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quinta-feira, 29 de março de 2012

Imagens Confirmadas



Meus caros amigos e leitores deste blog. Confesso que às vezes a História me deixa com "a pulga atrás da orelha". Por isso que gosto tanto dessa disciplina, ela sempre está nos ensinando ou confirmando aquilo que sabemos ou apenas desconfiavamos saber. Pois bem, eu mesmo me questionei: o técnico Parreira foi capitão do Exército? Mesmo tendo encontrado informações que confirmassem isso, me coloquei novamente a obter "a confirmação da confirmação". Encontrei, por exemplo na Wikipédia, a biografia de nosso grande técnico (sim, pois ele foi campeão mundial) e simplesmente não encontramos dados sobre a sua vida antes de 1970. Lembra um pouco a vida de Jesus, só a conhecemos depois dos trinta... E me perguntei, estou publicando uma informação errada? Claro, fui pesquisar a respeito da origem militar de Parreira. Dois sites confirmaram a informação.  Um deles o da Revista Escola da Editora Abril, especializada em educação e trabalhos em sala de aula. Na matéria dessa revista foi proposta uma atividade aos alunos do Ensino Médio para pesquisarem a relação entre a Copa de 1970 e a disseminação das práticas esportivas no Brasil. Foi mencionado que na preparação da seleção de 1970 ocorreu um salto de qualidade na condição física dos jogadores, muito em função da pressão por vitória do Governo Militar e pelo fato dos jogos serem realizados no México, em cidades com altitudes elevadas, como Guadalajara e a Cidade do México. Segundo a matéria dessa conceituada revista, para desenvolver esse trabalho, a Confederação Brasileira de Desportos (antecessora da atual CBF) solicitou à Escola de Educação Física do Exército que fornecesse professores. Foi de lá que vieram os capitães Carlos Alberto Parreira e Claúdio Coutinho. Segundo a Revista Escola "esses militares" adotaram formas modernas de treinamento baseadas principalmente no trabalho do norte-americano Kenneth Cooper (introdutor do famoso teste de Cooper). A matéria dessa revista teve a consultoria do historiador  Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos e comentarista do Jornal da TV Cultura de São Paulo, especialista em História Contemporânea.
Por outro lado, o jornalista Milton Leite em seu livro "As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos" (Editora Contexto, 2010) afirma que apenas dois preparadores físicos da seleção de 1970 vieram da carreira militar: Claúdio Coutinho e o futuro preparador de goleiros Raul Carlesso, que era major. Acho que o conhecido jornalista esportivo se enganou. De qualquer forma, confirma a tese de nossa postagem anterior sobre a presença de militares na Comissão Técnica da seleção. Aliás, a chefia da delegação cabia a outro militar: o major-brigadeiro da Aeronaútica Jerônimo Bastos. 
Em um outro blog, da insuspeita BBC, Parreira é designado também como capitão do Exército. Portanto, optei por manter as informações do "Imagens Históricas 5" a respeito da patente militar do futuro técnico Parreira, até que apareça uma informação definitiva em contrário. Confio nas informações da publicação da Editora Abril e da Revista Escola, que por sua vez baseia-se na Revista Veja e ainda no site da inglesa BBC.
Me pergunto, no entanto, por que razão os sites e blogs oficiais omitem a origem militar de Parreira na internet? A sua trajetória não aponta nada que o desabone, pelo contrário, foi campeão na Comissão Técnica e depois como treinador. Será que é para não ter a sua imagem pública vinculada aos tempos da Ditadura?
Cito os dois sites que colocam Carlos Alberto Parreira (na foto acima da Revista Escola, onde o mesmo é citado como capitão do Exército Brasileiro) na condiçao de oriundo da carreira militar: 



quarta-feira, 28 de março de 2012

Imagens Históricas 5: Seleção de 1970


A foto acima vai para aqueles que ainda acham que o futebol e a política não se misturam. Trata-se de uma imagem que muitos dos personagens que nela aparecem talvez não façam muita questão de sua divulgação. O ano era 1970, quando ocorreu a conquista do tricampeonato mundial de futebol por aquela que é tida até hoje como a melhor seleção que o Brasil já teve. Sim, a seleção tinha Pelé, mas também Rivelino, Gérson, Tostão entre outros craques. Aqui vemos o encontro do time e da Comissão Técnica com o então presidente, General Emílio Garrastazu Médici, antes da ida para o México. Eram os tempos da Ditadura Militar e o governo buscava tirar proveito, em termos de popularidade, com uma eventual vitória do time brasileiro, o que acabou ocorrendo. Por isso, as providências foram tomadas para assegurar que a campanha da Copa fosse bem sucedida, como por exemplo, escalar  militares para a  Comissão Técnica. A foto que estamos mostrando não deixa dúvida, pois dois ex-capitães do Exército foram preparadores físicos do time: Carlos Alberto Parreira (encoberto pelo presidente Médici na foto) e Claúdio Coutinho, à direita. Sim meus amigos, o futebol estava também "militarizado". Isso sem contarmos que, apenas 90 dias antes da Copa do México, o técnico João Saldanha, que tinha criticado a interferência do presidente na escalação do time, foi sumariamente retirado do cargo. Para o seu lugar foi convidado o ex-jogador Mario Jorge Lobo Zagallo (na foto, à esquerda), o qual manteve a escalação com as "feras do Saldanha".
Os dois capitães entraram depois para a reserva (do Exército) e seguiram a carreira como técnicos da própria seleção. O primeiro foi Claúdio Coutinho, que comandou o time na Copa da Argentina de 1978, onde o Brasil foi "campeão moral", saindo invicto do torneio, mas sem o título que ficou com a dona da casa numa armação que deu muito o que falar (só para lembrar, a Argentina também vivia uma Ditadura Militar). Coutinho ficou também conhecido como o introdutor de termos técnicos novos no futebol, como jogador "polivalente" e o "ponto futuro". O outro ex-capitão, Carlos Alberto Parreira, como é de conhecimento de todos, tornou-se campeão com a seleção brasileira em 1994 e voltou a dirigir o time em 2006.
Ah, estava me esquecendo, Pelé aparece no centro conversando com o presidente.
A foto foi publicada no jornal "Última Hora" de 29.04.1970.

sábado, 24 de março de 2012

Anúncio Antigo 9: Bambi


Que ternura!!! Que emoção!!! Um filme maravilhoso para as crianças e que faz chorar. Essa é a história de Bambi, quinto longa-metragem dos estúdios de Walt Disney e lançado nos Estados Unidos no ano de 1942 (mesmo ano do seu lançamento no Brasil), em plena Segunda Guerra Mundial. Conta as aventuras do cervo que dá nome ao filme e que passou a viver sozinho após sua mãe ter sido morta por caçadores. Estava sempre acompanhado de um coelho amigo, Tambor e apaixonou-se depois por Falina (sim amigos, ele tinha uma namorada). O desenho recebeu três indicações ao Oscar: melhor trilha sonora, melhor som e melhor canção original. A história era baseada no livro "A Life in the Woods" do austríaco Felix Salten.
Um excelente programa para o público infantil e no anúncio acima, publicado no jornal "O Estado de São Paulo" de 11.01.1970, a reprise era acompanhada de um curta sobre aves aquaticas. Era época das férias escolares e o filme  bem apropriado para a ocasião como afirma a propaganda. O desenho estava sendo exibido nos cines Astor (no mesmo local que hoje abriga a Livraria Cultura no Conjunto Nacional, situado na avenida Paulista em São Paulo) e no tradicional cine Ipiranga. Essas duas salas sempre exibiam na capital paulista os filmes dos estúdios Disney. Contudo,  como os pais iriam explicar para as crianças o filme previsto para entrar em cartaz depois: "Tem um homem na cama da mamãe". Que ternura!!! Que emoção!!! Que complicação!!!

sexta-feira, 23 de março de 2012

O Ensaio de Hitler


Até mesmo para ser um ditador fascista era preciso cuidado com a imagem. O próprio Adolf Hitler sabia muito bem disso, ele foi um pioneiro do que chamamos hoje de "marketing pessoal". Como um ator de teatro ele ensaiava as suas aparições em público e os gestos que  eventualmente poderia usar para impressionar as massas. As imagens que estamos mostrando aqui não deixam margem para dúvidas. Foram tiradas ainda no início da ascensão política do "fuhrer" (chefe ou líder) em 1925.
Era o momento em que a Alemanha começava a se recuperar da crise gerada pela Primeira Guerra Mundial (1914-1918). O Partido Nazista ainda era minúsculo e não representava uma ameaça à republica parlamentar alemã. No entanto, a Grande Depressão iniciada em 1929 nos Estados Unidos jogou a Alemanha novamente numa grave crise econômica e social. No início da década de 1930 o desemprego alcançava 6 milhões de trabalhadores alemães. Na opinião do eminente historiador Eric Hobsbawm, a Depressão teve um papel crucial na ascensão do fascismo na Alemanha. Foi a partir dela que as massas começaram a dar atenção ao discurso histriônico e irracional de Hitler. Os dados mostram isso, pois em 1924 o Partido Nazista tinha entre 2,5% a 3% do eleitorado, em 1930 subiu para mais de 18% e em 1932 possuia mais de 37% dos votos. A crise transformou Hitler em um fenômeno político e abriu caminho para o seu discurso radical. Ele soube canalizar os sentimentos de insatisfação existentes nos vários segmentos da sociedade alemã, dos desempregados aos mais ricos, com a promessa de uma retomada da expansão econômica que levaria à criação do novo império germânico ou Terceiro Reich.




No período Entreguerras a ameaça às democracias liberais vinha dos setores mais à direita do cenário político. Contudo, nem todas as forças que se opunham aos regimes democráticos liberais eram fascistas. Os exemplos das ditaduras de Salazar em Portugal e do general Franco na Espanha podem ser enquadrados nesse contexto. O caso de Getúlio Vargas no Brasil, durante o Estado Novo, também pode ser classificado dentro desse grupo. Um aspecto comum a esses regimes era a aversão aos valores da democracia liberal e ao comunismo que ameaçava subverter a ordem social.




A Itália foi o "berço" do tipo fascista de regime de direita. "Nada fora do Estado, tudo sob controle do Estado" era um de seus princípios. A sua influência sobre o nazismo foi admitida pelo próprio Hitler, inclusive no modo como Benito Mussolini se dirigia ao povo italiano. A própria palavra fascismo, derivada do termo "fascio" (um dos símbolos da antiga república romana da antiguidade) têm sua origem na Itália. Eric Hobsbawm assinala como uma das características próprias do fascismo a mobilização das massas "de baixo para cima", promovendo uma espécie de "teatro público". Tal prática era também adotada na União Soviética, em momentos comemorativos que reuniam milhares de trabalhadores, como as festividades do dia do trabalho. O fascismo não era avesso às mobilizações populares, desde que sob o controle político e ideológico do Estado personificado na figura de um líder. Daí a necessidade da propaganda e da imagem, algo que Hitler e seu ministro Joseph Goebbels souberam utilizar muito bem. Para Hobsbawm, Hitler comandou a Alemanha e seu povo com base na propaganda. Ele afirmava que ser um líder "significava excitar as massas". Isso não era feito de forma racional, mas por meio de reações e gestos histéricos e recorrendo aos sentimentos que estavam mais evidentes no povo alemão, como a descrença nos valores democráticos liberais. Fazia parte desse jogo político apontar falsos culpados pela crise, como os comunistas e os judeus, vistos como inimigos do povo alemão. Diante disso, não havia espaço para a fraqueza e o líder deveria demonstrar isso. Muitas vezes a exaltação da guerra tinha essa finalidade, mesmo sabendo-se que a mesma havia arruinado a Alemanha. Ter participado de uma guerra era uma espécie de "currículo" bem aceito entre os nazistas, uma vez que muitos deles (inclusive o próprio Hitler) eram ex-combatentes.
As fotos que aparecem aqui foram tiradas por Heinrich Hoffmann, fotógrafo particular de Hitler. Ficaram guardadas até o final da Segunda Guerra quando Hoffmann foi preso. Em 1950 o fotógrafo publicou as suas memórias, "Hitler era meu amigo" e divulgou as fotos no livro.

Para saber mais:

Hobsbawm, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX. Companhia das Letras, 1995. O Capítulo 4 faz uma interessante e precisa analise da ascensão do fascismo no Entreguerras.  

quarta-feira, 21 de março de 2012

Aziz Ab'Saber

Esta semana os geógrafos (e todos nós) lamentam a perda do professor Aziz Nacib Ab'Saber, um dos grandes mestres da disciplina. Profundo conhecedor da Amazônia e do processo de devastação inútil e desenfreado que a região sofreu nas últimas décadas. Inútil no sentido de que não beneficiou sequer a população que lá vive. A Amazônia era tida erroneamente como um "espaço vazio" e disponível para a exploração capitaneada por interesses econômicos alienígenas e que não tinham compromisso com a região e mesmo com o país. Ab'Saber sempre foi uma voz a alertar para essa dilapidação que nada deixou de recompensa duradoura em termos civilizatórios. Muito pelo contrário. Mas a sua obra permanece e é um importante ponto de partida para aqueles que desejam desbravar, no bom sentido, a rica História da região. Sim, o conhecimento sobre a Amazônia passa pela Geografia, principalmente pelos seus expoentes, como o próprio Ab'Saber e pela professora Bertha Becker, entre outros.
Em memória do grande geógrafo, recomendo o blog da editora Galpão das Letras, que inaugura a coluna "Blogs que eu sigo" e apresenta, na íntegra, um Programa Roda Viva da TV Cultura com Aziz Ab'Saber. O link está abaixo:

sexta-feira, 16 de março de 2012

Estádio do Corinthians: Corintão ou Corintião?




Finalmente, aquilo que a grande torcida do Corinthians tanto aguardava: o Corintão (ou Corintião?). O estádio do Corinthians ficou pronto no início do mês de outubro de 1969. Apenas um pequeno detalhe, na maquete... Era a época do "boom" dos estádios no Brasil. Belo Horizonte já tinha o Mineirão, Porto Alegre construia o Beira Rio e Curitiba preparava o gigantesco Pinheirão, que também só ficou no projeto. Vários estádios foram levantados nas capitais do Nordeste. Naquele momento construir estádios não era problema e isso sem o Brasil sediar uma Copa do Mundo (fez apenas uma Minicopa em 1972, para celebrar o sesquicentenário da independência). O país vivia os primeiros momentos do "milagre econômico" e o Governo Militar em busca de popularidade, não poupou recursos para essas obras.
Na capital paulista, o Morumbi estava sendo ampliado, mas vejam só, ficava na "contramão", era muito longe para os padrões da época. O já tradicional Pacaembu (palavra que significa "lugar onde as pacas bebem") não comportava mais do que 60 mil pessoas e sem confôrto. Era o que constatava uma matéria da Revista Veja publicada em 02.10.1969, que anunciava o projeto do estádio do Corinthians.
O time com a maior torcida de São Paulo não queria jogar mais no Pacaembu. Daí surgiu o projeto do arquiteto Sérgio Bernardes. Deveria ser o maior e mais avançado estádio coberto do mundo (com placas de vidro que permitiriam a luz natural), capaz de receber mais de 100 mil pessoas. O projeto  previa que o grande templo do futebol fosse integrado com cinema, teatro, espaço para convenções (capaz de receber 3 mil pessoas), ringue de patinação no gêlo, duas piscinas olímpicas e para saltos ornamentais, quadras para varias modalidades esportivas (basquete, vôlei e tênis) e estacionamento coberto com capacidade para 4 mil carros. Ufa... Mas não parava aí. Contaria também com gramado suspenso e embaixo do mesmo três vestiários. Faltava apenas um pequeno detalhe: o terreno. Mas onde? Em algum lugar da marginal Tietê. Pelo menos era a promessa do então prefeito de São Paulo, brigadeiro Faria Lima (sim, aquele que dá nome à famosa avenida). Bem, como se sabe o terreno demorou anos para sair, e não na Marginal, mas sim em Itaquera.
 O prefeito Faria Lima ficou conhecido por alargar ruas, avenidas e por ter iniciado, tardiamente para a cidade de São Paulo, a construção do Metrô. Mas essa do estádio não deu para emplacar. Azar do craque corintiano Rivelino, que na época se queixava dos buracos do Pacaembu.
A foto da maquete (acima) foi publicada na mesma edição já citada da Revista Veja. Só que ficou uma dúvida: Corintão ou Corintião???