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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Imagens Históricas 45: avenida Alcântara Machado (Radial Leste)




Nesta postagem da seção Imagens Históricas temos uma cena captada pelo renomado fotógrafo Domício Pinheiro, para o jornal O Estado de S. Paulo, no início de 1957, mostrando a esquina da rua Piratininga com a nova avenida Radial Leste, no bairro do Brás, na cidade de São Paulo (acima a foto e a página do jornal de 1957 onde a mesma aparece, na parte inferior no canto esquerdo). A cena têm um simbolismo enorme em relação ao processo de expansão da maior cidade brasileira. O antigo imóvel a bloquear o avanço do progresso e que estava sendo demolido, como um corte entre o passado e o futuro. O asfalto liso em contraste com o tradicional piso de paralelepípedos da rua Piratininga. Algo que pode ser observado atualmente nos bairros mais antigos da Zona Leste. É comum este que vos escreve (e esposa, pois residimos nessa região) passar por um local e observar a beleza arquitetônica de um casarão antigo. Dois ou três dias depois, ao passar pelo mesmo lugar, vemos o imóvel no chão e o terreno limpo. Muitas vezes isso ocorre no quarteirão inteiro, como aconteceu recentemente com uma antiga vila operária no bairro do Tatuapé. 
A Zona Leste de São Paulo sofreu uma intensa ocupação nas décadas posteriores ao fim da escravidão. Centenas de milhares de imigrantes europeus foram atraídos, inicialmente para as fazendas de café e em seguida para a nascente indústria instalada também nessa região da cidade. Em função disso, no início do século XX, muitos distritos da Zona Leste passaram a ser caracterizados como bairros operários, entre os quais o Brás, a Moóca e o Belenzinho. Posteriormente, outros bairros da região também cresceram atraindo mais trabalhadores, como o Tatuapé e a Penha. 


A unica ligação viária entre o centro da cidade e a Zona Leste (existiam também os trens) eram as avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia, sendo esta última na verdade, uma continuação da primeira formando um único eixo viário. No início da década de 1950, essas vias já mostravam saturamento, repletas de automóveis, caminhões, ônibus e bondes, os quais disputavam espaço no trânsito (na foto acima, o asfalto da avenida Celso Garcia desgastado e sendo recapeado em 1960). Aquilo que chamamos atualmente de mobilidade urbana já era um problema sério há 70 anos atrás. Os 3 milhões de habitantes que viviam na capital paulista conviviam com os deslocamentos entre a área central, onde estavam os empregos e os bairros mais distantes. A especulação imobiliária fazia com que o preço dos imóveis subisse cada vez mais, lançando a classe trabalhadora para as áreas periféricas. Ao mesmo tempo, nas décadas de 1940 e 1950, a cidade recebia uma nova leva de migrantes, os nordestinos, atraídos pela oferta de empregos, sobretudo na construção civil e na indústria. Em função disso, a nova avenida foi proposta como solução para facilitar o acesso da Zona Leste ao centro de São Paulo e vice-versa. 
A abertura da Radial Leste, cujo nome oficial é avenida Alcântara Machado, era o prosseguimento do ambicioso programa elaborado pelos engenheiros Francisco Prestes Maia e João Florence de Ulhôa Cintra, ainda no início da década de 1930, conhecido como o Plano de Avenidas. O mesmo baseava-se na ideia de um centro "irradiador" formado por várias circunferências (avenidas menores e ruas). O termo "radial" é uma referência à nova avenida pensada como um raio ou reta partindo daquele centro e atravessando tais circunferências. O Novo Dicionário Aurélio confirma essa definição. O Plano de Avenidas praticamente abandonava a possibilidade da construção de um metrô e dava preferência ao transporte sobre pneus, condenando também o bonde elétrico (para mais detalhes, ver a nossa postagem "Os bondes na cidade de São Paulo"). Lembremos que a década de 1950 foi também a época de implantação da indústria automobilística no Brasil.



Quando se tornou prefeito, entre os anos de 1938 e 1945, Francisco Prestes Maia começou a implementar a estrutura das novas avenidas, com a abertura da Rebouças e da 9 de Julho. Em seu último ano de mandato, Prestes Maia determinou o início da construção da Radial Leste (na foto acima de 1954, tomada em direção ao bairro da Moóca, as obras da nova avenida. As chaminés que aparecem ao fundo existem até hoje). 



Contudo, a inauguração do primeiro trecho veio somente 12 anos depois, em agosto de 1957, quando também foi entregue ao tráfego o viaduto sobre a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí (na foto acima, tomada em direção ao centro, as obras da Radial Leste). A ideia inicial era que a avenida alcançasse a Vila Matilde, percorrendo um trecho de 10 quilômetros, acompanhando a linha da Estrada de Ferro Central do Brasil. Muitos terrenos do entorno faziam parte do patrimônio da ferrovia, facilitando desta forma o processo das desapropriações. 


Contudo, o trecho inicial da avenida era curto (acima, em foto aérea de 1958, a Radial Leste com destaque para o cruzamento com a rua Piratininga, no centro da imagem). 
O prolongamento da Radial Leste só foi inaugurado 10 anos depois, na administração do prefeito Faria Lima com a entrega do segundo trecho, ligando a praça Presidente Kennedy (ao final do viaduto sobre a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí) com a rua Bresser na Moóca. Desse trecho fez parte o viaduto Alcântara Machado, de mais de um quilometro de extensão, também inaugurado em 1967. Vários outros viadutos foram sendo construídos, eliminando o cruzamento sobre as linhas férreas da Central do Brasil, nas ruas transversais à Radial Leste. No início da década de 1970 foram entregues os viadutos Bresser, Guadalajara e Conselheiro Carrão.


No bairro do Belenzinho, o viaduto Guadalajara (na foto acima, na fase final das obras em 1970) foi inaugurado na administração do prefeito Paulo Maluf (nomeado para o cargo pela ditadura militar). Segundo o próprio Maluf, o nome do viaduto foi sugestão sua para homenagear a cidade mexicana, que hospedou a Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1970 (na qual o Brasil sagrou-se tricampeão). O mesmo Paulo Maluf ficou conhecido também por presentear cada jogador com um automóvel zero quilometro, à custa dos cofres da Prefeitura.





A avenida estimulou a ocupação da Zona Leste para além do bairro da Penha, à medida em que outros trechos foram sendo entregues (acima, foto da Radial Leste em direção ao centro em 1969 e o mesmo trecho em 2011, já com o metrô à direita). A região tinha espaço disponível para se expandir, ao contrário das demais, como a Zona Norte, limitada pela Serra da Cantareira, a Zona Sul pelas represas (Guarapiranga e Billings) e a Zona Oeste tinha a sua área territorial estreita demais para um processo de ocupação em grande escala. Por isso, a expansão para a Zona Leste foi estimulada pelo poder público. No início da década de 1970, a Radial Leste alcançava os bairros de Vila Carrão, Vila Matilde, Artur Alvim e Itaquera. Contudo, nesses distritos a avenida não tinha a mesma qualidade viária dos trechos iniciais, algo que apenas nas décadas seguintes foi sendo corrigido, sobretudo com a construção do estádio do Corinthians em Itaquera para a Copa do Mundo de Futebol de 2014.




Na década de 1970, a Radial Leste ficou famosa como a avenida mais perigosa de São Paulo em função dos acidentes de trânsito e dos atropelamentos. Vários trechos eram tidos como perigosos, como a famosa Curva da Morte, no acesso ao viaduto Pires do Rio (no sentido centro), sobre o córrego do Tatuapé (atual avenida Salim Farah Maluf). Em 1972, um ônibus lotado que vinha da Cidade A. E. Carvalho com destino ao Parque D. Pedro II, ao tentar desviar de um veículo parado com pneu furado, perdeu o controle e caiu do viaduto. O desastre tirou a vida de 8 passageiros deixando vários feridos (acima, uma vista aérea da Curva da Morte feita em 1967, durante as obras de prolongamento da avenida e o acidente). De acordo com a Revista Veja, foi o maior desastre envolvendo um ônibus na história da cidade de São Paulo, até aquele momento. Nessa época, a quantidade de acidentes na Radial Leste era tão grande, que a Prefeitura chegou a manter uma ambulância permanente na avenida para atendimento de urgência. A falta de sinalização e a imprudência dos motoristas (excesso de velocidade) eram apontadas como sendo as maiores causas das colisões e atropelamentos (ainda não existiam radares nas vias públicas). A crescente lentidão do trânsito de São Paulo nos últimos anos contribuiu para tirar a Radial Leste da lista de campeã em acidentes, mas estes ainda persistem, sendo os motoboys os seus maiores protagonistas. Eles mesmos dizem que não existe sequer um motoqueiro que já não tenha caído na Radial Leste. 




O estabelecimento do limite de velocidade de 50 km/hora na administração de Fernando Haddad em 2014 contribuiu para reduzir os acidentes mais graves. Como alternativa de circulação, a avenida conta com uma ciclovia de 12,2 km entregue na gestão anterior de Gilberto Kassab, que necessita ser expandida (acima, da esquerda para a direita, um trem suburbano no trilho da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, o Metrô, a ciclovia e a Radial Leste, na altura do bairro do Tatuapé, em foto recente). 
A construção da linha Leste-Oeste do Metrô (atual Linha 3-Vermelha) a partir de 1976 contribuiu para melhorar a Radial Leste em termos urbanísticos, pois o Metrô foi sendo expandido em um traçado paralelo com a avenida. Novos viadutos e passarelas para pedestres foram sendo construídos, reduzindo os atropelamentos. Em 2008, o prefeito Gilberto Kassab entregou um novo prolongamento da Radial Leste e um túnel sob a avenida Águia de Haia. O passo seguinte seria a extensão da avenida de Itaquera até Guaianases, obra que passou por percalços, como o envolvimento das construtoras na recente Operação Lava-Jato. Mas isso já é um outro assunto.
Oficialmente, a Radial Leste têm vários nomes dependendo do trecho. Por exemplo, do Parque D. Pedro II até o Belenzinho chama-se Alcântara Machado, para homenagear o jurista e político oriundo de tradicional família paulista. Para nós historiadores, vale lembrar que Alcântara Machado (1875-1941) foi autor de um livro clássico: Vida e Morte do Bandeirante. O trecho seguinte, na região do Tatuapé, recebeu o nome de Mello Freire que homenageia um jurista português do século XVIII. Em seguida vem o trecho com o nome de Conde de Frontin, conhecido engenheiro carioca. Uma confusão para os motoristas, pois uma multa de trânsito pode ser registrada com esses nomes e não Radial Leste, que na verdade é um complexo viário. 
Enfim, uma avenida que tentou acompanhar a expansão urbana de São Paulo e que acabou também por alimentá-la. Nos últimos 30 anos as antigas fábricas mudaram para outros lugares ou simplesmente fecharam, dando lugar ao comércio e ao setor de serviços. Hoje os antigos bairros operários abrigam uma classe média, cuja presença estimulou o surgimento de grandes lojas, shoppings centers e até de arranha-céus residenciais, como o que está sendo construído no Tatuapé (e que terá 52 andares). E os trabalhadores? Cada vez mais distantes do centro em uma Zona Leste que não para de se expandir, da mesma forma que a especulação imobiliária, que transforma as antigas moradias populares e os velhos galpões das fábricas em condomínios residenciais e comerciais. O "progresso" não para e a mobilidade urbana se agrava.
A Imagem Histórica de hoje, do fotógrafo Domício Pinheiro foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 9 de janeiro de 1957, na página 11.
Crédito das imagens:
Demolição de casa antiga e página do jornal O Estado de S. Paulo:
https://acervo.estadão.com.br
Foto das obras da Radial Leste em 1954: Pinterest
Foto aérea da Radial Leste em 1958:
https://www.geoportal.com.br/MemoriaPaulista/
Foto da avenida Celso Garcia em 1960 e do viaduto Guadalajara em 1970: Pinterest.
Foto da Radial Leste em 2011: Wikipédia.
Foto do viaduto Pires do Rio em 1967: historiador Márcio Reis. 
Foto do acidente no viaduto Pires do Rio: 1972: O Livro do Ano. Edições Veja/Editora Abril, 1972, página 150.
Foto das obras do primeiro trecho da Radial Leste:
http://historiaviladiva.blogspot.com/
Foto da Radial Leste na altura do Tatuapé em 1970:
https://saopaulosao.com.br
Foto recente da Radial Leste:
http://netleland.net/tag/radial-leste

terça-feira, 14 de abril de 2020

Dica de leitura: O que a China pensa?




A China é um assunto que está na ordem do dia. Seja por motivos econômicos, políticos e agora, pelo fato de ter sido o epicentro da pandemia do coronavírus, muito embora o governo chinês tenha informações a respeito de uma possível origem norte-americana do covid-19. Mas essa é uma outra questão. O que pretendemos aqui é recomendar ao nosso leitor, nestes tempos de quarentena, um livro que pode se tornar um excelente ponto de partida para entendermos o enigma chinês: "O que a China pensa?" Escrito por Mark Leonard, diretor-executivo do Conselho Europeu de Relações Internacionais e que passou uma temporada no país asiático, como visitante da Academia Chinesa de Ciências Sociais, além de ter escrito artigos e matérias sobre o tema em várias publicações, como no jornal The Guardian e na revista The Economist
Decifrar o milagre econômico chinês não é muito fácil e requer uma perspectiva histórica que o livro, dentro de seus limites, procura atender levando-se em consideração o foco proposto. Mas lembremos mais uma vez, essa obra é um ponto de partida e não de chegada. Conhecer a respeito das cabeças pensantes da China, como propõe o autor, também é fundamental para que possamos vislumbrar os passos da economia que mais cresce no planeta. 
Desde a Guerra do Ópio no século XIX, a China enfrentou o domínio das grandes potências imperialistas como Inglaterra, França e Alemanha. Em seguida veio o Japão, cujo domínio durou até o final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e depois os Estados Unidos, que chegaram a ajudar os chineses na luta contra o inimigo comum, o imperialismo nipônico. Em 1949 houve o desfecho da Revolução Comunista sob a liderança de Mao Tsé-Tung e o rompimento definitivo com os nacionalistas pró-ocidente, que se refugiaram na ilha de Formosa (hoje Taiwan). Contrariando mais uma vez as previsões do pensamento marxista, a revolução ocorreu na periferia do capitalismo, em um país agrário formado na sua grande maioria pelo campesinato pobre. Contudo, a mesma também funcionou como uma luta de libertação nacional. Ao lado da União Soviética e do leste europeu, a China incorporou-se ao bloco comunista na Guerra Fria frente aos países capitalistas no outro extremo. No início da década de 1960 ocorreu a crise sino-soviética, a cisão entre as duas grandes nações comunistas. Era tudo o que os Estados Unidos desejavam para poderem negociar diretamente com os chineses. 


Em 1971 foi acertada a visita à China do presidente norte-americano Richard Nixon (ocorrida no ano seguinte), numa aproximação conduzida pelo secretário de Estado, Henry Kissinger (na foto acima, um segundo encontro entre Mao Tsé-Tung e o já ex-presidente Nixon, em 1976, pouco antes da morte do líder chinês). Foi a diplomacia triangular dos Estados Unidos, negociar acordos de contenção do arsenal nuclear com a União Soviética e ao mesmo tempo, promover entendimentos com a China, isolada em função dos radicalismos da Revolução Cultural, ainda no governo de Mao Tsé-Tung. Um dos resultados dessa aproximação foi a entrada da China na Organização das Nações Unidas (ONU) como membro permanente do Conselho de Segurança (com direito a poder de veto). A política promovida pela dupla Nixon-Kissinger acabou por se tornar uma boa compensação pela derrota dos Estados Unidos no Vietnã. 


Com a ascensão de Deng Xiaoping (foto acima), pouco depois da morte de Mao Tsé-Tung (em 1976), foram tomadas as primeiras medidas de abertura para a economia de mercado com a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEEs) em 1979. O novo líder chinês lançou um mantra em prol do desenvolvimento econômico e do recurso ao mercado: "Não importa se o gato é branco ou preto. O que importa é que ele pegue o rato". 
Como dar continuidade a essa abertura? Exemplos vieram do exterior, como as reformas promovidas por Mikhail Gorbatchev na União Soviética, durante a segunda metade da década de 1980. Contudo, nem a glasnost (abertura política) e nem a perestroika (abertura econômica) conseguiram manter a coalizão das repúblicas soviéticas. Em 1991 veio a desintegração e a perda do poder pelo Partido Comunista (PC). A grande herdeira da União Soviética, a Rússia, viu-se em uma fase de desordem com a privatização do aparato econômico e a transição política sem a liderança do PC. Para o governo chinês, tratou-se de algo a ser observado com atenção. Promover uma abertura radical poderia levar a um completo descontrole político e econômico? O modelo neoliberal proposto pelos Estados Unidos, representava o melhor caminho para os chineses no momento inicial do processo de globalização? A democracia ocidental seria uma alternativa política para a China?
Mas, os primeiros resultados apareceram. Sob a batuta dos economistas da era Deng Xiaoping, a China obteve um crescimento de 9% ao ano em média, durante três décadas até 2007, o qual tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza absoluta, fazendo com que 200 milhões deixassem o campo para trabalhar na indústria. Mais 100 milhões se tornaram indivíduos de classe média e outros 500 mil viraram milionários. Um grupo de economistas liderados por Zhang Weiying defendia uma abertura econômica controlada, sem a "terapia de choque" adotada na Rússia e nos demais países que assimilaram a doutrina neoliberal ao pé da letra. Como afirmavam os economistas chineses, "tatear por pedras para cruzar o rio" e sem um objetivo final predeterminado. Daí a importância das ZEEs onde tais experiências foram iniciadas, com benefícios tributários, flexibilização das normas governamentais e licenças para o mercado, inclusive com a atração de capitais externos do ocidente. 


A ideia era estimular indústrias de alta tecnologia e de capital intensivo para a produção de artigos com alto valor agregado. Em outras palavras, produtos que pudessem competir com o ocidente (acima, o jato C919 que está sendo desenvolvido pela estatal chinesa COMAC, para competir com modelos equivalentes da Boeing e Airbus). 


A primeira das ZEEs foi na região de Shenzhen, no sul da China (no delta do rio das Pérolas e nas proximidades de Hong Kong), que atraiu US$30 bilhões de investimentos externos (na imagem acima, o atual centro financeiro de Shenzhen). Hoje, Shenzhen é a terceira cidade mais importante da China em termos econômicos, perdendo apenas para Xangai e Pequim. Lá estão as sedes de grandes empresas, entre elas a Huawei, do setor de telecomunicações (atualmente, a segunda maior marca chinesa com presença global, atrás somente da Lenovo). 
O inevitável efeito da abertura para a economia de mercado também ocorreu, com as desigualdades e diferenças sociais. Ao mesmo tempo, em 1989, vieram as reivindicações por maior abertura política e democracia, inspiradas na glasnost de Gorbatchev. A partir dai, duas tendências reformistas buscaram se impor dentro do cenário chinês. O grande mérito de "O que a China pensa?" é o de destrinchar esse embate. A chamada "Nova Direita", liderada por Zhang Weying, a quem já nos referimos, que desejava consolidar o livre mercado e a "Nova Esquerda" liderada por Wang Hui, que pleiteava igualdade e democracia como forma de tutelar o laissez faire (expressão francesa que significa deixar fazer, um lema da economia liberal). Posteriormente, esse debate evoluiu para uma questão também presente no mundo ocidental: mais Estado ou menos Estado?
Apesar de ser designada de "Nova Esquerda", os intelectuais dessa corrente apoiam as reformas econômicas das últimas décadas. Contudo, os mesmos revelam preocupações com os seus efeitos. De acordo com Wang Hui:

A China está presa entre os dois extremos do socialismo equivocado e do capitalismo crônico e sofrendo por causa dos piores elementos dos dois sistemas... Eu sou normalmente a favor de orientar o país para as reformas de mercado, mas o desenvolvimento da China deve ser mais igual, mais equilibrado. Não devemos dar prioridade total ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e nos esquecer dos direitos dos trabalhadores e do meio ambiente.

Para a "Nova Esquerda" o mercado externo, alvo preferencial do crescimento chinês, têm as suas limitações. Por isso, haverá a necessidade de ampliar o mercado interno e para que tal venha a ocorrer, o cidadão chinês precisará se sentir mais seguro, protegido das doenças, do desemprego e da velhice. Somente um governo central forte poderá proporcionar essa rede de seguridade social. As questões relativas ao meio ambiente também se fazem presentes nesse embate. Mark Leonard nos revela que o foco no PIB tem sido criticado por se basear na utilização de combustíveis e minerais fósseis, consequentemente em poluição. Os teóricos da "Nova Esquerda" passaram a reivindicar o estímulo à eficiência, a utilização de energia renovável e a geração de "empregos verdes".
Até onde o livro alcança, pois foi publicado em 2008, o livre mercado na China evoluiu, porém dentro de certos limites, para desespero de seu mentor, Zhang Weiying. O setor estatal ainda era dominante na indústria com 60% dos títulos de capital fixo e 80% dos executivos dessas empresas sendo nomeados pelo Partido Comunista Chinês. Embora tivesse o oitavo maior mercado de ações do planeta, menos de um terço das mesmas podiam ser negociadas. As empresas de maior prestígio continuavam sendo controladas pelo Estado.


Outro aspecto do crescimento chinês, o desequilíbrio entre as províncias atrasadas do interior e a região costeira do leste, algo que preocupou os líderes chineses do início do século XXI, como o presidente Hu Jintao (foto acima) e o primeiro-ministro Wen Jiabao.
No plano político, ampliar a democracia no estilo ocidental ou instituir um modelo alternativo? De acordo com Mark Leonard, o caso da União Soviética veio novamente à lembrança. O grande erro atribuído pelos chineses a Gorbatchev: o de ter antecipado as reformas políticas sem dar tempo suficiente para a liberalização da economia. Teóricos da "Nova Esquerda" fazem algumas ponderações a respeito do modelo democrático liberal do ocidente. Wang Shaouguang afirma que o mesmo enfrenta uma crise, com a redução no comparecimento às eleições, a descrença nos líderes políticos e nos partidos. Acrescentemos outro fator a esses argumentos: a corrupção. Vale lembrar que muitos dos intelectuais chineses viveram ou estudaram no exterior, principalmente nos Estados Unidos, por isso, conhecem a fundo as experiências econômicas e políticas dos países ocidentais.


Diante das dúvidas a respeito do futuro da República Popular da China, Mark Leonard nos relata experimentos de participação política que tem sido desenvolvidos em algumas regiões. Na cidade de Chongqing (imagem acima), próxima à confluência dos rios Yang-tzé e Jiang no interior da China, existia até 2008 um verdadeiro "laboratório" para uma espécie de democracia participativa, onde os cidadãos deliberavam sobre as decisões importantes a serem tomadas pelo governo municipal. Uma forma de equilibrar os interesses populares aos do grande capital, que sempre é ouvido. Porém, para os padrões ocidentais, o governo chinês está longe de promover uma plena liberdade. O PC não abre mão de seu poder mantendo o regime de partido único. A internet é rastreada e vigiada, bem como informes que façam críticas ao Partido Comunista ou abordem questões indesejadas, como Taiwan (considerada oficialmente, uma província rebelde), os monges do Tibet e o massacre de estudantes na praça da Paz Celestial em 1989. Seitas religiosas não são bem vindas, não pela religião em si, mas por promoverem reuniões. O passado chinês ensina que revoluções e movimentos políticos tiveram as suas organizações criadas a partir de sociedades secretas e seitas. Cabe uma discussão não tratada no livro, até que ponto no ocidente também não é assim? Todas as potências capitalistas dispõem de serviços de inteligência. A vigilância nas redes sociais também é presente. Mark Leonard designa esse protótipo de modelo político chinês de "ditadura deliberativa". Será esse o futuro da China?
Terá também a China pretensões militaristas e imperialistas, como as grandes potências econômicas do passado? Irá se armar para isso? Bem, que tal recorrer à milenar cultura chinesa para buscar uma possível resposta. Muitos acadêmicos desse país falam em desenvolvimento equilibrado, ou seja, o Ying do poder econômico deve estar em equilíbrio com o Yang militar, político e moral. Por outro lado, com Deng Xiaping os chineses aprenderam de forma cautelosa a "não por a cabeça para fora", como também a diversificar os seus parceiros comerciais, numa espécie de "ascensão pacífica". Porém, outros intelectuais como Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de Tsinghua em Pequim, argumentam que nenhuma nação forte ascendeu pela paz, rebatendo os internacionalistas liberais que pregam a conciliação. Xuetong coloca que quando se faz concessões, os outros sempre pedem mais levando ao inevitável caminho militarista. Será esse o procedimento com Taiwan?
Por outro lado, os estrategistas chineses pensam em outras possibilidades de confronto sem recorrer à ferramenta militar (considerada de alto custo e aplicada pelos Estados Unidos), através do uso de armas econômicas e políticas, as quais podem apresentar resultados tão bons quanto um conflito armado. "Os soldados não possuem o monopólio da guerra" dizem alguns especialistas do Exército chinês. 


Pelo sim e pelo não, mais recentemente, já além do período tratado no livro, a China busca ampliar o seu arsenal, fabricando os seus próprios porta-aviões e navios de guerra (na foto acima, o porta-aviões Type 001-A, o primeiro com tecnologia chinesa). 


Uma preocupação observada por Mark Leonard para as potências militares ocidentais, leia-se Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), capitaneada pelos Estados Unidos, a aproximação da China com os países orientais, inclusive alguns possuidores de arsenal nuclear (na foto acima, o atual presidente e líder chinês Xi Jinping). Em 1995 a China chamou a Rússia, Casaquistão, Quirguistão e Tajiquistão para um acordo de segurança conhecido como Xangai Cinco e que depois evoluiu para a Organização Cooperativa de Xangai (SCO em inglês) que defende além da segurança militar (inclusive contra o terrorismo) a cooperação comercial. Índia, Paquistão, Mongólia e Irã são países que participam como observadores do acordo. Aquilo que na década de 1970 significou uma vitória estratégica para os Estados Unidos se desfez, com a reaproximação consistente entre Rússia e China nos últimos anos. Enquanto o governo norte-americano trabalha com bloqueios econômicos contra supostos inimigos, a China promove comércio e alianças estratégicas com todos. Além disso, no início do presente século, Pequim sugeriu aos seus aliados mais próximos sufocar as chamadas "revoluções coloridas", as quais obedeciam os postulados liberais dos norte-americanos.
Na conclusão, Mark Leonard aponta os países que estavam tentando (até 2008) copiar de alguma forma o "modelo chinês" ou algumas de suas experiências no campo econômico e industrial, entre eles a Rússia, o Vietnã e o Brasil. Sim, o Brasil. Uma das boas contribuições do presente livro é o de propor uma discussão crucial: o "modelo chinês" é replicável? Se isso não bastasse, ainda lança outra questão, aliás expressa de forma clara na conclusão do trabalho, a de que o êxito chinês rompeu a conexão entre democracia e crescimento econômico. Podemos ir além, alguma vez houve tal conexão?
Este que vos escreve agradece ao primo Gustavo Ruiz, que esteve recentemente na China e sugeriu a leitura. Enfim, "O que a China pensa?" além de traçar os possíveis caminhos a serem percorridos pela China em ascensão, ainda reúne vários elementos para começarmos um excelente debate sobre o milagre econômico daquele país. Ora, não é esse o papel a ser desempenhado por uma boa leitura? Então caro leitor, mãos à obra...
            



Para ler:
O que a China pensa?
Autor: Mark Leonard
Editora: Larousse do Brasil (São Paulo)
Ano: 2008

Crédito das imagens:
Encontro de Mao com Nixon: Century. Phaidon Press, 1999, página 852. 
Foto de Deng Xiaoping: 1970s Gettyimages. Könemann, 2004, página 46.
Fotos do jato Comac C919, das cidades de Shenzhen e Chongqing, dos presidentes Hu Jintao e Xi Jinping: Wikipédia
Foto do porta-aviões chinês: 
https://aeromagazine.uol.com.br/

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Imagens Históricas 44: o cemitério de Vila Formosa em São Paulo



É uma imagem atual, mas já podendo ser considerada histórica. As covas rasas abertas no maior cemitério da América Latina, o de Vila Formosa na zona leste de São Paulo, tomaram quase metade da primeira página do conhecido jornal estadunidense The Washington Post, na edição do último dia 2 de abril. Infelizmente, essa fama repentina do cemitério deve-se à pandemia do coronavírus ou covid-19 como é chamado pelos cientistas. Mas a necrópole (palavra grega que significa "cidade dos mortos"), termo mais técnico e sofisticado para cemitério, já ostentava números que a tornaram famosa aqui e no exterior. Os seus 763000 m² a colocam como a segunda maior do mundo, abaixo apenas do cemitério islâmico de Wadi-us-Salaam (Vale da Paz na tradução literal) no Iraque, que existe há mais de 1400 anos. São mais de 100 mil túmulos e algo equivalente em ossários (também chamados de "gavetas", pois são organizadas de forma vertical). No total, mais de 1,5 milhão de sepultamentos já foram feitos na necrópole de Vila Formosa, desde a sua fundação em 1949. No ano de 1976, o cemitério sofreu uma ampliação, o que levou ao surgimento do Formosa II, quando adquiriu o tamanho que ostenta hoje. Atualmente (mas, antes da pandemia do coronavírus) são realizados em média 275 sepultamentos mensais ou algo em torno de 70 sepultamentos diários. 


A necrópole é conhecida também por abrigar os mortos de origem mais humilde, ou as classes C, D e E, de menor renda. Daí o predomínio das covas rasas (imagem acima), exatamente as que aparecem na capa do The Washington Post. Em outros cemitérios da cidade de São Paulo, como Araçá e Consolação, predominam os mausoléus e túmulos familiares, geralmente dos tradicionais clãs paulistanos. Portanto, existe um acentuado recorte social na maior metrópole brasileira até mesmo para a ultima morada de seus habitantes. 


O cemitério da Vila Formosa também guarda as suas histórias. Por exemplo, a de uma menina brutalmente assassinada aos 5 anos de idade, chamada Débora Campo de Oliveira. No início da década de 1980 ela foi morta e esquartejada pela própria vizinha, que sentia ciúmes do marido, por este tratar a criança como se fosse filha. Seu túmulo (foto acima) é ponto de peregrinação e a mesma é tida como "santa" pelos populares que visitam o local. Muitos afirmam terem alcançado graças devido à intervenção da menina. Curioso é que em outras necrópoles da capital paulista também encontramos essas figuras tornadas "santas", mesmo naquelas não tão "populares". É o caso de Felisbina Muller, que faleceu em 1938 vítima das agressões do marido, no cemitério da Quarta Parada e de Antonio da Rocha Marmo, falecido em 1930 aos 12 anos, vítima de tuberculose, no cemitério da Consolação. Há também casos estranhos e pitorescos na Vila Formosa, como o de um indivíduo que foi encontrado deitado dentro de uma cova e perguntado sobre o que fazia ali, respondeu que desejava ficar para sempre ao lado do irmão, já enterrado no local. Ou ainda de uma mulher que em 2010 cometeu suicídio diante de um jazigo de indigentes, ingerindo veneno de rato. 
Nos "anos de chumbo" da ditadura militar, entre 1969 e 1974, pelo menos 11 presos políticos assassinados pelos órgãos de segurança do governo vieram parar nessa necrópole, com identificação adulterada, segundo apurou a Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2014. Entre os que estiveram sepultados lá, embora temporariamente, estava o guerrilheiro Carlos Marighella, ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) grupo de oposição armada à ditadura, assassinado por policiais de São Paulo em 1969. 


A necrópole de Vila Formosa possui a quarta maior área verde do município de São Paulo (como mostra a imagem acima) e por isso já foi alvo da especulação imobiliária. Em 1986, na gestão do prefeito Jânio Quadros, chegou a ser anunciado um plano de loteamento do local para fins residenciais, que ficou conhecido como "Projeto Poltergeist", em referência ao filme de terror estadunidense, onde uma família é assombrada por espíritos que estavam enterrados no terreno da residência. A ideia não saiu do papel. Mais recentemente, em 2015, a administração do prefeito Fernando Haddad chegou a projetar a criação de um parque e uma área de proteção ambiental, uma vez que, como registramos acima, o cemitério dispõe de um enorme espaço verde. Algo que poderia ajudar até na conservação do próprio cemitério. Mas o plano não foi adiante nas gestões posteriores, as quais projetaram a privatização dos cemitérios de São Paulo. 
O atual prefeito, Bruno Covas, alegou em entrevista concedida no momento em que esta postagem estava sendo redigida, que essas covas rasas que aparecem no jornal estadunidense, são abertas todos os anos após o termino do período das chuvas, um procedimento normal, não tendo relação com a pandemia do coronavírus. Devemos lembrar que é praticamente certo que os casos da doença estão subnotificados, em função do atraso nos testes para detectar o covid-19, portanto não condizem com a realidade do momento. Há informações na mídia de que o cemitério da Vila Formosa já se encontra com um movimento de sepultamentos bem acima do normal. 


Talvez, passada a pandemia, os gestores municipais pensem em um aproveitamento adequado dessa área e que a mesma não seja apenas o "cemitério dos pobres". Este que vos escreve tem a sua avó materna, dona Sebastiana do Amaral, como uma das ocupantes dessa gigantesca necrópole, em uma gaveta (na foto acima, os ossuários ou gavetas do cemitério), que eu mesmo não sei mais localizar nesse gigantesco labirinto de ossos...
Crédito das imagens: 
Capa do The Washington Post: 
https://www.facebook.com/fernando.morais.1612
Demais imagens:
https://www.terra.com.br/notícias/brasil/cidades/

quinta-feira, 19 de março de 2020

Dica de Filme: O Tradutor



Nestes tempos de coronavírus e de quarentena forçada muitos devem estar a procura de algo para assistir e que, de preferência, permita algum tipo de reflexão sobre o conturbado momento que a humanidade atravessa, com pandemia, conflitos políticos, guerra comercial, crise econômica, entre outros. A produção cubano-canadense "O Tradutor" embora remeta ao período final da década de 1980, traz à tona questões que ainda são sensíveis ao mundo atual, tendo como pano de fundo as reformas promovidas pelo líder soviético Mikhail Gorbatchev na antiga União Soviética, principalmente a reestruturação econômica (perestroika). A trama de "O Tradutor" se passa exatamente no momento em que os efeitos daquela política alcançaram o regime socialista de Cuba na América Central, que era o mais importante aliado dos soviéticos no continente americano. 


Baseado em fatos verídicos, o professor de literatura russa Malin, vivido pelo ator brasileiro Rodrigo Santoro (imagem acima) é incumbido pelo governo cubano de trabalhar em um hospital de Havana, onde deveria utilizar o seu conhecimento na língua russa. Apenas ao chegar ao local ele descobre, de forma precisa, qual seria esse trabalho, o de lidar com crianças que haviam sofrido os efeitos da radiação no acidente da usina nuclear soviética de Chernobyl em 1986. Crianças que estavam desenvolvendo vários tipos de câncer, variando a gravidade, desde aquelas cujo estado de saúde era irreversível até as que ainda podiam aspirar a uma cura, contando com a colaboração da medicina cubana.



No entanto, à medida em que vai desenvolvendo o seu trabalho, Malin percebe que a tarefa acaba por absorve-lo emocionalmente e interferindo em sua relação com a esposa Isona, vivida pela atriz cubana Yoandra Suarez (na foto acima com Santoro), que reclama a presença do marido, sobretudo em função da mesma estar grávida de um segundo filho. 



Diante do drama vivido pelas crianças e pelos seus familiares dentro do ambiente hospitalar, o único apoio de Malin vem da enfermeira Gladys, vivida pela excelente atriz argentina Maricel Alvarez (acima, à direita). Junto a ela, o professor universitário expõe os seus dramas pessoais e suas inquietações em relação aos pacientes. Diante da dificuldade de algumas crianças em expressarem verbalmente os seus sentimentos, Malin sugere que algumas desenhem ou escrevam a fim de refletirem sobre o momento que estavam atravessando. 
Como já afirmamos, naquele ano de 1989 o regime cubano enfrentava os impactos do fim dos subsídios soviéticos, o que trouxe dificuldades ao povo da ilha comandada por Fidel Castro. Talvez o mais grave dizia respeito ao fornecimento de petróleo e de insumos industrializados, inclusive na área da saúde. O professor Malin se viu obrigado a deixar o automóvel e a locomover-se de bicicleta. O racionamento de alimentos também foi sentido na casa do personagem, pois o filho apresentava problemas de perda de peso. 
Nota-se também uma certa descrença de Malin em relação ao regime cubano, ao mesmo tempo em que se desenvolve uma crise no seu casamento. Problemas que a trama, muito bem conduzida e com atores excelentes, irá levar a um desfecho que, claro, deixaremos ao leitor analisar e estabelecer conclusões. Uma curiosidade, os diretores do filme, os irmãos Sebastián Barriuso e Rodrigo Barriuso são filhos do casal Malin e Isona na vida real.  A referência a Chernobyl também é oportuna visto que o fato foi recentemente trazido à tona em uma premiada série da HBO. Aproximadamente 25 mil vitimas do acidente foram atendidas nos hospitais de Cuba e o tratamento estendeu-se até 2011, bem depois do fim da própria União Soviética. 
A película foi pré-indicada para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2020 e a atuação de Rodrigo Santoro foi elogiada, inclusive ao lidar com o idioma castelhano, no qual se saiu bem. Enfim, uma boa opção para aqueles que desejam assistir a um filme movidos pelo interesse em compreender o mundo contemporâneo, a história e a própria geopolítica das últimas décadas. Refletir sobre a realidade é sempre um ótimo antidoto contra qualquer tipo de epidemia...

Para ver: 


O Tradutor (2019)
Elenco: Rodrigo Santoro, Maricel Alvarez e Yoandra Suarez.
Direção: Sebastián Barriuso e Rodrigo Barriuso. 
País de origem: Canadá e Cuba. 
Observação: o filme ainda não está disponível em DVD, mas encontra-se nos canais Telecine da NET (Telecine Cult). 
Crédito das imagens: 
Imagem do cartaz do filme e de Santoro com Yoandra Suarez: 
http://www.adorocinema.com
Foto de Rodrigo Santoro: 
http://spcine.com.br
Rodrigo Santoro com as crianças:
https://culturice.com.br/
Rodrigo Santoro com Maricel Alvarez: 
https://entretenimento.uol.com.br/

segunda-feira, 16 de março de 2020

III Feira do Livro da Unesp foi cancelada



Infelizmente, cumprimos o dever de informar a todos os  (as) leitores (as) que a III Feira do Livro da Unesp foi cancelada, como medida de precaução contra a pandemia de Coronavírus que se alastra pelo mundo e conforme as recomendações das autoridades de saúde....