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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Anuncio Antigo 72: pilulas para os seios


                                                                                                                                                                Segundo nos relata o historiador Nicolau Sevcenko (no Capítulo 7 do livro História da Vida Privada no Brasil, volume 3, Companhia das Letras, 1998), até o final do século XIX, os rapazes e as moças, principalmente da capital Rio de Janeiro (cidade mais exposta à moda e costumes ocidentais), cobriam o corpo da cabeça aos pés com paletós, calças, chapéus e vestidos, além de evitarem sair nos horários em que o sol era mais intenso, a fim de preservar a pele com tom mais esbranquiçado, pálido e até funéreo. Isso representava um sinal de distinção social, de apego maior ao lar e à atividade intelectual, além de mostrar à sociedade que tais indivíduos não necessitavam trabalhar ao ar livre, de sol a sol, algo que era reservado às classes subalternas e aos escravos (ao menos até a Lei Áurea em 1888). 
Contudo, a inserção do Brasil no contexto do mundo industrializado e dos avanços tecnológicos do século XX alterou de forma significativa esse cenário. O advento do automóvel foi uma dessas transformações, que fez com que as pessoas passassem a ter maior contato com a natureza e começassem a sair mais ao ar livre. Os banhos de mar passaram a ser recomendados como uma forma de manter o corpo saudável. A pele mais bronzeada (sem escurecer demais) mostrava uma aparência de saúde e beleza física. Da mesma forma, todo um arsenal de pós, loções, pomadas, cremes, sabonetes, xampus e emplastros surgiram para manter uma aparência de maior disposição. Em função disso, os banheiros tiveram que se tornar mais amplos, a fim de dar conta dessas novas funções voltadas para a manutenção do aspecto físico. A associação entre saúde e corpo se desenvolve ainda mais com o estímulo às práticas esportivas, como a natação e o remo, surgindo nas primeiras décadas do século XX os famosos clubes de regatas, que depois incluiriam também o futebol. Para as mulheres e os idosos eram recomendadas ainda as visitas às estâncias hidrominerais, para o tratamento da pele, dos pulmões e dor na coluna. O automóvel facilitou o acesso a algumas delas, como Poços de Caldas e São Lourenço, no sul de Minas Gerais. 
Essa maior valorização do corpo influenciou no vestuário, pois as partes da anatomia que antes estavam cobertas, agora começavam a ser colocadas mais à mostra, como os braços, os pés e no caso das mulheres, os seios. E estes tinham que apresentar formosura e beleza. Na linha dos produtos estéticos que começaram a surgir, tivemos as pomadas e as pílulas para aumentar os seios, tornando-os mais "formosos", como se costumava dizer nas décadas de 1920 e 1930. Nesta seção, já tivemos a oportunidade de mostrar os anúncios das pomadas (ver Anúncio Antigo 12) e agora temos as "Pilulas Orientais", provenientes de Paris (cidade que na época era sinônimo de moda e beleza). O produto parece ter a aprovação do Departamento Nacional de Saúde Pùblica (DNSP), como aparece no próprio material de propaganda. Era eficaz? Bem, se fosse talvez tivesse permanecido até os dias de hoje. Mas, sem dúvida, as próteses de silicone tem se mostrado mais úteis do que esses antigos fármacos. Eficaz, eficaz mesmo, é aquilo que a natureza criou e que não requer retoques artificiais, nem para os homens e nem para as mulheres, pois a beleza é algo que encanta também pela diversidade. 
O Anuncio Antigo acima foi publicado na antiga Revista Feminina, edição de setembro de 1929, página 19.       

domingo, 16 de agosto de 2020

Imagens Históricas 49: cenas de um casamento na Catedral da Sé em São Paulo



A Catedral da Sé, no centro de São Paulo, foi o local de momentos importantes da nossa história, como o culto ecumênico (reunindo várias religiões) pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog em plena ditadura militar no ano de 1975 e das inúmeras missas celebradas pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns (1921-2016), em prol das causas humanitárias. Por isso, este templo religioso tenha se tornado o símbolo de acontecimentos de grande significação no plano político e social, muitos das quais este que vos escreve participou. Mas, desta vez vamos lembrar da Catedral da Sé através de um casamento, o qual, quando comparado às cerimônias atuais guarda até uma certa simplicidade. Interessante notar que, a cada momento, existiram igrejas com maior evidência para as cerimônias de matrimônio dentro do ritual católico, na capital paulista. Um dia já tivemos a própria catedral da Sé; a igreja São Carlos Borromeu no bairro do Belenzinho, com seu estilo moderno e arrojado; a igreja do Carmo, discreta e acolhedora em sua arquitetura barroca, também no centro de São Paulo e, atualmente, a igreja Nossa Senhora do Brasil, no bairro dos Jardins, entre outras. A aglomeração popular verificada na foto acima se justificava em função do noivo ser uma figura já bem conhecida, o humorista e roteirista Carlos Alberto de Nóbrega, filho do empresário e apresentador Manoel de Nóbrega, um dos grandes pioneiros de nossa televisão. No dia 21 de dezembro de 1957, Carlos Alberto contraia matrimônio com Marilda de Oliveira (na foto acima, Carlos Alberto chega para a cerimônia acompanhado de sua mãe, dona Dalila de Nóbrega). 



A cerimônia ocorreu dois anos depois da inauguração oficial da Catedral da Sé, em 1954, no ano do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. A igreja, em estilo neogótico, foi entregue ainda inacabada, pois faltavam as duas torres (na foto acima, a Catedral da Sé em 1954). A obra foi concluída apenas em 1967. 


A televisão começava a ganhar popularidade, embora fosse presente apenas nos lares da classe média mais bem posicionada. Contudo, a maior parte dos artistas da nascente mídia televisiva eram provenientes do rádio, este sim o meio de comunicação de maior penetração nas massas (na foto acima os noivos, Carlos Alberto de Nóbrega, Marilda de Oliveira e "escondido" do lado direito, o pai do noivo, Manoel de Nóbrega). 


Portanto, na relação de padrinhos tivemos figuras conhecidas do grande público e provenientes do meio radiofônico, entre eles a apresentadora Hebe Camargo (na foto acima, da esquerda para a direita, os padrinhos Luis Ramos e Hebe Camargo; o noivo Carlos Alberto e os pais Dalila e Manoel de Nóbrega), o cantor Gregório Barrios (muito amigo da família Nóbrega), Lucia de Melo Machado (noiva do comediante Ronald Golias, também presente na cerimônia). Além deles, muitos integrantes do cast da Organização Victor Costa, proprietária da TV Paulista, Canal 5, que revelou inúmeros talentos de nossa televisão, como um certo Senor Abravanel, mais conhecido pelo nome artístico de Silvio Santos.
A Imagem Histórica de hoje, também significativa para a história da cidade de São Paulo, foi publicada na revista Radiolândia, edição de 25.01.1958, página 61. A imagem dos noivos e dos padrinhos veio na página 62. 
Crédito da imagem da Catedral em 1954: 
Pinterest

terça-feira, 11 de agosto de 2020

História Mundi no Facebook




O História Mundi também mantém uma página no Facebook, onde o leitor poderá apreciar dezenas de fotos e imagens, algumas das quais não aparecem neste blog. Em cada uma delas estão anotadas informações e curiosidades históricas para os nossos seguidores e leitores. É o caso da imagem acima, onde temos a cantora e apresentadora Hebe Camargo como capa da revista Radiolândia, edição de fevereiro de 1961. Ah, quem era o dono dessa revista? Entre lá e veja:
https://www.facebook.com/histormundi

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Imagens Históricas 48: Hebe Camargo e Vinicius de Moraes



No ano em que esta foto foi tirada, 1956, a cantora e apresentadora Hebe Camargo começava a se tornar mais apresentadora do que cantora, pois havia estreado na TV Paulista, Canal 5, pertencente a Organização Victor Costa, como titular do programa "O Mundo é das Mulheres". O mesmo chegou a ser diário e depois passou a ser transmitido pela TV Continental, Canal 9 do Rio de Janeiro, tornando Hebe um nome conhecido também do público carioca. Por público entendamos, naquele momento, as famílias de classe média que já tinham o privilégio de ter um aparelho de televisão em casa. Começava a surgir a Hebe que conheceríamos depois, das suas entrevistas com figuras conhecidas do meio artístico e cultural. Faltava ainda tingir o cabelo de loiro, algo que ocorreria pela primeira vez no ano seguinte. Além de Hebe e de Vinicius de Moraes, outras figuras femininas conhecidas aparecem na imagem e vamos identificá-las. Da esquerda para a direita temos a cantora Vilma Bentivegna (1929-2015), a atriz e apresentadora Lourdes Rocha, Hebe, Vinicius de Moraes, a atriz Eloísa Mafalda (1924-2018) e a cantora Elza Aguiar. Ou seja, um timaço de profissionais femininas que já brilhavam nos primórdios de nossa televisão. 
Vinicius de Moraes (1913-1980) dispensa maiores apresentações, tendo sido poeta, jornalista, cantor, compositor e diplomata. Era exatamente esta última a ocupação principal do "poetinha" quando foi entrevistado por Hebe. Mas, já exercia paralelamente os talentos que o consagraram, razão pela qual esteve no programa. Sua carreira diplomática foi interrompida pelo Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968, em plena ditadura militar, tendo sido aposentado de forma compulsória, fato que o teria magoado muito. Só veio a recuperar os seus direitos profissionais no Ministério das Relações Exteriores após a morte. 
A TV Paulista Canal 5, de São Paulo foi um celeiro de talentos de nossa televisão. Além da própria Hebe, lembremos que de lá saíram Silvio Santos, Manoel de Nóbrega, Ronald Golias, Cacilda Becker (no que diz respeito à sua atuação na televisão) entre outros. Em 1966 a emissora, em crise financeira, foi adquirida (ou anexada, como muitos dizem) por Roberto Marinho, num negócio que até hoje não foi bem esclarecido. Grande parte de seu acervo foi perdido ou jogado fora. 
A Imagem Histórica de hoje foi publicada na tradicional revista Radiolândia, edição de 22.12.1956, página 64, a qual já se tornava também uma "TVlândia" em função da crescente influência da mídia televisiva. Uma última curiosidade, o dono desta publicação era nada mais, nada menos do que o senhor Roberto Marinho...

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Anúncio Antigo 71: elixir Nutrion



Caro leitor (a), houve uma época em que existiam elixires voltados para as mais diversas finalidades. Mas, antes de mais nada, o que é um elixir? A palavra tem origem árabe, Al-Ikseer e o produto ao qual ela designa constitui um preparado com um ingrediente ativo (como a morfina, por exemplo) e que é dissolvido em uma solução, que contém álcool etílico em porcentagem variada. O elixir sempre deve ser ingerido por via oral. A composição dos mesmos é variável, de acordo com a finalidade para a qual são produzidos, sendo geralmente açucarados ou glicerinados, contendo substâncias aromáticas. Tais produtos ficaram muito conhecidos a partir da Idade Média, possivelmente pela presença árabe na Europa Ocidental (Península Ibérica). Em geral, eram voltados para melhorar a visão, para o funcionamento da circulação do sangue e curar vários tipos de enfermidades. 
No Brasil, na primeira metade do século XX, a grande preocupação era com as pessoas fracas e magras, que aparentavam indisposição e desânimo. Na verdade, a má alimentação e a fome, comum no Brasil, eram as causadoras de boa parte desses males, como apontava o conhecido pesquisador do tema Josué de Castro (1908-1973), que por seu trabalho chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Para ajudar a superar essas deficiências era recomendado o consumo de alimentos que contivessem vitaminas B, C, D e E ou ainda elementos como o ferro e o cálcio. Além disso, médicos, farmácias e laboratórios lançavam elixires voltados para combater esses problemas. 
No anúncio acima vemos um deles, o elixir Nutrion, sobre o qual não encontramos nenhuma informação específica e nem a composição do mesmo. A figura do anúncio até lembra um personagem mitológico, talvez um Hércules, numa associação com a força física. De maneira geral, os jovens eram estimulados a se alimentarem bem, sendo que muitos desses elixires ou preparados eram recomendados para "abrir o apetite", como se dizia. Isso não vai tão longe assim. Até a década de 1970 constituía uma grande preocupação dos pais. Porém, com a enorme proliferação de alimentos industrializados e os famosos fast foods, a questão se inverteu. Hoje o cuidado dos médicos e nutricionistas não é em abrir o apetite, mas sim em controlá-lo e melhorar a qualidade da alimentação. 
O Anúncio Antigo acima foi publicado na Revista do Brasil, na edição de setembro de 1923, página 6. Um detalhe curioso é o de que essa revista tinha como editores duas figuras importantes das nossas letras: Paulo Prado e Monteiro Lobato...

domingo, 26 de julho de 2020

Anúncio Antigo 70: creme dental Lever



Os anos posteriores à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) foram marcados pela expansão do parque industrial no Brasil. A própria guerra impulsionou o processo, na medida em que muitos produtos antes importados tiveram que ser produzidos aqui. Claro, o que era então possível de ser fabricado aqui. Após o fim do conflito, a industrialização avançou ainda mais e as cidades cresceram, notadamente São Paulo, que veio a ultrapassar a antiga Capital Federal, o Rio de Janeiro, como a maior cidade do Brasil. Como não poderia deixar de ser, o êxodo rural forneceu mão de obra barata, necessária para a indústria e para o comércio, que estavam em plena expansão. Em um período relativamente curto, situado entre 1930 e o início da década de 1980, o Brasil construiu uma economia moderna, incorporando padrões de produção e de consumo típicos dos países desenvolvidos, apesar da enorme desigualdade social e concentração de renda, o que significava que tais padrões de consumo não eram para todos. Contudo, o nosso parque industrial fabricava praticamente de tudo. 
O economista João Manuel Cardoso de Mello e o historiador Fernando A. Novais escreveram sobre as transformações decorrentes dessa urbanização acelerada no Capítulo 9 do livro História da Vida Privada no Brasil: Contrastes da intimidade contemporânea, volume 4 (Companhia das Letras, 1998). Nesse Capítulo, intitulado "Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna", os autores demonstram que a atração exercida pelas cidades era muito grande, sobretudo sobre a massa populacional empobrecida do campo. Por pior que fosse morar nas cidades (periferias, cortiços e favelas), a possibilidade de emprego com carteira profissional (que praticamente não existia no setor agrário) representava uma melhora em relação à vida rural, inclusive com maior acessibilidade à educação e à saúde. 
Por outro lado, a vida urbana também transformou hábitos e costumes, inclusive no que se referia a higiene e limpeza, com a utilização de produtos praticamente desconhecidos. Entre os mesmos destacamos o detergente, o sabão em pó, o desinfetante e o famoso bombril, o qual substituiu a velha palha de aço. Na higiene pessoal ocorreram também avanços significativos, inclusive nas camadas populares e de renda mais baixa. Entre esses avanços tivemos o uso das escovas de dentes e do dentifrício (a pasta dental). Tais produtos substituíram o sabão comum, o bicarbonato de sódio e até as cinzas de material queimado, que eram utilizados anteriormente na limpeza da boca e da dentição, sendo esfregados sobre os dentes com os dedos e depois lavados. O mau hálito era combatido por meio do bochecho, na mistura da água com algum produto aromatizante. Posteriormente, outros artigos acabaram sendo incorporados ao consumo, como o shampoo, o desodorante, o sabonete perfumado e o modess, que substituiu o pano caseiro tradicional (ver Anúncio Antigo 39: Modess). Todo um mercado se abriu a esses produtos, muitos dos quais já existiam nos países desenvolvidos e acabaram sendo assimilados aqui, via campanhas publicitárias em revistas, jornais, rádios e depois a televisão. 
No Anúncio Antigo acima, temos a pasta dental da marca Lever, fabricada por uma multinacional, a Unilever. A empresa nasceu no século XIX na Inglaterra como Lever Brothers, fabricando sabões. Em 1929 expandiu o negócio para outros países e logo chegou ao Brasil. Pouco depois entrou também no ramo de alimentos ao adquirir uma empresa de origem holandesa e em 1960 comprou a Companhia Gessy Industrial, passando a adotar o nome de Gessy Lever. 


Atualmente, a Unilever é uma corporação que controla marcas como Arisco, Maizena, Knorr, Cica, Kibon, Hellman's, Omo, Dove, Rexona, Close Up entre inúmeras outras (acima, ao centro, o logo da Unilever e algumas das marcas pertencentes ao grupo). Em 2015, a Unilever foi a empresa mais punida pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) em função das reclamações dos concorrentes, entre os quais estavam a Johnson & Johnson, L'Oréal e Reckitt Benckiser. Muitas das reclamações versavam sobre informações que estariam incorretas em seus produtos. O seu gigantismo é tal, que cabe pensarmos até que ponto isso é saudável para a economia de um país e a para a vida das pessoas, isto é, a sociedade depender tanto de um conglomerado gigante para a aquisição de produtos alimentícios e de higiene pessoal, que se tornaram itens importantes no consumo das famílias. Enfim, a concentração do capital é uma tendência inexorável da economia capitalista.
O Anúncio Antigo de hoje foi publicado na revista "O Cruzeiro" de 7 de agosto de 1954, página 18 F.  
Crédito da imagem: 
logo da Unilever e demais marcas:
http:///www.pdeproteçao.com.br/2016/02/levantamento-da-conta-que-unilever-e-o.html