade de São Paulo, como este que vos escreve, fica bem mais fácil apreciar essa obra de perto e para os demais, recomendo que quando visitarem a capital paulista, não deixarem de ir a esse museu. O acervo do MASP é um dos mais importantes do mundo...
Crédito das imagens:
Quadro com o duque de Berry e o conde de Provence quando crianças: Museu de Arte de São Paulo. Coleção Museus Brasileiros - 3. Rio de Janeiro: Edição Funarte, 1981, página 49.
Retratos de Madame du Barry e Luís XV: Visitar Versailles. Château de Versailles, 2019, páginas 66 e 156 respectivamente.
Retrato de Maria Antonieta: Wikipédia.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
Vizir: o cavalo de Napoleão Bonaparte
A pergunta clássica que ouvimos desde os tempos de infância: qual a cor do cavalo branco de Napoleão? Possivelmente o equino chamado Vizir não se enquadre perfeitamente no aspecto da cor, embora quando vivo, o animal tivesse pelos esbranquiçados e fosse cinza claro (nas fotos acima, o cavalo Vizir). Dezenas de outros cavalos gozaram do prestígio de servir ao governante francês e muitos deles eram brancos. Contudo, Vizir é o único que se encontra preservado no Musée de l'Armée (Museu das Forças Armadas, localizado no antigo Hospital dos Inválidos) em Paris. O cavalo está empalhado e pode ser visto de perto por todos os que visitam a instituição.
Vizir nasceu em 1793 e era um cavalo árabe inteiro, isto é, não castrado (acima, Vizir em uma pintura de Pierre Martinet, artista que retratou vários cavalos que pertenceram a Napoleão). Originário da Península Arábica no Oriente Médio, o cavalo árabe chegou na Europa durante a expansão muçulmana ocorrida na Idade Média, sendo reconhecido pela sua resistência, agilidade e velocidade. Por isso, foi muito utilizado nos combates de cavalaria.
O sultão do Império Turco Otomano, Selim III, ofereceu o cavalo como presente a Napoleão Bonaparte e depois o mesmo foi treinado nos estábulos imperiais, juntamente com mais 130 cavalos que Bonaparte utilizou ao longo de 14 anos. Entre eles encontrava-se Marengo (nome de uma das batalhas travadas por Napoleão), que foi retratado na célebre pintura de Jacques-Louis David, "Napoleão atravessando os Alpes". Marengo tinha a cor branca (ao menos nos quadros) e acabou capturado pelos ingleses, que guardam o seu esqueleto até hoje. Na verdade, Napoleão Bonaparte estava longe de ser um exímio cavaleiro e começou a montar por necessidade prática, a fim de comandar os soldados nas batalhas. Por ser baixo, Napoleão tinha preferência por cavalos de pequeno porte, como o Vizir.
Vizir nasceu em 1793 e era um cavalo árabe inteiro, isto é, não castrado (acima, Vizir em uma pintura de Pierre Martinet, artista que retratou vários cavalos que pertenceram a Napoleão). Originário da Península Arábica no Oriente Médio, o cavalo árabe chegou na Europa durante a expansão muçulmana ocorrida na Idade Média, sendo reconhecido pela sua resistência, agilidade e velocidade. Por isso, foi muito utilizado nos combates de cavalaria.
O sultão do Império Turco Otomano, Selim III, ofereceu o cavalo como presente a Napoleão Bonaparte e depois o mesmo foi treinado nos estábulos imperiais, juntamente com mais 130 cavalos que Bonaparte utilizou ao longo de 14 anos. Entre eles encontrava-se Marengo (nome de uma das batalhas travadas por Napoleão), que foi retratado na célebre pintura de Jacques-Louis David, "Napoleão atravessando os Alpes". Marengo tinha a cor branca (ao menos nos quadros) e acabou capturado pelos ingleses, que guardam o seu esqueleto até hoje. Na verdade, Napoleão Bonaparte estava longe de ser um exímio cavaleiro e começou a montar por necessidade prática, a fim de comandar os soldados nas batalhas. Por ser baixo, Napoleão tinha preferência por cavalos de pequeno porte, como o Vizir.
Na perna esquerda desse cavalo podemos encontrar a marca "N" e a coroa imperial (foto acima), símbolos de Napoleão (que foi coroado imperador da França em 1804).
O cavalo Vizir participou das batalhas de Iena e Eylau, entre 1806 e 1807, contra os exércitos prussiano (alemão) e russo, no auge do poderio militar francês (no quadro acima, de Jean Baptiste Édouard Detaille, Napoleão montado em seu cavalo na Batalha de Iena). Vizir acompanhou Bonaparte por 12 anos, inclusive no exílio temporário na ilha de Elba (próxima à Itália) em 1814. Após o Governo dos Cem Dias (que marcou o retorno do imperador francês ao poder) e a derrota final na Batalha de Waterloo, Napoleão Bonaparte e seu cavalo Vizir foram separados. Nunca mais se reencontraram em vida.
Bonaparte foi conduzido pelos vencedores ingleses para a ilha de Santa Helena, a meio caminho entre o Brasil e a África, onde veio a falecer em 1821 (acima, detalhe de Napoleão abdicando em Fontainebleau, do pintor Paul Delaroche, 1855). O grande herói dos tempos revolucionários e da burguesia emergente deixou as suas marcas por onde passou, sobretudo o Código Civil (ou Código Napoleônico) no qual institucionalizou os lemas da Revolução Francesa, como o direito à propriedade e a igualdade perante a lei.
Após a morte de Napoleão, a trajetória do cavalo Vizir ainda sofreria algumas reviravoltas. Em primeiro lugar porque ele resistiu mais cinco anos após o desaparecimento de seu dono, morrendo em 1826 com 33 anos de vida. Os restos do cavalo acabaram sendo preservados por taxidermistas (empalhadores) por ordem de um oficial francês chamado León de Chanlaire. A fim de proteger a relíquia diante do ambiente político desfavorável a Napoleão, no auge da restauração da monarquia na França, Chanlaire enviou o animal empalhado para a Inglaterra. Para realizar a viagem, o Vizir foi esvaziado e dobrado, sendo depois recomposto para ser exibido no museu da cidade inglesa de Manchester.
Posteriormente, com a ascensão de Napoleão III (sobrinho do primeiro Napoleão), Vizir retornou à França. Após a queda deste último no decorrer da Guerra Franco-Prussiana (entre franceses e alemães) em 1871, Vizir foi levado para os depósitos do Museu do Louvre em Paris, onde ficou guardado por mais de 30 anos, até ser redescoberto e incorporado ao Musée de l'Armée em 1905, onde está até hoje. Reparem como as reviravoltas da política interferem até mesmo na vida (e pós-vida) dos cavalos!
O cavalo encontra-se na mesma instituição que abriga o túmulo de seu famoso dono, no Duomo dos Inválidos (foto acima). Portanto, Vizir e seu amo descansam praticamente juntos e podem ser observados por todos os interessados em conhecer melhor a história militar francesa no Musée de l'Armée...
Crédito das imagens:
Pintura de Pierre Martinet:
https://fr.wahooart.com
Batalha de Iena: Wikipédia (em inglês).
Demais imagens: acervo do autor.
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