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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Tradutor (translate) do blog História Mundi



Caro leitor, a partir de agora o blog História Mundi disponibiliza uma nova ferramenta: o seu tradutor. Na coluna da direita (primeira opção de cima para baixo) o mesmo poderá ser encontrado com o título em inglês translate e permitirá a leitura do texto em praticamente todas as línguas do mundo, bastando escolher entre as várias opções. Com isso, nosso blog espera poder alcançar um público ainda maior no exterior e ajudar aqueles que já nos acompanham. É isso aí...
Crédito das imagens:
Cão Nipper da RCA: acervo do autor. 

sábado, 28 de abril de 2018

Simpósio Internacional na USP: Cinquenta Anos de 1968



Caro leitor, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP vai promover, nos próximos dias 6, 7 e 8 de junho o Simpósio Internacional: Cinquenta Anos de 1968 - A Era de todas as Viradas. Mais de 70 mesas estão programadas para o encontro. Como se sabe, o ano de 1968 ficou marcado pelas manifestações estudantis no mundo ocidental, tendo como epicentro a cidade de Paris (foto acima). Claro, guardadas as peculiaridades e diferenças de situação em cada país, as agitações marcaram um momento em que parecia ser possível a luta por um mundo mais justo, que rompesse com as tradições e normas autoritárias da sociedade, sobretudo no que se referiam aos comportamentos da juventude, como na sexualidade. 



Aqui no Brasil, o movimento ocorreu em pleno acirramento da ditadura militar e civil, às vésperas da imposição do Ato Institucional nº5, como no famoso conflito entre estudantes do Mackenzie e os da USP na rua Maria Antonia em São Paulo, que resultou na morte do secundarista José Guimarães (nas imagens acima, José Dirceu segura a camisa do estudante morto e a manifestação em protesto pela morte de Guimarães que parou o centro de São Paulo). O encontro contará com estudantes, professores, artistas, estudiosos do tema e intelectuais, inclusive com muitos daqueles que participaram das manifestações na época, aqui no Brasil. Entre os convidados estão os ex-líderes estudantis Vladimir Palmeira, José Dirceu (pelo menos está na lista de palestrantes), Paulo Arantes e José Genoíno. No encerramento do simpósio, será apresentado o espetáculo teatral "Sons e Fúrias de 1968" organizado pelo grupo teatral Ô de Casa, no vão do Prédio da Geografia e História na própria USP. Este que vos escreve recomenda... 



Para ver: 
A programação completa pode ser acessada no link abaixo:
http://1968.fflch.usp.br/programacao
E as inscrições (gratuitas) neste outro link: 
http://1968.fflch.usp.br/contact/inscricoes
Crédito das imagens:
Manifestação estudantil em Paris: Coleção Nosso Século 1960-1980. Abril Cultural, 1982, página 166.
Fotos do conflito entre Mackenzie e USP na Maria Antônia: Agência Estado.

terça-feira, 24 de abril de 2018

O Egito Antigo no Museu Nacional do Rio de Janeiro



Uma pergunta simples. Será que aqui no Brasil podemos ver de perto uma múmia do Egito Antigo? A resposta: sim! Basta fazer uma visita ao Museu Nacional, no antigo Palácio de São Cristovão, localizado na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se do mais importante acervo de antiguidades egípcias da América Latina, cuja existência podemos atribuir ao nosso primeiro governante, o imperador Dom Pedro I (na foto acima, o sarcófago da "Cantora de Amon"). Ao que consta, a coleção foi parar nas mãos do monarca em função de não poder alcançar o destino original, a Argentina. A região do rio da Prata passava por um momento de instabilidade política, além dos problemas que envolviam a disputa pela Província Cisplatina (atual Uruguai) entre o Império Brasileiro e o governo argentino, os quais levaram à guerra em 1825. De acordo com o professor do Museu Nacional e especialista em egiptologia, Antonio Brancaglion Junior, o navio de bandeira francesa Gustave Annce, que trazia a preciosa carga, impedido de atracar em Buenos Aires em função do bloqueio naval imposto pelo Brasil, lançou ferros no porto do Rio de Janeiro em 1826. Entre os passageiros estava um tal Nicolau Fiengo, comerciante de antiguidades, possivelmente italiano, proveniente de Marselha (porto do sul da França). Ao verificar as dificuldades que teria em chegar na Argentina, Fiengo resolveu colocar a carga que transportava em leilão na então capital do Brasil, isso depois de aguardar dois meses na alfândega para conseguir a liberação de todo o carregamento. Aliás, uma carga incomum, pois continha cinco múmias egípcias (três adultos e duas crianças), que teriam sido retiradas da antiga cidade de Tebas em pleno vale do rio Nilo, por um explorador italiano chamado Giovanni Battista Belzoni. 



Segundo alguns estudiosos, Dom Pedro I ficou interessado em arrematar o lote e teria sido aconselhado a faze-lo por José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos seus ministros de confiança (na imagem acima, quadro de autor desconhecido representando o imperador). Trata-se de algo pouco provável, uma vez que Bonifácio foi para um exílio de cinco anos, logo após a dissolução da Assembléia Constituinte em 1823 e estava rompido com o imperador. Possivelmente a decisão de ficar com a coleção egípcia partiu do próprio Dom Pedro. 


Naquela época a atração pelo Egito Antigo cresceu no mundo ocidental, sobretudo depois da campanha militar realizada por Napoleão Bonaparte naquela região em 1799 e pelos trabalhos de Jean-François Champollion que deram início à decifração da escrita hieroglífica (acima, pintura de 1868 mostrando Napoleão diante da esfinge de Gizé). Durante o século XIX era comum o comércio de múmias, sarcófagos e amuletos roubados no Egito e levados para países como Inglaterra, França e Itália. Não é por outra razão que o Museu do Louvre é um dos maiores depositários de antiguidades egípcias do mundo. 
De qualquer forma, em 1827 o imperador Dom Pedro I mandou comprar a coleção. Um documento guardado há muito tempo nos arquivos do Museu Nacional confirma a aquisição. O mesmo está escrito em primeira pessoa e com a assinatura do monarca. Eis a sua integra: 

Atendendo ao que me representou Nicolau Fiengo, que propôs a venda das antiguidades egípcias, já depositadas no Museu Nacional desta Corte: Hei por bem que pelo Tesouro Público se pague ao dito Nicolau Fiengo a quantia de cinco contos de réis em que ele avaliou as referidas antiguidades; verificando-se o pagamento desta compra a prazos de seis, doze e dezoito meses. O Marques de Queluz do meu Conselho de Estado, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Encarregado interinamente dos da Fazenda, o que tenha assim entendido e faça executar com os despachos necessários. Palácio do Rio de Janeiro em três de Abril de mil oitocentos e vinte sete, sexto da Independência e do Império. (Rubrica do Imperador)/(as.)/Visconde de São Leopoldo/Cumpra-se, e registre-se, Rio de Janeiro, em 10 de abril de 1827/(as.) Queluz. 

O documento deixa claro, pelo menos oficialmente, que os recursos provenientes para a aquisição vieram do Tesouro Público e não das reservas privadas do imperador, embora muitos afirmem que naquela época era difícil distinguir um do outro. O valor de cinco contos seria equivalente a quanto hoje? Bem, este que vos escreve tentou fazer um cálculo. No ano de 1860 um conto de réis comprava um quilo de ouro, portanto fazendo uma aproximação (apesar da diferença de mais de trinta anos em relação à data da compra) pode-se dizer que a aquisição custou o equivalente a cinco quilos do referido metal. Atualmente, cinco quilos de ouro valem mais de 700 mil reais. Nessa mesma época, um conto de réis equivalia ao que hoje é 123 mil reais segundo os sites especializados em conversão de valores monetários. Cinco contos de réis valeriam 615 mil reais. Portanto, não há muita dificuldade em estabelecer o valor do acervo egípcio em algo em torno dos 700 mil reais atuais. Na época era uma soma suficiente para a compra de um bom lote de escravos (aproximadamente oito indivíduos jovens e saudáveis). Um valor que justificou a permanência de Nicolau Fiengo no país até as prestações terem sido quitadas de forma integral. 



Mais tarde, a coleção foi ampliada pelo herdeiro do trono Dom Pedro II, que se tornou um autêntico egiptófilo (apaixonado pelo Egito Antigo). O gosto pelo assunto levou Pedro II a viajar para a terra dos faraós em duas oportunidades (na foto acima de 1872, D. Pedro II é o terceiro da direita para esquerda e sentado, diante da esfinge de Gizé). Numa delas, entre 1876 e 1877, o imperador recebeu do governante do Egito, o quediva Ismail, um presente bem original: um sarcófago lacrado! O mesmo continha uma múmia, atualmente identificada como sendo uma mulher de aproximadamente 50 anos, cujo nome era Sha-amum-em-su (que significa "os campos verdejantes de Amon"). 
Os desenhos e inscrições contidos no sarcófago revelaram algumas informações sobre essa mulher, como por exemplo, a atividade que exercia. No museu ela é conhecida como a "Cantora de Amon", pois em vida entoava cânticos sagrados no templo dedicado ao deus Amon em Karnak (antiga Tebas), tendo vivido por volta do ano 750 a.C.. Uma curiosidade envolvendo a sua mumificação (como se sabe, os egípcios preservavam o corpo do morto para que este pudesse desfrutar de uma vida além-túmulo) é a de que os responsáveis pelo procedimento procuraram preservar a sua garganta com uma bandagem de resina, a fim de que a cantora viesse a utilizar os seus dotes vocais na outra vida. No Instituto de Estudos Orientais da Universidade de Chicago nos Estados Unidos, encontra-se outra múmia de cantora-sacerdotisa de Amon, que também tem uma proteção na garganta. Segundo o professor Brancaglion Junior essa atividade poderia ter sido transmitida das mães para as filhas por várias gerações.



Tudo isso pode ser demonstrado a partir de uma tomografia computadorizada em 3 D (três dimensões) realizada em 2013 (acima, o corpo e uma sequência de imagens da "Cantora de Amon"). Tal procedimento permitiu uma analise detalhada da múmia sem que fosse necessário manusear a mesma, pois nesse caso haveria o risco de danificar essa importante relíquia do Museu Nacional. A tomografia também revelou a presença de vários amuletos no corpo da múmia, entre eles o escaravelho-coração, um símbolo associado à ressurreição dos mortos. O coração era visto pelos egípcios como o centro da inteligência e das emoções, daí a presença de um amuleto identificado a esse órgão do corpo. 


O sarcófago com a "Cantora de Amon" (na foto acima, detalhe do mesmo) permaneceu no gabinete de Dom Pedro II até a queda da monarquia em 1889, sendo posteriormente agregado ao acervo do Museu Nacional, que já mantinha as outras antiguidades egípcias adquiridas em 1827. 




A "Cantora de Amon" não foi a única peça da coleção egípcia do Museu Nacional a ser submetida à tomografia 3D em 2013. Múmias de gatos também foram examinadas (como o gato mumificado das fotos acima). O procedimento ajudou a desvendar um mistério na coleção adquirida por Dom Pedro I, a de uma múmia que estava catalogada como sendo de um recém-nascido, mas que na verdade era de um gato. A quantidade desses animais que foram embalsamados no Egito Antigo é bem superior à de seres humanos, uma vez que o gato era um animal sagrado e que representava a deusa da fertilidade Bastet. Ao mesmo tempo, o felino era útil na agricultura (atividade fundamental no Egito Antigo) espantando animais indesejados e roedores. Portanto, os mesmos também seriam necessários na outra vida, por isso a mumificação. Os gatos eram praticamente membros da família e matar um deles poderia significar um ato gravíssimo. 



O Museu Nacional dispõe de outras três múmias inteiras de adultos, duas de crianças e partes embalsamadas de corpos humanos, do lote original adquirido por D. Pedro I. Uma delas é a múmia Kherima, uma jovem que viveu já na fase em que o Egito passou para o controle do Império Romano, nos séculos I e II da era cristã (acima, em foto antiga com uma máscara mortuária que não pertenceu originalmente a essa múmia e o estado atual da mesma). Isso mostra como a cultura do Egito antigo manteve a sua permanência por mais de três milênios, mesmo quando a região começava a conhecer o cristianismo. Durante muito tempo imaginou-se que a múmia Kherima seria de uma princesa egípcia, mas hoje sabe-se que se trata de alguém do "nível intermediário" da sociedade. A mesma tem a peculiaridade de apresentar as pernas e os braços livres. Esses membros foram enfaixados separados do resto do corpo, sendo que apenas outras oito múmias no mundo receberam esse tratamento. 




O sarcófago do sacerdote Hori (também com a múmia) é outra preciosa relíquia do acervo e data de aproximadamente 1000 a.C. (acima, detalhes dessa peça). Proveniente de Tebas, as inscrições indicam que Hori herdou do pai os títulos de escriba, mordomo e responsável pelo harém real, tendo também se tornado sacerdote do deus Amon. 


Embora as múmias do Museu Nacional não pertençam a faraós ou príncipes, a confecção das mesmas seguia o padrão estabelecido para os nobres de modo geral (acima, uma cabeça mumificada pertencente ao Museu e sem a data definida). 



O cérebro era retirado pelas narinas, os demais órgãos vitais separados e guardados em recipientes conhecidos como canopos (como os que aparecem acima e que datam de aproximadamente 740 a.C.), a fim de serem também reutilizados na outra vida (estômago, pulmões, intestinos e fígado).


A coleção do Museu Nacional conta ainda ainda com tampas de caixão, máscaras mortuárias, vasos e estátuas (como a da jovem acima, com um cone de incenso sobre a cabeça e que data de 1450 a.C.), num total de aproximadamente 700 peças. 



Entre estas estão estatuetas funerárias conhecidas pelo nome de shabtis, das quais o museu dispõe de mais de 200 exemplares (como a que aparece na imagem acima, aproximadamente do ano 1000 a.C.). Tais objetos eram muito presentes nas tumbas e deviam cumprir tarefas de auxílio ao morto na vida além-túmulo (ver a postagem "A tumba do faraó Tutancâmon" neste blog). 



O acervo do Egito Antigo do Museu Nacional ainda contém inúmeras estelas funerárias (blocos de pedras com desenhos e inscrições). Em uma delas, conhecida pelo nome de Estela de Haunefer, que data de um período situado entre 1300 e 1200 a.C. (imagem acima, onde na parte superior temos a figura do deus Osíris sentado e da deusa Isis em pé), encontramos a primeira referência a um tipo específico de ofício existente no Egito dos faraós, o de "fabricante de colchas listradas".



Na estela de Senusret-Iunefer (imagem acima), proveniente de Abidos (próxima à cidade de Tebas) e datada do século XIX a.C. existe o registro mais antigo de uma palavra equivalente a "asiático" em uma fonte egípcia. 
O acervo do Egito antigo do Museu Nacional do Rio de Janeiro é uma referência importante para o estabelecimento de parcerias internacionais no estudo dessa importante civilização. Aqui, alunos e pesquisadores são formados nos cursos de mestrado e doutorado sobre Antiguidade Oriental tendo por base essa importante coleção, a qual ainda tem muito para nos revelar. E para os interessados em conhecer ou aprofundar a história dessa civilização, o mesmo se encontra ao alcance de um simples passeio à cidade do Rio de Janeiro. 

Para ver: 

O Museu Nacional (foto acima) dispõe de um importante acervo referente a pré-história, história, arqueologia, etnologia e antropologia, do Brasil e do mundo. Quando for ao Rio de Janeiro não deixe de visitá-lo. 
Onde: Quinta da Boa Vista, bairro de São Cristovão, Rio de janeiro.
Horário: De terça a domingo, das 10 às 16 horas. De segunda das 12 às 16 horas. 
Ingresso: R$ 6 (inteira). 

Crédito das imagens:
Peças do Egito Antigo do acervo do Museu Nacional: 
http://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/arqueologia/egito-antigo/index.html
Quadro mostrando Napoleão diante da esfinge de 1868:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-L%C3%A9on_G%C3%A9r%C3%B4me_003.jpg
Quadro de D. Pedro I da Pinacoteca do Estado de São Paulo:
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Portrait_of_Dom_Pedro,_Duke_of_Bragan%C3%A7a_-_Google_Art_Project.jpg
Tomografia da múmia "Cantora de Amon" e do gato mumificado:
http://redeglobo.globo.com/globouniversidade/noticia/2014/02/pesquisa-revela-enchimento-especial-na-garganta-de-mumia-cantora.html
Foto de D. Pedro II visitando o Egito, da múmia Kherima, da cabeça mumificada e transcrição do documento de compra da coleção egípcia por D. Pedro I: O Antigo Egito. Biblioteca da História Universal Life. Livraria José Olympio Editora, 1969, páginas 99, 170 e 171 (documento transcrito).

domingo, 22 de abril de 2018

Imagens Históricas 35: Reconstituição do rosto de D. Pedro I




Como já divulgamos em uma postagem feita em 2012 ("Os Ossos do Imperador: A Exumação de D. Pedro I"), os restos mortais da família imperial brasileira foram exumados, incluindo-se o próprio imperador Pedro I, bem como as imperatrizes Leopoldina e Dona Amélia. Agora, seis anos depois, eis que temos uma primeira tentativa de reconstituição da face do nosso primeiro governante, feita a partir do crânio que foi examinado naquela oportunidade. E o que se obteve foi o de um rosto comum, muito embora não fosse de uma pessoa comum, bem longe daquilo que costumamos encontrar nos livros de história de modo geral (acima, o rosto e o crânio que serviu de base para a reconstituição). Evidentemente os artistas que reproduziam em quadros e esculturas as personalidades políticas da época, procuravam destacar a altivez e a importância dessas figuras, bem como dos cargos que ocupavam. Por exemplo, um príncipe representado em pintura ou escultura equestre (montados em cavalos) não significa necessariamente que fossem exímios cavaleiros e nem mesmo atesta que soubessem andar a cavalo. 


Raramente temos desenhos ou pinturas um pouco mais despretensiosos desses personagens. Porém, em alguns materiais iconográficos (reproduções do rosto) referentes a D. Pedro I notamos alguma semelhança com a reconstituição facial feita agora, sobretudo em relação ao fato desta última apontar para um rosto mais volumoso e "cheio", algo que o aproxima de certa forma de seu pai, o rei D. João VI de Portugal. Nos desenhos de Jean Baptiste Debret por exemplo, que integrou a Missão Artística Francesa de 1817, sendo portanto contemporâneo dos dois personagens históricos, isso é perceptível (como mostra um trabalho de Debret reproduzido acima, com o rei D. João e o filho D. Pedro respectivamente da esquerda para a direita). 
De qualquer forma, essa reconstrução facial ainda é um trabalho preliminar e que necessita de um maior aprofundamento técnico para podermos tirar conclusões definitivas. O trabalho atual foi realizado por meio de um projeto do advogado José Luis Lira da Universidade Estadual Vale do Aracaú no Ceará, o qual adquiriu os direitos da foto do crânio exumado em 2012. O mesmo foi feito com autorização da Família Imperial e dos descendentes do imperador. 
Crédito das imagens:
Rosto reconstituído e crânio:
https://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2018/04/22/reconstituicao-mostra-verdadeiro-rosto-de-d-pedro-i-com-fratura-no-nariz.htm#fotoNav=5
Desenhos de Debret: 
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jean-Baptiste_Debret_-_Retratos_de_D._Jo%C3%A3o_VI_e_D._Pedro_I.jpg

terça-feira, 17 de abril de 2018

Como era e como está: o Circo Máximo de Roma



Caro leitor, o blog História Mundi inaugura uma nova seção: como era e como está. A mesma insere-se dentro da nossa proposta de estimular o interesse pela história trazendo assuntos e fatos curiosos, que ajudem a desenvolver o gosto por essa disciplina. Nesta seção iremos buscar exemplos da cultura material dos antigos povos, principalmente na arquitetura (mas não apenas) e mostrar como se encontram hoje, mesmo que tenhamos apenas vestígios daquilo que foram em épocas passadas. O primeiro exemplo que traremos aqui é o do Circo Máximo (em latim Circus Maximus), localizado na antiga cidade de Roma (na imagem acima, maquete com a reconstituição do mesmo). Originalmente era um espaço de entretenimento com uma pista para corridas em formato quase oval. A mesma media aproximadamente 621 metros de comprimento por 118 metros de largura. No seu auge podia receber uma platéia de até 150 mil espectadores, tornando-se modelo para vários outros circos construídos nas demais cidades do Império Romano. 
O complexo do Circo Máximo foi resultado da evolução de uma antiga arena, cujo uso remonta ao período em que Roma era uma cidade-estado governada por reis, entre 753 a.C. e 509 a.C. (fase da Monarquia), sendo um espaço reservado para jogos e espetáculos. Os mesmos eram promovidos por cidadãos ricos (patrícios e plebeus enriquecidos), líderes políticos e pelo Estado nos tempos posteriores, tendo por finalidade entreter a população, homenagear os deuses ou mesmo para festividades privadas. 
Com a expansão territorial de Roma na fase da República (509 a.C. a 27 a.C.) os jogos ganharam requintes de grandes espetáculos, ocupando 57 dias do ano, incluindo as famosas lutas de gladiadores. As guerras de expansão forneciam escravos, dos quais alguns eram selecionados para se apresentarem nos espetáculos. Tradicionalmente situa-se aí o objetivo do Estado romano de distrair a plebe pobre para evitar revoltas, com a política do panis et circensis ("pão e circo"). Muitos historiadores contestam hoje a efetividade dessa política, a qual pressupõe a existência de uma plebe excessivamente submissa e passiva, uma visão preconceituosa sustentada pela antiga aristocracia romana. 
De qualquer forma, no século I da nossa era (no período dos imperadores), o interesse pelos jogos fez surgirem arenas especializadas, como o famoso Coliseu voltado para os espetáculos de lutas, as caçadas de animais e também os estádios, forma de construção trazida da Grécia destinada aos jogos atléticos e desportivos, cujo exemplo mais importante em Roma foi o Estádio de Domiciano. Por isso, o Circo Máximo ficou voltado para as corridas de quadrigas (veículos puxados por quatro cavalos), embora fosse utilizado eventualmente para procissões religiosas e caçadas. Para comportar todos esses eventos nas várias arenas, os jogos passaram a ocupar 135 dias ao ano. 



O Circo Máximo estava situado em um pequeno vale entre os montes Palatino e Aventino (na maquete acima, as duas elevações respectivamente no lado esquerdo e no lado direito), numa antiga área agrícola cortada por um córrego. Os historiadores acreditam que as primeiras competições ocorriam em meio a uma paisagem rural e a única referência visível (além da pista) eram os marcos de virada ou metas, na verdade três pilares cônicos, os quais podem ter sido as primeiras estruturas permanentes do Circo. 


Na ilustração acima de 1649, vemos uma representação aproximada do Circo Máximo. A arena era constituída por uma pista de areia tendo na parte central a spina (literalmente "espinha") que separava as duas faixas, com as metas sinalizadoras da virada nas suas extremidades. Também na spina encontramos dois obeliscos, sendo o maior deles, bem ao centro, conhecido pelo nome de Obelisco Laterano (trazido do Egito no século IV e que remonta ao tempo do faraó Tutmés III). O monumento ainda se encontra em pé na cidade de Roma, próximo ao Palácio de Latrão, daí o nome Obelisco Laterano. 



Em uma das extremidades do Circo (imagem acima à esquerda) ficavam as baias de partida ou carceres, construídas no final do século IV a.C. e posteriormente ampliadas, com doze baias que comportavam um número equivalente de carruagens de competição. Desse local, os competidores saiam para a volta de apresentação e a corrida propriamente dita. 




Para que o leitor tenha uma ideia mais precisa de como eram realizadas as corridas, nas duas imagens acima temos a reprodução de um mosaico do século III da nossa era, proveniente da província da Gália (atual França) que reproduz uma competição de quadrigas. Um agitator ficava na pista para estimular os competidores (imagem inferior à direita) enquanto que um sparsor atirava água nas rodas fumegantes das quadrigas (imagem superior à esquerda). Os cavaleiros solitários que aparecem na cena eram reguladores da marcha. Na spina ainda podem ser observados os marcadores das voltas, num total de sete, onde a cada volta completada um funcionário virava um dos golfinhos (que vertia água) e tirava um ovo de uma trave (esses marcadores aparecem nas duas imagens acima). No centro da spina dois indivíduos seguravam a palma do vencedor e a coroa de louros da vitória (imagem inferior, lado esquerdo). 



Os competidores não apenas apresentavam-se conduzindo os veículos, mas também em jogos de equilíbrio, saltando de um cavalo para outro ou ainda recolhendo estandartes espalhados pela pista (no mosaico acima proveniente da Espanha, uma quadriga onde temos inclusive o nome do vencedor: Eridanus). Os mesmos chegavam a adquirir prestígio e riqueza, caso conseguissem se manter em atividade e obter vitórias, exatamente como mostrado no filme "Ben-Hur"(ver a postagem "Ben-Hur: Uma história da época de Jesus Cristo").



No alto relevo acima, temos uma reprodução de uma corrida no próprio Circo Máximo, onde podemos observar um competidor (ao centro), um menino (sparsor) que joga água nas rodas da quadriga e outro montado a cavalo ditando o ritmo da competição (ambos na direita da imagem). Um magistrado posicionado para dar o sinal de partida (na esquerda) e ao fundo a spina onde aparece um obelisco e os marcadores de voltas. 
Em várias oportunidades o Circo Máximo recebeu ampliações e reformas, como por exemplo no ano 50 a.C., quando Júlio César aumentou as arquibancadas, as quais eram separadas da pista por um fosso, que protegia o público e também drenava as águas da chuva. Evidentemente havia locais privilegiados para os espectadores acompanharem as provas (da mesma forma que nas corridas de Fórmula 1 dos tempos atuais), como a seção frontal situada na reta principal (pulvinar), que era reservada aos senadores e construída no tempo do imperador Augusto (27 a.C.- 14 d.C.). As fileiras de arquibancadas mais distantes (dois terços do total) eram ocupadas pelos plebeus (cidadãos livres). No lado externo do Circo existiam galerias onde funcionavam lojas, oficinas artesanais e até casas de prostituição.  Após o incêndio de Roma no ano 64 d. C., o imperador Nero promoveu reparos no Circo Máximo e no ano 81 d. C. foi erguido um arco em uma das extremidades do Circo (do lado oposto ao dos carceres) para a entrada dos desfiles e procissões. O conjunto adquiriu o seu formato mais conhecido durante o governo do imperador Trajano no início do século II. 
Com a ascensão do cristianismo como religião do Estado Romano os jogos foram perdendo importância e popularidade, sobretudo as lutas de gladiadores. Até o século VI consta terem sido realizadas caçadas a animais e corridas, já na fase em que a Itália foi ocupada pelos bárbaros ostrogodos, após o desaparecimento do Império Romano do Ocidente. No final desse mesmo século o Circo Máximo foi abandonado e toda a sua estrutura foi dilapidada, sobretudo para o aproveitamento das pedras como material de construção. No século XVI o local foi utilizado como mercado. 



Os níveis inferiores e a pista propriamente dita sofreram com as inundações constantes (lembremos que era uma área de baixada), o acúmulo de terra e detritos. Calcula-se que o piso original da pista esteja a mais de cinco metros de profundidade, fato que tem criado dificuldades para a realização de escavações arqueológicas (na foto acima, o local do Circo Máximo no início da década de 1970). 



Mesmo assim, restos da antigas estruturas estão sendo recuperados. Em 2016 uma parte das ruínas escavadas foi aberta ao público (como mostra a foto acima). 



Hoje a área é um parque localizado no centro da cidade de Roma (na foto acima, o antigo Circo Máximo em 1978), muito utilizado para shows e mesmo manifestações públicas, como ocorreu durante as comemorações da conquista da Copa do Mundo pela Itália em 2006. Um belo local de passeio e excelente ponto de partida para se conhecer as ruínas da Roma Imperial...
Crédito das imagens:
Todas as imagens referentes à maquete do Circo Máximo de autoria do arquiteto Italo Gismondi, que se encontra no Museu da Civilização Romana, foto do Circo no início da década de 1970 e alto relevo com cena de corrida: Roma dos Césares. Bonechi-Edizioni "Il Turismo", Firenze, Itália, 1974, páginas 81, 83, 84, 85 e contracapa. 
Mosaico da Gália com ilustração de uma corrida de quadrigas. Roma Imperial. Biblioteca de História Universal Life. Livraria José Olympio Editora, 1969, páginas 58 e 59. 
Ilustração do Circo Máximo de 1649 e foto do Circo de 1978: Wikipédia. 
Mosaico proveniente da Espanha com a quadriga vencedora: História da Arte. Tomo 2. Salvat Editora, 1978, página 318. 
Antigas estruturas recuperadas em 2016:
https://istoe.com.br/parte-do-antigo-circo-maximo-de-roma-e-restaurada-e-aberta-ao-publico/

quinta-feira, 12 de abril de 2018

História Mundi na revista Leituras da História




Na edição deste mês (abril) a revista Leituras da História traz duas cartas comentando as matérias assinadas por este que vos escreve e publicadas no mês de março: "Peripécias Brasileiras" e "Visão do Futuro?". Uma delas foi escrita por uma ex-aluna minha, Andréa Novaes e a outra pela leitora Alana Cruz, às quais agradeço a atenção e a leitura dos dois textos publicados. 


Além disso, a edição deste mês ainda traz uma matéria sobre Tiradentes (tema da capa, na imagem acima) e um ótimo texto assinado por Morgana Gomes sobre o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) em plena ditadura militar no Brasil. O mesmo traz informações importantes sobre um aspecto pouco lembrado (sobretudo agora) desse período: a corrupção. Na verdade, a ditadura militar foi o "berçário" de muitos casos de propina e desvio de verbas de obras públicas, que acabaram se tornando "práticas corriqueiras" até hoje. Várias construtoras atualmente envolvidas nesses casos já atuavam nesse período e foram alavancadas por grandes obras, como a construção da ponte Rio-Niterói, estradas, hidrelétrica de Itaipu e estádios de futebol, entre outras obras do governo militar. Além disso, figuras públicas "carimbadas" nesses escândalos começaram a ganhar espaço também nessa época. É o caso de Paulo Maluf, José Sarney e Antônio Carlos Magalhães. Por isso, recomendo muito essa leitura...