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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Movimento Passe Livre: E Agora?




O Brasil está se surpreendendo nos últimos dias com algo que não se imaginava há algum tempo atrás. O povo saindo às ruas para protestar. Mas protestar contra o quê? O motivo que detonou as manifestações é algo que já deveria ter gerado protestos há muito tempo: o valor exagerado das passagens de ônibus e metrô. Não se trata nem de preço de Primeiro Mundo, porque neste último não chega a ser tão elevado, quase dois dólares. É um absurdo que uma parcela considerável da população tenha tolerado por tanto tempo isso. As manifestações (imagem acima, integrantes do Movimento Passe Livre no protesto de ontem na capital paulista) foram muito bem vindas e colocaram a possibilidade de abrir a "caixa preta" do transporte público, sobretudo em São Paulo, onde um verdadeiro e misterioso cartel de empresas controla o sistema, seguindo o modelo empresarial de "Don Corleone". 
Pois bem, a iniciativa coube ao Movimento Passe Livre (MPL), que retomou uma bandeira de luta dos tempos da prefeita Luiza Erundina, quando foi eleita para o cargo em São Paulo no já distante ano de 1988, aliás pelo Partido dos Trabalhadores. A ideia original era tirar recursos do Imposto Territorial Urbano (IPTU) para subsidiar o valor das passagens, o que implicava, claro, em um aumento progressivo deste (os ricos pagariam mais) para que toda a sociedade se beneficiasse de um transporte público barato e de qualidade. Contudo, os setores mais conservadores rejeitaram a proposta e a mesma foi derrotada na Câmara Municipal. Agora, o MPL retomou a ideia, que não é utópica como querem alguns mal informados, e teve o grande mérito de trazê-la para as ruas, pagando um preço caro por  isso, por meio da repressão policial, do ataque de todos os meios de comunicação que compõem a grande mídia e das classes médias que hostilizaram os pioneiros do movimento chamando-os de "vândalos".


O curioso é que a repressão policial foi tão violenta que vitimou jornalistas da própria mídia que faziam a cobertura dos protestos, ou seja, o "feitiço virou-se contra o feiticeiro" (na imagem acima, fotógrafo é atingido por spray de pimenta por um integrante da Polícia Militar). A repercussão foi péssima para as autoridades que tinham declarado que as policias agiriam com energia. 
Um aspecto fundamental foi colocado em evidência por esses primeiros manifestantes: os limites de nossa democracia. Para algumas causas a rua pode ser tomada e para outras não. Por que não ocupar a avenida Paulista? Para a Passeata do Orgulho Gay pode (e não tenho nada contra isso), para os shows da Globo no final do ano pode, para montar presépios de Natal e atrair a classe média que vive enfiada em shoppings pode. Nestes casos, não atrapalham os hospitais e nem o trânsito. A grande mídia aplaude. Quando é para protestar por uma causa social justa, aí não pode. Nossa democracia é pela metade? Serve para alguns e não para outros? Esses "primeiros jovens" que saíram às ruas e colocaram a cara para bater tiveram esse grande mérito, de colocar essa democracia engessada em questão. Um conhecido historiador da antiguidade clássica, Moses Finley, há quarenta anos questionava a democracia norte-americana por temer o confronto, o debate e as contradições. Em função disso, começava a perder a sua vitalidade. Mas não é exatamente esse o cerne da democracia? Por que temê-la? 
Os protestos acabaram atraindo a atenção nacional e embalada pela péssima repercussão da repressão policial, outros jovens e até a classe média, que antes criticava o movimento, acabaram saindo às ruas nesta última segunda-feira (dia 17.06) protestando contra outras questões que não faziam parte da pauta original. Sim, foi um desabafo: Copa da Mundo, FIFA, corrupção na política, governos, pedidos por educação, saúde, entre outras coisas. Foi ótimo e bonito de se ver, em várias capitais do Brasil o povo se manifestou.


Mas ontem, dia 18.06, na manifestação na praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo (imagem acima), pudemos perceber que o movimento, ao mesmo tempo em que ganhava adesões em termos quantitativos, começava a perder em termos qualitativos. Cartazes com reclamações as mais variadas: contra a corrupção, contra os impostos, contra a Copa do Mundo, Fora Dilma, Fora Haddad, Fora Alckimin, Fora Globo, Fora Datena...Ou seja, contra tudo e contra todos. É o sinal da dispersão, é exatamente isso o que querem os responsáveis pelo transporte público, a perda do foco. E estão conseguindo, infelizmente. 


Num certo momento, o MPL se desgarrou dos demais manifestantes, talvez percebendo que os rumos do protesto estavam sendo desvirtuados, e iniciaram uma passeata pela ladeira Porto Geral (que dá acesso à famosa 25 de Março, a rua das compras populares da capital paulista) e alcançando o terminal de ônibus do Parque D. Pedro II (na imagem acima, integrantes do movimento passam diante de um posto da Polícia Militar). Num determinando instante, quando os manifestantes alcançavam o viaduto que levaria à avenida Rangel Pestana, no bairro do Brás (início da Zona Leste de São Paulo) os manifestantes do Passe Livre pararam, sem saber se deveriam continuar ou não. Alguns queriam chegar à avenida Radial Leste (principal artéria de ligação com a Zona Leste de São Paulo) e outros ir até o prédio da Prefeitura no viaduto do Chá, mesmo alguém avisando que o prefeito já não estava mais lá. Esta última opção foi a escolhida e chegando na sede da Prefeitura, outros manifestantes já estavam por lá e alguns (infiltrados?) iniciaram o ato violento que marcou as manifestações de ontem, que até então corria de forma pacífica e com apoio dos transeuntes que andavam pelo centro e dos próprios motoristas, que embora parados no trânsito, pareciam perceber o quanto o protesto era justo e necessário. Posso assegurar, nenhum integrante do MPL iniciou os atos de vandalismo de ontem.


Embora o movimento não aceitasse as bandeiras de partidos e a presença de nenhuma de suas lideranças, mesmo as de esquerda, parece que o MPL esteja carecendo de um comando firme e que conduza o movimento aos seus objetivos originais. Por outro lado, as passeatas estão sendo invadidas por aqueles que querem tirar proveito das manifestações em prol de outras causas, que no momento, não fazem parte da pauta de reivindicações. Isso é perigoso. Embora muitos digam que é coisa do passado, existe esquerda e existe direita. Esta última trabalha com objetivo claro de pulverizar o MPL e dispersá-lo.
 A discussão do problema do transporte coletivo envolve uma gama enorme de questões e de temas que estão na ordem do dia: a mobilidade urbana; o uso desproporcional dos automóveis; questões relativas ao meio ambiente e a poluição; a planilha de custos do transporte público que precisa ser exposta de forma clara e democrática; a gestão da cidade em termos de qualidade de vida para os seus habitantes entre outros graves problemas. O MPL teve o grande mérito de criar a oportunidade para que tudo isso  fosse discutido. Trazer agora, outras bandeiras de luta, vagas e sem um alvo claro, pode prejudicar o encaminhamento dessa importante demanda popular. 
Apesar de tudo isso, vi também algo positivo, a tentativa de se levar o movimento para as periferias e os bairros pobres, que sofrem demais com as tarifas absurdas e o transporte de péssima qualidade. Afinal, é uma causa popular.
Não temos condições aqui de avaliar o movimento nas demais capitais, mas ao que parece, a questão do transporte também foi o fator que acendeu as manifestações. Pode ser que em outras cidades existam problemas mais específicos e cabe a esses movimentos não permitir que os mesmos fiquem obscurecidos. 
Não devemos esquecer daqueles que nos primeiros dias dos protestos contra o aumento das tarifas mandaram a polícia bater e bater pesado. Estes devem dar satisfações à sociedade, por dar essa ordem, por restringir o direito de livre manifestação, por incitar de forma violenta a sociedade contra os "primeiros jovens" que saíram às ruas e daqueles, como o motorista transloucado da Paulista, que jogaram os seus automóveis contra os meninos que lutavam por uma cidade melhor.
O MPL deve trabalhar a partir de agora para dar maior consistência ao movimento e evitar que se perca nas outras generalidades, que podem servir aos setores menos interessados em discutir ou debater o problema do transporte público. Quanto mais genéricas são as bandeiras de luta, maior a tendência de que o movimento seja apropriado por setores da sociedade que irão procurar manipular essas causas em benefício próprio. 
Sim, somos todos brasileiros, temos a mesma bandeira, mas quem ganha com a construção dos estádios da Copa ou com o dinheiro arrecadado das tarifas de ônibus também é. Os canalhas, nessas horas, também sabem cantar o Hino Nacional....
Crédito das imagens: 
Policial com spray de pimenta: www.rededemocratica.org.
Demais imagens: História Mundi. 


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Imagens Históricas 13: Simón Bolívar





Simón José Antonio de la Santísima Trinidad de Bolívar y Palacios, ou simplesmente Símon Bolívar, chamado também de El Libertador. Foi com esse título que ficou conhecido o mais importante líder da independência da América Espanhola, retratado na imagem acima no ano anterior à sua morte, abatido pelos anos de guerra e pela tuberculose. O personagem desse retrato é o tema de hoje de nossa seção "Imagens Históricas". Além de ser o maior de todos os "Libertadores da América" foi aquele que estava mais bem sintonizado com os ideais revolucionários de seu tempo e com o pensamento da Era das Luzes, o Iluminismo. Portanto, não lhe faltavam ideias a respeito do futuro da América do Sul após séculos de domínio colonial.



Nascido na cidade de Caracas, na antiga capitania da Venezuela em 1783, de uma tradicional família de grandes proprietários de terra de origem espanhola (portanto, um legítimo crioulo). Os Bolívar eram donos de minas de prata e de cobre, de fazendas de gado e plantações de cana-de-açúcar, índigo e cacau. Em apenas uma de suas propriedades, a família tinha mais de 1.200 escravos. Os Bolívar ainda possuíam vários imóveis em Caracas (na imagem acima, a casa onde nasceu Bolívar, em uma foto da década de 1930). 


A elite crioula detinha o poder econômico nas antigas colônias espanholas, geralmente como grandes proprietários de terras (as famosas haciendas, como na ilustração acima), mas faltava-lhe o poder político, privilégio reservado aos nascidos na Espanha, que ocupavam os cargos mais importantes da administração colonial. A maior parte da população, constituída de mestiços (ou pardos), escravos de origem africana e indígenas, sofriam com os trabalhos pesados e não possuíam nenhum tipo de direito legal.  
Bolívar teve uma formação aristocrática. Esteve na Espanha e chegou a frequentar a Corte em Madri. Casou-se e ficou viúvo com apenas 21 anos. Retornou à Europa, viajando pela França, Inglaterra e Itália. Nessa segunda viagem ao velho continente, acompanhado de seu mentor Símon Rodrigues, tomou contato maior com as idéias iluministas de igualdade, liberdade e dos direitos naturais do homem, que aplicadas ao plano das colônias, tinham um sentido revolucionário naquele momento. O filósofo francês Jean Jacques Rousseau foi uma de suas leituras e serviu de inspiração filosófica ao futuro revolucionário. Contudo, pensou, como colocá-las em prática em um continente que estava sob domínio europeu?


Ainda na Europa, Bolívar assistiu à coroação de Napoleão como imperador da França e teve contato com o famoso naturalista de origem alemã Alexander von Humboldt (imagem acima), recém chegado de uma viagem à América do Sul. Este teria dito a Bolívar: "Creio que seu país está pronto para a independência" e acrescentou "mas não vejo o homem que possa realizá-la." Impulsionado talvez por essa declaração e após ter realizado um juramento no famoso Monte Sagrado na cidade de Roma (palco das antigas sublevações da plebe contra os patrícios da Roma Antiga) de que libertaria o seu povo do domínio espanhol, Bolívar retornou em 1807 para a América. Veio disposto a liderar a independência de sua terra natal. 
O mundo vivia uma situação turbulenta. Napoleão Bonaparte expandia o seu território na Europa e já havia invadido Portugal e a Espanha. Neste último país, despojou do poder o rei Fernando VII e em seu lugar instalou José Bonaparte, seu irmão, como monarca. Tal mudança acabou precipitando a situação nas colônias espanholas da América do Sul, as quais, em um primeiro momento, juraram fidelidade ao rei espanhol deposto, por meio das juntas governativas locais lideradas pelos crioulos. 
Logo depois, a situação na Espanha se agravou e Napoleão enfrentou uma dura resistência por parte da população local, fortemente apoiada pela Inglaterra inimiga. Diante disso, a junta governativa da Venezuela depôs o governador espanhol em Caracas e assumiu o poder com o objetivo de criar uma república autônoma. Contudo, o movimento necessitava do reconhecimento de outros governos e com esse objetivo, uma missão foi enviada à Inglaterra, chefiada por Bolívar. Os ingleses relutavam em apoiar um movimento de independência contra os espanhóis, que nesse momento, eram seus aliados na luta contra Napoleão. Mas em Londres, Bolívar encontrou um antigo rebelde venezuelano, Francisco de Miranda e convidou-o para se juntar à luta como comandante militar. Em 5 de julho de 1811 foi publicada uma declaração de independência e a Venezuela parecia se tornar a primeira colônia hispânica livre das Américas. Mal sabia Bolívar e os demais líderes que isto era apenas o início de uma longa luta. 
Mesmo dentro da Venezuela, nem todas as províncias aceitavam a autoridade dos republicanos de Caracas e mesmo entre estes, surgiu uma rivalidade entre Bolívar e Miranda. Para complicar mais a situação da jovem república, em 26.03.1812 um forte terremoto atingiu Caracas, matando pelo menos 10 mil pessoas. Muitos viram isto como um castigo dos céus pelo fato da Venezuela desobedecer ao rei espanhol Fernando VII. Os padres, fiéis ao princípio do direito divino dos reis, formavam o grupo mais fiel à Coroa. 
Uma força militar espanhola comandada por Juan Domingo Monteverde avançou sobre a Venezuela e impôs uma derrota ao comandante rebelde Francisco de Miranda, que teria aceito uma recompensa em dinheiro dos espanhóis para fugir, mas antes que isto ocorresse foi detido por Símon Bolívar e entregue aos espanhóis. Miranda passou o resto de seus dias preso. A repressão imposta por Monteverde foi terrível, prendendo os rebeldes crioulos e confiscando as suas propriedades. Bolívar conseguiu escapar para o exílio em Cartagena, no vizinho Vice-Reino de Nova Granada (que corresponde aos atuais Panamá, Colômbia e Equador). Ao avaliar o fracasso da Primeira República Venezuelana, Bolívar considerou que a desunião dos rebeldes facilitou a reação espanhola e de que só um "poder terrível" poderia varrer os espanhóis do continente. 
Com o apoio dos rebeldes de Nova Granada, que já iniciara um processo de rompimento com a Espanha, Bolívar começou uma nova campanha militar em direção aos llanos (planícies) da Venezuela e avançou dos Andes até Caracas em três meses. Seu exército que era de 700 homens alcançou 2.500 com as adesões que ganhou no caminho. A cada localidade tomada aos espanhóis acrescentava em suas cartas o termo "libertada", daí o cognome que lhe seria atribuído: El Libertador. Caracas foi ocupada e em 06.08.1813 foi declarada a Segunda República Venezuelana, a qual nascia despedaçada e arruinada economicamente.


O novo governo não era reconhecido em todo o território, como por exemplo, entre os llaneros mestiços e semi-selvagens (equivalentes a grosso modo aos vaqueiros dos pampas e aos caubóis do oeste norte-americano) liderados por José Tomás Boves, um espanhol que ganhara a vida com o contrabando. A guerra de independência era uma oportunidade para que estes promovessem saques, incêndios e estupros pelas localidades por onde passavam. Boves, lutando a serviço dos espanhóis, castigava os seus prisioneiros com torturas bárbaras, amarrando-os às árvores sob o sol escaldante, furando os seus corpos com lanças, enviando a cabeça dos mesmos para as esposas ou matando os filhos na frente dos pais. Além de mais esse inimigo, Bolívar enfrentava a rivalidade com os seus auxiliares, como Francisco Santander (imagem acima) e o general Mariño. A Segunda República fracassou e Bolívar se retirou de Caracas. A luta de independência nunca fora tão violenta. 


A queda de Napoleão (imagem acima) e a restauração da monarquia espanhola ampliaram a repressão até Nova Granada. Bolívar foge para a Jamaica, onde redigiu a famosa Carta da Jamaica apontando a necessidade da união das colônias que já lutavam pela independência, embrião daquilo que tempos depois ficaria conhecido como o pan-americanismo. Depois de uma tentativa de assassinato, Bolívar dirigiu-se para o Haiti, a segunda república independente das Américas e também a primeira república negra. O presidente e ex-escravo Alexandre Pétion deu ajuda financeira e militar a Bolívar e este prometeu abolir a escravatura nos territórios que fossem libertados, o que ocorreu de forma plena somente em 1854, vinte e quatro anos depois da morte de Bolívar. 
A nova invasão da Venezuela foi feita pelo interior e novamente Bolívar enfrentou as rivalidades entre os seus comandados, um deles o mulato Manuel Piar, que acabou sendo executado. Um fator favorável para o Libertador, agora ele podia contar com os llaneros e seu novo comandante José Antonio Páez, mestre na guerra de guerrilhas. Além destes, Bolívar constituiu um corpo de mercenários de origem britânica (os redcoats) recrutados após o fim das guerras napoleônicas na Europa. O anglófilo (admirador da Inglaterra) Bolívar finalmente pode contar com a ajuda inglesa, embora sem um caráter oficial, para a causa da independência. Bolívar obteve também suprimentos, armas e equipamentos comprados a crédito na Inglaterra.
Em uma reunião realizada na cidade de Angostura, interior da Venezuela, Bolívar propõe uma constituição e a união da Venezuela com Nova Granada em uma Grã-Colômbia. Nessa mesma reunião foi escolhido presidente da Terceira República da Venezuela. Em 07.08.1819, na batalha de Boyacá, os republicanos derrotaram os espanhóis e dois anos depois, em Carabobo, a Venezuela foi conquistada e Bolívar entrou vitorioso em Caracas. Nascia a Grã-Colômbia, composta pela Venezuela, Nova Granada e Quito, atual Equador. Depois de conquistar Guayaquil, principal porto do Equador, em 1822, Bolívar voltou as suas atenções para o Perú, último reduto espanhol na América do Sul. Mas, um outro libertador ganhava notoriedade nesse momento, promovendo as lutas no Vice-Reino do Prata e no Chile pela independência, o argentino José de San Martin. Este também tinha interesse em levar a sua luta até o Alto Perú.


O encontro entre os dois grandes líderes ocorreu em Guayaquil. Bolívar não pretendia fazer concessões a San Martin (imagem acima), que antes de participar das guerras de independência lutou a serviço da Espanha e era monarquista. Dizia-se que pretendia convidar um príncipe Bourbon da Europa para governar a América do Sul. Os detalhes dessa reunião nunca serão completamente conhecidos e durante um jantar oferecido por Bolívar ao ilustre convidado, San Martin abandonou subitamente a festa. O caminho ficou aberto para Símon Bolívar, com a ajuda de seu mais fiel general, Antonio José de Sucre, conquistar o Perú e o Alto Perú em 1825, região que depois teria o nome de Bolívia em homenagem a ele. A Espanha estava definitivamente derrotada. 
Simón Bolívar planejava uma confederação na América do Sul reunindo os estados independentes e de uma liga que serviria para arbitrar os conflitos territoriais, estabelecer princípios comuns para os novos estados e a defesa das jovens nações. Para colocar em prática o projeto, Bolívar convidou delegados de todas essas nações e também dos Estados Unidos e da Inglaterra para uma reunião no Panamá em 1826. O congresso foi um fracasso e as novas nações estavam mais preocupadas em tratar de suas desavenças internas, algo que preocupava o próprio Bolívar, pois a Grã-Colômbia estava dividida na luta entre o general Santander e o llanero Páez. 
Para restaurar a ordem na Grã-Colômbia, Bolívar passou a defender soluções mais autoritárias, afirmando: "Sem força, não há virtude". Com isso, distanciava-se cada vez mais dos outros líderes liberais e caminhava para a defesa de um poder mais despótico. A sua própria segurança pessoal encontrava-se ameaçada. Em 25.09.1828 escapou de uma tentativa de assassinato em Bogotá com a ajuda de sua mulher Manuela Sáenz que distraiu os assassinos para dar tempo a Bolívar de fugir e se esconder em um buraco. O general Santander estaria envolvido nesse atentado e foi exilado. 
Em 08.05.1830, Bolívar renunciou ao comando político e em seguida foi expulso da própria Venezuela pelo novo governo instalado em Caracas. O Libertador estava com a saúde debilitada pela tuberculose e emocionalmente abalado pelos dissabores da situação política. Um mês antes de morrer afirmou: "A América é ingovernável. Os que servem à revolução aram o mar. A única coisa a fazer na América é emigrar."
No dia 17.12.1830, Símon Bolívar faleceu em uma propriedade no litoral da Colômbia. Doze anos depois seus restos mortais foram levados de volta para Caracas, quando o ódio que seus inimigos nutriam contra ele se dissipou. Os líderes crioulos assumiram o lugar dos antigos governantes espanhóis e a Inglaterra preencheu o vazio econômico deixado pela Espanha. As haciendas avançaram sobre as antigas terras comunais dos índios e estes ficaram privados de seus meios de sustento. A escravidão ainda perdurou por muitos anos, apesar do discurso de liberdade proclamado por Bolívar. 


Atualmente, a figura de Simón Bolívar inspira a política venezuelana voltada para uma maior justiça social, proclamada pelo falecido presidente Hugo Chávez, que em 2012 mostrou ao mundo o resultado do trabalho de exumação de seus restos mortais e da reconstituição computadorizada daquilo que seria o seu verdadeiro rosto (imagem acima). 
Por sua vez, o famoso filósofo alemão Karl Marx (1818-1883), pai do socialismo científico, não deixou uma visão tão heroica do ilustre "Libertador". Marx foi contratado em 1857 por Charles Dana, diretor do jornal "New York Daily Tribune" para escrever artigos a respeito de história militar, biografias e outros temas para a "New American Cyclopaedia" e daí veio o verbete sobre Simón Bolívar. Na descrição feita pelo filósofo, Bolívar se acovardou em várias batalhas que poderiam ter sido decisivas e entregou o general Francisco Miranda aos espanhóis apenas para livrar-se do mesmo e não por este ter traído a causa da independência. Dado à vida boêmia (neste aspecto todos os estudiosos concordam), ao comportamento despótico, ditatorial e centralizador, Bolívar teria atraído contra si a indignação de seus compatriotas. Marx também dá a entender que o apoio da legião britânica foi pelo menos tão importante para o desfecho da guerra de independência quanto a liderança de Bolívar. O texto de Marx ficou perdido e foi redescoberto apenas em 1935. Será que esses pontos de vista são argumentos fortes para uma revisão da figura do Libertador?
Uma boa iniciativa do governo venezuelano foi abrir para o público o acervo de documentos de Bolívar, que podem ser consultados pela internet. O acesso está na coluna "Links Interessantes" do blog História Mundi.
A Imagem Histórica de hoje (mais ao alto) é uma pintura a óleo de 1829 retratando Bolívar, extraída da coleção História em Revista 1800-1850: a força da iniciativa, da editora Abril/TimeLife, publicada em 1992, página 92. Não há indicação da autoria da obra. 
Para saber mais:
O Libertador: A Vida de Simón Bolívar, de Moacir Werneck de Castro. Editora Rocco, 1988. (edição esgotada).
Simón Bolívar por Karl Marx:
www.marxists.org/portugues/marx/1858/mes/bolivar.htm

Crédito das imagens:
Casa de Bolívar em Caracas: Simón Bolívar. Col. Os Grandes Líderes. Nova Cultural, 1987, p. 46.
Imagens da hacienda e de Napoleão Bonaparte: Coleção História em Revista 1800-1850: a força da iniciativa. Abril/Time Life, 1992, páginas 87 e 8 respectivamente. 
Retratos de Humboldt e San Martin: Wikipédia.
Retrato de Francisco Santander: História das Civilizações, vol. V. Editora Abril, 1975, p. 16. 
Imagem computadorizada de Bolivar: www.simonbolivar.gob.ve









terça-feira, 23 de abril de 2013

Anúncio Antigo 28: Raquel Welch



Um dos ícones femininos da década de 1960, a atriz norte-americana Raquel Welch. Uma norte-americana em cujas veias corre o sangue boliviano, pelo lado paterno. Seu nome verdadeiro não soa tão sensual como pode sugerir a foto do anúncio acima: Jo Raquel Tejada. Nascida em 1940 na cidade de Chicago nos Estados Unidos, filha do boliviano Armando Carlos Tejada Urquizo, engenheiro que emigrou de La Paz, capital da Bolívia, aos 17 anos de idade. Sua mãe, Josephine Sara, era norte-americana. 
Em sua juventude, Raquel Welch ambicionava a carreira de bailarina, mas o seu instrutor lhe disse que o seu corpo não era apropriado para essa atividade. Após vencer um concurso de beleza, aos 18 anos de idade, Raquel começou a procurar a carreira de atriz e adotou o sobrenome de seu primeiro marido, James Welch. 



Com o fim do casamento, Raquel Welch trabalhou como modelo e realizou pequenas pontas em filmes e seriados de televisão, entre os quais "A Feiticeira" e "O Homem de Virgínia" e ainda atuou com o cantor Elvis Presley em "Carrossel de Emoções" em 1964, em outra pequena ponta (na foto acima, feita para promover o filme de Elvis, Raquel Welch é a segunda a partir da direita, de vestido azul). 
Finalmente, após participar em um modesto filme de praia chamado "A Swingin' Summer" em 1965 (os chamados "filmes de praia" faziam muito sucesso entre o público adolescente na década de 1960 nos Estados Unidos) a atriz ganhou uma oportunidade nos estúdios da 20th. Century Fox e no ano seguinte fez um papel de destaque no ficção científica "Viagem Fantástica". As portas do sucesso foram abertas para Raquel Welch.


No mesmo ano, Raquel apareceu na produção inglesa "One Million Years B.C.", cuja trama, como o próprio título sugere, era ambientada na Pré-História e mostrando a atriz em um biquíni feito de pele de animal. A imagem da atriz com esse traje (foto acima) rodou o mundo e transformou Raquel Welch em uma verdadeira  "sex symbol". Nas décadas de 1960 e 1970 a foto virou poster e podia ser encontrada em qualquer loja de discos de vinil ou salões de beleza enfeitando as paredes. A beleza estonteante de Raquel Welch fazia parte do imaginário masculino daqueles tempos.


Em 1969, a atriz atuou no faroeste "100 Rifles", onde fez cenas de sexo (não explícitos, claro) com um ator negro, Jim Brown, algo inédito no cinema norte-americano até aquele momento. O escândalo provocado na conservadora sociedade americana contribuiu para que o filme não fosse bem nas bilheterias (na imagem acima, o ator Jim Brown e a atriz Raquel Welch, em uma foto promocional do filme).
Em termos artísticos, muito pouco podemos destacar da filmografia da atriz. Como acontece com a maior parte das atrizes que tem como grande destaque o belo corpo, sua época passou rápido. Na metade da década de 1970, Raquel Welch já era um símbolo do passado e participava de filmes e especiais de televisão como uma figura completamente datada e vinculada aos agitados tempos da década de 1960. 
O Anúncio Antigo de hoje, com a famosa marca de sabonetes para a qual já posaram outras atrizes também famosas, como Jane Fonda, Ursula Andress e Michele Pfeifer, foi publicado na Revista Realidade de setembro de 1968, na página 52.
Foto da agtriz no filme "One Million Years B.C.": www.instyle.com
Foto de Raquel Welch ao lado de Elvis Presley: elviswomen.greggers.net
Foto de Jim Brown e Raquel Welch no filme "100 rifles": Os Anos 60: A Década que Mudou Tudo. Edições Veja, 1970 (data provável), pag. 55. 








sábado, 6 de abril de 2013

O sequestro de Juan Manoel Fangio




Manchete nos jornais: Campeão da Formula 1 é sequestrado antes do Grande Premio. E que Grande Premio: o de Cuba  no ano de 1958 (na imagem acima, o bonito cartaz promocional da prova). Um circuito de rua, que incluía o famoso Malecón, a conhecida beira-mar de Havana e que contava com uma extensão total de 5,21 quilômetros. O ano era 1958 e o então ditador de Cuba, Fulgêncio Batista, promovia a prova automobilística para dar uma demonstração de que a situação na ilha era normal e que os guerrilheiros oposicionistas não representavam ameaça ao regime. 



Na verdade, nem era necessária essa ação cinematográfica da guerrilha para que se percebesse que o regime brutal e repressor de Batista estava com os dias contados. Os guerrilheiros comandados por Fidel Castro desembarcaram na ilha de Cuba em dezembro de 1956, sendo recebidos a tiros pelas tropas do governo. Os que conseguiram sobreviver partiram para uma luta de resistência na Sierra Maestra, uma cadeia montanhosa situada no interior da ilha (na foto acima, os guerrilheiros Raúl Castro à esquerda, seu irmão Fidel em primeiro plano e Camilo Cienfuegos, em setembro de 1957 na Sierra Maestra). 
A popularidade de Fulgêncio Batista, que havia se instalado no poder em 1952 por meio de um golpe de Estado, era nula e o apoio mais importante vinha do governo norte-americano, que tratava Cuba como se fosse sua possessão. A ilha do Caribe era destino turístico dos americanos e os seus famosos cassinos e jogos eram controlados pela Máfia. Nem mesmo as Forças Armadas Cubanas estavam em condições de garantir a permanência de Batista no poder. 
O nome do movimento revolucionário,"26 de Julio", foi escolhido para lembrar um audacioso ataque ao quartel de Moncada promovido pelos jovens opositores do ditador Fulgêncio Batista em 1953 e que terminou com a morte de 3 rebeldes e a prisão de 80, muitos dos quais foram torturados e depois executados pela repressão policial. Fidel Castro foi preso uma semana após o ataque e graças a ação de um tenente do exército cubano, que resolveu leva-lo vivo a uma prisão civil e não militar, Fidel escapou de uma execução sumária. Faustino Pérez e Raúl Castro (irmão de Fidel) foram alguns dos rebeldes que conseguiram sobreviver. 
Apesar do fracasso da ação militar, Fidel Castro transformou o episódio em uma importante vitória política e no julgamento fez a sua própria defesa em um discurso que durou duas horas e depois transformado em manifesto: "A História me Absolverá". Ele e os demais rebeldes foram condenados. Depois de saírem da prisão, Fidel e os seus seguidores se refugiaram no México de onde prepararam a já mencionada invasão à ilha de Cuba em 1956. Na capital mexicana, o movimento "26 de Julio" contou com a adesão do médico argentino Ernesto "Che" Guevara. 




Mas, onde entra o pentacampeão da Fórmula 1, o argentino Juan Manoel Fangio? No ano de 1957 o ditador Fulgêncio Batista havia promovido o primeiro Grande Premio de Cuba e convidado para a prova algumas vedetes da Formula 1 da época, como o próprio Fangio (na imagem acima, com a sua esposa em 1954), o inglês Stirling Moss, que ficou conhecido como o "campeão sem título" (quatro vezes vice-campeão do mundo, sendo que em três oportunidades perdeu o título para o argentino Fangio) e o norte-americano Phill Hill (que se tornaria campeão mundial em 1961). 



Os pilotos receberam um "cachê" que chegava a 7 mil dólares (valor elevado para a época) e todas as despesas de viagem e hospedagem garantidas pelo governo cubano. Lembremos que a competição era de carros protótipos e não contava pontos para o Campeonato Mundial de Pilotos. Nesse primeiro GP de Cuba a vitória coube a Fangio (na foto acima, imagens do grid de largada no famoso Malecón). 



Fangio venceu no mesmo ano em que conquistou o seu quinto título pela Fórmula 1 (na imagem acima, o piloto argentino pilota o seu carro da marca Maserati no GP de Cuba).


Em 1958, Batista repetiu a prova e convidou novamente os astros do automobilismo (na foto acima, da esquerda para a direita, Stirling Moss, Fangio e Fulgêncio Batista no intervalo dos treinos). Mas a situação política da ilha piorou e os guerrilheiros castristas do movimento "26 de Julio" ganhavam apoio da população. Mais uma vez o cambaleante governo cubano pretendia, com a realização da corrida, dar mostras ao mundo de que a situação era tranquila. Para provar o contrário, os integrantes do movimento "26 de Julio" planejaram uma ação audaciosa: sequestrar o campeão Fangio e impedir a sua participação no Grande Prêmio. A ação chamaria a atenção internacional para a real situação da ilha do Caribe. 


No mesmo dia em que cravou a "pole-position" nos treinos classificatórios, Fangio foi abordado no saguão do hotel Lincoln (imagem acima) pelo rebelde Manuel Uziel com as seguintes palavras: "Sou do movimento 26 de Julho. Nós vamos sequestrá-lo". Em seguida, Uziel encostou uma pistola em Fangio e alertou o seu empresário para não tentar nenhuma reação ou o campeão seria morto ali mesmo. Imediatamente, Fangio foi retirado do hotel e colocado em um automóvel que já aguardava em frente ao edifício. Nove guerrilheiros portando pistolas e metralhadoras participaram da ação. 
No momento em que andavam pelas ruas de Havana, para despistar qualquer suspeita por parte da polícia, começou o diálogo entre os sequestradores e o sequestrado, onde os primeiros buscavam explicar os motivos do rapto e esclarecer que não era intenção do grupo cometer qualquer violência contra Fangio e sim, chamar a atenção para os problemas de Cuba e de sua cruel ditadura. O cativeiro no qual o piloto foi colocado tinha o mesmo conforto do hotel. O serviço de quarto era completo contando com direito a banho e alimentação quantas vezes o piloto argentino desejasse, embora os garçons e camareiras portassem armas. 


Um responsável pelo movimento "26 de Julio", Faustino Perez, aquele que havia participado do ataque ao quartel Moncada com Fidel Castro, explicou mais uma vez a Fangio os motivos do sequestro e que, tão logo a corrida terminasse, ele seria libertado (na imagem acima, jornal francês noticiando o rapto). Por incrível que possa parecer, Fangio mostrou-se compreensivo com a causa dos revolucionários e participou de forma ativa dos planos de sua libertação. Existia por parte dos guerrilheiros o temor de que a própria polícia do ditador Fulgêncio Batista tentasse assassinar Fangio na operação de resgate e depois colocar a culpa no movimento. Por isso, a melhor solução foi entregá-lo diretamente às autoridades diplomáticas argentinas. 
A corrida acabou sendo realizada, com a Maserati de Fangio conduzida pelo francês Maurice Trintignant. Contudo, doze minutos depois da largada o piloto cubano Armando Garcia Cifuentes sofreu um acidente na curva da embaixada americana (vejam só, era um curva perigosa...) e a sua Ferrari atingiu o público, matando sete espectadores (algumas fontes mencionam 6). O Grande Prêmio foi dado como encerrado logo depois e Stirling Moss, o grande rival de Fangio, foi proclamado vencedor. 
De acordo com os planos, Fangio foi libertado próximo da residência do embaixador argentino.  O piloto, serenamente, declarou após o fim do sequestro: "Eles me deixaram com uma carta ao governo da Argentina, pedindo desculpas por me usarem para fins políticos. Foi mais uma aventura. Sei que o que os rebeldes fizeram foi por uma boa causa, então eu, como argentino, aceito".


Além dessa declaração, Fangio ainda deixou um bilhete (imagem acima) aos raptores chamando-os de "amáveis sequestradores": "Esclareço que, durante meu sequestro amável, o trato foi completamente familiar, com atenções cordiais e somente me pediram desculpas por esta situação, alheia à minha pessoa". O documento encontra-se hoje no "Museo de la Revolución" em Havana.
O movimento "26 de Julio" saiu-se vitorioso na luta contra   a ditadura de Batista e levando os guerrilheiros de Fidel Castro ao poder no início de 1959, menos de um ano depois do sequestro. Em 1960, o Grande Prêmio de Cuba foi disputado pela última vez, tendo a vitória de Stirling Moss. O pentacampeão já estava aposentado do automobilismo.


Fangio recebeu inúmeros convites para visitar Cuba como "cidadão de honra" e o fez em 1981. Na ocasião reencontrou os seus antigos sequestradores, entre eles Faustino Perez, que na ocasião lhe explicara de forma incansável os motivos do sequestro. Aliás, o rapto ficou conhecido na história da Revolução Cubana como "retenção patriótica". Nessa visita ocorreu o esperado encontro entre Fidel Castro, Fangio e Faustino Perez (na foto acima, "a foto da foto" com Fidel, Faustino e Fangio, da esquerda para a direita). Fangio aproveitou a ida a Cuba para fazer negócios com a venda de caminhões da Mercedes Benz, pois era proprietário de uma concessionária da marca em Buenos Aires.
Em 1992, o piloto argentino enviou condolências pela morte de Faustino e convidou Arnol Rodriguez, o mentor intelectual do plano do sequestro, para visitar Buenos Aires e conhecer o museu Fangio. Rodriguez presenteou o piloto com uma réplica do troféu do GP de Cuba, que hoje se encontra no museu e se tornou grande amigo de Fangio até a morte deste. No funeral do pentacampeão, ocorrido em 17 de julho de 1995, uma enorme coroa de flores enviada por Fidel Castro pode ser notada nas homenagens a aquele que foi um dos maiores nomes do automobilismo mundial de todos os tempos.
Para os mais curiosos, o Youtube dispõe de farto material sobre o GP de Cuba de 1958, inclusive cenas do trágico acidente que matou seis espectadores. Uma outra curiosidade é o longa-metragem que foi rodado sobre o episódio: "Operación Fangio". O filme é de 1999, dirigido por Alberto Lecchi e é uma co-produção argentina, cubana e espanhola. A película está também disponível na integra no Youtube.
Esta postagem contou com várias informações de um post publicado no blog Tazio, especializado em automobilismo e que me foi enviado por meu amigo e comentarista de Fórmula 1, Wilton Sturn.
Fonte consultada:
http://tazio.uol.com.br/blog/blog-do-tazio/sequestro-de-fangio-em-cuba-completa-55-anos/
Crédito das Imagens:
Fotos de Fangio com Fulgêncio Batista, do hotel Lincoln, do bilhete e do encontro com Fidel do blog Tazio já citado.
Cartaz da corrida e capa do jornal francês: http://joesaward.wordpress.com
Foto dos guerrilheiros em Sierra Maestra: Fidel Castro. Coleção Grandes Líderes do Século XX, Nova Cultural, 1990, pag. 26.
Juan Manoel Fangio e sua esposa: gettyimages 1950s. Könemann, Germany, 2004, pag. 309. 
Fotos de Fangio com sua Maserati e do GP de Cuba: www.amigosdefangio.org




sexta-feira, 22 de março de 2013

As Raízes de Sérgio Buarque de Holanda parte I




Esta postagem estava prevista para fazer parte da seção "Anúncio Antigo". Mas a importância do personagem para a nossa vida cultural e intelectual é tal, que decidi por transformá-la em um tema específico a respeito do eminente historiador. 
Ninguém poderá reclamar que o anúncio publicitário, que se encontra na imagem acima, não tenha conteúdo. Têm até demais. Pai e filho. O primeiro é o historiador Sérgio Buarque de Holanda e o filho, o conhecido compositor e intérprete Chico Buarque. Uma bela linhagem familiar, cuja origem está situada, claro, na Holanda. Vários ramos da família apontam para isso, como a do navegador Arnau de Holanda, que chegou ao Brasil em 1535, na mesma caravela que trazia Duarte Coelho, primeiro donatário da capitania de Pernambuco. Arnau era originário dos Países Baixos (região que incluía a antiga Holanda) e teve um papel importante na implantação da capitania de Porto Calvo, no atual Estado de Alagoas. Uma outra ramificação também aponta um holandês, Gaspar Nieuhoff Van Der Ley, como ancestral familiar, tendo chegado ao Brasil com a invasão holandesa a Pernambuco em 1630. A linhagem familiar tem também o seu passado vinculado à economia açucareira do Brasil colônia e alguns de seus ancestrais foram proprietários de engenhos,  principalmente em Pernambuco. 
O ramo mais diretamente ligado ao historiador Sérgio Buarque surgiu com a união do senhor de engenho José Ignácio Buarque de Macedo com a escrava de origem indígena Maria José, ocorrido no ano de 1817. Apesar de analfabeta, Maria José fez questão que todos os filhos tivessem escolaridade e teria sido a responsável pela marca intelectual que a família carrega até os dias de hoje. Seu tetraneto, o senador Cristovão Buarque de Holanda, além de economista, é um conhecido defensor da educação no Congresso Nacional e ex-ministro dessa pasta. Outro descendente do casal, o filólogo (estudioso da língua em toda a sua amplitude) Aurélio Buarque de Holanda, é o autor do dicionário que ficou identificado com o seu nome: Aurélio.


Mas aqui o destaque, por se tratar de um blog de História, vai para o Sérgio Buarque (foto acima, o historiador ainda jovem). Um dos intelectuais mais importantes da chamada "geração de 1930" que contou com nomes de peso como Gilberto Freyre , Caio Prado Jr. e Fernando de Azevedo, entre outros. Sua obra mais conhecida foi "Raízes do Brasil", publicada em 1936 e que se constitui em uma leitura fundamental para várias disciplinas, entre elas a história, a sociologia e a economia. A presente postagem pretende destacar a importância desse livro.


"Raízes do Brasil" (na foto acima, a capa da sexta edição da obra, publicada em 1971) é um ensaio que procura, como o próprio nome sugere, explicar nossas origens a partir da herança cultural ibérica, sobretudo a portuguesa. Sergio Buarque parte de uma analise teórica rigorosa, utilizando os conceitos oriundos da sociologia da cultura dos alemães, sobretudo de Max Weber e ainda na etnologia (ramo da antropologia que estuda a cultura dos povos naturais). Muitos estudiosos, como a professora Laura de Mello e Souza,  ainda apontam em Sérgio Buarque uma influência da história social dos franceses e ainda uma coincidência temática com a corrente historiográfica dos "Annales", conhecida por introduzir novos temas no estudo da história, como os aspectos que envolvem a vida material, o cotidiano e as mentalidades. Entre os nossos cientistas sociais, pode ser considerado um dos precursores dessa abordagem.
Sérgio Buarque encontrou dentro do passado ibérico muitos traços culturais que transpuseram o oceano Atlântico em direção ao chamado Novo Mundo (América), a partir do início da colonização no século XVI. Um desses traços marcantes foi o da valorização da personalidade individual em relação às instituições. Trata-se de uma característica que destaca o indivíduo que depende apenas de si mesmo e que não é apegado às normas e regras. O autor assinala que mesmo tendo vivido a península Ibérica o período feudal tratou-se de um feudalismo que não fincou  raízes profundas na organização social, como ocorreu no resto da Europa. A nobreza em Portugal jamais se constituiu em uma casta aristocrática fechada e o corpo social apresentava uma frouxidão que acabou favorecendo a livre iniciativa individual, muito antes do pensamento liberal contemporâneo colocar isso como uma condição imprescindível para o indivíduo. Por outro lado, tal característica do personalismo ibérico não contribuiu para a existência de uma coesão social e para a cooperação, daí os elementos anárquicos que promoveram, entre nós, a separação entre os homens e não a união. 
O sentimento da dignidade pessoal ou mérito, traço típico de uma verdadeira "ética de fidalgos", acabou por se tornar o maior obstáculo à organização espontânea do corpo social, algo que caracterizou, por exemplo, os protestantes calvinistas que estabeleceram, na Nova Inglaterra, as bases da sociedade norte-americana. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, as sociedades pautadas pelas doutrinas que defendiam o livre-arbítrio (a plena autonomia do indivíduo), a responsabilidade pessoal e individual, por não favorecerem a associação entre os homens, necessitavam de um poder externo para impor uma "racionalização da vida" ou um princípio que fosse unificador, ou seja, o governo.


Outro traço característico dos povos ibéricos foi a ausência de uma ética do trabalho e a repulsa aos princípios morais associados ao mesmo. Uma ociosidade digna ou uma vida senhorial livre do esforço físico sempre pareceu mais simpático aos portugueses e espanhóis do que a exaltação ao trabalho manual e mecânico, o qual, sempre que possível, era reservado aos servos e escravos. "O ócio importa mais do que o negócio". Sérgio Buarque, na linha de raciocínio do sociólogo alemão Max Weber (imagem acima), destaca entre os protestantes calvinistas o apreço ao trabalho e à atividade utilitária com aplicação prática, afirmando que onde prevalece a moral do trabalho não faltariam a ordem e a tranquilidade entre os cidadãos.
Sérgio Buarque de Holanda observou também os traços peculiares da colonização portuguesa na América mais voltada para a exploração comercial, sendo que em termos de empreendimento foi tímida e mal aparelhada. Tinha um caráter de transitoriedade, sendo o estabelecimento colonial visto apenas como um local de passagem e não de permanência. Nesse aspecto, lembravam as antigas feitorias do Oriente, estabelecidas após a viagem de Vasco da Gama em 1498 e voltadas para o comércio das especiarias. 
Os portugueses não se destacaram por uma administração metódica e nem por uma vontade construtiva em relação à colônia, sendo esta tratada até com desleixo e abandono. Se pudéssemos caracterizar o colonizador português entre o tipo aventureiro (dos caçadores e coletores) e o tipo trabalhador (dos agricultores), presentes nas várias formas de sociedade desde os tempos pré-históricos, teríamos que associar o lusitano ao primeiro caso. 
Por outro lado, a sua audácia e imprevidência, embora tendendo também para a vagabundagem, foram características cruciais para a obra colonizadora dos portugueses, pois ajudaram no enfrentamento das adversidades da natureza. Por meio desses atributos, o português foi maleável no processo de adaptação ao Novo Mundo. Na falta da farinha de trigo, recorreu à mandioca, habituou-se a dormir em redes como faziam os índios, tomou aos mesmos os seus instrumentos de caça e pesca, como também as embarcações. Daí tivemos a tal "plasticidade" do colonizador luso.
A ausência do "orgulho de raça" ou "exclusivismo racista", presente nos povos anglo-saxões, é um outro traço característico do português e que levou às misturas raciais, que já eram presentes em Portugal antes mesmo da chegada deles ao Brasil. A cor da pele nunca foi um fator determinante das medidas legais que reservavam aos brancos o exercício de determinado emprego ou profissão. O fator mais forte era o da tradição atribuída aos chamados "trabalhos vis" ou infames, que tinham essa qualificação por dependerem basicamente do esforço físico, como a tarefa de arar a terra, cuja má reputação poderia ser transmitida aos descendentes. 


Já os castelhanos (espanhóis) tinham por finalidade transformar a América numa continuação do Império Espanhol, por isso, sua ocupação foi mais metódica, planejada e voltada para implantar os alicerces de uma civilização. A mão forte do Estado espanhol se fez sentir na vontade de impor uma disciplina aos conquistadores e aos habitantes americanos. 
O traçado das cidades fundadas pelos espanhóis na América era reflexo disso, sendo que as ruas não eram meras adaptações ao meio natural, mas antes o resultado de uma imposição normativa no sentido de estabelecer a linha reta. O plano urbano era traçado a partir da praça maior ou "zócalo" situado em um centro retangular, onde ficavam a catedral, os orgãos da administração e de onde saiam as demais ruas retas partindo de cada um dos lados desse retângulo, num traçado regulado. As grandes capitais da América Espanhola, como Quito, Lima e a Cidade do México (na foto acima, sua praça central ou "zócalo") obedecem a esse traçado padrão. Era essa a característica do colonizador espanhol "ladrilhador", como denominou Sérgio Buarque.
Em contraste com o ladrilhador, estava o português "semeador" onde as cidades eram criadas mais pelas conveniências imediatas e sem um plano definidor estabelecido pela Coroa. Por ter o caráter de uma feitoria, a sua colonização tendeu a permanecer no litoral, uma influência que, como Sérgio Buarque destaca, permaneceu até os "nossos dias", entendendo este último como sendo a época em que "Raízes do Brasil" foi escrito, ou seja, 1936. 
"Nossos dias"... Eis o sentido da obra "Raízes do Brasil", destacar os traços herdados de nosso passado ibérico e colonial que persistiram e que se colocaram como entraves à inserção do Brasil no mundo contemporâneo. O advento da vida urbana autônoma foi o momento em que se abriu a possibilidade para a transformação da nossa sociedade colonial patriarcal, algo que só ocorreu, na visão do autor, a partir do final do século XIX. A abolição da escravidão foi o sinal claro da ruína dessa antiga sociedade. Mas como se constituiu esse mundo urbano e moderno? Até o século XIX o urbano era completamente dependente do meio rural e de seus senhores. Mesmo depois, após a independência e no processo de constituição do Estado nacional brasileiro, muitos traços de nosso passado colonial e particularista, pois avesso e resistente às novas necessidades da sociedade, permaneceram. Trataremos disso na segunda parte deste post.
O anúncio publicitário que faz parte desta postagem foi publicado na Revista Veja, de 18.12.1968. 
Para saber mais:
Raízes do Brasil. Sergio Buarque de Holanda. Editora José Olympio, 1971 (existem edições mais novas dessa obra). 
Crédito das Imagens:
Sergio Buarque jovem. Coleção Nosso Século, Editora Abril, 1980, página 160.
Max Weber. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade, de Cristina Costa. Ed. Moderna, 2010, página 49.
Demais imagens: acervo do autor. 





segunda-feira, 11 de março de 2013

Coleção Brasiliana da USP





Mais uma importante fonte de pesquisas para os historiadores e profissionais das ciências humanas em geral.  Trata-se do acervo digitalizado da coleção Brasiliana da USP (Universidade de São Paulo). O mesmo é formado por um arquivo documental, bibliográfico e cartográfico que está disponível para todos, via internet e que contempla um material importantíssimo para o estudo da história do Brasil.
O projeto da BRASILIANA USP foi lançado no ano de 2009 com a finalidade de oferecer acesso público e gratuito a todo esse material, que inclui também manuscritos e gravuras. A iniciativa contou com o apoio do Ministério da Cultura, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e da Petróleo Brasileiro S.A. (PETROBRÁS). 
O trabalho de digitalização ficou a cargo da Brasiliana USP Laboratório, que se tornou referência no país no que diz respeito à tecnologia na área de digitalização e de transferência de inovação para várias instituições públicas brasileiras.
Uma das obras disponíveis para consulta é a "Viaje del capitán Pedro Teixeira, aguas arriba del rio de las Amazonas: 1638-1639", publicada em Madri em 1889, cujo mapa está reproduzido na imagem acima. Trata-se do relato de explorador português Pedro Teixeira, que partiu de Cametá, no Pará e alcançou a cidade de Quito, no Equador, em 1639. 



Além de obras raras de viajantes e exploradores, a coleção conta com um precioso acervo de mapas e gravuras, como a reproduzida acima, que faz parte da obra "Santarem, dans la province du Para", de Auguste François Biard e publicada em Paris, no ano de 1862. Uma curiosidade, trata-se de uma imagem da cidade paraense poucos anos antes de receber refugiados da Guerra Civil Norte-Americana. Muitos confederados, inclusive comandantes militares, escolheram a cidade para estabelecer as famílias, que abandonaram o sul dos Estados Unidos após o conflito, que, como sabemos, terminou com a vitória do norte liderado pelo presidente Abraham Lincoln (um bom assunto para uma futura postagem). 
O acesso ao acervo da Coleção Brasiliana da USP é:
www.brasiliana.usp.br
Claro, ele estará disponível em nossos links interessantes na  coluna da direita do blog.